Quinta-feira, 16 de Setembro de 2010
Testemunho
Eva Cruz


Leccionei 36 anos, aposentei-me há nove. Vivi intensamente todas as reformas, algumas revolucionárias, de todo este processo. Continuo a interessar-me por esta matéria, mas confesso, já não com o afinco e a devoção com que a acompanhei quando estava no activo.

Fui aluna no Velho Regime, passei pelos crivos apertados de um liceu Carolina Michaelis, de uma Universidade de Coimbra, formatei-me no Estágio Clássico, fiz Exame de Estado. Leccionei e tive cargos na organização direccional da Escola Velha, como a considero.

Apesar de reconhecer que foi essa Escola que me deu o saber, julgo que foi também ela que, com os seus defeitos, me abriu os olhos e a mente para desejar que nunca mais volte. Digo isto, porque a atoarda de que “noutros tempos sim”, de que “hoje não há respeito por nada, nem por ninguém”, traduz, em alguns casos, um saudosismo de uma Escola que já não serve. A Escola do Velho Regime tinha muitos defeitos. Potenciava e gerava desigualdades, desprotegia os mais fracos, calava as ideias e camuflava a verdade com a hipocrisia.

Surgiu a abençoada Revolução do 25 de Abril, que pôs fim a uma ditadura obsoleta e a uma guerra cruel que deixou marcas profundas na pele dos que com ela sofreram, que foi o meu caso. Brilhou então a luz, e o sol entrou na escola inóspita e bolorenta, transformando-a. A Escola Democrática foi assim sendo construída passo a passo por professores, sindicatos, ministérios, alunos e outros intervenientes no processo.

Surgiu a Lei de Bases do Sistema Educativo, conquistou-se o Estatuto da Carreira Docente, criaram-se órgãos pedagógicos importantes e a gestão Democrática da Escola. Foram 35 anos de lutas e conquistas de grandes pedagogos, grandes pensadores e corações generosos, rumando à construção de uma Escola Nova, a Escola do Saber Ser, assente em projectos de cidadania e felicidade humana.

Sabem hoje todos os professores e alunos que apontaram o barco nesse rumo, avaliar o que a Escola de hoje vai perdendo. Digo isto porque, apesar de um tanto alheada do Ensino, vejo tantos atropelos e vejo tanta conquista ir por água abaixo, sem saber a troco de quê. Só a título de exemplo, o que incomodava uma Gestão Democrática? Porquê o Director? Saudades do velho Reitor? O modelo da Gestão Democrática tinha algumas lacunas, mas este é pior porque concentra o poder numa só pessoa. Um órgão colegial serve melhor a democracia, distribuindo e equilibrando poderes. Fora os outros perigos que daí hão-de resultar. Ao que parece, nem benefícios económicos tal alteração trouxe para o país.

Há sem dúvida uma visão tecnocrática da Escola. Hierarquiza-se , burocratiza-se, rotula-se em rankings manipulando estatísticas, desenvolvendo competições com causas e consequências negativas para um Ensino sério. A Escola não é uma empresa. É uma organização com um estatuto muito próprio, onde os recursos materiais e humanos têm de ser orientados de forma singular no sentido de conseguir os seus nobres objectivos, formar pessoas, seres livres e pensantes.

Quanto à avaliação, para já é preciso saber distinguir entre avaliação e classificação. Sou pela primeira e contra a segunda. A avaliação teve sempre para mim uma carga valorativa e pedagógica em detrimento da carga punitiva. Avalie-se antes de mais o Sistema, incluindo os Ministérios e os Ministros da Educação. A arrogância não leva ao diálogo, nem ao esclarecimento. Ministros há que nem a sua própria língua usam com correcção. Erros de conjugação de verbos, de construção de frases não abonam muito em seu favor em campo nenhum e muito menos no da Educação. Avalie-se a Escola, avalie-se os professores e exija-se na sua formação, não só científica mas também humana.

Para além de saber a ciência que ensina, o professor tem de ser um bom pedagogo. Para além de outros atributos, o professor tem de saber exprimir-se bem por escrito e oralmente. O escrever e falar bem não deve ser apanágio só dos professores das Humanidades, mas de todos. Há profissionais tecnicamente competentes mas incapazes de passar o seu pensamento para um texto escrito ou discurso oral. Exprimir-se bem é pensar bem. Aí se revela o espírito de análise, de síntese, de concatenação de ideias, de lógica, de ordem. E é preciso criar nos alunos essas competências de escrever e falar bem.

Aposte-se no perfil do professor. Exija-se na sua formação inicial e contínua mas com seriedade. Valorize-se a profissão. Vale a pena o investimento. Melhorando a Educação, melhora a Saúde, a Justiça, melhora a Vida. É preciso dar à Escola capacidade para ver mais longe, com outra amplitude, a fim de que, analisando em profundidade e com verdade, aposte numa nova ética da Educação.


publicado por Carlos Loures às 16:30
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3 comentários:
De Luis Moreira a 16 de Setembro de 2010 às 17:15
Cara Eva, uma organização que não tenha avaliação tambem não tem objectivos, e não tendo objectivos, não tem programas e não tendo programas não tem sentido e não tendo sentido, não sabe para onde vai e não sabendo para onde vai não sabe o que pedir aos seus professores e técnicos.Quando um professor entra de manhã na escola, vai fazer o quê? despejar a matéria?,assegurar-se que os alunos ficaram a dominar uma série de conceitos fundamentais? que conceitos? e assim por diante.Se não houver esta harmonia entre todos, uns remam para um lado e outros para outro lado.PS: não leve a mal mas esta função faz parte da minha profissão.


De Eva Cruz a 16 de Setembro de 2010 às 22:14
Caro colega, Luís Moreira

Pois,o problema está precisamente nos objectivos. Qual o objectivo do processo Ensino-Aprendizagem? Esse objectivo geral condicionará os objectivos específicos.
É evidente que a sociedade gera a escola e a escola gera a sociedade. E tudo isto depende das políticas de Educação.
Por isso, penso que é pregar aos peixes, embora a minha vivência como professora, de rigor e exigência,com muito sonho à mistura mas com os pés assentes na terra, me tenha deixado a convicção de que o que penso é possível e não é mera utopia.


De Luis Moreira a 16 de Setembro de 2010 às 23:05
cara colega, claro que não é utopia, há gente muito boa. O que é necessário é dar um sentido à escola, saber o que esperar dela,que condições necessita, que meios humanos, técnicos e financeiros.Só quem trabalha na escola e a sente é que pode fazer que a escola se autonomize. Não é possível que uns quantos burocratas da 5 de Outubro, conheçam a realidade de todas e cada uma das escolas. Ninguem sabe melhor quem é interessado e competente que os colegas. Isso tem que ser sublinhado. O mérito tem que ser reconhecido. Não somos iguais.


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