Domingo, 21 de Novembro de 2010
Evento da Literatura Angolana – 1977: Agostinho Neto, Sagrada Esperança
Sílvio Castro

A 1ª. edição do livro de Agostinho Neto, Sagrada Esperança, União dos Escritores Angolanos, Luanda, 1977 tem a força de inauguração dos novos tempos derivados dos grandes fatos de 1974 e que abria igualmente novos horizontes para a gente angolana, mesmo dentro dos horrendos fantasmas trazidos pela guerra civil que tão longamente a atormentará ainda. Nos poemas de Agostinho Neto, impregnados de grande humanidade e de ampla participação com a vida de sua gente e de seu país, corria todo um frêmito de denúncias, mas igualmente de esperanças.

Os poemas de Sagrada Esperança, de certo modo, tivera um aparecimento anterior à histórica edição de Luanda-77, isso com a tradução italiana de Joyce Lussu, Con occhi asciutti, Il Saggiatore, Milão, 1963. Porém, apesar da importância da operação da grande ativista cultural que foi Joyce Lussu, a sua operação não deve ser considerada como o primeiro aparecimento da poesia do poeta angolano. Tudo isso porque, a intelectual italiana tem um conceito de tradução que pode ser considerado discutível, e mais ainda porque trabalhou os textos de Agostinho Neto partindo de uma experiência pouco comum: devido às prisões do lider angolano, a tradutora italiana tem possibilidade de receber os poemas somente por via indireta, isto é, pelas mãos da mulher de Agostinho Neto que recolhia e copiava os poemas ditado a memória pelo poeta condicionado pela violência de seu isolamento nos cárceres salazarista.

À edição de 1977, logo sucede uma 2ª. edição de Sagrada Esperança, a da Livraria Sá da Costa, Lisboa, 1979. Alguns anos depois, com a plena ação de Agostinho Neto como lider de seu país, aparece a edição brasileira da Editora Ática, São Paulo, 1985.

Agostinho Neto considerava que poesia e política constituiam um corpo único, com plena compatibilidade entre os dois termos. Tudo numa clara consciência da força da História. Certamente como Marx se referiu à filosofia, Agostinho Neto, parafrasendo o seu mestre em política, poderia ter afirmado, como de certa forma o fez, que “a poesia tende a tornar-se realidade”.

A possível interrelação entre poesia e política deve afirmar-se em maneira objetiva, sendo o poeta consciente do valor da tomada de posição e explicitação da consciência política. Principalmente se a sua afirmação é obrigada a ser tal num processo de luta, de revolução. A partir de então, poesia e política, com a vigilância por parte do poeta em relação à natureza estética de sua obra, continua a ser sempre assim, mesmo quando exalta valores retóricos não inteiramente compatíveis com a criação poética. Podemos afirmar que isto é quanto acontece com Agostinho Neto. Desde os seus primeiros poemas, ele os criou consciente que não podia ser uma voz intimamente lírica, mas que desde sempre se sentia comprometido. Comprometido com seu país, comprometido com Angola, com sua gente, sua cultura, suas tradições, seus sentimentos mais profundos.



Tais valores se encontram na maioria dos poemas de Sagrada Esperança, como podemos verificar com a exemplificação da beleza dramática do poema “Noite”:


Eu vivo
nos bairros escuros do mundo
sem luz nem vida.

Vou pelas ruas
às apalpadelas
encostado aos meus informes sonhos
tropeçando na escravidão
ao meu desejo de ser.


São bairros de escravos
mundos de misérias
bairros escuros.

Onde as vontades se diluiram
e os homens se confundiram
com as coisas.
Ando aos trambolhões
pelas ruas sem luz
desconhecidas
pejadas de mística e terror
de braços dados com fantasmas.
Também a noite é escura.

Com os seus poemas Agostinho Neto estabeleceu um coerente discurso entre poesia e história, apresentando um visível sistema da realidade, ao mesmo tempo que fazia do canto um processo de tensão, dialético e revolucionário. Por essas grandes razões, fazemos votos que a atuação do lider angolano na sua presidência encontre o melhor e mais breve esclarecimento da crítica histórica, removendo todas as obscuridades de presumíveis violências e injustiças verificadas no longo período da sua liderança política. O grande poeta de Sagrada Esperança deixa presupor e esperar que todas as dúvidas serão certamente esclarecidas.


publicado por Carlos Loures às 16:30
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