Quarta-feira, 17 de Novembro de 2010
Evento da Literatura Portuguesa – Causas da Decadência dos Povos Peninsulares (II)

(Conclusão)
Augusta Clara de Matos


Casino Lisbonense, onde se realizaram as "Conferências Democráticas"


A política centralizadora da monarquia absoluta que tolhera liberdades anteriormente existentes;

Antero tinha razão ao fustigar assim a igreja porque a influência jesuítica não se restringiu ao meio religioso mas dominou, também, o ambiente político.

Ouçamos o que ele disse: “Essa funesta influência da direcção católica não é menos visível no mundo político. Como é que o absolutismo espiritual podia deixar de reagir sobre o espírito do poder civil? O exemplo do despotismo vinha de tão alto! Os reis eram tão religiosos! Eram por excelência os ‘reis católicos, fidelíssimos’. (…) A teocracia dava a mão ao despotismo”.

Até ao século XVI o poder da monarquia era equilibrado pela vida política local: os municípios, as instituições populares, as comunas, ao mesmo tempo que os privilégios da nobreza e do clero atenuavam o peso da coroa. Para assuntos de suma importância reuniam-se as Cortes. “A liberdade era então o estado normal da Península”.

A partir daí, a monarquia absoluta sufocou o poder local.

A reis como D. João III “fanático e de ruim condição”, D. João V, D. Afonso VI, “devassos uns, outros desordeiros, outros ignorantes e vis (…) A tais homens, sem garantias, sem inspecção confiaram as nações cegamente os seus destinos! (…) Se D. Sebastião não fosse absoluto, não teria ido enterrar em Alcácer Quibir a nação portuguesa, as últimas esperanças da pátria”.

Anulou-se a classe dos pequenos proprietários, governava-se para a nobreza, criaram-se grandes propriedades e impediu-se “o desenvolvimento da burguesia, a classe moderna por excelência, civilizadora e iniciadora, já na indústria, já nas ciências, já no comércio”.

As monarquias absolutas habituaram o povo a servir, à inércia, esperando o que lhe vinha de cima, transformado em prisioneiro, sem iniciativa, sem evoluir, preso à tacanhez dos costumes, sem liberdade. (…) quando mais tarde lhe deram a liberdade, não a compreendeu; ainda hoje não a compreende, nem sabe usar dela. As revoluções podem chamar por ele, sacudi-lo com força: continua dormindo sempre o seu sono secular!”

Isto foi afirmado em pleno século XIX. Mais de um século depois estará esta afirmação assim tão desactualizada?

Nos países que cresciam, os que tinham aderido à Reforma do catolicismo, assistiu-se à “elevação da classe média, instrumento do progresso nas sociedades modernas, e directora dos reis, até ao dia em que os destronou”

A economia baseada na riqueza acumulada à custa dos territórios descobertos e conquistados em África e no próprio Brasil.

Aquilo que sempre celebrámos como a nossa glória máxima enquanto país, os Descobrimentos, foi apontado por Antero de Quental como um dos motivos para a nossa progressiva decadência. “Embalaram-nos com essas histórias: atacá-las é quase um sacrilégio”, afirmou ele.

Acrescenta, no entanto: “A moralidade subjectiva desse movimento é indiscutível perante a história: são do domínio da poesia, e sê-lo-ão sempre acontecimentos que puderam inspirar a grande alma de Camões. A desgraça é que esse espírito guerreiro estava deslocado nos tempos modernos: as nações modernas estão condenadas a não fazerem poesia, mas ciência”.

Um pouco exagerada esta última afirmação de Antero de Quental. Mas entende-se o sentido em que a fez: as coroas depositaram a educação nas mãos dos jesuítas “cujos métodos de ensino, ao mesmo tempo brutais e requintados, esterilizam as inteligências, dirigindo-se à memória, com o fim de matarem o pensamento inventivo, e alcançam alhear o espírito peninsular do grande movimento da ciência moderna essencialmente livre e criadora”.

E, na esteira desse grande pecado jesuítico, Portugal só, pouco a pouco vai saindo desse atraso científico em que tem vivido desde então. Em pleno século XX, os governantes portugueses, manifestamente sem a clarividência de Antero, continuavam a manter que não podíamos investir em investigação fundamental – sem a qual sempre dependeremos, até mesmo nas aplicações, dos países que a ela se dedicaram - por sermos um país pobre.

Contentámo-nos, de facto, com as riquezas trazidas dos territórios de além-mar e descurámos o desenvolvimento da indústria. E esse erro estratégico levou ao empobrecimento do país à medida que o ouro do Brasil e os outros bens se foram esgotando. Para já não falar no modo como o fausto da corte e dos que a rodeavam se foram apropriando do espólio dessa rapina.

O que aconteceu nos países que cresciam foi precisamente o desenvolvimento da “indústria, finalmente, verdadeiro fundamento do mundo actual, que veio dar às Nações uma concepção nova do Direito, substituindo o trabalho à força, e o comércio à guerra de conquista”.

No entanto, a evolução de Portugal até ao século XVI tinha sido bem diferente e vale a pena ler a descrição : “No reinado de D. Fernando era Portugal um dos países que mais exportavam. A Castela, a Galiza, a Flandres, a Alemanha forneciam-se quase exclusivamente de azeite português. (…) No século XV vinham os navios venezianos a Lisboa e aos portos do Algarve, trazendo as mercadorias do Oriente, e levando em troca cereais, peixe salgado e frutas secas, que espalhavam pela Dalmácia e por toda a Itália.(…) As classes populares desenvolviam-se pela abundância e o trabalho, a população crescia. No tempo de D. João II chegara a população a muito perto de três milhões de habitantes…Basta comparar este algarismo com o da população em 1640, que escassamente excedia um milhão, para se conhecer que uma grande decadência se operou durante este intervalo!”.

Foram muitos os que deixaram as suas actividades para se tornarem soldados nas conquistas de além-mar. A população abandonou os campos, vindo para as cidades na mira das riquezas trazidas nas naus, mas o resultado foi o contrário e a miséria citadina aumentou e a agricultura degradou-se. A partir daí tudo só podia evoluir para pior: grassa a fome e a mendicidade aumenta. Camões, o grande poeta da epopeia, mendigando na velhice, é a triste imagem do estado a que a nação chegara.

A situação invertera-se de tal modo que, de exportadores de produtos agrícolas, e sem indústria, passámos a importar tudo: sedas, veludos e massas de Itália, vidro da Alemanha, panos de França, cereais, lãs e tecidos da Inglaterra e da Holanda. Tudo à custa do ouro da rapina e em favor da opulência da nobreza e da coroa. Até o ouro acabar. E o resto já todos sabemos.


Epílogo

Eça de Queiroz na época das Conferências

De facto, não há como fugir ao tema religioso no resumo desta Conferência porque Antero de Quental, embora não isentando o poder político das responsabilidades nefastas para a queda da posição preponderante que Portugal tinha no mundo, atribui à igreja católica, nas mãos dos jesuítas, uma grande responsabilidade, a montante, por todo este desastre.

“Essa transformação da alma peninsular fez-se em tão íntimas profundidades , que tem escapado às maiores revoluções (…) Há em todos nós, por mais modernos que queiramos ser, (…) um beato, um fanático ou um jesuíta! Esse moribundo que se ergue dentro de nós é o inimigo, é o passado. É preciso enterrá-lo por uma vez, e com ele o espírito sinistro do catolicismo de Trento”.
E, ainda, uma última frase de Antero: “A nossa fatalidade é a nossa História”.
De muito mais consta a conferência de Antero de Quental, uma peça literária imprescindível para compreendermos o Portugal de hoje e repensarmos o futuro.
Por agora, fiquemos por aqui.



Um mês depois, a Sala das Conferências democráticas foi encerrada, o que deu origem a um ao protesto assinado em 26 de Junho de 1871 pelo próprio Antero de Quental e por Adolfo Coelho, Jaime Batalha Reis, Salomão Saragga e Eça de Queiroz.
O texto rezava assim:

PROTESTO

Contra o Encerramento da Sala das Conferências Democráticas

Em nome da liberdade de pensamento, da liberdade de palavra, da liberdade de reunião, bases de todo o direito público, únicas garantias da justiça social, protestamos, ainda mais contristados que indignados, contra a portaria que mandou arbitrariamente fechar a sala das conferências democráticas. Apelamos para a opinião pública, para a consciência liberal do país, reservando-nos a plena liberdade de respondermos a este acto de brutal violência como nos mandar a nossa consciência de homens e de cidadãos.





publicado por Carlos Loures às 22:30
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2 comentários:
De Luis Moreira a 17 de Novembro de 2010 às 23:10
Muito bom, se tirarmos os personagens bem podemos dizer que estamos no presente.


De augusta.clara a 17 de Novembro de 2010 às 23:18
Nesta Evento gostaria de ter podido transcrever na íntegra toda a conferência da Antero de Quental, tão rica de pormenores e tão elucidativa quanto às origens do "inverno do nosso descontentamento". Na impossibilidade de o fazer, procurei traçar as linhas-mestras da sua reflexão e dar-lhe a palavra o mais possível. A quem não leu "As Causas da Decadênc ia dos Povos Peninsulares", aconselho vivamente a sua leitura. Às vezes questionamo-nos porque passámos de tão grandes à dimensão que temos agora. Está lá tudo muito bem explicado. Obrigada pelos comentários.


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