Sábado, 9 de Outubro de 2010
O Mistério da camioneta fantasma, de Hélder Costa -22 (última parte)
ANEXO 1


O MISTERIO DA CAMIONETA FANTASMA

A BARRACA volta a debruçar-se sobre um tema da História de Portugal. Desta vez, da nossa História recente: os crimes da “Noite Sangrenta”.




O ENQUADRAMENTO HISTÓRICO

1. No dia 19 de Outubro de 1921,desabou sobre Portugal uma horrível tragédia desmistificadora dos nossos tão celebrados brandos costumes.

Sendo presidente António José de Almeida, o governo presidido por António Granjo, heróico Republicano reconhecido “ Homem Bom “ respeitado por correligionários e adversários políticos.

A insatisfação provocada por algumas medidas necessárias e não demagógicas, era sistematicamente acirrada pela oposição monárquica e integrista através de vários órgãos de imprensa de que é essencial destacar “A Voz”, e a “Imprensa da Manhã”, propriedade de Alfredo da Silva, antigo deputado da ditadura de João Franco, industrial do Barreiro, e que se referia ao jornal como sendo “a sua amante mais cara”.

2. Foi por isso, com naturalidade, que os rumores de revoltas militares se concretizaram na manhã do 19 de Outubro, num putsh dirigido por Manuel Maria Coelho, antigo herói do 31 de Janeiro de 1891, primeira revolta Republicana, na cidade do Porto.

E foi ainda mais natural que o Presidente tenha acedido às exigências dos revolucionários, demitindo o governo e entregando-o aos revoltosos. António Granjo encarou também com naturalidade a sua demissão, retirando-se tranquilamente para casa.

Ao fim da manhã o golpe estava consumado e nem se tinha disparado um tiro.

3. Parecia chegado ao fim um período particularmente agitado da jovem Republica portuguesa.

Na verdade, o 5 de Outubro de 1910 não tinha significado a pacificação da sociedade portuguesa. Seguiram-se lutas e greves operárias e camponesas, golpes e invasões monárquicas, cisões no bloco republicano, sabiamente aproveitadas pelas forças mais reaccionárias, a ditadura de Pimenta de Castro recheada de revanchismo monárquico absolutista, a grande guerra de 14/18, a ditadura de Sidónio Pais e seu assassinato em Dezembro de l918, e mais pequenos golpes e intrigas.

Tudo isto convenientemente acompanhado por crise económica, bancarrota, corrupção, nepotismo e alienação progressiva da independência económica e financeira.

Parecia chegado o momento da pacificação, dado o prestígio ético e militar dos chefes da revolta.

Mas os Deuses tinham outros projectos


O DEZANOVE DE OUTUBRO

1. E, de repente, outra estória deu a volta à História.

Um grupo de marinheiros começou a percorrer a pacata e tranquila Lisboa com uma camioneta. A tradição anarquista e republicana da marinha permite-nos visualizar um grupo eufórico, gritando morras aos exploradores, talvez agitando bandeiras, e possivelmente com um pouco de álcool a mais. Nada de estranho, porque a revolução é uma festa e está longe dos cerimoniais académicos e professorais. É até de supor que tenham sido apoiados e vitoriados no seu épico percurso de triunfadores.

2.Para onde foram esses marinheiros, ao cair da noite?

Continuar a revolução, que tinha possivelmente ficado em águas mornas para os seus gostos?

São interrogações legítimas que permitem compreender o apoio ou a passividade com que o povo de Lisboa assistiu ao percurso dessa camioneta.

A primeira paragem foi na casa de António Granjo, na rua João Crisóstomo. Os gritos de vingança e de linchamento faziam-se ouvir e o primeiro-ministro deposto procurou refúgio, pelas traseiras, em casa do seu adversário político e vizinho, Cunha Leal, que vivia na avenida Miguel Bombarda.

Uma porteira, que teria ido buscar cebola e hortaliça à sua rica hortinha, avisou os marinheiros da fuga de António Granjo pelos quintais.

O cerco continuou à porta de Cunha Leal, e depois de telefonemas e insistências várias, a teimosia deu resultado, pois foram os dois para o Arsenal

À entrada quiseram matar António Granjo, Cunha Leal opôs-se, foi ferido com um tiro no pescoço, António Granjo fugiu, foi encurralado numa escada, abatido.com dezenas de tiros e trespassado pela espada de um “ corajoso” corneteiro da Guarda republicana.

O sangue espirrou à altura de metro e meio, e assim se silenciou para sempre um dos mais corajosos combatentes de Trás-os-Montes contra a invasão de Paiva Couceiro.

3.Os “bravos marinheiros” tinham começado a fazer justiça.

Chefiados por Abel Olímpio, cabo, conhecido por “Dente de Ouro”, retomam o percurso da vingança.

O próximo alvo chamava-se José Carlos da Maia, oficial da Marinha que tinha tomado o cruzador D. Carlos no 5 de Outubro , antigo ministro de Sidónio Pais em l917 e 1918, e de José Relvas em 1919.

Com informações de antigas vizinhas, chegam à sua nova residência na rua dos Açores.

São 11 horas da noite, e o casal, depois de beijar o filho de poucos meses, é assustado com fortes pancadas na porta.

Apesar dos esforços de Berta Maia, é arrastado e será assassinado à entrada do Arsenal.

Mas a “noite sangrenta”, nome por que ficaram conhecidas essas terríveis horas, tinha mais mortes a executar.


Seguiram-se Freitas da Silva, capitão de fragata, ex - chefe de gabinete do ministro da Marinha do Governo cessante de António Granjo, e o coronel de Cavalaria Botelho de Vasconcelos.

Os crimes continuavam, mas para os assassinos ainda faltava a chave de ouro.

4.São duas horas da madrugada, e a camioneta fantasma arranca do nº 14 da rua José Estêvão, no bairro da Estefânia, depois de arrancar Machado Santos, o herói da Rotunda, do sossego do lar.

No largo do Intendente, param a camioneta e fuzilam-no, sem dó nem piedade.

No mistério dessa noite surge um nebuloso empresário teatral, Augusto Gomes, que cede o seu táxi para que se leve o corpo à morgue.

Estes são os dados essenciais do que se passou no tristemente célebre 19 de Outubro.

O MISTÉRIO E AS DUVIDAS

Tanta barbárie, levantou suspeitas.

Claro que a imprensa reaccionária e monárquica imputava os crimes à Republica, à desordem, e à falta de autoridade e anarquia do Governo.

Mas...a quem interessavam esses crimes?

Era possível que os marinheiros tivessem actuado em plena impunidade e a seu belo prazer?

Foram estas dúvidas que persistiram na mente dos familiares das vítimas e na convicção da opinião pública.

A 1 de Junho de 1923,o Tribunal Militar Extraordinário de Santa Clara condena o bando assassino a adas penas e iliba os oficiais revolucionários.

Mas as dúvidas continuam, e Rocha Martins publica as grandes questões:

- Quem preparou a aura do terror?

- Trabalharam por sua conta estes carrascos?

- Saiu das suas cabeças essa ideia terrível de assassinar gente honrada e deixar com vida tantos miseráveis?


BERTA MAIA

A viúva de Carlos da Maia desenvolve uma actividade incessante tentando desvendar o mistério dos mandantes desse massacre.

A insistência com o Dente de Ouro acabou por dar resultado. Ele acabou por confessar a ligação com o padre Lima, o dinheiro que iam receber ao jornal “A Voz”, e que o plano da conspiração monárquica consistia muito simplesmente em “infiltrar um movimento revolucionário, e depois empalmá-lo”.

Táctica, como se sabe, de ampla e profícua aplicação histórica.

Confissão adquirida, nomes denunciados, e a justiça parou.

Entretanto, tinha-se dado o 28 de Maio, o tal “movimento purificador”, e para uma paz tranquila não há como calar assuntos incómodos.


A peça “O mistério da camioneta fantasma”(x)

O trabalho dramaturgico consistiu em desenhar o enquadramento do 19 de Outubro, focando a oposição monárquica, o importantissimo papel da imprensa -principalmente os jornais “ A Época” e “A Imprensa da Manhã” do industrial Alfredo da Silva - na formação de um clima anti-regime através de boatos e intrigas, a conspiração dos exilados e o seu apoio por parte do Rei de Espanha, a acção determinante –no terreno e na confissão do Dente de Ouro -, dessa figura sinistra ,o empresário teatral Augusto Gomes, e a incapacidade ou total impossibilidade de os Republicanos terem conseguido a total clarificação deste “mistério”perante a opinião publica.

Será talvez essa a razão de se continuar a intitular de “mistério”um golpe reaccionário suficientemente clarificado nos seus propósitos e objectivos.

E se todos esses dados ainda são considerados insuficientes, pois que se faça luz definitiva sobre um dos mais bárbaros e repugnantes acontecimentos que manchou a vida politica nacional.

A História e o futuro vivem de saber ler o passado.

Não será despiciendo saber toda a verdade sobre os crimes que se abateram sobre os dirigentes do 5 de Outubro, onze anos depois de terem conquistado a liberdade para o povo português.

Hélder Costa


Hélder Costa nasceu em Grândola. Estudou Direito nas universidades de Coimbra e de Lisboa. Em Coimbra fez parte do CITAC. Em Paris, onde estudou Teatro, fundou o "Teatro Operário de Paris". Regressou a Portugal em 1974 Actor, dramaturgo e encenador, dirigiu cursos de Arte Dramática. É o director do Grupo de Teatro " A Barraca".


Principais obras: : Liberdade, Liberdade, Lisboa, 1974; O Congresso dos Pides e Um Inquérito, in "Ao Qu'isto chegou", 1977; A Camisa Vermelha, Coimbra, 1977; Três Histórias do Dia-a-Dia (O Jogo da Bola, A Sorte Grande, A Vaca Prometida), 1977; Histórias de fidalgotes e alcoviteiras, pastores e judeus, mareantes e outros tratantes, sem esquecer suas mulheres e amantes: sobre textos de Gil Vicente e Angelo Beolco, o Ruzante, Lisboa, 1977; Zé do Telhado, Coimbra, 1978; D. João VI, Coimbra, 1979; Teatro Operário: 18 de Janeiro de 1934, Coimbra, 1980; É Menino ou Menina (dramaturgia composta a partir de textos de Gil Vicente), Lisboa, 1981; Um Homem é um Homem - Damião de Góis, teatro, Coimbra, 1981; O Príncipe de Spandau, Lisboa, 1997; Marilyn, meu amor, drama original em dois actos, Lisboa, 1997;

 O Mistério da Camioneta Fantasma, Lisboa, 2001.O Incorruptivel, Fernão, mentes?, Bushlandia, Obviamente demito-o!, O Professor de Darwin, A Balada da Margem Sul, As peugas de Einstein (estreada no Brasil, inédita em Portugal)


(x) O texto de "O Mistério da Camioneta Fantasma" foi o produto de um concurso de bolsas de criação literária do Ministério da Cultura ganho pelo autor;


A peça teve uma 1ª edição (esgotada) pela “Colibri” com patrocínio do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas

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publicado por Carlos Loures às 22:30
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