Segunda-feira, 16 de Agosto de 2010
Apologia de Sócrates
Carlos Loures



Foram Xenofonte e Platão, sobretudo o segundo, com a sua série de diálogos socráticos, quem deu existência e espessura a uma entidade que, sem os seus escritos não existiria para nós. Platão terá feito um retrato justo do filósofo. Diógenes Laércio, séculos depois biografou Sócrates, inspirando-se no que os discípulos e contemporâneos sobre ele tinham deixado escrito. Porque, como Abu Tammam o grande poeta do século IX, nascido na actual Síria, afirmou (e já aqui citei) só o que é escrito existe - a glória sem palavras é um deserto vão e sem sentido.

De Sócrates não nos ficou uma palavra escrita pelo seu punho. Dele apenas temos o que dele disseram. A maneira como viveu e, sobretudo, o seu pensamento, constituem como disse Sant’Anna Dionísio «uma inexaurível fonte de hipóteses».

Não vou massacrar-vos com a história de Sócrates, ou com o seu julgamento. Isso foi feito por Platão, Xenofonte, que nos transmitiu dele uma imagem que parece ser simplista, redutora, ou Aristófanes (que o ridicularizou) descreveram em registos diferentes. Porém não nos restam dúvidas, porque nisso todos os que sobre ele testemunharam estão de acordo, é que Sócrates privilegiou a dimensão ética do ser humano como seu campo de estudo.

Deixou, através dos que sobre ele escreveram, dezenas ou mesmo centenas de citações como aquela em que diz que «a maneira mais fácil e segura de vivermos honradamente, é sermos, na realidade, aquilo que parecemos ser» ou que «se o homem desonesto conhecesse as vantagens da honestidade, ele seria honesto quanto mais não fosse por desonestidade». São muitas e podem ser encontradas em enciclopédias ou na net. Não vos castigarei com elas

Deu um exemplo da sua honradez, ao argumentar sarcasticamente perante o tribunal de 500 juízes (o tribunal dos heliastas), representantes da população de Atenas, determinando a sua condenação ao suicídio. Pode dizer-se que preferiu a morte a abjurar os seus princípios. E recusou-se a fugir, como poderia ter feito e como os seus amigos pretendiam que fizesse.

Se tivesse fugido e não tivesse dado uma última lição depois de ter ingerido a fava de cicuta, ninguém ou quase ninguém saberia sequer que, entre 470 e 399 antes da nossa era, viveu um homem que ensinava sem cobrar nada aos que dele colhiam a sabedoria e que fez da sua vida um exemplo dos princípios que defendia. Sócrates não existiria.

Se tivesse fugido, teria prevalecido a imagem distorcida que Aristófanes dele traçou na sua peça «As nuvens», acusando o filósofo de exercer uma influência nefasta sobre a sociedade. Por seu turno, Platão não o exaltaria de forma tão apaixonada, insuflando na descrição do mestre o génio que ele próprio, Platão, possuía.Se tivesse fugido, quem sabe se a filosofia do Ocidente, de Rousseau a Hegel, passando por Kant, que usaram muito da sua dialéctica como alicerces das suas teses, seria o que é? Nietzsche que fundamentou a sua filosofia na negação de Sócrates, o que teria feito? Estamos aqui a falar dele, porque não fugiu. Preferiu a morte à mentira.

Nos últimos tempos, tenho visto pela blogosfera muitos textos sobre Sócrates. Bem sei que não é aquele de que tenho estado a falar. Não vou fingir que me equivoquei e fazer trocadilhos fáceis entre o filósofo e o primeiro-ministro português. Conforme já disse, sobre o primeiro-ministro não falo, Ele é apenas o actual e transitório rosto de um sistema, de um conceito de democracia que abomino. Quando deixar o Governo, outro virá, igual, um pouco melhor, ou um pouco pior. Mas nunca substancialmente diferente. E isso é que me preocupa.

Vou apenas aconselhar aos futuros pais e padrinhos a que tenham cuidado ao escolher nomes para filhos e afilhados. Há nomes muito pesados para atribuir a seres tão indefesos que acabam de chegar ao mundo e que depois, pela vida fora, vão transportar o estigma e a responsabilidade de um nome que nada tem a ver com aquilo que são, dizem e fazem.


publicado por Carlos Loures às 12:00
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13 comentários:
De Carlos Mesquita a 16 de Agosto de 2010 às 16:21
Caríssimo
Não ouviste o que se passou no Pontal, (tinhas os ouvidos na ponta da Pontinha, no clube do papagaio) fica sabendo que o Iznougoud tem como plano para usurpar o trono de Sócrates levá-lo a tomar cicuta - antes do dia nove senão perde o efeito. A Rentrée vai ser o coro da oposição a cantar: Ó Sócrates toma a cicuta...Tóoma..Tóoma. Até vai abanar a barraca dos couratos!


De carlos loures a 16 de Agosto de 2010 às 18:01
Como sabes, essas coisas do Pontal e das rentrées político-partidárias, passam-me ao lado. Interessam-me tanto, quanto as telenovelas ou os romances dos jogadores de futebol. Há aqui no Estrolabio quem se preocupe com esses temas (tu, és um deles) - a especialização, hoje em dia, é tudo. Porém, quando me dou ao trabalho de me inteirar, está tudo na mesma. Só os nomes é que mudam. Não sei como é que vocês têm paciência...


De Carlos Mesquita a 16 de Agosto de 2010 às 19:03
Discordamos, na mesma em relação a quando?
Por mais que não queiramos, as políticas, sejam pequenas políticas, ou grandes políticas têm influência na nossa vida colectiva. Eu não estou na mesma e vejo muito poucos na mesma. Uns estão melhor outros estão pior e o seu futuro vai ser determinado por quem vai exercer o poder e como o vai exercer. Obviamente não ligo ao folclore dos Pontais e rentrées, mas não alinho na tese de que são todos iguais; são iguais numas coisas e muito diferentes em outras. Eu dou importância a essas diferenças.


De carlos loures a 16 de Agosto de 2010 às 20:02
Claro que são diferentes. Mas são diferenças de estilo, de linguagem. Nada de substancial. Prefiro gastar as energias noutras guerras. Mas compreendo a tua posição e a dos que pensam que é preferível o José Passos Coelho ao Pedro Sócrates.


De Luis Moreira a 16 de Agosto de 2010 às 21:02
Bem sei que é conversa entre amigos, mas já que não há alternativas que haja alternância.Têm menos tempo de aquecer o lugar...


De carlos loures a 16 de Agosto de 2010 às 21:16
Isso, ponham-se de acordo contra mim.
Por tu entrares, não deixa de ser uma conversa entre amigos... bem é mais uma desconversa. Mas a desconversar é que a gente se desentende.


De Carlos Mesquita a 16 de Agosto de 2010 às 21:41
Caro Carlos
Não me ponhas de acordo com ninguém, em principio discordo de toda a gente. E não me ponhas como defendendo o Sócrates que bem sabes que não é isso que está em causa. Preocupo-me com matérias concretas; como o SNS, onde recorro como a maioria da população, a política energética que define o futuro do país qualquer que seja o regime, a desertificaçõa do interior, as relações e condições de trabalho, a ética política, a independência da Justiça e outras minudências que é fastidioso listar. No fundo aquilo que se passa, e sobre o qual disse ir opinar. Ninguém consegue fazê-lo abstraindo-se da existência dum espectro partidário. Os partidos fazem parte da realidade sociológica, os seus dirigentes também, ignorá-lo é uma forma de actuar; como se nada fosse possível fazer ou defender. Discordo em tese que são todos iguais na substância, particularmente quando o tempo é de resistir a que nos tirem tudo que conquistamos. No fundo não defendo a política de quanto pior melhor, não estou instalado numa direcção partidária que rejubila com as manifestações dos desgraçados fazendo contas a quantos deputados isso vai render.

PS. O assunto é interessante, embora discorra duma brincadeira, vou escrever sobre ele para continuar a conversa. Primeiro tenho de ir trabalhar para a concorrência.


De Luis Moreira a 16 de Agosto de 2010 às 22:23
Não tenho dúvidas que estamos de acordo quanto às áreas, quanto à maneira de as defender é que pode haver discordâncias.Por exemplo o SNS, que num país pobre e desigual (cada vez mais pobre e mais desigual, diga-se) é ainda mais importante, mas não percebo porque que é que as pessoas que pagam seguros de saúde não devem accionar os seus seguros quando vão a um hospital. Por ser tendencialmente gratuito? para as seguradoras? Pois se os accionam quando vão aos privados!


De carlos loures a 16 de Agosto de 2010 às 23:11
Não, Luís, o Carlos Mesquita faz questão de estar em desacordo. Devemos respeitar estas questões de princípios. Eu compreendo-o - há dias em que tenho uma grande dificuldade em estar de acordo comigo. Um dia, alguém se cruzou com o Jorge Luis Borges numa rua de Buenos Aires (ele ainda não cegara) e perguntou-lhe: - É o senhor Jorge Luis Borges, não é? Resposta: - Às vezes...
Fico à espera do artigo do Mesquita. E quando fizer a crítica,, não me esquecerei dessa boca do «clube do papagaio».


De Carlos Mesquita a 17 de Agosto de 2010 às 09:29
Meus queridos amigos, só agora vim ao blogue. Entendo que as caixas de comentários devem terminar com o autor do artigo, para o diálogo não ser interminável.
Entro só por causa do papagaio. Eu conto a história do papagaio.
Aquando da ocupação de Timor Leste uma das nossas TVs descobriu no Porto um casal fugido do conflito, ela da Indonésia, ele timorense. O quarto do casal estava revestido de material do F.C.do Porto, o timorense era ferrenho adepto do Porto. A jornalista perguntou-lhe porque era do Porto e não era por exemplo do benfica. Ele respndeu sem hesitar - do benfica? Nunca! Porquê se até Xanana é do benfica? voltou ela perguntar. Por causa do papagaio na bandeira, tem um papagaio como a bandeira da Indonésia!
Dirão que a bandeira da Indonésia não tem nenhum papagaio, não tem; mas a Indonésia tem um Brasão com um bicharoco com penas que pretende ser uma águia, tem aliás o olhar do Luís Filipe Vieira. É bem possível que as tropas indonésias usem esse brasão nos seus estandartes. Está explicado. A razão porque usei o papagaio é evidente.


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