Segunda-feira, 16 de Agosto de 2010
O Romantismo social português: 3 – Herculano
Sílvio Castro



Alexandre Herculano é a primeira grande figura literária inteiramente formada e integrada no Movimento romântico. O seu romantismo é total, pois envolve o autor em todas as suas manifestações e criações. Em Herculano, desde a mocidade, a expressão romântica tem a capacidade de traduzir tanto a mais recôndita, ainda que sempre muito ponderada, subjetividade lírica, quanto a mais ousada participação pública.

Filho dos tempos de grandes turbamentos porque passa a vida nacional, a estes dedica a mais profunda participação cívica e neles se incorpora para uma sempre atenta defesa das liberdades individuais e públicas.

Envolvido desde a mocidade nas lutas sociais de seu país, cedo realiza a experiência de um exílio que se faz mais difícil pelas limitadas condições materiais vindas das origens do muito moço Herculano. Inicialmente refugia-se na Inglaterra, mas ali não encontra o melhor correspondente aos seus sonhos de crescimento geral. Na França, logo em seguida procurada, ao contrário encontrará o refúgio positivamente desejado. Em contacto com a cultura francesa em plena efervecência romântica, Herculano saberá edificar a sua própria estrutura.

De retorno a Portugal, retoma as atividades políticas com o mesmo entusiasmo que o conduzira ao exílio. Será o rápido período no que a moderna personalidade liberal de Herculano se confrontará com as maiores dificuldades da ação política submetida a um tempo de perseverante instabilidade pública. Diante da forte personalidade polêmica do autor da História de Portugal mais profundamente integrada na melhor dimensão do pensamento liberal, o conflito com a política da instabilidade se radicaliza. Em seguida, o polemista democrático presente sempre nas atividades jornalísticas de Herculano arrefece em favor da vida privada rica de uma grande produção literária. Então, às primeiras experiências líricas já tradutoras de um poeta de alta dimensão criadora, sucede a fase maior da personalidade literária do poeta de A Harpa dos Crentes, a do romancista.

Os romances históricos de Alexandre Herculano são os maiores depositários da sua capacidade de levar o romantismo a uma participação social de rara modernidade. Neles se eleva constantemente aquela personalidade que servirá de modelo à intelectualidade portuguesa, com derivações também para aquela brasileira.

Ao lado do romancista, o historiador Alexandre Herculano exprime então um Liberalismo que, partindo de uma aparente predominante posição conservadora, atinge pontos revolucionários capazes de iluminar as mais ousadas perspectivas ideológicas, atingindo mesmo aquelas do nascente espírito socialista português. Desde então, o criador do Eurico praticamente se faz mentor do espírito progressista nacional, envolvendo personalidades como Antero de Quental, Teófilo Braga e outras. Exemplo da importância do renovador do romance histórico de origem escottiana entre os intelectuais de seu tempo, mostra-se a troca de correspondência entre Oliveira Martins e Bulhão Pato nos dias precedentes à morte de Herculano. No dia 11 de Setembro de 1877, Oliveira Martins escreve ao seu confrade: “Chego ao Porto e vejo as notícias desoladoras da saúde do nosso Mestre. Estive para partir para Santarem, mas reflectindo, pensei que nenhum bem iria ahi fazer, e só porventura dar encommodo, em ocasião tão afflitiva. Tu que sabes quanto eu venero e estimo o nosso Homem podes imaginar a anciedade em que estou.” Bulhão Pato anuncia a Oliveira Martins a morte de Herculano: “Morreu o nosso querido Mestre. Deixe-o hontem às 5 da tarde, quando começou o delírio. Não pude mais! Nem agora posso. Estou aniquilado, conheces-me e sabes que te digo de verdade. Perdeste um grande amigo, posso affirmal-o. Era mais de que um talento, era um justo.“


publicado por Carlos Loures às 16:30
link do post | comentar

EDITORIAL
AUTORES
Adão Cruz

Adriano Pacheco

Alexandra Pinheiro

Andreia Dias

António Gomes Marques

António Marques

António Mão de Ferro

António Sales

Augusta Clara

Carla Romualdo

Carlos Antunes

Carlos Durão

Carlos Godinho

Carlos Leça da Veiga

Carlos Loures

Carlos Luna

Carlos Mesquita

Clara Castilho

Ethel Feldman

Eva Cruz

Fernando Correia da Silva

Fernando Moreira de Sá

Fernando Pereira Marques

Hélder Costa

João Machado

José Brandão

José de Brito Guerreiro

José Magalhães

Josep Anton Vidal

Júlio Marques Mota

Luís Moreira

Luís Rocha

Manuel Simões

Manuela Degerine

Marcos Cruz

Maria Inês Aguiar

Paulo Melo Lopes

Paulo Rato

Pedro Godinho

Raúl Iturra

Rui de Oliveira

Sílvio Castro

Vasco de Castro

Contacte-nos
estrolabio(at)gmail.com
últ. comentários
Aí meu Deus eu tenho um pavor a esses bichos! Un d...
ei pessoal do bat cav 1927 e ex combatentes boa pa...
Eu fiz uma descoberta que eu gostaria de compartil...
I recebeu um empréstimo em um notável credores, ho...
Eu fiz uma descoberta que eu gostaria de compartil...
Eu fiz uma descoberta que eu gostaria de compartil...
Recebi um empréstimo de um credores excepcionais, ...
Para a sua atençãoMais preocupação por seus proble...
Carlos Loures a Anália já aqui disse tudo. Ter em ...
Caro Carlos Loures, Obrigada pela sua resposta. Es...
pesquisar neste blog
 
posts recentes

De 26 de Setembro a 2 de ...

As minhas novas pegadas (...

A viagem dos argonautas

Portugal, a União Europei...

Políticos que cumprem ! P...

O Ministro Gaspar

Anima ver o lado positivo

Palavras Interditas - por...

Os jornais e as notícias ...

Summer Time - Ella Fitsge...

arquivos

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

tags

todas as tags


sugestão: revista arqa #84/85
links