Quarta-feira, 21 de Julho de 2010
Bakunine por Bakunine (Raúl Iturra)
O REPOUSO DE UM GUERREIRO

Carta a Nikolai Ogarev



Assim, caro e velho amigo, eis que partiste para bem longe. Tranquiliza-me escrever, porque distante deles, os Herzen não te esquecerão nem te deixarão sem ajuda financeira, na miséria e na dificuldade, insuportáveis a um homem da tua idade e, além do mais, doente. Este é o primeiro ponto. Eis o segundo; deves ter encontrado em Londres um meio russo, ou mesmo um único russo com o qual podes ter trocado algumas francas palavras sobre a situação da Rússia, a qual, como sempre, te interessa com certeza mais do que qualquer outra coisa no mundo. É certo, Lavrov vive em Londres com todo o seu clã. Mas quando o conheceres melhor, ele e todos os outros, duvido que te pareça oportuno estabelecer relações de boa fé. A propósito, leste a minha última brochura anónima: Anarquia e Estado? Se ainda não leste, escreve-me, eu a enviarei.

Mas, sobretudo, peço-te uma vez mais, escreve-me com quem e como vives, quais são as pessoas que vês e com quem passas os teus dias. Eu temo que as relações inglesas da tua esposa (sem o pope) – tua esposa, à qual peço-te que dês minhas lembranças – sejam para ti não muito interessantes e que te sintas, hoje, em Londres, mais só do que nunca e do que em qualquer outro lugar – e na nossa idade isto é um sentimento penoso. Um único consolo: a morte que se aproxima. O sino soou muito; agora abandona o campanário.

Eu mesmo, meu velho amigo, coloquei-me à distância, e desta vez radical e irrevogavelmente, de toda a actividade real, de todo o contacto por empreendimentos de ordem prática. Primeiramente, porque a época actual não convém, decididamente, para acções deste género. O Bismarckismo, ou seja, o militarismo, a polícia e o monopólio das finanças confundidos num único e mesmo sistema que se chama Estado moderno, triunfam em todos os lugares. Talvez durante dez ou quinze anos, esta potente e científica negação de tudo o que é humano continue ainda o seu triunfo. Não digo que actualmente não se tenha nada a fazer, mas esta nova acção exige novos métodos e sobretudo forças novas e jovens, e sinto que não valho nada para esse combate. Foi por isso que apresentei minha demissão sem esperar que algum impertinente Gil Blas me venha dizer: “Monseigneur, plus d’homélies!”

A minha saúde não cessa de piorar, de forma que me tomei completamente inapto para novas tentativas ou acções revolucionárias aleatórias.

Por este motivo, retirei-me ao seio de minha família, vinda da Sibéria, e moramos todos juntos em Lugano, e não Locarno.

Com certeza deves ter ouvido falar, várias vezes, no ano passado, que eu comprei uma grande propriedade perto de Locarno; e, sem dúvida, como muitos outros, deves ter perguntado onde consegui dinheiro para esta aquisição. Eis, para ti, a solução do enigma: eu nunca fui o proprietário, fui unicamente um prête-nom 9 para o meu rico amigo Cafiero. Ficou decidido que eu seria o proprietário de nome, a fim de que eu pudesse adquirir a cidadania; o que nos pareceu necessário, pois um cidadão não pode ser expulso do cantão de Tessin, e a minha estada neste cantão havia sido julgada indispensável. Assim, passei por proprietário, por burguês; não apenas não me aborreci por me terem considerado como tal, mas fazia mesmo tudo o que era possível para que esta nova reputação se espalhasse o máximo possível. Quanto mais burguês pudesse parecer, mais útil e mais segura seria a minha actividade anónima.

Mas hoje, tendo definitiva e irrevogavelmente renunciado a esta actividade, não preciso mais de máscara; devolvi as minhas plumas de pavão, quero dizer, a propriedade, ao seu verdadeiro proprietário, a meu amigo Cafiero; eu próprio me distanciei e resido agora, com a minha família, em Lugano. Compreendestes? Se, sim, guarda isto para ti e não repitas a ninguém o que acabo de te dizer.

Fora isso, não cruzo os braços, trabalho muito. Primeiramente, escrevo as minhas memórias; e, em segundo lugar, simultaneamente, proponho-me a escrever, se as minhas forças o permitirem, uma última palavra sobre as minhas convicções mais íntimas, e leio imenso. Tenho actualmente três livros à mão: Kolb’s Culturgeschichte der Menschheit, Autobiography de Stuart Mill e Schopenhauer.

.

Leste a Autobiografia? Se ainda não o fizeste, não deixes absolutamente de fazê-lo. A obra é, ao mais elevado ponto, interessante e instrutiva. Do teu lado, escreve-me sobre o que lês; e, se valer a pena, recomenda-me. Chega de ensinar, nós iremos, amigo, dedicar-nos nos nossos velhos dias, a aprender. É mais divertido.

Escreve o mais rápido possível. Eis o meu endereço: Suíça Lugano, Caixa Postal.

Lugano, 1 1 de Novembro de 1874.



Senhor


M. Bakunine.


Eu te abraço, velho amigo, e lembranças de minha parte a Miss Mary. Responde-me rapidamente.


Teu M. Bakunine


Ilustração - um dos últimos retratos de Bakunine.


publicado por Carlos Loures às 15:00
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