Terça-feira, 8 de Junho de 2010
Outra Constituição, outra Democracia, uma Terceira República – 22
Carlos Leça da Veiga


(Continuação)

É bom não esquecer que, no fundamental, os subsídios magnânimos que foram, ou têm sido, disponibilizados pela direcção da União Europeia, no mais essencial, só servem para alimentar o parasitismo social dalguns e, muito em principal, forçar importações – quantas delas supérfluas – provenientes dos próprios estados que são, afinal, na realidade, os subsidiários mais significativos do sistema de ajudas. Assim, por força das importações necessárias aos trabalhos a empreender e daquelas dos bens deixados de produzir, todos os subsídios recebidos, nunca deixam de regressar ao bolso dos subsidiários contudo, é bom recordar, que esse regresso é feito com aquele acrescento monetário – pequeno, diz-se – que, ano após ano, pequeno atrás de pequeno, no caso português, conseguiu levar quanto por cá tinha sobrado do quanto, tempos atrás, havia sido acumulado e que, por pouco que fosse, apesar de tudo daria alguma tranquilidade. O aparelho produtivo nacional, diminuto que fosse – e era-o – apesar disso, impedia a importação duma parte significativa daquilo que, com a maior necessidade, o País tinha e tem precisão.

Quem foram os autores da desarticulação e consequente inutilização do aparelho nacional produtivo?

Quem foram os maiores beneficiários desta alteração?

As políticas da União Europeia têm sido saudáveis para os interesses nacionais portugueses?

Há qualquer razão para dizer-se que a integração na União Europeia proporcionou vantagens sentidas – sentidas de verdade, que não de fachada – à maioria dos portugueses?

Onde já vai o que foi o surto dos aparentes benefícios da integração?

A integração portuguesa da União Europeia – a sua dependência europeia – foi feita sem qualquer vergonha, com muita carga ideológica subjacente, sem qualquer respeito pelos oito séculos da História nacional e sem consulta popular prévia.

A integração na União Europeia foi procurada e conseguida não só na mira ignóbil e venal dos subsídios financeiros perspectivados como, também, na da busca de boas garantias de protecção política para os possidentes, não fosse voltar a haver uma qualquer forma de agitação popular como a do pós 25 de Abril ou, também, e não menos importante, poder haver um qualquer desvio no sentido de, como devia ser, Portugal desejar privilegiar relacionamentos políticos e económicos com qualquer zona ou estados dum mundo em que a presença de Portugal – são as contradições do processo histórico – sempre fez sentir-se e sempre poderá fazer-se mas que os centro-europeus, com o seu sentido colonialista tradicional, imaginam, santa ilusão, voltar a ganhar só para si.

Uma vez colocado o socialismo na gaveta, o passo posterior seria aquele de minimizar o regime democrático, enquanto garante dalgum privilégio para a generalidade da população portuguesa e não uma arma, como é pretendido pelos possidentes, em exclusivo, nas suas mãos. Enfim, neste sentido, era vantajoso ter mais garantias que quantas já dadas pelo próprio 25 de Novembro e pelas suas consequências políticas – a tão badalada “musculação da democracia” – que desde então, se nunca deixaram de estar a dar os seus efeitos não podiam ir tão longe quanto o guarda-chuva europeu conseguia e consegue permitir. Á custa dum imenso folclore partidário o situacionismo instalado tem conseguido “paz nas ruas e tranquilidade nos espíritos” – como no salazarismo – o que tem sido a solução política que mais convêm e muito agrada aos desígnios da União Europeia e que, por igual, é uma boa forma de dar tranquilidade aos europeístas portugueses mas que, a muitos Homens e Mulheres, com magoa, faz recordar outros tempos de mau augúrio.
Portugal, por ser o elo mais fraco da cadeia capitalista da Europa ocidental tinha de ficar sujeito a uma dependência mais apertada não fosse transformar-se numa zona europeia em oposição clara às políticas neoliberalistas, logo ao “europeísmo”.

Para ter-se bem a medida da aceitação, por parte dos possidentes e dos seus lacaios, da ingerência estrangeira em Portugal bastará recordar-se que as autoridades portuguesas anuíram a terem de mandar desmantelar os sectores nacionais produtivos, alguns deles exportadores e, como sua consequência, tudo ter de passar a adquirir-se nos estados continentais centro-europeus que, estes, de facto – não vale a pena dar-se-lhes outro nome – são os verdadeiros mandantes do crime.

Quem comanda a União Europeia parece não querer ver que por força das suas circunstâncias estruturais – em que o mercado neoliberal é um aspecto saliente – a marcha acentuada da sua falência económica, por ser claramente irreversível, impossibilita o regresso aos bons tempos – à aparência de bons tempos – porém, quem escuta as afirmações determinadas e determinantes dos mais altos responsáveis pelas manobras políticas europeias, de facto, só pode concluir que, mais uma vez na História da Europa, volta a ouvir-se discutir o sexo dos anjos.


publicado por Carlos Loures às 21:00
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2 comentários:
De Luis Moreira a 8 de Junho de 2010 às 22:35
Eu não tenho dificuldade nenhuma em concordar com quase tudo o que escreve, mas não consigo compreender como é que não vê o enorme surto de modernismo que o país teve de há 20 anos para cá e ,como é que Portugal se aguentaria fora da UE quando os mercados no futuro, anda mais do que hoje, serão de dimensão continental.


De António Sales a 9 de Junho de 2010 às 17:00
Muitas coisas do seu artigo subscrevo, no entanto não esqueçamos que após a independência das colónias andávamos a contar os tostões quando tostões haviam. Silva Lopes, então presidente do Banco de Portugal, disse numa recente entrevista ao J. Negócios que estávamos praticamente na bancarrota e ele andava aí pela Europa a estender a mão à "caridade" a fim de obter dinheiro para salvar o país. Nesta condições a entrada na UE era fatal. Precisavamos de um chapéu de chuva e o do comunismo não servia. Sairamos de uma ditadura não era para entrar noutra. Ora a CEE (UE) mandou para cá muito e muito dinheiro. Milhões e milhões por dia. Soubemos sempre que eles não faziam borlas. Contudo, segundo a nossa tradição desatámos a gastar a massaroca com alegria como se tivéssemos descoberto um novo Brasil. Vai disti! Os políticos foram-se habituando aos milhões e praticando exageros como se fossem a corte de um D.João V republicano. Mas se nós somos brutos não serão os outros a ter inteiramente a culpa.


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