Quarta-feira, 13 de Outubro de 2010
Os Senhores Singulares -( O romance da revelação do Brasil)- 2 - por Sílvio Castro


Falando com Vossa Senhoria percorro com uma nova tranquilidade as minhas experiências. Como se pudesse retomar a caravela que partia do Restelo naquele dia já distante; como se fosse alguma coisa de outra pessoa, não minha. Vossa Senhoria quer saber como foi a viagem? Será preciso que eu retorne não somente ao meu barco, mas também aos sentimentos que me acompanhavam então. Se Vossa Senhoria me permitir, nada direi sobre a razão da minha pena. A culpa que carregava e que levara o meu nobre senhor Sebastião Telo a conduzir-me ao tribunal, eu a reconheço. Principalmente porque o meu senhor merecia toda a minha fidelidade e eu jamais desejaria ofendê-lo. Eu o ofendi e à sua casa com o crime da minha ira inconsciente, mas eu também sei que o fiz por muito amá-lo. Já não poderei jamais caminhar com ele pelas aléias de seu jardim, não mais acompanhá-lo nas suas viagens por Portugal e Espanhas. Não mais usufruirei de seus conselhos paternos, nem da estima que ele me concedera quando entrei na sua casa ainda adolescente. Ele me salvou da morte, mas me conduziu para o definitivo degredo. Quero dizer a Vossa Senhoria, que é um homem de grande compreensão, que não sei se não morri evitando a morte.

 Principalmente quando o meu nobre senhor me entregou ao Almirante naquele dia de definitiva partida no Restelo. Ao entrar na caravela que me levaria para longe, logo soube que comigo iriam muitos outros degredados, todos destinados a ficar nas Índias. Eu me abismava diante de muitos deles, pois não crera jamais que poderia ser um dia como alguns deles, homens violentos, brutos como feras bestiais. Diante deles eu me apavorava e me escondia naquele moço que já fora no Ribatejo, filho de minha mãe, minha doce mãe, que me conduzia pelos caminhos conhecidos, nas tardes de luz transparente, caminhando, caminhando nos prados floridos, entre cantos risos corridas.


O nosso Almirante, apenas partida a grande armada de treze naves, me endereçou aos serviços de Bartolomeu Dias. Com ele eu me livrei da presença vizinha dos outros degredados e pude pouco a pouco recuperar tranquilidade. Bartolomeu Dias me aparecia como um ser quase fantástico. Ele era ao mesmo tempo terrível e acolhedor. Suas ordens eram diretas, sua justiça certa. Tudo nele era imediato. O rosto jovem e ao mesmo tempo senhoril incutia obediência. Tudo lhe parecia obedecer. Até mesmo o mar.

Quando as vagas se exaltavam, ele estava ali no comando, afrontando tudo, e seus olhos percorriam o ondular violento, sem medo, pronto a dominar. Nós estávamos diante de Bartolomeu Dias e sabíamos com certeza que o mar respeitava o seu comando; que aquele balançar angustiante da nave logo passaria. Com Bartolomeu Dias as tempestades sempre passavam e o mar retomava um vagar que não é pena.

Eu servia Bartolomeu Dias e a cada dia da navegação aprendia com ele que o nosso caminhar era de certezas. Assim foi por muitos dias.

As treze naus de Pedro Álvares Cabral prosseguiam na direção destinada pelo nosso Soberano, superando o mar, logo perdendo de vista as praias de Portugal. Cedo tocamos as Canárias, viajamos ao longo, sempre mais ao longo, por dias e dias, até que chegamos ao arquipélago de Cabo Verde. Entre aquelas ilhas ficamos por um pouco, com um mar calmo. Depois partimos ainda. Foi então que nos assaltou uma calmaria. Nela restamos, como que caminhando somente com os nossos sonhos ou angústias. O mar não se movia. As velas antes pandas serenavam sempre e a noite as encobria. Era fácil ver os peixes que nadavam em volta das caravelas na calma daquele silêncio imóvel. Então amanheceu e os olhos de marinheiros, viajantes, condenados, procuravam na imobilidade da alva um movimento que poderia vir dos barcos mais apartados. Treze naves viajavam na imobilidade. Então, no alvorecer, correu o pavor de um alarme. Nave ausente! Desaparecera a nau do capitão Vasco de Ataíde.

Bartolomeu Dias inventou o vento, mas Vasco de Ataíde não mais foi encontrado.

Eu sei que Vossa Senhoria, melhor que ninguém, conhece um drama assim. Tudo é absurdo num naufrágio quando o perigo não existe. Então aprendi que o mar é um abismo que se abre mesmo quando crês que ele te acalenta.

E em doze retomamos o navegar. Por dias e dias, sem avisos nem encontros. Até que um dia, de longe, um vulto de montanha, monte, serra, apareceu. Diante da sombra daquele monte caminhávamos no entardecer de um dia feliz e quanto mais avançávamos com as velas plenas na penumbra, com o aparecer das primeiras estrelas, mais a terra se abria toda diante de nós. Foi bela aquela noite diante das estrelas novas e da terra.

 Eu, devo dizer a Vossa Senhoria, não conseguia dormir, pois meus olhos não deixavam os contornos da terra encontrada, como se atraídos por alguma coisa que os imobilisasse. Eu olhava e sentia a angústia misturada ao prazer de um encontro.

No dia seguinte costejamos, as naves menores velejando mais próximas da costa. A terra era longa, com muitas praias, assediadas de bosques e florestas. De longe, se viam somente praias e árvores. Caminhamos. Depois algumas naves menores se passaram para uma enseada, e ali entramos e fundeamos, nesse porto calmo e protetor. Me disse o bom Pero Vaz, o escrivão, que era o dia 22 de abril e que cedo ele e eu baixaríamos a terra.


publicado por Carlos Loures às 22:30
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