Segunda-feira, 17 de Maio de 2010
O Reino da Galiza
Raúl Iturra

…parte de um de vários livros escritos sobre Galiza, ao longo de 40 anos de trabalho de campo….este troço é do texto de 1998 Como era quando não era o que sou. O crescimento das crianças, Profedições, Porto….texto que contextualiza a vida da filha de Hermínio Medela, a minha colaboradora na Paroquia de Vilatuxe, Concelho de Lalín, Província de Pontevedra Alta.

O reino da Galiza tinha já sofrido diversas invasões. Como nas lembranças sociais de Victoria do Chile, nas de Pilar há também uma memória social que as repete. Mas, ao contrario que no caso de Victoria e os seus pares. Porque para Victoria, a Conquista é uma bênção que permite que um povo Nativo, seja primeiro um Reyno, depois um Estado e República independente, autónoma. O que, como Pilar, a sua família e os seus pares, sabem que não é assim na Galiza. A Galiza é Celta, é romana, é sueva, é visigótica, é castelana, é lusa, é española, é autónoma, como Estado parte do Estado Español, a traves dos séculos antes de Cristo e o dia de hoje. Quando a dita autonomia permite que a língua galega seja também língua oficial, em conjunto com a Castelana. E a lei Galega, não o Estatuto de Castelão que o meu amigo Ramón Pinheiro defendeu até a sua morte, uma lei directa, própria, sempre subordinada a lei geral do Estado Español e às unhas leis específicas que o Estado central, assina como: Yo, el Rey. Embora saibam Victoria e Pilar, ou não saibam, os factos do Reino Espanhol, da Monarquia Española, são comuns para os dois Reinos, o de Chile até 1818, o da Galicia até sempre. Porque a invasão Napoleónica a Espanha, alastra ao Rei Fernando VII ao seu cativeiro de Paris, onde muito bem fica, faz-se revoltar ao Reyno de Chile que aderia à Coroa e à pessoa do Rei, e causa o seu afastamento de dita Madre Pátria, porque já não há proprietário, o Monarca. O que serve para basear a Independência na hoje América Latina, o que serve para começar os levantamentos contra os direitos senhoriais da Galiza, contagiada pelo liberalismo francês da revolução burguesa do Século. XVIII. Contagiada de tal forma, que começa, saiba Pilar ou não, a existir resistências aos direitos senhoriais que a Coroa outorga aos seus membros da nobreza. Bem que no Reyno do Chile a propriedade é encomendada a um numero da famílias em conjunto com os índios, na Galiza a terra é encomendada a membros da denominada aristocracia ou de títulos que, por séculos, tenhem permitido gerir a terra a nome da Coroa, fosse quem fosse o detentor da mesma. O direito foral galego existe, desde o Século VI, como tenho já referido em documentos que transferi a letra impressa (1977, 1979, 1988, o primeiro publicado pelo Museu do Pobo Galego, o segundo pela Cambridge University Press, e o terceiro, é este de que trato hoje). Oos proprietários das terras reconhecem a propriedade superior da raiz do Direito, à Casa de Lemos e de Alba no século XVIII. Proprietário que têm o direito a usar a terra como deles próprios, a transferi-la, a transmiti-la, a vende-la, a acrescenta-la, sempre que estejam, ano após ano, a pagar unha importância em bens que é entregue no dia sinalado, o dia da colheita, o dia do Santo da Colheita, São Lorenzo de Vilatuxe. Foro que é a licença para usar as terras do Conde-Duque de Lemos na Galiza, Duque de Alba no Estado Español, parentes, sem eles saber, do meu hóspede em Vilatuxe, Hermínio Medela-, que pela sua vez paga ao Monarca os seus Direitos por ser o Senhor desses domínios.
 Esse o é o motivo de que se fale de foro, de senhorios solarengos, de senhorios compartidos, de direitos dos senhores acabados na Galiza até o século XIV e restabelecidos pelos invasores Reis de Castela e Leão, no século referido. Para o apoio em exércitos e bens para a empresa da expansão do Reino Español além-mar e além fronteiras na Europa. E dão licença para o uso da terra a senhores que usam o contrato de enfiteuses para darem licença aos trabalhadores da terra para produzirem nas mesmas os bens que iam circular pelos mercados. Foros que são contestados pelos finais do Século XVIII e que a casa de Lemos de Alba, proprietária, tem bem cuidado de manter. E, como agora Pilar sabe, ainda que a memória social o reconhecia sem saber porque no dia de hoje, a casa senhorial envia ao seu parente Medela a tomar conta, a observar como é que o povo trabalha e paga no dia devido. E a eles, os senhores representantes dos senhores. O Iluminismo e a herança Roussoniana que está a libertar as ideias e aos países e aos indivíduos de subjugação a um senhor, faz terramotos locais que tentam serem previstos pelos proprietários cortesãos, detentores de títulos que permitem demandar reconhecimento de senhorios de produção. Joseph Medela, licenciado em Direito pela Universidade de Compostela, é enviado a Gondoriz Pequeno a gerir colheitas de abondo. Com a sua mulher Angela González, pelos começos do Século XVIII. Simplesmente, a gerir. É Mozart ( ) é Wagner mais tarde, que cantam a revolução aos direitos senhoriais que escraviza aos enfiteutas rurais ( ). O que os Enciclopedistas tinham dito. Saber que não é sabido pelos vizinhos de Vilatuxe, que pagam aos Medela parte da sua produção, para eles pagarem a Lemos e Alba, para eles pagarem à Coroa de España. Joseph Medela, que manda aos seu filho à Compostela, para saber leis e entender os direitos de Mayorazgo, de Patruciado, de domínio directo, de domínio útil. O que Gregório Medela faz pelos años de 1770, já a se conhecer bem as disputas entre senhores e camponeses que Maria José Galdos ( ) e Maria Jesús Baz Vicens( ), Xosé Manuel Beiras( ), Ramón Maiz ( ), eu próprio, temos tentado entender na nossa pesquisa e obra. Mas, nunca tão bem como os próprios. Porque Gregorio Medela faz troca matrimonial com uma proprietária do Direito útil da terra em parte de Gondoriz, Dona Maria Juana Tavoada e Rodriguez, para juntar direitos úteis e poder por sobre os produtores, ditos camponeses. Em l779 manda ao seu também filho licenciado em Direito por Compostela se comprometer em matrimónio com D. Josefa Gil de La Torre, proprietários os pais do domínio útil da vizinha Paróquia de Gresande., ou Santiago de Gresande. Ainda a tempo, quando já a s Cortes de Cádiz, visto o mal que a rebelião camponesa começa a causar na produção, duvida de que o domínio senhorial seja válido para tirar bens e impostos. E manda acabar com esses direitos em 1823. Época em que Benito Medela já é, em pleno, advogado que sabe gerir pessoa e bens para a Casa proprietária de Lemos. Essa Casa que ri da lei, ao trocar o pagamento de produtos, por impostos em dinheiro pelo uso do direito útil. O que os camponeses não toleram porque não têm dinheiro em moeda, e continuam, embora com revoltas e disputas, a pagarem direitos em bens. E a se revoltarem contra a guarda monárquica, que cobra impostos para alem do senhorio de Lemos. Embora diezmos e primícias sejam perdoados, a Coroa, a cair em 1868, manda a cobrar um imposto sobre os bens de consumo, ditado pela filha de Fernando VII, esse que teve que assinar a liberdade dos países coloniais e varias constituições absolutistas e liberais – trés em 15 anos -, pela sua catraia Isabel II para a qual preparou a Lei Salica em 1833 e assim abdicou. Os vizinhos de Vilatuxe só sabiam do pagamento do imposto ao consumo, que odeiam nesses dias e que a Monarquia Constitucional e eleita de 1868 substituye pelo imposto pessoal. E que é para os Medela vigiar de que seja cumprido o seu pagamento. Auxiliados pela guarda civil de 1870. Essa guarda que açude a vai no Domingo 5 de Novembro à saída da Igreja a demandar o pagamento de imposto, e são apedrejados pela vizinhança de duzentos que da Missa saía, com José Ferradas à cabeça. Esse José Ferradas, vindo da vizinha Paróquia de Barcia, aí casado em Vilatuxe, e com a sua descendência ainda viva em Vilatuxe no lugar, bairro da Paroquia de Vilatuxe. Ferradas irmão de Consuelo Ferradas, que funda a ainda existente também, família de Ramos, caseiros do Cura da Igreja e proprietários dos foros redimidos, a empurre do Sindicato anti - foros de Lalin de 1906 ( Iturra 1979),e que em 1926 o Ditador Primo de Rivera acaba por fechar, para tentar salvar a monarquia de Alfonso XIII. O que não consegue. Benito António Medela é o último dos licenciados em Direito da família Medela, passa a ser, com a sua família, mais um vizinho da Paroquia, despojado de título nobiliário e de terras próprias excepto com bens por todo o que é sítio em os vários lugares de Gondoriz, aldeias. Mesmo ao pé do monte, onde o pai de Pilar, Hermínio, faz a casa referida, dentro das terras da sua futura herança. Terras que hoje tem, gere e trabalha. Benito Medela, em l822, tem, com a dita Dona Josefa Gil de La Torre, uma filha, Jacoba, que acaba por dar-lhe dois netos em 1842 e 1845, frutos do amor com o seu Primo Advogado em Cânones pela Universidade de Compostela, nomeado também Gregório Medela. Os filhos bastardos são José António e Manuel Benito, que nascem em segredo em Gresande, a terra original da mãe de Jacoba, ai os baptiza e inscreve, para serem levados mais tarde a serem criados em Gondoriz Pequeno e ficar com a herança do avó e as que o pai dos bastardos, tinha por esses lugares. O que faz de eles senhores, que, por amor, dão origem a uma raça de Medelas, proprietários de direitos úteis, logo de propriedade directa para os seus filhos e netos, quando Manuel Benito casa com outra proprietária de direitos úteis, Marcelina Friol, e José António com ainda outra do mesmo direito, Teresa Ramos e, a sua morte, com a herdeira de terras de domínio útil, Benita Taín Taboada. Há uma emotividade entre iguais, estruturada pela conveniência de se apropriarem de terras a gerir com enfiteuses a serem pagas a eles, e eles à casa de Lemos. Amores de conveniência, como os de Pencahue no Chile, entre primos consanguíneos para juntarem terras. Os Medela vão acumulando um património, como Pilar sabe por ouvir ao longo da sua vida. O neto de Jacoba, José António, casa com a herdeira de direitos forais de Lebozán, transferida à Gondoriz Pequeno, a terra da sua mãe Manuela Canda ai nascida e com direitos utis também. Este concentração de direitos enfiteutas e úteis na mesma pessoa, leva ao José António de Medela de 1887, emigrar pelos começos do Século 20, aos Estados Unidos, para juntar dinheiro e pagar as terras que ele pode agora demandar como própria e pagar. E dinheiro não há. Adelaide Tain Canda, emigra também a Uruguai para juntar dinheiro para pagar terras que demanda como próprias, baixo o império da lei de 192, já referida. Pelo qual a afectividade e o carinho e manipulado pelas saídas e as distâncias, as emigrações e uhn deixar os filhos com os avós. Não é a época dos direitos senhoriais, embora fiquem nos hábitos e costumes, o que temos observado no Hermínio e Esperança referidos, os que me narram esta história. O que não há nos Ferradas referidos, jornaleiros, aparceiros, foreiros ( Iturra 1979), a viverem do seu trabalho directo na terra. A Família Dobarro já relatada, fez: jornaleiros das terras Medela. Não havia direitos úteis a defender, havia trabalho útil a dar para a Paróquia, como José Ferradas e a sua irmã Consuelo, que casa com o aparceiro do Cura, Benito Ramos, e dão uma cumprida descendência à Paróquia. Mulheres escolhidas pela sua força no trabalho, pela sua capacidade de irem ao campo e de amamentarem aos seus filhos enquanto trabalham. Como Flora Taboada, neta de José Medela, fez. Como Esperanza de Celestino Ramos Ferradas, fez. Como a ascendência de Esperanza de Herminio, fez. Como Filomena Ferradas, fez. Porque ser o tempo de trabalho a melhor companhia para a afectividade de todos eles, e o ter herdeiros do aluguer das quintas, das terras, o força de trabalho para poder pagar as medias de bens que tinham que entregar aos vizinhos da Paróquia que lhes arrendavam bens de monte sendo enfiteutas esses vizinhos – a terra de monte era de todos, para passar a ser ou deles próprios, mais tarde. Será que os antigos ou ancestrais, amavam, ou era apenas acordos de comércio, deve-se perguntar Pilar hoje. Amavam como eles amam hoje? Mas, como Pilar e os seus distem, o que é que é o amor? A afectividade? O que a fraternidade, a filiação, se não o respeito as pessoas próximas, em condições de permanente revolta, como foi a Galiza submetida à Espanha, durante os séculos referidos, e o século que agora acaba? Quando Pilar não era, era a relação de sobrevivência do seu próprio eu. Acabou por se fazer dois conjuntos de famílias separadas pelo estatuto, os Medela e os Ferradas, um conjunto de parentes próximos, apenas afastados pelos grupos de trabalho já existentes desde que os direitos senhoriais demandavam tanto bem. A liberdade para fazer a corte, era o lugar propicio dentro do trabalho, quando alguém pretendia a alguém e visitava, falava aos pais, colocava uma roca para o fuso do linho, cultivo principal que existia em Vilatuxe, até que a emigração levou a mão de obra a outros sítios e o linho foi trocado por batatas, erva, leite, vacas, como já relatara em tanto texto antes e invocado todos eles desenvolvidos dentro deste livro, do qual este excerto forma parte. Pilar tem uma herança, como Victoria, uma herança que diz respeito quer a terras que os seus ancestrais lutaram, quer a uma forma de afectividade, que os seus ancestrais cultivaram de forma laboral os uns, os outros de luta senhorial. E na emigração, que separou famílias por um tempo, como dizem a foto que desejo relatar…. Fotos de grupos de parentes que emigram para poder aforrar dinheiro para pagar as terras. Fotos que começam em Vilatuxe apenas nos anos 20, Quando o meu amigo e vizinho Eládio Fernández tinha 22 anos, esse Eládio que apagou os olhos a 11 de Abril de 1998, olhos abertos desde 1899, a 26 de Julho. Um Eladio que pastava as vacas comigo, enquanto contava as histórias que me disse quando tinha memória. Uma memória que o Pedro do Cabo ou Fernadez, de Filomena Ramos Ferradas, nos seus 92 anos hoje, ainda me conta, como me contara faz, também hoje, 26 anos. Um Pedro do Cabo capaz de identificar as pessoas das fotos, que a aldeia não reconhecia. Nem Sofia de Vicenta , filha de Eduardo Ramos Ferradas, morto por causa da emigração ( Iturra 1997), nos seus 80 anos, consegue contar. O que ele não lembra, é contado pela irmã mais nova, Manuela, cumprida e detalhadamente. Porque o que Pilar sabe herdar, como os seus pares, é esse carinho que as famílias tenhem entre si. E que quando não existe, é trabalhado com a distancia da emigração ou a distancia formal do trato. O que Pilar melhor conhece, é que o trabalho e a luta pelos direitos para a aquisição de bens, faz da emotividade um facto. Um facto útil para a reprodução. Não é o amor romântico do famoso filme A árvore dos Tamancos, que é romântico no nosso ver, mas pragmático no ver de quem faz os tamancos e para as crianças trabalhar. Mas uma emotividade que era a causa da utilidade que a criança tem depois. Como na árvore dita, quando os pais vão a escola e dizem que o pequeno serve para o trabalho, não para os estudos. Ou como nesse outro filme tão semelhante Padre Padrone, o filho retirado a paus da escola para tomar conta das ovelhas. E treinado à bruta pelo pai, que sabe assim dar um carinho que será a utilidade do filho no dia de amanha, quando tenha que organizar e gerir a fazenda, no dia que ele não exista mais. E o carinho, porem, não é o beijinho, é a segurança e a poio dado na aprendizagem do manipular de tecnologia, do saber da terra, dos animais, do entender de direitos e de polícia, de guardar o silêncio quando é melhor não falar para não divulgar o que se deve defender. Como no filme não feito da Paróquia de Vilatuxe, donde emigrar, é amar, donde comprar, é amar, donde comunicar por fotos é amar, onde a acção de um José Ferradas, é amar, onde a passagem a igualdade de classe com os antigos foreiros que os Medela Fazem, é amar. É assim que entende Pilar que os ancestrais amavam. É assim que entendo eu que, em isso que parece utilidade, há emotividade, fraternidade, solidariedade, a reciprocidade à Mauss, invocada antes. Onde trabalhar juntos, é o cultivo dos laços íntimos e da fidelidade. Onde carinho, a transferência das emoções simpáticas e antipáticas, é emotividade. Onde este conjunto de factos observados ao longo do tempo em estes três grupos, é a comunicação, a epistemologia, o conhecimento que mantêm a unidade e faz de essa unidade o amor que Victoria, Pilar e Anabela, procuram saber de quando não eram. E que são a base do que são. A base cognitiva do que são. A base empática, do que são. Emoções, porém, que são o processo de ensino e aprendizagem ao qual tenho-me já referido em outro texto (1994). Se os ancestrais amavam, amavam. Mas, a afectividade é conjuntural e contextualizada pelos acontecimentos políticos, históricos e culturais da sociedade global, assim como na sociedade local, quer de Vilatuxe, quer de Pencahue, quer ainda, de Vilaruiva. Tempos de saberes cronológicos que as pessoas sabem adaptar ao seu entender. Onde a confiança brilha e a infidelidade é só a não colaboração na luta que fará, do grupo, um grupo calmo, bom, próspero, leal. Como é possível ver nas fotos…. O quase filme que nunca foi ainda feito de Vilatuxe. É possível ver na foto 1, deste texto passado a livro) de que há um grupo de homens vestidos de fato. É uma fotografia tomada em Nova Iorque, no ano de 1920. Mostra um grupo de parentes e amigos que foram aos U.S.A para juntar dinheiro na emigração. De pé a esquerda, está José António Medela Friol, o pai de Herminio, avó de Pilar. Tinha emigrado para juntar o dinheiro necessário para pagar pelas suas terras aforadas, é dizer, embora recebia foros de lavradores, ele, pela sua vez, pagava à casa de Lemos. E como já estava a redenção de foros a andar, precisava de uma importância da qual carecia, para redimir as suas terras e ficar com o direito de propriedade plena. Aparece junto a um conjunto de pessoas, toadas os seus parentes, como é possível ver na genealogia que acompanha à fotografia. Entre eles, os parentes Ángel Fernández Villar, Eládio Fernandez Ferradas e Guillermo Arca Canda, o primo de José António Medela. Há três de eles que desejam pagar as suas próprias terras, ou comprar as que tinham alugado como lavradores, Hermínio Dobarro, Eduardo Fenández Villar e Celestino Ramos Ferradas. Em fim, todos eles queriam recuperar terras e, como a foto mostra, há parentesco entre vários de eles, pelas manos a tocar o ombro do outro, como está escrito no genograma da foto (pode ser vista quando este rascunho passou a livro em honra a Baltazar Garzón em 1998). Mas há também o facto da empatia pouco simpática, como é o caso da história que mostram as fotos de Celestino Ramos e a sua mulher Esperanza Silva Outeiro, foto 2 (no livro), no dia do seu matrimónio antes de Celestino ir a Buenos Aires em procura de dinheiro para comprar terras para acrescentar as terras arrendadas, e a foto 3(livro também), que Esperanza envia a Buenos Aires com a filha Pura, que tinha nascido depois de ele ir embora e ficar grávida. E a foto 4, que mostra aos filhos de ambos, e ao único filho homem, nascido enquanto Celestino estava nos U.S.A, nascido com a cumplicidade de um primo da mulher. Documentos todos que revelam as relações caladas que acontece entre todos eles, e que os adultos entendem e calam para eles.. Viagem bem sucedida no dinheiro, eis o motivo pela qual fotos são enviadas desde USA para Vilatuxe. Para apoiar e dar valor as mulheres e às famílias, do sucesso que a viagem significa ou está a significar. Do valor que tem a separação quanto ao futuro reprodutivo por eles construído e que são representados nos filhos que lá tinham ficado. Se os emigrantes que ficam fora cinco anos, há a fidelidade ensinada pelo catecismo ou catequeses, do Concílio de Trento, ninguém pergunta e é suposto de que assim não seja, mas não há comentários, porque a ideia do sacramento matrimonial define uma ligadura para cultivar até a morte. Pelo qual Celestino nada diz do filho que encontra a sua volta e ainda faz mais outra filha com a mulher. Ideologia tradicional galega. A ideia é que é o primo quem seduz, e passa a ser o inimigo, com quem não se fala. A mulher não tem sexo, não tem desejo, da forma em que socialmente tem sido construída a sua inferioridade, como mostro em outro trabalho (1996, SPAE) Assim como é em outro trabalho (1997 ESC), que construo a metodologia que a foto dos homens, me permitira fazer. Todas elas, fotos que tive que reconstruir de entre as casas onde estavam abandonadas, partidas, sem ordem nem origem. Porque são fotos afectivas, que servem para manter uma relação amorosa, de paternidade e de trabalho, valores todos que são a herança de Pilar. E a herança dos seus pares. Nem todos viveram para poder investir o seu dinheiro, como foi o caso de três que trabalharam nas minas de estanho. Mas, as suas famílias, ocuparam-se com o bom sucesso material de todos eles, sucessores. Eládio Fernandez, que fora aos seus vinte anos, viveu até os seus 99, e é no dia em que escrevo estas palavras de lembrança dos trabalhos reprodutivos das pessoas para construir as suas vidas, que sei da morte do mesmo, a 11 de Abril de 1998, um ano antes. Pilar tem todo um exemplo para ouvir, pela sua pesquisa entre genealogias, filhos velhos de emigrantes antigos, parentes todos entre eles. Parentesco real e de conveniência, como denomino em um outro texto (1988), que faz fechar o lar doméstico, à maneira de Fortes e Goody (1971,The developmental cycle In Domestic Groups, CUP), para criar as crianças que crescem dentro das paredes da casa. Não para afasta-las dos parentes, bem como para distinguir os níveis diversos que o parentesco tem: reprodutivo humano no lar, reprodutivo material no trabalho, reprodutivo em troca no matrimónio, tabu em certos graus de consanguinidade, estimulante para conhecer outros com os quais intercambiar pessoas, possível de juntar terras pela aliança de pessoas que estão com terras perto, pela herança consanguínea de tios. Se os ancestrais amavam, era esta a maneira de amar: pragmática, com a emotividade a ser cultivada. A causa do contexto já mencionado, histórico, social e político, global e local.

Nota: este rascunho, retirado das minhas conversas com Hermínio e a sua mulher, que eu denominava Mama Esperança, pelo seu acolhimento e o seu calor humano, foi, a análise da foto o como fazer uma foto pode, falar, nos Cadernos de Estudos Migratórios, patrocinada pola Conselleria de Cultura e Comunicación Social, Xunta de Galiza, sob a direcção da minha amiga e colega de Cátedra de Compostela, Maria Xosé Rodríguez Galdo. O texto, com imagens, é titulado A oralidade e a escritura na construcçIón do social, Nº6, Decembro de 1998, pp, 57-68, Palaçio Raxoi, Santiago de Compostela. O Original impresso comigo, ao dispor de que o possa retirar por meio do scan. Criei uma nova forma de usar fontes fidedignas e impressas como meio de informação de trabalho de campo. A foto foi encontrada por mim no palheiro da casa de Medela, amarrotada e húmida: o tempo tinha passado…mas soube reconstrui-la, como esta história dos Medela. Felizes ficaram ao saber que eram parentes da Duquesa de Alba e donde de Lemos….


publicado por Carlos Loures às 18:00
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4 comentários:
De Prof.Doutor Raúl Iturra a 19 de Maio de 2010 às 12:04
Escrevi este texto para honrar a minha Segunda Pátria, Galiza, Ceibe e Socialista, e para que os galegos que sabem de mim, possam lembrar que nos anos 70 moréi ano e mio numa Pariquia, Vilatuxe, Pontecedra, Concelho de Lalín. Tenho escrito livros sobre Galiza em várias línguas e fiz un restudo nos anos 90, 25 anos depóis do primeiro, acolhido como membro da família de Hermínio Medela e famíla. A primeira, fui com a minha família e proferí aulas aos estudantes do Departamento do meu amigo Xosé Manuel Beiras. Fui visitado em Vilatuxe pelos outros amigos, como Ramón Maiz, José Maria Cardesín e escrevi mais um livro publicado pela Profedições, Portugal, que apresetei na Faculdade de Ciências Políticas: Como era quando não era o que sou. O crescimento das crianças. Foi em honra ao me país que me tratou como cidadão galego, a mim e família. PÇarebéns pelo Dia das Letras Galegas, para esse dia escrevi o texto por cima deste comentário e mais dois
Raúl Iturra
lautaro@netcabo.pt


De Prof.Doutor Raúl Iturra a 19 de Maio de 2010 às 12:07
Agradecia escrever no blogue das Letras Galegas e ser membro dommesmo, se for posível


De lautaro@netcabo.pt a 19 de Maio de 2010 às 15:14
Para além do comentário anterior, é-me impossível deixar de incrementar as relações com a minha Pátria Galega. Evio os meus cumprimentos, mais uma vez, com todo carinho e devoção pela Galiza Ceibe e Socialista. Vamos xuntar as mãos e vamos unidos cantar o Hino da Pátria Galega, berço de Portugal


De Anónimo a 17 de Agosto de 2010 às 14:08
os de mais de 40 anos de Vilatuxe,botamoste de menos,aínda que a tí parezache que non


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