Sexta-feira, 27 de Agosto de 2010
Novas Viagens na Minha Terra

Manuela Degerine

Capítulo XCI

Vigésima terceira etapa: de Redondela a Pontevedra (continuação II)

Enquanto miramos à volta, tentando justificar o banco, vemos passar, lá em cima, na rua que abandonámos, as duas alemãs. Resolvemos subir o caminho arenoso e voltar também ao de Santiago; não convém chegarmos tarde ao albergue, que é grande, certo, porém...

A ponte medieval expõe à entrada uma placa comemorativa. Acabo por decifrar o texto, escrito com letras quase ilegíveis: trata-se de uma homenagem aos heróis galegos que em 1809 defenderam a sua terra na Ponte Sampaio contra os invasores franceses.

Atravessamos pela ponte com carros a passarem demasiado depressa e demasiado perto de nós. Encontrei, muitas vezes, em Portugal, esta agressividade; é, quase sempre, um complemento da violência urbana e para mim, agora, representa um sinal: perigo. Rodoviário, claro – mas não só. Para já, importa chegar, muito depressa, sem acidentes, ao fim da ponte; este stress impede-nos de admirar a enseada e o rio Verdugo.

Encontramos enfim um – enorme – painel indicador do Camiño Xacobeo Portugues, este só os cegos e os analfabetos não o notam; teríamos preferido uma sinalização mais discreta – mas regular. Subimos por escadas, entre casas, passando ao lado de um espigueiro, depois de outro espigueiro, ultrapassando as alemãs, sentadas a descansar... Começamos a descer.

Já fora da zona urbana, encontramos uma placa anunciando a interrupção do Caminho de Santiago, desviado agora para a estrada, por onde continuamos a descer. Vemos ao fundo, na paisagem verde, uma enorme ferida cinzenta com, à frente, um pobre espigueiro esventrado, vítima dos camiões e escavadeiras. Do que se trata? Abrem um túnel? Lemos, colados nos postes, cartazes a protestarem – em galego – contra a construção de mais viadutos, o massacre do património natural galego... Será isso?

Caminhamos pelo lado esquerdo de uma estrada sossegada. De repente, sem transição, ouvimos um chiar de travões, eu berro, atiramo-nos para a barreira, o carro derrapa na berma onde caminhávamos, a uma velocidade descontrolada, inteiramente fora de mão. Um drogado em euforia rodoviária, um delinquente ao volante de um carro roubado...

Estou viva ou morta? Vejo Sérgio com a aparência habitual, não me encontro caída não chão, miro as minhas pernas, os meus braços... devo estar como ele. Sinto o peso da mochila. Se tivesse morrido, não sentia a mochila. Em estado de coma talvez a sinta, no entanto levantei-me, estou mesmo de pé, agarrada à vara de eucalipto, não parece alucinação, penso em mexer o braço, mexo o braço... Devemos portanto estar vivos.

Não, não nos tocou.

Esfregamos os arranhões, que começam a doer. Quando me lancei para a barreira, bati com o joelho direito numa pedra – azar: é o meu joelho frágil (que já apanhou, vai para dez anos, com uma porta de carro).

Sérgio é o primeiro a recuperar a fala.

- Aquele não vai longe.

Os neonazis, o absurdo banco, a violência rodoviária. Há sinais que não enganam: a vida aqui não é de certeza amena.

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publicado por Carlos Loures às 10:00
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1 comentário:
De Luis Moreira a 27 de Agosto de 2010 às 11:58
O que se tem passado nos últimos dias nas estradas portuguesas é uma tragédia.O assassínio ao volante.


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