Segunda-feira, 15 de Novembro de 2010
Teatro em Portugal / Teatro Português (4)
(Continuação)
António Gomes Marques


VI

Devo falar agora um pouco de formação. Sabe-se que há várias escolas de formação para o teatro, Escolas Superiores oficiais, integradas nos Politécnicos de Lisboa e do Porto, e outras, sendo a mais antiga a Escola Superior de Teatro e Cinema, como herdeira do antigo Conservatório Nacional, com novas instalações há uns anos na Amadora. Para além dessas escolas oficiais, onde se ministram cursos para actores, cursos de realização plástica do espectáculo, cursos de produção e de dramaturgia, há várias outras escolas para a actividade teatral no país, públicas e privadas. Disseram-me que, só no Porto, há pelo menos quatro escolas, de umas e outras.

Pelo que sei da actividade teatral em Portugal, considero que a escolha dos jovens que ao teatro queiram dedicar-se não deixa de ser de um grande risco. Também outro risco constitui a forma financeira que o Estado encontrou para estas escolas, que é proporcional ao número de alunos, levando a que se formem turmas com muito mais alunos do que os que seriam recomendáveis para um ensino de qualidade. Digam depois que a culpa é dos professores, esquecendo esta forma perversa que o Estado encontra para resolver o problema do financiamento.


Terminado o curso, que espera o jovem formado? O mais natural é o desemprego ou a escolha de um emprego remunerado com o ordenado mínimo nacional em qualquer outra actividade. Uma grande percentagem dos que no teatro consigam colocação também não poderá esperar auferir mais do que esse ordenado mínimo.

E que tipo de ensino se ministra nessas escolas?

Admito que haverá escolas onde predominam programas teóricos, outras onde o ensino seja sobretudo prático e outras, como me parece desejável, onde haverá um equilíbrio entre teoria e prática.

Não conhecendo os programas que compõem cada um dos cursos, tendo em conta o papel do teatro na sociedade, não esquecendo que estamos em Portugal e que é do nosso país que tenho vindo a tratar, penso ser de todo indispensável que aos alunos destas escolas seja facultado um ensino que não esqueça os aspectos filosóficos, incluindo aqui os estéticos, os aspectos psicológicos, sociológicos, pedagógicos e também económicos. Deverão ser-lhes ministrados conhecimentos que alarguem as suas competências de modo a poderem ocupar outro tipo de vagas no mercado de trabalho: investigador, professor, documentalista, bibliotecário e até conselheiro literário, embora as editoras portuguesas não sejam muito abertas a criar vagas para tal profissão. Também, julgo eu, se justifica perguntar se, nas escolas de gestão, há a preocupação de tratar da formação em gestão das artes do espectáculo.

Obviamente, o que seria desejável é que estas escolas se preocupassem, em exclusivo, em formar pessoas para a actividade teatral, como actores, encenadores, cenógrafos, dramaturgos, mas tem de se ter presente a realidade do nosso país e criar condições para que os jovens consigam construir uma vida com o curso que ali tiveram oportunidade de concluir.

Tendo em conta as escolas existentes, também aqui o Estado deveria ter outro tipo de intervenção, perfeitamente justificado até pelo dinheiro que aplica nas várias escolas oficiais para esta actividade. O que deveria ser um investimento, transforma-se num gasto para os depauperados cofres desse mesmo Estado, gasto este pago com os impostos sacados aos contribuintes portugueses, sobretudo àqueles que trabalham por conta de outrem, sem qualquer hipótese de fuga ao fisco como muita gente rica, a começar pelos grandes investidores na bolsa, que até chegam a escapar ao pagamento de impostos de forma legal (ver, a este propósito, o meu artigo, em http://estrolabio.blogspot.com, «Eles, os poucos de sempre, comem tudo e nós, os restantes,…pagamos!», ali publicado em Agosto deste ano).

Por que não, nos apoios complementares às estruturas teatrais, criar a hipótese de beneficiar, por um período determinado, uma estrutura por cada jovem saído daquelas escolas com o seu curso concluído e que ali fizesse o seu estágio ou obtivesse o seu primeiro emprego?

Por que não criar, nos dois Teatros Nacionais, uma possibilidade de apoio a estes jovens para ali darem início a uma profissão para que se mostraram dotados? Poderiam os Teatros Nacionais, com apoios específicos para tal fim, criar pequenas estruturas onde estes jovens pudessem mostrar as suas capacidades, estruturas essas que poderiam ser constituídas apenas por esses jovens e, sempre que necessário, com o contributo de outros encenadores, actores e técnicos dos contratados pelos Teatros Nacionais. Também poderiam essas estruturas ser, logo à partida, reforçadas com este contributo para uma troca de experiências em que uns, os jovens, e outros, os mais experientes na profissão, teriam, com certeza, muito a aprender.

Há ainda uma outra interrogação que não posso deixar sem referência.

Qual a razão por que se autorizaram tantas escolas, públicas e privadas? No que respeita às escolas privadas, pode-se considerá-las como um negócio em que alguém apostou com capitais próprios e que se sujeita a perdê-los, mas quando se fala de escolas públicas já a análise pode ir mais longe, responsabilizando os vários governos que as legalizaram, dando mais um exemplo de má aplicação dos dinheiros públicos que são de todos nós. Não passam de escolas que vão formando centenas de jovens para o desemprego.

Não é chegado o momento de responsabilizar os políticos que tomam decisões asnáticas, que não tenham em conta a verdadeira realidade do país?

VII

Do que se diz no capítulo anterior logo se pode inferir que tipo de segurança no trabalho existe para quem do teatro quer fazer profissão e que, cheio de esperança, ingressou numa das escolas existentes no país.

Que dizer então dos profissionais de teatro em Portugal? Profissionais que nem direito têm a uma carteira profissional. Por muito triste que seja dizê-lo, a situação dos profissionais de teatro no tempo do fascismo estava mais acautelada, embora isto não signifique que estes profissionais tivessem alguma coisa a ganhar com o regresso àquele tempo. Permite, no entanto, apontar a incúria dos vários governos do pós-25 de Abril, alguns dos quais formados por partidos que se reclamam do socialismo.

Ouve-se dizer que os actores de teatro têm agora a oportunidade de ganhar muito dinheiro na televisão. Para além de não ganharem os dinheiros que se pensa, é bom lembrar que se trata de um trabalho precário, para além de muitas telenovelas terem elencos constituídos por gente jovem que, nessas telenovelas, vai ganhando prática de representação e que, salvo raríssimas excepções, não tem condições técnicas para a sua inclusão em qualquer elenco teatral. Lembro também que muitas das telenovelas que passam na televisão nem sequer são produzidas em Portugal.

As pessoas que do teatro fazem profissão, actores e outros, são contratados a recibos verdes, muitos deles não auferindo mais do que o ordenado mínimo nacional, durante o tempo em que têm trabalho, pois nenhuma estrutura está em condições de assegurar a todos trabalho durante todo o ano. Deste ordenado, as companhias retêm o IRS, vivendo estes profissionais do que resta. Deveriam pagar também para a Segurança Social, mas quantos o fazem? Claro que, enquanto jovens, muitos não pensam nesta questão, mas é altura de lembrar, sem querer ser dramático, que nós, humanos, somos seres para a morte, mesmo que acreditemos, o que não é o meu caso, que há uma outra vida, plena de felicidade, para além da morte.

(Continuação)


publicado por Carlos Loures às 21:00
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1 comentário:
De Luis Moreira a 15 de Novembro de 2010 às 21:10
É o país dividido ao meio. metade com emprego para toda a vida, a outra ametade com desemprego para toda a vida.Uns com venciemnto e mordomias várias outros sem o mínimo. Depende do número de profissionais, se chegarem para encher a avenida a coisa vai...


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