Domingo, 12 de Setembro de 2010
O melhor cabrito do mundo
Adão Cruz

Não foi só o cabrito. Outros factores houve que nos fizeram deslocar do Porto, de Amarante, de Marco de Canaveses, de Setúbal, de Sever do Vouga, de Vale de Cambra, embora todos sejamos naturais de Vale de Cambra, com raras excepções. E o mais forte de todos foi a amizade que vem dos tempos da juventude. O outro foi a Serra. A magnífica e deslumbrante Serra da Gralheira, estendida pelos seus três contra-fortes, Freita, Arestal e S. Macário. Quem não conhece estes caminhos da Freita, Merujal, Castanheira, Mijarela, Albergaria da Serra, Salgueiro, Manhouce, Cabreiros, e tantos outros tem obrigação de cá vir pois não sabe o que perde.

O Prof. Vasco nasceu por aqui, rente ao céu. Conhece a Serra como ninguém, desde os altos cumes até às rendilhadas intimidades das suas imensas saias rodadas. Levou-nos desde o Merujal, serra acima e serra abaixo, de onde se vê o mundo, até meio da encosta de onde se vê Arouca, Moldes e Alvarenga. O dia límpido de ontem, de sol resplandecente, o profundo silêncio que se ouve, a brisa acariciadora que vagueia sonâmbula pelo alto dos montes, a soberba paisagem de princípio do mundo, arrebatam-nos, quer queiramos quer não, para a nossa dimensão universal. O único vector antropocêntrico que ainda se fazia sentir era a esperança do cabrito.

O recolhido lugar do Espinheiro fica nesse local da encosta, escondido entre frondosa vegetação. O carro torce-se todo para lá chegar, mas depois aninha-se satisfeito num pequeno terreiro empedrado, verdadeiro miradouro. No coração deste bocadinho de terra, a pequena ”Casa no Campo” do Sr. Manuel, reconstruída um pouco à moderna mas com elegância, sobriedade e requinte, olha para nós a querer atrair-nos para o que vai lá dentro. E o que vai lá dentro só pode ser sentido.

A paisagem deve ser daquelas que existem no céu, e o cabrito também, se é que lá, no céu, se come cabrito. Que simplicidade de requinte e que requinte de simplicidade. No decorrer da vida todos nos vamos dando conta de que o valor das coisas vai sendo, cada vez mais, directamente proporcional à simplicidade. E a simplicidade da história, da tradição, da nobreza e da beleza daquele alguidar de arroz de forno e daquela travessa de cabrito é um poema.

O melhor cabrito do mundo. Digo-o, porque não imagino que se possa fazer melhor. Foi um belo dia, uma lição de natureza, de amizade, um lampejo de sonho e de encanto. Mas também uma lição de gastronomia, colhida na simplicidade rústica e na simpatia do Sr. Manuel (que diz ter sido meu doente em criança) e da família. Uma lição de hotelaria onde deviam vir aprender alguns dos que julgam que sabem tudo.

Bem hajas Vasco.



publicado por Carlos Loures às 23:55
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1 comentário:
De Luis Moreira a 13 de Setembro de 2010 às 00:05
Adão, o cabritinho confeccionado pela minha irmã pede meças. Logo a seguir a Penafiel, antes de entrar na estrada que nos leva a Amarante, logo após o Sameiro, mora a minha irmã laura, rodeada de filhos e netos.Uma vivenda, com quintal e árvores de fruto e o forninho a lenha"carago", já quentinho, no ponto que o segredo está aí. E meu amigo, aqui o Luis só come arroz e batatas, o cabritinho deixa cair os seus favores para cima das travessas de barro,e a Laura "então irmão não comes cabrito? não está bom? Eu vou voltar para a minha irmã!


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