Sábado, 19 de Junho de 2010
Texto inédito de Cecília Meireles? A poetisa brasileira e Maria-Cecília Correia no Terreiro da Lusofonia
Cecília Meireles e Maria-Cecília Correia, chegam a este terreiro pela mão da nossa colaboradora Clara Castilho, filha de Maria-Cecília Correia. O texto que publicamos foi dedicado pela grande escritora brasileira à notável escritora portuguesa. Inserido numa carta, ignora-se se é ou não um inédito. É muito interessante, Eis duas breves notícias biográficas de ambas:

Maria Cecília Correia Borges Cabral Castilho (1919-1993) nasceu em Viseu e faleceu em Lisboa. Usando o nome literário de Maria-Cecília Correia, dedicou-se sobretudo à Literatura Infantil. Os seus  livros, inspirados sobretudo em acontecimentos do quotidiano, têm em geral como tema central o mágico mundo da criança.

Principais obras: Histórias da Minha Rua,  1957; Histórias de Pretos e Brancos e Histórias da Noite, 1960; Histórias do Ribeiro, 1974;  O Coelho Nicolau,  1974; Amor Perfeito,  1975; Histórias da Minha Casa, 1976; O Besouro Amarelo,  1977; Bom Dia,  1983; Manhã no Jardim, 1978; Pretérito Presente, 1976.

Cecília Meireles nasceu em 1901, no Rio de Janeiro e faleceu em 1964, também no Rio de Janeiro. Considerada uma das grandes vozes poéticas da língua portuguesa no século XX. No período de 1919 a 1927, colaborou nas revistas Árvore Nova, Terra de Sol e Festa. Fundou a primeira biblioteca infantil do Brasil. Lecionou na Univerdade do Distrito Federal em 1936 e na Universidade do Texas em 1940. Trabalhou no Departamento de Imprensa e Propaganda no governo de Getúlio Vargas, dirigindo a revista Travel in Brazil (1936).

Principais obras: Espectros, 1919 l Nunca mais... e Poema dos Poemas, 1923 ; Baladas para El-Rei, 1925; Criança, meu amor, 1927; Viagem, 1939; Vaga música, 1942; Mar Absoluto e Outros Poemas, 1945;Retrato natural, 1949 Amor em Leonoreta, 1951; Dez noturnos de Holanda & O aeronauta, 1952 ; Romanceiro da Inconfidência, 1953; Pequeno Oratório de Santa Clara, 1955; Pistóia, Cemitério Militar Brasileiro, 1955; Canções, 1956; Romance de Santa Cecília, 1957; Obra poética, 1958; Metal Rosicler, 1960; Poemas escritos na Índia, 1961; Solombra, 1963; Ou isto ou aquilo, 1964; Crônica trovada da cidade de Sam Sebastian, 1965; Poemas italianos, 1968; Ou isto ou aquilo & Inéditos, 1969; Cânticos, 1981; Oratório de Santa Maria Egipcíaca, 1986 .


À direita: "Cecília Meireles em Lisboa". (Desenho de seu primeiro marido, Fernando Correia Dias).







O gato desce
a escada

Para Maria-Cecília Correia




Não tem nome nenhum. Não sabe que é gato, quadrúpede, mamífero, de pêlo preto. Não sabe que está num jardim, nem de que casa, em que rua, no mundo, num planeta, entre planetas, lua, sol, estrelas, nebulosas, cometas – no meio do universo.

O gato desce a escada. Solenemente. Como se soubesse tudo isso e muito mais.

O gato desce a escada. Silenciosamente. Como se não existisse.

Pedras, árvores, brisa da tarde, pingo d’água da fonte no muro, passarinhos na ponta dos telhados, nada disso o distrai. Botânica, Zoologia,
Mineralogia, nada disso tem nome, para êle, nem conteúdo, nem separação.

O gato desce a escada.

Ninguém o chamou. Não tem família. Não tem casa. Não parece ter fome nem sêde: é luzidio, nédio, grande e sereno.

Mas desce a escada.

Lá fora, pode ser ferido pela pedrada dos meninos máus. Pode ser atropelado por uma roda qualquer, dos milhares de rodas que sobem e descem pelos caminhos. Pode ser agarrado, esfolado, e virar tamborim, nas festas de Carnaval que estão preparando nos morros. E, se algum feiticeiro o avistar, pode ser cozido numa panela nova, que é a fórmula de tornar os homens invisíveis.

Humanidade, Vida, Morte, Dôr, Alma, Deus, - êle caminha solitário entre as palavras e as idéias. Ele desce a escada.

Quando escurecer, seus olhos serão fosforecentes. Mas êle nunca viu seus olhos. Atrás dêle vão a sua sombra e o meu pensamento. Cada qual mais precário.

O gato desce a escada.
____________

E encerramos com «Modinha», poema de Cecília Meireles, musicado e interpretado por Carlos Walker:



publicado por Carlos Loures às 08:00
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1 comentário:
De carlos loures a 19 de Junho de 2010 às 16:10
Seria muito importante tirar a limpo se este texto da grande Cecília Meireles é, ou não, inédito. De qualquer dos modos, é uma pequena obra-prima.


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