Domingo, 12 de Setembro de 2010
António Botto no Brasil - 9 - António Augusto Sales

Os Últimos Anos de Infortúnio

(continuação)



A década da sua máxima produção poética e merecido destaque foi a dos anos vinte que arrancou a Fernando Pessoa, no início da carreira do seu amigo, as algo exageradas afirmações ao considerar António Botto o «único exemplo (...) na literatura europeia, do isolamento espontâneo e absoluto do ideal estético em toda a sua vazia integridade» (António Botto e o Ideal Estético em Portugal). Quando em 1929 Pessoa recorre à colaboração de Botto para iniciarem a Antologia de Poemas Portugueses Modernos já este ocupa um lugar especial na nossa poesia o que levaria José Régio a considerá-lo mais tarde, «Grande poeta e grande artista isolado (...) tem já uma obra que pelas esquesitices do ritmo, as subtilezas da ironia, os arrojos confessionais, os recantos de intenção e os achados
de expressão depurada, - é bem moderno» (A Moderna Poesia Portuguesa – p.90-Ed.Inquérito, 2ª ed. – Lisboa s/data).

Destes pontos de vista não partilha Amorim de Carvalho no seu livro Através da Obra do sr. António Botto (Livraria Simões Lopes de Domingos Barreira – 1ª ed., Porto 1938), pois denuncia o autor de Dandismo de «inspiração livresca» e sugestibilidade poética, estabelecendo nomeadamente comparações entre quadras populares existentes, que transcreve, e outras que o poeta escreve, afirmando «que uma das grandes fontes de sugestão do sr. Botto (e já sabemos que proporções assombrosas assume no sr. Botto a sugestão) é a fonte popular, tanto no verso como na prosa» (pg.36). Ao longo do seu livro Amorim de Carvalho não se cansa de comparar versos que vinquem a “sugestibilidade” botiana com os de um poema do Conde de Monsaraz. Amorim de Carvalho desfere um ataque cerrado à obra de António Botto e embora esta análise mereça atenção, mais não seja por curiosidade, a palavra e o estilo são absolutamente redutores. Amorim de Carvalho é um crítico demolidor da obra de António Botto seja a poética, infantil ou teatral - tanto no plano das ideias, do ritmo, das palavras, ou da criatividade pura. Ali nada existe, é tudo falso: «O que há de amplo, profundo e humano, na sua obra, não é original - neste sentido: não provém do seu pessoal esforço de criação: ou pertence ao domínio comum ou pertence a outro autor» (pg.40).

Mas não é só Amorim de Carvalho que coloca questões desta ordem. No espólio de António Botto encontra-se um pequeno recorte de jornal brasileiro (não identificado) com o sugestivo título Quem copiou quem? a propósito de um soneto de Francisco Luiz Bernárdez cujo primeiro verso «Hombre que nasces entre desventuras» (sic) é igual ao «Homem que vens de humanas desventuras» (“Canções” – edições Bertrand 1956, soneto nº15/ou nº 14; edição Circulo de Leitores 1978, p.255; ed. Presença (1999), p.210), cujos versos de Botto foram popularizados em fado por Carlos do Carmo.

Francisco Bernárdez nasceu em Buenos Aires a 5 de Outubro de 1900. Seus pais eram galegos e vieram para Ourense. Jovem, Bernárdez, fixou-se na Galiza, mais precisamente em Vigo, como redactor do jornal Pueblo Gallego. Ali viveu entre 1922 e 1925, iniciando a sua carreira literária, com algumas temporadas em Madrid e um ano em Portugal. Regressou à Argentina onde teve actividade literária considerável e conheceu a fama poética. Morreu em 1978. Nesta questão de plágio é indesmentível o facto dos versos dos dois sonetos (argentino e português) serem efectivamente iguais. Resta saber quem publicou primeiro, isso não consegui apurar, mas coincidência não é de certeza num soneto completo.

Bem menos cáustico que Amorim de Carvalho, Eugénio de Andrade manifesta uma posição bastante crítica em relação à poética de António Botto mesmo quando lhe reconhece algum mérito. Também Oscar Lopes, no volume VIII da História Ilustrada das Grandes Literaturas, não concede tréguas à menorização da obra do autor de Canções caracterizada por uma «rima quase sempre ocasional e muito pobre», repassada pelas imagens do «amor secreto e sensual, o fado alfacinha, o populismo, casos de miséria e de paixão». Ao referir-se a Olympíadas considera que «a ode ao desporto desce do pindárico até ao pindérico». Botto nunca foi o que ele se imaginava, um dos maiores, dos únicos grandes poetas da língua portuguesa. «A mim, o que me afligia em António Botto era o cabotinismo, e o que nele havia de artificial, sobretudo quando falava.» (Eugénio de Andrade), fruto da megalomania que haveria de o conduzir à desgraça e que justifica os seus pedantes e antipáticos exageros. Todavia a linguagem, ou o verso populista minimizado por alguns críticos, era, segundo uma lúcida abordagem de Joaquim de Matos (“Letras & Letras” nº 30, Porto, Junho 1990) «uma relação entre o prosaico e o poético [pelo que] o poema apresenta-se ao jeito de uma carta, diálogo com pessoa ausente (…) numa linguagem directa de oralidade (…) poderemos dizer que entramos pela prosa e saímos pela poesia». A forma, o estilo e a espontaneidade fixaram o tal populismo segundo um valor caracterizado pelo dramatismo da linguagem, já para não repetirmos a força expressiva do seu próprio drama.

Se o poeta das Curiosidades Estéticas manifesta, para lá da forte dualidade entre o amor e o prazer carnal, as contradições de um comportamento onde é observável a densidade dorida e traduzida, não raramente por uma certa cumplicidade entre o amor e a morte («Têm-se o amor da própria morte»), abre-se a formas menos negras e angustiosas em Piquenas Esculturas, poemas que figuram como peças modeladas («Busco a beleza na forma») e chegam a representar alegria e vitalidade, sentimentos pouco frequentes na sua poesia, permitindo que o amor assuma uma certa mística do prazer, «uma formosa animalidade inconsciente» como caracteriza o espectáculo viril do corpo masculino na dedicatória que antecede os cinco poemas de Olimpyadas. É essa animalidade que o seduz («E aqueles corpos/ de gentilíssimo talhe/ e sóbria musculatura») num elogio dionisíaco à beleza, à elegância do movimento, ao sentimento de força e à coragem. Dandismo é um livro de despedidas e de separações, umas expressas e outras intuídas («Não vás ainda/ Vê comigo a manhã que vai romper»). Não o denunciando o título, ressalta deste livro uma amargura profunda se não mesmo um desespero que estes dois tristíssimos versos retratam: «Anda um ai na minha vida/ Como lágrima que passa». Ciúme (1934) confirmaria uma plenitude dramática que levaria João Pedro de Andrade a considerar António Botto «um dos mais dolorosos casos da poesia portuguesa» (“Dicionário da Literatura”-Figueirinhas – Porto 1977/ ou 1973).

Quando em 1930 aparece uma nova edição de Canções, Botto é um homem em conflito interior que mais tarde se manifesta na sua poesia e em outros trechos da sua obra. Dotado de uma sensibilidade superior sofre física e psiquicamente com um certo sentido místico da vida que o impede de interpretar a realidade prática mas não de estabelecer desígnios fantasistas para compreender o sofrimento. Afastado, por natureza, dos conflitos sociais verificados à sua volta, interna-se em si e no seu drama. Todavia, os versos e outros textos não deixam de se revestir de uma forte identidade emotiva com os pobres, os desafortunados, os sofredores, os marginalizados. Salvo uma ou outra excepção quando as suas incursões literárias penetram criticamente no plano social, raramente ultrapassam os padrões de solidariedade ou de revolta moral segundo uma visão humanista que prevalece.


(continua)

______________________

Hoje temos para vos oferecer uma interpretação da fadista Maria Fernandes do poema de António Botto "Não me chamem pelo meu nome". Há um ainterpretação de Mísia que tentaremos apresentar num dos próximos dias.




publicado por Carlos Loures às 22:30
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1 comentário:
De Luis Moreira a 12 de Setembro de 2010 às 23:05
leio com sofreguidão, pouco sabia de António Botto.


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