Sexta-feira, 15 de Outubro de 2010
Para uma história da minha rua
Carlos Loures

A Rua dos Douradores é, sem dúvida, uma das mais feias da quadrícula pombalina da Baixa, mas tem para mim o encanto de os meus avós paternos, terem ido para ali viver quando casaram em 1913, ali nasceu o meu pai, nasci eu e um dos meus filhos. E não só.

Vou tentar fazer um rápido levantamento dos motivos que a tornam numa das ruas de Lisboa mais ligadas à história da literatura. Na verdade, para além das circunstâncias familiares, há ali muita história acumulada, sobretudo no século XIX e no início do século XX. Antes do terramoto também, pois segundo o olisipógrafo Gustavo de Matos Sequeira, num capítulo sobre os «pátios das comédias» existentes em Lisboa antes do sismo, publicado na «História da Literatura Portuguesa» Ilustrada (dirigida por Albino Forjaz de Sampaio), situa no local onde seria implantado o prédio em que nasci, entre as ruas dos Douradores, da Assunção e da Prata, um desses pátios onde se representava Gil Vicente, Camões, António Ferreira, Lope de Vega…

A organização medieval do tecido urbano fazia-se concentrando numa rua os oficiais de uma dada actividade. Como se sabe, douradores eram os artífices que douravam, ou seja, que revestiam a folhas de ouro, livros quadros e outros objectos, embelezando-os ou restaurando-os. Era um trabalho delicado que exigia uma longa aprendizagem, uma função que, pela sua minúcia e nível de especialização, ficava a meio caminho entre o ofício e a arte. Cristóvão Rodrigues de Oliveira, no seu «sumário» sobre «Lisboa em 1551» regista 39 destes profissionais, enquanto João Brandão em «Grandeza e Abastança de Lisboa em 1552» nos dá conta de «15 tendas de douradores». Calculando de dois a três «criados» em cada uma delas, estima num máximo de 45 os «douradores» a trabalhar na cidade por aqueles anos, pelo que o número de Oliveira, cabendo no intervalo da estimativa de Brandão, me parece mais rigoroso.

A maioria destas tendas de artesãos situava-se na Rua Nova dos Douradores, na freguesia de São Nicolau. Como todos sabemos, o grande terramoto de 1755 destruiu toda esta zona da cidade e na nova Baixa que Eugénio dos Santos concebeu, renasceram por atavismo alguns dos velhos topónimos, ainda que as novas e rectilíneas ruas não coincidissem espacialmente com as suas homónimas anteriores à catástrofe, mais estreitas e tortuosas. Mas não ficavam muito longe.

Contudo, seria a literatura viva e não a arte de douração ou restauro de códices e incunábulos a dar notoriedade à rua.



Em tempos mais recentes, menciono apenas alguns nomes da longa lista dos moradores ou frequentadores ilustres e das personagens de ficção que por ali circularam: João de Deus (julgo que em 1868) viveu ali num pequeno quarto alugado, cuja localização não consegui encontrar. Antero de Quental que, no ano de 1872, ali residiu no nº.135, 4º andar, Aquilino Ribeiro, e Fernando Pessoa, que trabalhou por ali perto (no 1º andar do nº 44 da Rua dos Fanqueiros) e frequentava vários estabelecimentos da rua, nomeadamente o restaurante «Antiga Casa Pessoa» - que nada tem, além do nome, a ver com o poeta. No entanto, muitos turistas estrangeiros estão convencidos de que o nome do restaurante é uma homenagem ao esritor que, em 1913 almoçava nesse restaurante com grande frequência.

Num largo constituído pelo cruzamento da Rua dos Fanqueiros com a de São Nicolau, a poucos metros da esquina com a Rua dos Douradores, ficava o posto do Vale do Rio, do Abel Pereira da Fonseca, onde o fotografaram em «flagrante delitro». Ali situou o seu Livro do Desassossego, uma das mais belas obras da literatura portuguesa do século XX: «Se eu tivesse o mundo na mão, trocava-o, estou certo, por um bilhete para a Rua dos Douradores».

Para não falar de Alfredo Costa, um dos regicidas, que morou no nº. 20, 4º, e aí teve o seu negócio de representações comerciais. Falando do Regicídio e da Carbonária, num escritório comercial da Rua dos Douradores, junto à esquina com a Rua de Santa Justa, António Maria da Silva, que viria a chefiar o Governo em diversos executivos da I República, na qualidade de elemento da Alta Venda, órgão máximo da Carbonária Portuguesa, ia sendo surpreendido pela polícia quando presidia à cerimónia de catorze iniciações. Não esqueçamos também que, nesta rua, situou Eça de Queirós a novela Alves &; Cª. Gervásio Lobato, no seu romance burlesco Lisboa em Camisa põe as suas personagens por ali perto, moram na Rua dos Fanqueiros, mas o baptizado em torno do qual gira a intriga, realiza-se na Igreja de São Nicolau que, embora com o escadório e a fachada na Rua da Vitória, tem um dos alçados na Rua dos Douradores. O meu pai frequentou a escola da Igreja, escola cuja entrada se fazia precisamente por uma das portas desse alçado. Muito recentemente, outro autor escolheu a Rua como cenário de um romance. Refiro-me a Boa Noite, Senhor Soares (2008), de Mário Cláudio, uma ficção em torno de Bernardo Soares e do seu Livro do Desassossego.

Os galegos que, fugindo à terrível crise que a Galiza atravessou na segunda metade do século XIX, emigraram em massa para Portugal (e não só), fixaram-se em grande parte em Lisboa. As ruas menos «chiques» da Baixa eram o seu território preferido – moços de fretes e aguadeiros, os menos afortunados, comerciantes ou empregados nos comércios de patrícios, outros. Conforme refere Aquilino Ribeiro em Lápides Partidas, um aguadeiro de Porriño dizia numa carta para a mulher e referindo-se a Lisboa e aos lisboetas «A terra é boa, a xente é tola; a auga é deles e nós vendemoslla». Contudo, o negócio preferido dos galegos eram os restaurantes e as casas de pasto – O João do Grão, na Rua dos Correeiros, o Bessa e o Pessoa na Rua dos Douradores são apenas alguns desses negócios que ainda hoje estão nas mãos de galegos ou de portugueses deles descendentes. Na minha escola primária, a nº. 44 da Rua da Madalena, tive alguns colegas de ascendência galega. O mesmo aconteceu no Ateneu. Em crónica anterior (Litlle Galiza), refiro essa circunstância.


Num agradável serão, numa consoada, de há mais de quarenta anos, na acolhedora casa de Luís Roseira em Covas do Douro, Manuel Mendes, um grande escritor, injustamente esquecido, e um inesquecível conversador, quase me garantiu que Camilo Castelo Branco residira episodicamente no prédio onde nasci. Não pude confirmar esta convicção do autor de Pedro. Relacionando Camilo com a Rua dos Douradores, apenas sei que ali, no nº 29, morreu, em 1835, seu pai Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco. Mas a minha lista de personalidades e eventos de algum modo ligados «à minha rua» é mais extensa. Ficará talvez para outra ocasião e para outro local desfiá-la por completo.

Não sendo uma rua bonita como, por exemplo o é a Rua Augusta, parece-me ser a que, em toda Baixa lisboeta, mais referências históricas e literárias concentra.


publicado por Carlos Loures às 12:00
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5 comentários:
De augusta.clara a 15 de Outubro de 2010 às 12:22
Que eras um alfacinha ilustre já eu sabia mas, agora, queria saber se és alfacinha da gema. Eu tive há pouco tempo o desgosto de saber que não era porque, apesar de ter nascido nos Anjos, bem no centro de Lisboa, os meus pais eram alentejanos e não lisboetas.


De carlos loures a 15 de Outubro de 2010 às 12:39
Com essa exigência quanto à ascendência, quase não haverá «alfacinhas de gema». Os meus pais nasceram em Lisboa. Os meus avós também As avós eram, a paterna de Maçal do Chão, Celorico da Beira, e a materna de Vila Nova de Fozcoa. Sou 12,5% beirão, se não me enganei nas contas. Ter pais alentejanos é uma maravilha. Para mim, os alentejanos (entrando um pouco nas generalizações, sempre perigosas), superam os alfacinahas e todos os demais portugueses em sabedoria. Que outro povo se riria das estúpidas anedotas que qualquer atrasado mental se permitia contar sobre os alentejanos? Mas também gosto muito da minha cidade. gostaria sempre, fosse ela qual fosse.


De augusta.clara a 15 de Outubro de 2010 às 13:00
Claro que sim. Mas Lisboa e o Tejo estão-me entranhados.


De Isabel Rei a 15 de Outubro de 2010 às 23:33
Você fez a rua mais bonita, caro. Prazer de ler.


De carlos loures a 16 de Outubro de 2010 às 00:19
Se a Isabel por ali passou, sabe que a rua é feia, estreita, pouco luminosa. Mas, já que não posso, por amor à verdade, dizer que a minha rua é bela, recordo alguma da história que nos últimos dois séculos nela se acumulou. E, feia, mas ostenta mais relações com a literatura e com a história do que as muito mais bonitas ruas da Prata, Augusta ou do Ouro.
Além disso, Isabel, não esqueça, foi o coração da little Galiza.


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