Sábado, 31 de Julho de 2010
Jorge Amado fala sobre "Memorial do Paraíso", de Sílvio Castro
Este romance do nosso colaborador Sílvio Castro foi lançado em Itália antes de ter sido publicada a edição em português. Jorge Amado, o grande escritor brasileiro, publicou no Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, logo após o lançamento dessa edição em Itália, o artigo que temos o prazer de transcrever.



O memorial do paraíso

Jorge Amado

Li o romance de Sílvio Castro, Memoriale del Paradiso, na belíssima edição italiana do Centro Internazionale della Grafica de Venezia, com ilustrações preciosas de Luigi Rinciotti. As ilustrações completam o texto não menos precioso: a escrita do romance de Sílvio Castro tem um tratamento de iluminura, a graça e a fluidez.

Não é a primeira vez que leio romances de autor brasileiro em língua estrangeira antes que seja publicado em português. Durante a ditadura militar aconteceu-me idêntica experiência com livros cuja editoração no Brasil fizera-se impossível. Recordo ter lido, igualmente em língua italiana, romance de Ignácio de Loyola Brandão, inédito em língua portuguesa devido às circunstâncias de ordem política, a ordem política dos gorilas: creio que o excelente romancista que é Ignácio de Loyola se fez conhecido e admirado na Europa antes de se tornar um dos escritores preferidos do público nacional. Eu próprio, levado pelas contingências da vida pública, publiquei um livro, O Cavaleiro da Esperança, na Argentina, em 1942; somente em 1945 foi possível editá-lo em português.

Tendo lido Memoriale del Paradiso em italiano, desejo antes de mais referir-me à qualidade da tradução, muito boa, de Sandra Bagno e Laura Scalambrin, em língua(s) portuguesa(s), formadas ambas sob a direcção de Sílvio Castro, cujo extraordinário trabalho no estudo, na pesquisa e na divulgação da cultura brasileira no norte de Itália não cabe neste breve texto; o que ele tem realizado nesses trinta anos de cátedra em Veneza e em Pádua é matéria para muitas páginas. Mais vale lembrar que Sandra Bagno está debruçada sobre os materiais que deverão resultar no estudo definitivo que a figura tão importante que a figura tão importante e tão injustamente esquecida de Almachio Diniz está a reclamar.

Memorial do Paraíso é o primeiro volume de uma trilogia que, completada, será com certeza de notável importância como reconstrução histórica e literária: a este primeiro romance seguir-se-ão Os Senhores Singulares e Aventuras e desventuras do veneziano Piero Contarini entre os selvícolas brasileiros. Por fim teremos a recriação em termos de ficção dos dias iniciais da vida brasileira após a descoberta, um painel do Brasil em seus começos, quando ainda não existia nação, apenas as tribos e os recém-chegados europeus, os portugueses e os demais.

Este Memorial, primeiro volume da trilogia, nasce da carta de Pero Vaz de Caminha a dom Manuel, rei de Portugal (dela, por sinal, Sílvio Castro fizera publicar em 1984 uma primeira edição crítica em italiano), a acção narrativa se desenvolve através de uma série de cartas, espécie de diário, dirigidas pelo escriba português a Maria, “filha amada e infeliz”, nas quais pretende “tudo contar” e tem muito que contar. No bojo desse diário de epístolas se projeta um espetáculo teatral, a “Festa para o Príncipe Perfeito”, o texto ganha força de ação, enriquece-se com o diálogo, e complementa e amplia o que é revelado nas cartas a Maria.

Sílvio Castro conseguiu construir uma arquitectura original para o romance, nela os tempos e os espaços romanescos encontram a medida justa e certa da narrativa, a pluma de Pero Vaz de Caminha faz a unidade da peça e das missivas, mantendo sempre em alto nível a compreensão e a escrita. Tome-se de qualquer das páginas para que se comprove a maestria do autor: “Principe, lá sono i vostri nuovi sudditi”; releio o capítulo no gozo da leitura, no prazer da frase a revestir o assunto.

Pena citar em tradução italiana. Já que o faço, aproveito para recomendar aos editores brasileiros a publicação, o quanto antes, deste romance de Sílvio Castro. O ficcionista nada fica a dever ao mestre pesquisador, ao catedrático, ao ensaísta, ao historiador da literatura; além da erudição, o autor possui o dom da inventiva. E que à edição deste primeiro romance sigam-se as dos dois outros para que se complete a trilogia e nos seja dado saber como éramos e de que maneira tropeçamos os primeiros passos no caminho da nacionalidade brasileira.


publicado por Carlos Loures às 16:30
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