Quarta-feira, 12 de Maio de 2010
Socialismo ou barbárie - 1
Carlos Loures

Um termo, um nome que ouçamos uma primeira vez de forma consciente, passa, a partir de então, a sair-nos ao caminho a cada momento. A primeira vez que ouvi falar de Castoriadis foi em Paris, no Albergue de Juventude de La Chapelle onde estava instalado. Havia umas dezenas de jovens de ambos os sexos e de diversas nacionalidades em dois dormitórios. O refeitório era comum e a cozinha onde preparávamos as refeições também.

Foi no refeitório que um sueco que me queria vender uns sapatos, me abordou um fim de tarde perguntando-me num cómico espanhol: Quieres comprar zapatos? Calço 40/41 e o tipo com quase dois metros de altura, calçava 46 ou 47.Expliquei-lhe que, por todas as razões, o negócio não era viável. Sentou-se desanimado, pousou os sapatos, grandes como porta-aviões. Falou-me no Socialisme ou Barbarie e em Castoriadis. Isto passou-se no Outono de 1959. Regressei antes do Natal e, volta que não volta, o jornal Socialisme ou Barbarie e o Castoriadis apareciam-me em citações, transcrições, referências. Foi quando li (em edições brasileiras) a obra de Gramsci. Não concordava com o rigor autocrático do leninismo, mas não tinha argumentos para opor ao leninismo reinante, mesmo fora do PC. Gramsci, Pannekoek e Castoriadis forneceram-me esses argumentos.

A certa altura, já depois de ter estado envolvido num partido saído de uma cisão no PC (a FAP), por altura de 1966 ou 1967, comecei a interessar-me pelas teses de Anton Pannekoek, teórico marxista holandês que propugnava a prevalência dos conselhos operários sobre os partidos políticos e os sindicatos como os pilares de uma sociedade comunista. Estas eram, segundo ele, organizações típicas do século XIX e que se revelavam disfuncionais na prática política de um século depois. Mas nem tudo o que vem de trás está desactualizado. Voltemos á minha viagem pela filosofia política - a tese básica de Pannekoek fora formulada a partir de Marx: "A emancipação dos trabalhadores é obra dos próprios trabalhadores" e os conselhos operários eram pensados como órgãos do processo revolucionário e de uma nova sociedade fundada na autogestão.

Depois, nas minhas leituras. lá me surgiu o Pannekoek a entrar em rota de colisão com o Castoriadis de que falara o sueco. Eu estava desfasado no tempo. Lia isto em 1970 ou 1971 e o Pannekoek morrera em 1960. A seguir a Abril de 1974, muita gente, me falava de Castoriadis e de Pannekoek. Até que em 1979, a editora Regra do Jogo, dirigida editorialmente pelo meu amigo Fernando Pereira Marques, lançou numa magnífica tradução de Miguel Serras Pereira uma colectânea de ensaios de Castoriadis «A Experiência do Movimento Operário» que li e reli e copiei e citei e se transformou num livro de cabeceira. Quem era então este Castoriadis?



Cornelius Castoriadis nasceu em Constantinopla (Istambul)em 11 de Março de 1922 e morreu em Paris em 26 de Dezembro de 1997. Era, pois, um filósofo grego radicado em França, vindo a ser considerado um dos maiores expoentes da filosofia francesa do século XX. Autor de uma vasta obra de filosofia política. Na linha de Pannekoek, foi o grande filósofo da autonomia. Na sua obra, destacam-se: Instituição Imaginária da Sociedade, Encruzilhadas do Labirinto e Socialismo ou Barbárie.



Socialismo ou Barbarie foi um grupo socialista libertário radical francês do período pós-guerra (o nome tem origem numa frase de Rosa Luxemburgo num ensaio de 1916, 'The Junius Pamphlet). O grupo existiu entre 1948 e 1965. A personalidade nuclear do movimento era Castoriadis, também conhecido como Pierre Chaulieu ou Paul Cardan. Oriundo da Quarta Internacional (trotskista), onde Castoriadis e Claude Lefort constituíram uma tendência Partido Comunista Internacionalista francês, em 1946.

Em 1948, abandonaram o trotskismo e formaram o Socialisme ou Barbarie, cujo jornal começou a aparecer em Março de 1949. Castoriadis mais tarde disse a respeito desse período "... a principal audiência do grupo e do jornal era formada por grupos da antiga esquerda radical: Bordigistas - seguidores de Amadeo Bordiga (1889-1970) destacado socialista italiano - comunistas de conselho, alguns anarquistas e alguns órfãos da "esquerda" alemã dos anos 1920". Foram assimilados pela Tendência Johnson-Forest, que se desenvolveu como um corpo de ideias dentro das organizações trotskistas americanas. Uma facção desse grupo formou mais tarde o grupo Facing Reality. Os primeiros tempos trouxeram os tais debates com Anton Pannekoek e um influxo de ex-Bordigistas para o grupo.

(Continua)


publicado por Carlos Loures às 12:00
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