Sábado, 4 de Setembro de 2010
António Cabral
Carlos Loures

A poucos dias de se iniciar a nossa maratona de 24 horas publicando poesia, venho recordar mais um poeta – depois de José Gomes Ferreira e de Ernesto Sampaio é a vez de António Cabral.

António Cabral foi um dos maiores poetas da região de Trás-os-Montes e Alto Douro. Melhor: foi um dos maiores poetas portugueses do século XX. Não provocando o clamor mediático de um Torga, a sua poesia atingiu uma qualidade incomum e à qual, até agora, não se fez a devida justiça. Mas nem só poesia escreveu, pois da sua bibliografia constam, além de 15 colectâneas poéticas, cinco volumes de ficção, sete volumes de teatro. Para além de livros didácticos e de ensaios literários. Um grande escritor.

Publicou também obras sobre etnografia e antropologia, nomeadamente sobre jogos populares, matéria em que se tornou um grande especialista. A ele se deve ainda um dos mais belos textos escritos sobre José Afonso, «Introdução às canções de José Afonso», publicado no livro «Cantar de Novo» (Nova Realidade, 1970). Neste clube tenho incluído grandes poetas da lusofonia, alguns deles meus amigos. É o caso do António Cabral com o qual colaborei e que comigo colaborou em numerosas iniciativas. Um bom amigo e um grande escritor.



António Cabral nasceu em Castedo do Douro (Alijó) em 30 de Abril de 1921 e faleceu em 23 de Outubro de 2007 em Vila Real. Sacerdote católico até 1972, pediu dispensa e casou, dedicando-se ao ensino. Além de grande poeta, dramaturgo e romancista, foi um activo agente cultural, sendo co-fundador das revistas Setentrião e Tellus. Vemo-lo na fotografia com Amadeu Ferreira, o escritor e principal promotor da língua mirandesa. De António Cabral escolhi o poema Acorda amor, publicado na antologia poética «Vietname», que organizei em colaboração com Manuel Simões. Parece-me dar uma ideia do grande poeta que é o «imortal» que hoje vos apresento – Meus amigos, deixo-vos na companhia de António Cabral:

Acorda amor

Acorda, amor. Não ouves o silêncio
ranger à volta da nossa casa?
Algo se passa. As aves na palmeira
do pátio acabam de estremecer.
Ouço-as pelas frestas da velha parede
e o medo volta de novo ao meu coração.
Bem sei que não devia ter medo, que o sono
é esse doce país cantado pelo poeta,
onde os rios não correm somente
para demarcar os ódios, e as nuvens
apenas ocultam a boa água fertilizante.
Condeno-me por isto. Por tremer
diante dum pensamento e acordar, a teu lado,
quando um leve sussurro atravessa a noite.
É como se a tua presença não bastasse,
fechando não sei que porta imaginável.
Desculpa, amor. Mas tremo. A teu lado.
Apesar do teu rosto amanhecente.
Mesmo sabendo que em teu corpo
Se abriu a corola de todas as delícias.
Pelas frestas da velha parede,
eis-me a interrogar a noite. Que acontece?
Que sombras se movem além do rio?
Talvez eu delire, ainda sob a impressão
Do último bombardeamento. Lembras-te?
Num momento, destruiram os favos
da nossa alegria. E o mel de tantos anos
barbaramente se diluiu na enxurrada infernal.
Foi como se enorme sanguessuga de repente
se colasse a nós. Ainda tremo .
Tu escondeste a tua cabeça no meu peito
e eu quando acordei sob os escombros,
tinha uma perna destroçada. Podia ter as duas.
Não é isso que me faz tremer. Mas recordo
a febre dos teus lábios em minhas mãos,
o quadro dos teus cabelos outonais
e o corpo do nosso filho, parado, no teu regaço.
Perdoa, amor, esta lágrima. Não acordes.
Se eles voltarem, cobrir-te-ei com o meu corpo,
com este corpo inútil que me deixaram.
Não acordes, amor. Em que estrela
buscas agora o nosso filho? Que palmeira
o acolhe à sua benigna sombra?
Ele põe a mão na rosa do teu seio
e nos teus lábios ardem pétalas. Meu filho!
Lembras-te como eu gostava de o levantar
bem alto? Meus braços, agora débeis,
fremiam, reverdeciam como ramos,
e tu dizias, luminosa: o tronco e a flor.
Era como se o dia voltasse a nascer,
nascesse a cada instante,
cingindo-me aos teus olhos belamente doirados.
Era. Agora, não. Agora é noite. Prolongada.
Não durmo. Doem-me as pálpebras e a alma.
A paz escoa-se pelas frestas da parede.
Que sombras se movem aquém do rio,
fazendo ranger todo o silêncio?
Se vierem… que venham. Dorme, amor.
Amamenta em sossego o nosso filho.
se vierem,
Cobrir-te-ei com o que resta do meu corpo.



publicado por Carlos Loures às 12:00
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