Terça-feira, 5 de Outubro de 2010
Uma República de burgueses

Raúl Iturra</shape>



Queiram desculpar, mas sinto-me perdido. Por acaso moro num sítio de Portugal com imensas e evidentes desigualdades. Por acaso. Não encontrei outra casa no dia em que apareci em Portugal, tantos anos já, que até fui feito português, o que agradeço.


O que não agradeço nada, são as diferenças sociais, esses desencontros entre as pessoas: diferente classe social, diferentes saberes, hábitos de bisbilhotice, outros de solidariedade.


Pobreza e riqueza vivem juntas. Trabalho e falta de postos de trabalhos. Elegância e pobreza impossível de disfarçar. A arquitectura tem uma linguagem que explica que Portugal é um país classista. Há os que podem ter folga monetária, e há os que nada têm; há os que têm a esperança de um dia ter e os que sabem que esse dia nunca pode aparecer.


Há também os que moram em bairros de lata e os que possuem tantas casas, que têm que inventar sítios para se entreter além das contabilidades a que estão obrigados para calcular entradas e gastos, para um melhor gerir da sua riqueza, saber onde ir cobrar rendas e melhorar as suas posses.


Posses das que carecem os liberados pela Carbonara primeiro, e pelo Movimento das Forças Armadas a seguir.



Devo estar certo se digo que Afonso Costa e os outros membros do Partido Republicano, com assento no Parlamento, não era este tipo de República que procuravam. O seu neto, Secretário de Estado para a Educação do Ensino Secundário, disse-me um dia que o seu avô tinha uma casa na Serra da Estrela, para reunir com os que queriam derrubar a Monarquia e instaurar uma República na que todos fossem iguais, esse sonho de Babeuf, que para ele era República e Laicidade, separando a Igreja do Estado e expulsando as ordens religiosas por terem abusado da pobreza do povo para lucro da ordem. Um Afonso Augusto da Costa não ia permitir uma sociedade classista, como foi o seu caso ao propor leis como a Lei da Família, a Lei do Registo Civil, a Lei do Divórcio, a Lei da Separação do Estado e das Igrejas (1911), a Lei do Inquilinato, a Lei da Reorganização Judiciária, a Lei da Reforma Monetária, a Lei da Expulsão das Ordens Religiosas, sendo o primeiro a preparar um Orçamento de Estado. É sabido que o Parlamento durante a Monarquia estava mais interessado nas suas próprias contas, nos empréstimos ao Rei, aos membros da família Bragança e a eles próprios. Uma história melhor conhecida pelos seus biógrafos, que são muitos, e pelos próprios portugueses





publicado por Carlos Loures às 15:00
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3 comentários:
De José Brandão a 5 de Outubro de 2010 às 17:27
A primeira experiência de República em Portugal não podia ir muito longe. Tinha mais quem lhe apontasse o dedo do que mãos estendidas. Nem Lenine parecia capaz de dar crédito ao novo regime revolucionário que governava este canto da Europa. As referências elogiosas do grande líder da Revolução Russa de Outubro de 1917 não chegavam para convencer os Portugueses da utilidade prática do Outubro revolucionário de Lisboa de 1910.
O povo dava mais atenção àquilo que um monárquico como Carlos Malheiro Dias dizia, quando afirmava: «Em Portugal não se mudou de regime, mas de homens. A revolução quase se limitou a confiscar o poder às oligarquias políticas da monarquia e trespassá-lo às oligarquias republicanas.»
Mas, não era só dos monárquicos que vinham os grandes reparos críticos.
José Carlos da Maia, desde sempre um dos mais activos lutadores no combate pela implantação da República, é uma das vozes que se levanta com todo o vigor:
— Raios partam a Revolução e a República, e os homens que a fingem servir — diz o bravo marinheiro, que apenas cinco meses antes tinha comandado o assalto ao cruzador D. Carlos, garantindo assim o triunfo do movimento revolucionário. — Uma revolução pode mudar as instituições mas em nada alterou o carácter dos homens. Eles continuarão sendo o que eram; perversos e imbecis.
— Não tenha dúvidas — diz Carlos da Maia na correspondência com João Chagas, em Fevereiro de 1911 — O que se fez no dia 5 não foi uma revolução, O que está sucedendo constitui ensinamento para o futuro. Tantos pontapés nos hão-de dar que um dia convidarei Machado Santos e outros e talvez consigamos fazer uma revolução que seja digna desse nome.
E o oficial da Marinha que o Dente de Ouro irá mais tarde arrancar para a morte, assegurava:
— O homem que um dia tomou o D. Carlos e o mesmo que amanhã tomara o Almirante Reis.
José Carlos da Maia não escondia a sua vontade de se manter em luta pelo seu ideal. Desconsolado pela forma como estava a ser tratado pelos novos dirigentes, desabafava para João Chagas:
— Veja meu querido amigo como eu estou sofrendo as consequências de haver praticado o horrível crime de combater pela República enquanto eles fugiam. Que desgostoso estou! Ao que havia eu de chegar!


De Prof.Doutor Raúl Iturra a 6 de Outubro de 2010 às 18:50
Muito obrigado, Caro José Brandão. Sei que é um historiador especializado na instauração da República. Obrigado por ter tido a paciência d ler o meu texto. Obrigado por ter acrescentado mais luzes sobre o mesmo. Os Maia, seja em 1911 ou na denominada Revolução dos Cravos, têm sempre sido seres patrióticos que queriam mudar o mundo às avessas, mas não foi possível. É apenas ver o que o que acontece agora, para sabermos que estamos a tornar aos começos do século XX. Se procurar, vai encontrar um texto meu em www.aventar.eu intitulado O 5 de Outubro aconteceu no 25 de Abril. Mas, se eu pensar melhor agora, nem isso diria. É evidente que o sociólogo Vladimir Lenin, estudante de Émile Durkheim e Marcel Mauss não ia acreditar nesta revolução! Ele levou a Marcel Mauss à Duma Menchevique e entre os dois professores ajudaram a mobilizar ao povo, o que não aconteceu em Portugal: mudaram as pessoas mas não as ideias, troca que faz uma revolução, como o MEU Presidente Salvador Allende, que muito correu, mas foi assassinado, não teve tempo. Eu estava na Grã-Bretanha e o meu Prof. Sir Jack Goody enviou-me ao Chile e teve que salvar-me do campo de concentração e voltar a Cambridge. Tanto nada tem mudado, que estamos a viver esta miséria, que pode ver no Estrolabio e no aventar.
Agradeço as suas dicas...
Caso quiser corresponder comigo: lautaro@netcabo.pt é a minha morada electrónica
Abraço agradecido
Raúl Iturra


De José Brandão a 7 de Outubro de 2010 às 14:01
Caro Professor

Foi com o maior gosto que enviei o meu modesto contributo a juntar ao seu excelente trabalho.
É para mim uma honra poder comentar as suas opiniões.

Um grande abraço
José Brandão


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