Quinta-feira, 29 de Julho de 2010
Um simples periquito
Adão Cruz


Não sei muito bem o que fazer nas férias. Não gosto de praia, não gosto de viagens programadas em grupo, não gosto de cruzeiros, enfiarem-me num resort qualquer é pior do que me enfiarem em Custóias. Só gosto de viajar, mas de carro, sem destino, ao deus-dará. Foi o que fiz na passada semana. Vi, por acaso, uma exposição de André Brasilier no Chateaux de Chenonceaux, e mal cheguei, fiz dois quadros, mais ou menos dentro da sua linha, a qual tem algumas semelhanças com a minha, ou melhor, a minha tem algumas semelhanças com a dele. Provavelmente, amanhã farei deles um post. Cheguei de férias.

Mas onde eu queria chegar era ao periquito. Não é que eu não goste de animais. Gosto sim senhor, mas sempre que possível em casa dos outros. Um amigo meu, pintor, ofereceu-me um periquito. Em princípio tudo bem. Um periquito não é assim uma coisa que atemorize. Porém, este periquito foi o único ser e produto que, em toda a minha vida, funcionou de alergéneo e me ofereceu uma bronquite aguda asmatiforme que me obrigou a enfiar com o gajo na marquise. Entre a marquise e a cozinha há uma janela, através da qual eu vejo e converso com o periquito. Sim, converso com ele. Cheguei ontem. Quando chego e abro a janela, o bichinho está mudo que nem uma pedra. Então chamo várias vezes por ele: pilinhas, pilinhas, pilinhas! Venha daí uma sinfonia. Ele concentra-se, mantém alguns minutos de silêncio e manda três assobiadelas estridentes. Um pouco como aqueles três morteiros que antecedem o fogo de artifício no rio Douro. Daí em diante é um ver se te avias. Sonatas, serenatas, zarzuelas, música de câmara, sinfonias, eu sei lá! Quando eu lhe digo, Pilinhas agora é mesmo de escacha pessegueiro, ele abre a goela e chilreia de tal modo que parece uma estrela de rock, até se empoleira de papo para o ar.

Eu vivo sozinho, embora tenha a frequente presença dos meus filhos e netos. Estou cheio de mulheres, melhor dizendo, estou cheio das incomensuráveis complicações que as mulheres acarretam. De mulheres não estou cheio, obviamente, até porque as vejo na rua e sei o prazer que delas conseguiria obter. Mas vivo sozinho. E em vez de mulher... há um periquito. Nunca na vida pensei que um insignificante periquito fizesse a companhia que faz. Ao fim e ao cabo, tudo nesta vida é relativo.


publicado por Carlos Loures às 13:30
link do post | comentar

2 comentários:
De clara castilho a 29 de Julho de 2010 às 16:12
Que bela prosa! E como alinho no quanto às vezes é difícil não ter com quem falar!...
Já tive um piriquito que me entrou pela janela, acabei por acolher, comprar gaiola, mas que depois fui dar a uma loja. Esse não cantava, só me dava trabalho e não recebia nada de volta. Nunca gostei de ver fechados os animais que se devem movimentar em grandes espaços. Já com cães e gatos sou mais egoista e esse factor atiro para trás das costas. E se falava com eles... que me seguiam pela casa toda - a gata e a cadela - se sentava uma em cima do teclado, outra no sofá ao lado. Sinto tanto a falta delas!
Agora, até certo ponto, e nas horas em casa, muitas vezes sem interlocotor, falo convosco...


De augusta.clara a 29 de Dezembro de 2010 às 02:54
Tenho encontrado verdadeiras pérolas neste Arquivo :))) Eu nunca diria que tenho dois gatos pelas incomensuráveis complicações que os homens acarretam. E eu nisso até sou Professora Doutora com maiúscula.


Comentar post

EDITORIAL
AUTORES
Adão Cruz

Adriano Pacheco

Alexandra Pinheiro

Andreia Dias

António Gomes Marques

António Marques

António Mão de Ferro

António Sales

Augusta Clara

Carla Romualdo

Carlos Antunes

Carlos Durão

Carlos Godinho

Carlos Leça da Veiga

Carlos Loures

Carlos Luna

Carlos Mesquita

Clara Castilho

Ethel Feldman

Eva Cruz

Fernando Correia da Silva

Fernando Moreira de Sá

Fernando Pereira Marques

Hélder Costa

João Machado

José Brandão

José de Brito Guerreiro

José Magalhães

Josep Anton Vidal

Júlio Marques Mota

Luís Moreira

Luís Rocha

Manuel Simões

Manuela Degerine

Marcos Cruz

Maria Inês Aguiar

Paulo Melo Lopes

Paulo Rato

Pedro Godinho

Raúl Iturra

Rui de Oliveira

Sílvio Castro

Vasco de Castro

Contacte-nos
estrolabio(at)gmail.com
últ. comentários
Olá Sr. / Sra.Você precisa de empréstimos para o p...
HOLA...¿NECESITA PRESTAR DINERO PARA PAGAR CUENTAS...
Bom-dia Senhoras e Senhores.Sou uma mulher de negó...
Sou uma mulher de negócio Portuguesa e ofereço emp...
Dude, if you were trying to sound portuguese let m...
Olá Andreia! Sei que esta publicação já é antiga. ...
Patricia Deus vai abençoar você e sua empresaMeu n...
Meu nome é Fábio João Pedro e eu sou de Portugal. ...
Meu nome é jose matheus Giliard Alef sou do brasil...
Bom dia a todosMeu nome é Damián Diego Alejandro, ...
pesquisar neste blog
 
posts recentes

De 26 de Setembro a 2 de ...

As minhas novas pegadas (...

A viagem dos argonautas

Portugal, a União Europei...

Políticos que cumprem ! P...

O Ministro Gaspar

Anima ver o lado positivo

Palavras Interditas - por...

Os jornais e as notícias ...

Summer Time - Ella Fitsge...

arquivos

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

tags

todas as tags


sugestão: revista arqa #84/85
links