Domingo, 12 de Dezembro de 2010
WikiLeaks – A Guerra da Internet
Augusta Clara de Matos

 
Apurem-se ou não os reais objectivos da WikiLeaks ao divulgar informação dos telegramas secretos da diplomacia norte-americana, seja qual for o desfecho que este caso vier a ter, ele já começa a ser conhecido como a Guerra da Internet porque as implicações na Rede não deixarão de se fazer sentir de uma ou de outra forma. Nada ficará como dantes. Entre a extrema liberdade de há vinte anos e a extrema segurança que é um perigo e, certamente, a maioria dos utilizadores não estará disposta a permitir, há toda uma gradação de possibilidades de que ainda não se vislumbram os contornos.

Entretanto, a revolta na Rede prossegue entre activistas do ciberespaço a favor e contra as acções da WikiLeaks dando origem a boicotes e a sabotagens de sites de empresas de seguidores de uma ou de outra posição. Há jornalistas que se manifestam contra esta acção da WikiLeaks a pretexto de não serem profissionais da informação a noticiarem o que tem vindo a lume. É muito estranho que o façam quando a maior parte deles vive presentemente enfeudada às posições ideológicas dos grandes grupos da comunicação social, desprezando o seu dever deontológico de nos dar a conhecer as realidades a que não temos acesso por nós próprios como cidadãos.

As acções de pirataria na Internet são praticamente impossíveis de combater, à semelhança das de pirataria em alto-mar, pelo mesmo motivo: não há legislação adequada para as condenar. A própria concepção da Rede é de molde a poderem tornear-se os obstáculos à passagem da informação. Nesse sentido, contribui igualmente uma grande variedade de sites, individuais ou de outra natureza, os blogs, o facebook, o tweeter, etc., através de cujas malhas é possível, actualmente, escapar.

Mas, perante a hipótese de todos os recantos da política suja dos Estados poderem ser vasculhados, muita cibernética se porá em acção para o evitar. É mais do que certo, a criatividade neste campo vai ser posta à prova já que seria dramático, à escala mundial e, por isso, não espectável, os Estados Unidos da América virem a fazer uso da sua capacidade de desligar a Rede em qualquer lugar do planeta quando muito bem lhes aprover.

Uma coisa é certa: este assunto não deixará de ser tema do dia durante muito tempo.

Nada do que se tem sido divulgado é coisa que nos espante, nem mesmo a vigilância dos EUA sobre a ONU. O que acontece é que, como dizia alguém num debate televisivo, “nos estão a esfregar com isso na cara”. E é verdade.

Que dúvidas temos nós sobre as acções do Big Brother actualmente mais activo, esteja Bush ou Obama na presidência? Continuo a não duvidar da boa vontade deste presidente dos Estados Unidos, mas não sou ingénua a ponto de acreditar que o poder, naquela superlativa máquina de negócios e de guerra, está integralmente nas mãos do presidente.

Consta que, do material divulgado pela WikiLeaks, não faz parte nenhum documento crítico às grandes linhas da política internacional de Barak Obama como o entendimento com a Rússia, a questão do Irão ou as negociações da paz no Médio-Oriente, apesar do malogro de que estas se revestiram até agora. No entanto, muitas outras acções condenam, sem apelo nem agravo, a chamada maior democracia do mundo.

Por princípio, e porque a experiência do tempo vivido assim mo ensinou, há muito tempo que não dou o meu apoio incondicional, logo à partida, a acontecimentos cuja virtude política parece óbvia. Lembro-me bem que bastantes houve transformados mais tarde em verdadeiros crimes contra milhares de seres humanos como, por exemplo, a política dos khmeres vermelhos no Camboja. Aqui navegamos em águas diferentes mas, pelo sim pelo não, é melhor acautelarmos a objectividade e ir seguindo sem emoções o decorrer dos acontecimentos.

E, para além da liberdade de informação na Internet correr riscos, temos perante nós a questão de saber que mais perigos vai, também, correr a democracia já tão adulterada em que nos querem convencer que vivemos. A justiça, o tão apregoado pilar dos chamados Estados de Direito, vai ser igualmente testada nos julgamentos quer do militar que passou as informações secretas ao editor da WikiLeaks, quer no deste próprio, cuja imediata prisão sob a acusação de crimes sexuais praticados na Suécia nos faz interrogar sobre a sua oportunidade. Conhecemos este tipo de processos ao longo da História.

A informação que tem chegado faseadamente aos jornais irá moldando a nossa opinião. Necessitamos de estar bem atentos porque este não é um assunto de somenos importância.

A divulgação das informações secretas sobre a ingerência dos serviços da inteligência norte-americana nos interesses de outros países e no interior das próprias organizações internacionais, com todas as conivências que venham a ser reveladas, tem, sem dúvida, foros duma crise mundial que, no entanto, como sabemos, o sistema capitalista tão bem tem sabido ultrapassar.

Como não se, nesse tabuleiro, a rede não é menos intrincada do que a do mundo virtual? Muitas malhas, muitos nós dão segurança aos ameaçadores e aos ameaçados em simultâneo, se é que a distinção entre uns e outros é assim tão grande. Os povos que eles governam são outra coisa, uma realidade bem distinta. Passam ao lado destas maquinações.

Muitas ligações se irão fazer e desfazer para se anularem ressentimentos e, na paz dos deuses do capital, grandes potências e os seus capatazes instalados no poder dos países pobres passarem o apagador no quadro do que parecia uma ameaça para uns e outros.

Mas a Guerra da Internet está para durar. Por enquanto é guerra civil. Passará ou não a outra escala? Creio que não. Só se for contra todos nós, os cibernautas e a liberdade de informação.



.


publicado por Carlos Loures às 11:00
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11 comentários:
De Luis Moreira a 12 de Dezembro de 2010 às 11:47
Também aqui nós portugueses fomos os primeiros quando um ministro divulgou a listas dos nossos espiões.Sempre na vanguarda!


De adão cruz a 12 de Dezembro de 2010 às 13:18
Boa análise Augusta. para ler e reler.


De João Machado a 12 de Dezembro de 2010 às 16:20
O caso Wikileaks,juntamente com as lutas com o controlo pelo Le Monde, TVI, etc. são episódios numa guerra em grande escala, que é a travada à volta do controle da informação. Os EUA nunca poderiam ter atacado tão facilmente o Iraque, sem o controlo de que dispõem sobre a informação, e fazerem passar mentiras sobre um poderio militar descomunal de Saddam Hussein, com armas de destruição maciça, e mais uma série de balelas. Os grandes grupos económicos controlam a informação e os governos. A China até se dá bem com os grandes grupos económicos, ao que parece (pelo menos operam no seu território sem problemas de parte a parte). Obama vai de concessão em concessão. A última será à volta das reformas no campo da saúde. É duvidoso que consiga ser reeleito. Na Europa, após decénios de propaganda contra o sector público na saúde, na educação, etc., assiste-se ao grande assalto ao que se tem chamado o estado social (o estado se não fosse social não deveria existir). É por lutar contra isto que o Wikileaks está a ser perseguido.


De augusta.clara a 12 de Dezembro de 2010 às 16:40
Estou convicta disso, João. Aliás, estou perfeitamente de acordo com a análise da Clara Ferreira Alves no Expresso e não com a da Inês Pedrosa nem do Miguel Sousa Tavares. O que quero é estar atenta à evolução dos factos com calma e objectividade. Temos a China à espreita e não queremos que nos tirem a liberdade de informação na Net. Mas o ataque vai ser muito grande e é necessário não desbaratarmos inteligência para lhe fazer frente.


De augusta.clara a 12 de Dezembro de 2010 às 17:55
Luís, uma coisa não tem nada a ver com a outra.


De Luis Moreira a 12 de Dezembro de 2010 às 18:24
Então, sermos os primeiros não tem a ver? Claro que tem !:-) Eu , por falar a verdade, acho que o homem tem razão em publicar a informação a que teve acesso mas também acho que deve pagar por isso, já que o que publica está, nos termos da lei, protegido pelo segredo de Justiça.Ainda hoje a pacífica Suécia foi atacada por dois atentados, mas isso devem ser os "mártires" cheios de razão, a ganharem as delícias de 11 virgens. claro, que disso ninguém fala. E, ai de quem não compreenda os direitos de andar fora da lei a matar pessoas. Vamos longe, vamos...


De augusta.clara a 12 de Dezembro de 2010 às 19:11
Claro que não tem nada a ver o engano do Veiga Simão quando divulgou as listas (não digo o que penso disso porque ele conhece-me, foi presidente do meu laboratório) e a denúncia dos muitos casos de espionagem que levaram a acções condenáveis por todo o mundo. Vamos longe, vamos...podes crer, Luís. Com o que os patrões do mundo criaram, não sei onde cxhegaremos.


De augusta.clara a 12 de Dezembro de 2010 às 19:14
Comentário de um leitor do Público que vale a poena ler: “É claro que os documentos reflectem a opinião dos EUA - são comunicações oficiais do governo dos EUA. O que eles mostram é algo que eu testemunhei pessoalmente, que os diplomatas como classe, muito raramente dizem verdades desagradáveis aos políticos, mas sim reforçam no relatório o que os seus senhores querem ouvir, na esperança de receber prererência (preferment). Há, portanto, uma enorme quantidade sobre suposto arsenal nuclear iraniano e um exagero na capacidade nuclear do Irão. Mas não há nada sobre a enorme arsenal nuclear de Israel. Isso não é porque o Wikileaks ter censurado a crítica a Israel. É, porque qualquer diplomata dos EUA que faça uma avaliação honesta e aberta dos crimes israelenses rapidamente oassa a ser um ex-diplomata desempregado.” -- Craig Murray ( antigo embaixador, activista dos direiros humanos ), 29 Nov 2010 -- Craig Murray é citado em artigo de Andrew Gavin Marshall “Wikileaks and the Worldwide Information War Power, Propaganda, and the Global Political Awakening” - globalresearch.ca/index.php?context=va


De Luis Moreira a 12 de Dezembro de 2010 às 19:49
Não tenho dúvidas, só tenho dúvidas é se esta "fuga" torna o mundo mais seguro.Não me parece. E "os diplomatas" tambem os há no Irão, no Iraque,e em todos os países que não sofrem destas enormes mentiras, onde tudo é transparente. Por exemplo no Irão, os estudantes levaram com a polícia a sério por dizerem que as eleições não foram sérias, na China o Prémio da Paz está na prisão...é melhor olhar para a floresta.Nesses países é tudo pior do que cá, onde não há liberdade de expressão, mas os segredos de Estado aparecem nos jornais. O problema de sempre!


De Joao Machado a 13 de Dezembro de 2010 às 00:28
A liberdade de informação torna os países e as pessoas mais fortes. Só não convém a interesses particulares, económicos, religiosos, etc. O Wikileaks não tem divulgado só documentos comprometedores sobre os EUA ou sobre países europeus, também tem divulgado informações sobre países africanos, asiáticos e mais.


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