Sexta-feira, 6 de Agosto de 2010
Breve reflexão sobre Hiroxima e Nagasáqui
Carlos Loures

Em Agosto de 1945, a guerra mundial chegava ao fim, abrindo as portas a um novo terror. Os Estados Unidos lançaram a 6 e a 9 de Agosto sobre Hiroxima e Nagasáqui, respectivamente, as primeiras bombas nucleares a atingir alvos civis. Um dos maiores crimes que a História regista.

Em 1965, com o poeta, professor universitário e também colaborador deste blogue, Manuel Simões, organizei uma antologia com «depoimentos de poetas portugueses sobre o flagelo atómico, no 20º aniversário da destruição de Hiroxima e Nagasáqui». Mais de trinta escritores contribuíram com os seus poemas para esta edição que foi publicada em 1967 – nomes como os de António Cabral, António Rebordão Navarro, Casimiro de Brito, Eduardo Guerra Carneiro, Egito Gonçalves, Fernando J.B. Martinho, João Rui de Sousa, Manuel Alegre, Maria Rosa Colaço, Papiniano Carlos… Transcrevo alguns excertos do prefácio (estávamos a 7 anos de Abril e o livro foi proibido, não só pelo seu prefácio, mas também pela agressividade da maioria dos poemas):

«Agosto de 1945 é para o mundo, um fundamental marco miliário: é a partir dessa altura que é lícito falar-se dos Estados Unidos como da mais poderosa potência do Ocidente. A ambiciosa e florescente nação dos anos vinte, ressurge, já recomposta das cicatrizes que a crise económica de 1929 abrira. Poder edificado sobre os 130 000 cadáveres de Hiroxima e de Nagasáqui, consolidado com o sangue e com as lágrimas de tantas vítimas.



«Em nome da Liberdade, os E.U.A. deram o seu contributo para a destruição do nazi-fascismo, mas hoje, após a guerra da Coreia, após a invasão da Guatemala, após o desembarque na Baía dos Porcos, após a intervenção no Congo, em plena guerra do Vietname e em flagrante e escandalosa ingerência na política interna da República Dominicana, é oportuno perguntar até que ponto a «democracia» ianque se identifica com os fantasmas que ajudou a derrubar.» (…) «Os 130 000 mortos de Hiroxima e de Nagasáqui, são diariamente agitados ante os nossos olhos como um negro estandarte. A América serve-se dessa terrível recordação que inseriu a fogo na memória deste século, para amedrontar o mundo.»(…)«No Verão de 45, o Japão estava virtualmente derrotado – esgotara as suas fontes de energia humana e económica. Mas, nos Estados Unidos, temiam-se as consequências de uma batalha final em que o império nipónico empregasse desesperadamente as suas últimas forças.» (…) «É preferível que morram 100 000 japoneses a que morra um só Americano, eis uma explicação oficial citada num livro de J. Robert Oppenheimer.» (…)«Hiroxima, se é um terrível símbolo de morte, se é o aval do cheque com que os americanos exercem a sua chantagem atómica, é, para os homens verdadeiramente livres, e referimo-nos àqueles que o são em pensamento, ainda que os seus pulsos levem algemas, um símbolo de Paz.» (…)«Símbolo de Paz, porque nos ensinou, entre outras coisas, que Hiroxima pode, amanhã ou ainda hoje, acontecer em Londres, em Lisboa, em Moscovo ou (quem sabe?) em Nova Iorque.»

Mais de 40 anos depois, estas palavras continuam actuais Com pequenas alterações de circunstância e pormenor, voltaria a subscrevê-las. O que aconteceu de 1967 a esta parte não as desmentiu, antes as confirmou. Inclusive na medida em que o reflexo da prepotência norte-americana, apoiada pelos seus aliados da NATO, sob a forma do fundamentalismo islamista, atingiu Londres, Nova Iorque e Madrid. Porém, perdura, nos dias de hoje, 64 anos depois, a memória de Hiroxima?

Para nos recordarmos, vejamos algumas cenas de «Hiroshima mon amour», o inesquecível filme que, em 1959, Alain Resnais realizou com script de Marguerite Duras.


O professor Eduardo Lourenço, num artigo publicado no Público há vinte e quatro anos diz: «Desde Heródoto que a História existe como discurso contra o esquecimento, como estratégia para conferir um ¨sentido¨, uma plausível inteligibilidade inerente à vida e acontecimentos humanos. Para termos essa existência plena, semelhante à dos deuses gregos, imunes ao tempo, assumimos a vigília sem noite que chamamos História. Nela e com ela, sabemos de onde vimos e para onde vamos. Subsidiariamente, quem somos. Desta ilusão fundadora Hiroxima nos despiu. Os seus “cem mil sóis” não podem ser olhados sem morrer. Mesmo a sua recordação é mortal. Hiroxima impõe o esquecimento.» (…) «Hiroxima é um não-lugar, uma Pompeia fabricada de mão pensada pelos homens. Os japoneses deviam tê-la conservado assim, arrasada como Cartago pelos novos romanos, insuportável à vista e intolerável para o coração. Preferiram dissimulá-la e ninguém está no seu lugar para os julgar. Para sobreviver, incorporaram o esquecimento na sua história privada. Sem o saber, inauguravam a lúdica era da pós-modernidade que não é culto pedantismo de intelectuais europeus expulsos de uma História como fonte de sentido, mas tempo de gente que incorpora o esquecimento-Hiroxima por saber de mais que, sem ele, desembocaria descalça num terraço com vista privilegiada sobre o nada. Aquele onde tão festivamente estamos.» Vejamos mais um pouco do filme de Resnais.


Como Eduardo Lourenço, citando Marguerite Duras, lembra nesse artigo publicado no Público quando do cinquentenário da destruição atómica: «Un jour je ne me souviendrai plus. De rien». São palavras de Emanuelle Riva, a intérprete principal do filme: «- Um dia já não me lembrarei. De nada». Um dia, Hiroxima será uma data nos livros de História. Não nos lembraremos. De nada.


publicado por Carlos Loures às 12:00
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9 comentários:
De adão cruz a 7 de Agosto de 2010 às 14:11
Parabéns Carlos por um texto tão bom e tão oportuno. Infelizmente, este bárbaro e odioso crime, que constitui o maior acto terrorista da história da humnidade, quase não tem memória na cabeça da maioria das pessoas,sobretudo na cabeça dos americanos. O 11 de setembro foi uma brincadeira comparado com isto. Mas o mais terrível é que o acto bombista e terrorista mais tenebroso da História tenha siddo perpetrado pela nação que se diz mais combatente contra o terrorismo, a mesma nação que apregoa a guerra contra o terrorismo e pratica diariamente actos terroristas no Iraque, Afeganistão ou onde quer que entenda, em que os milhares de vítimas civis, contam tanto como moscas. Penso que só um país, uma nação e um Estado com esta monumental hipocrisia e com esta total ausência de ética e dignidade, poderia ser capaz de fazer o que fez nos céus de Hirosxima.


De Luis Moreira a 7 de Agosto de 2010 às 18:49
É um texto oportuníssimo, mas a questão, para além de todos os horrores, é: que faria cada um de nós no lugar de Truman? Uma guerra absoluta, com centemas de milhões de mortos, com um Japão que mesmo depois das bombas de Hiroschima e Nagazaki, não se rendia e estava preparado para que morressem mais umas centenas de milhões até à derrota absoluta. O Japão não usaria a bomba se a tivesse? NO inferno que tem razão?Ninguem!


De adão cruz a 7 de Agosto de 2010 às 20:00
Uma decisão inadmissível a todos os títulos. Sobretudo quando todos sabemos que o primum movens e a finalidade do lançamento da bomba foi marcar posição, especialmente em relação à União Soviética. O resto são cantigas!


De Luis Moreira a 7 de Agosto de 2010 às 21:40
A bomba , ou melhor, os estudos e as descobertas cientificas que levaram à bomba há muito que se tinham iniciado na Alemanha. O que os US fizeram foi juntar os cientistas e dar-lhe meios para eles chegarem à bomba, logo, era uma questão de tempo.Ou eram os US ou a União Soviérca, ou até a Dinamarca. Há uma peça de reatro absolutamente extraorsinária, que eu vi na "barraca" que conta a história de dois cientistas amigos, um Alemão e outro Dinamarques, em que apesar da amizade, não se perdoavam por saberem que andavam ambos à procura do que faltava para a "bomba".Quem chegasse primeiro à bomba (brilhante como o sol" usava-a!As coisas são como são, meu bom Adão!


De maria monteiro a 8 de Agosto de 2010 às 00:24
os cientistas e os seus inventos bélicos ... sabendo que os queridos países que os financiam precisam de guerras para os testar, aperfeiçoar, melhorar... basta activar uma guerra aqui, outra acolá e... têm uma fonte de receitas que nunca seca.
O que é que eu faria no lugar de Truman? Sei que nunca iria contribuir para a morte de população inocente.


De Luis Moreira a 8 de Agosto de 2010 às 01:13
Maria, se o Japão não capituçasse morriam milhões da mesma forma!


De Luis Moreira a 8 de Agosto de 2010 às 01:13
capitulasse...


De maria monteiro a 8 de Agosto de 2010 às 11:58
Luís, o que é certo é que a guerra acabou da pior forma: duas bombas atómicas matando e fazendo sofrer milhões de pessoas civis. Ainda se nasce com deficiências provocadas por essa grande demonstração de poder. O Japão estava por um fio bastava cortá-lo.
“My God, what have we done?” - the commander of the 'Enola Gay'
Foi uma decisão errada mas que infelizmente já não dava para corrigir


De Luis Moreira a 8 de Agosto de 2010 às 13:30
Claro, foi um horror inimaginavel.disso não há dúvidas, mas naquelas circunstâncias usava-a quem a tivesse.


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