Sexta-feira, 26 de Novembro de 2010
DIa do Porto: O Porto e o 31 de Janeiro
João Machado

O 31 de Janeiro foi a primeira tentativa de implantar a república em Portugal. A relevância histórica deste acontecimento é de primeira grandeza. E tem de se salientar que não aconteceu no Porto por acaso. Durante o século XIX, a vida política portuguesa foi agitada por numerosas convulsões, na sua maioria sob influência dos grandes conflitos internacionais do tempo. A disseminação das ideias progressistas propagadas na sequência da Revolução Francesa teve impacto considerável, os acontecimentos que iam ocorrendo em Espanha também, claro que sobretudo junto das pessoas mais instruídas, que mais facilmente se apercebiam do que se passava lá fora, e das consequências respectivas.

Evidentemente que foi sobretudo nos meios urbanos que essas ideias granjearam mais adeptos. O Porto, o centro mais importante do Norte, com muitas ligações ao estrangeiro, com destaque para o Reino Unido, desempenhou um papel de relevo na maioria das grandes movimentações políticas ocorridas em Portugal no século XIX. O desenvolvimento económico e cultural da cidade contribuiu poderosamente para que desempenhasse esse papel. Várias das acções promovidas pelos portuenses ao longo deste período foram decisivas para o avanço da democracia em Portugal. O seu desenrolar culminou no 31 de Janeiro, quase vinte anos antes do 5 de Outubro.

Há que destacar em primeiro lugar que o Porto foi o centro de onde o liberalismo (o liberalismo vintista) irradiou para todo o país. Foi a partir do Sinédrio, uma tertúlia política formada em 1818 por cidadãos portuenses, ou ligados intimamente à cidade, com destaque para o magistrado Manuel Fernandes Tomás (1771-1822), que se formou o movimento que levou à Revolução de 1820 e à elaboração da Constituição de 1820. 

Grande número de cidadãos portuenses, ou de algum modo ligados ao Porto, tiveram participação notória na vida nacional nos anos seguintes, como Almeida Garrett, os irmãos Silva Passos, José Ferreira Borges, José da Silva Carvalho; Manuel Borges Carneiro e tantos outros. Manuel Fernandes Tomás, considerado como o patriarca da Revolução, integrou a Junta Provisional do Governo Supremo do Reino e apresentou ao parlamento, em 1821, o Relatório do Estado Público de Portugal. A sua morte, no ano seguinte, afectou seriamente os acontecimentos políticos que se seguiram.


Manuel Fernandes Tomás
Em 1828 ocorreu a chamada Belfastada. Formou-se uma Junta no Porto para fazer frente a D. Miguel, que tinha entretanto assumido o poder, e regressado ao absolutismo puro e duro. Várias cidades a norte do Mondego aderiram ao movimento, e começou a formar-se um governo provisório. Um grupo de liberais, refugiado em Inglaterra, alugou o vapor Belfast, e veio para o Porto apoiar os revoltosos. Tendo-se desentendido, ante a aproximação dos miguelistas, voltaram para Inglaterra no mesmo barco.

Em 1832 ocorreu o desembarque dos liberais no Mindelo, vindos dos Açores, e que entraram no Porto sem encontrarem resistência por parte das tropas miguelistas. Mas depois tiveram que suportar o cerco da cidade durante um ano, em situação de grande desproporção de forças. As forças liberais conseguiram suportar o cerco, obviamente, porque dispunham do firme apoio da população portuense.

Anos depois, e na sequência das reformas tendentes à centralização administrativa decretadas por Costa Cabral, rebentou no norte de Portugal uma revolta popular, a Maria da Fonte (1846). A ela se seguiu um movimento de outra índole, mas também tendencialmente revolucionário, a Patuleia, que tinha à cabeça a Junta do Porto, aliando facções de vários quadrantes. A Junta organizou um Governo provisório, levou a guerra a todo o país e começou a preparar a marcha sobre Lisboa. Contudo, a derrota em Setúbal de uma coluna que marchava sobre Lisboa, a de outra em Torres Vedras, os choques entre miguelistas e setembristas e a intervenção estrangeira levaram à sua rendição, que ficou consumada na Convenção de Gramido, em 24 de Junho de 1847. Gramido fica em Valbom, Gondomar.

Em 1851, foi a adesão do quartel de Santo Ovídio ao movimento encabeçado por Saldanha (que tinha comandado a campanha contra a Patuleia) contra o governo de Costa Cabral que abriu caminho à Regeneração. O marechal tinha-se refugiado na Galiza por falta de apoio às suas pretensões a um lugar de destaque na corte, mas assim que soube do apoio daquela unidade militar regressou imediatamente a Portugal. Assim começou no país uma época de relativa estabilidade política, e de algum desenvolvimento económico, que culminou no chamado fontismo.

Em 1876, no Pacto da Granja, praia situada no concelho de Gaia, fundem-se o Partido Histórico e o Partido Reformista, para formarem o Partido Progressista. No mesmo ano aparece no Porto o Centro Eleitoral Republicano Democrático do Porto. Nas eleições de 1878 verifica-se o regresso à alternância partidária com o Partido Regenerador.

Foi pelo Porto, em 1878, que o Partido Republicano de Portugal conseguiu eleger o seu primeiro deputado, o engenheiro, professor catedrático e publicista José Joaquim Rodrigues de Freitas (1840-1896). Esta notável figura já anteriormente tinha ocupado o lugar de deputado pelo Partido Histórico, mas foi-se aproximando dos ideais republicanos, tendo mesmo, em 1874, feito na Câmara dos Deputados um discurso memorável, no qual defendia a superioridade do regime republicano sobre o monárquico. 

J.J. Rodrigues de Freitas (Biblioteca Jaime Cortesão)

Em 1881, apareceu no Porto um importante jornal republicano, o Folha Nova, com Emídio de Oliveira como redactor principal, e um naipe de jornalistas que incluía, entre outros, Sampaio Bruno.

Em 1890 ocorreu o Ultimato inglês, que constituiu um rude golpe no orgulho do nosso país. A reacção foi enorme por todo o país, nos vários quadrantes políticos, e também no meio militar. Ficou claro o descrédito da monarquia, como sistema de governo, e também no aspecto de identificação do rei com o interesse nacional. Jovens militares do Porto começaram a pensar numa revolta, e a pedirem o apoio da população. Chegou mesmo a formar-se um directório civil, que incluiu o advogado Alves da Veiga (que chegou a proclamar a República das janelas da Câmara Municipal) e os jornalistas João Chagas e Sampaio Bruno. A má preparação da acção militar no terreno, conjugada com o abandono da maioria dos oficiais superiores, levou ao falhanço da revolta.

A República, quando foi proclamada, era uma aspiração de muitos portugueses havia já várias dezenas de anos. E nisso o Porto teve um papel muito importante, senão decisivo, ao manter essa chama acesa.


publicado por CRomualdo às 18:00
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1 comentário:
De Luis Moreira a 26 de Novembro de 2010 às 18:12
Muito bom trabalho,João.Bem escrito e melhor preparado!


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