Terça-feira, 22 de Junho de 2010
Resposta de Carlos Loures a Carlos Leça da Veiga
Carlos Leça da Veiga, meu caro amigo:

Parece-me que chegámos àquela encruzilhada em que as nossas respectivas utopias se bifurcam e seguem caminhos diferentes. Vai para 40 anos que nos conhecemos e esta situação ocorre sempre que divergimos (e, pelo menos quando saímos do plano prático, divergimos quase sempre).

Não sei se leste uma carta que, a propósito desta nossa «polémica», o Josep Anton Vidal me endereçou. Ele fazia observações, quanto a mim, muito ponderadas, judiciosas e inteligentes, para mais vindas de um catalão independentista. Destaco esta parte em que, após ter dito que gostaria de ter visto o debate afastar-se dos referenciais históricos, trazer o olhar até ao presente e abri-lo ao futuro, continua: Creo que con demasiada frecuencia las construcciones mentales sobre el pasado, que aportan tanta profundidad a nuestra conciencia como personas y como ciudadanos, están, por otro lado, tan contaminadas de los vicios y defectos del pasado que, en lugar de ser una lente para contemplar el presente y un trampolín para acometer el futuro, se convierten en una losa o una muralla que nos impide ir más allá. Es como si la historia no sólo nos hubiera legado una realidad de facto, con sus cicatrices y con sus heridas aún abiertas, sino también la mentalidad, el punto de vista, el edificio mental que generó esa realidad. Y nos olvidamos de que nuestro tiempo es distinto, que contamos con un edificio mental y de valores con el que no contaban nuestros antepasados. La democracia es una palabra antigua, pero es apenas una noción incipiente, que aún no ha conseguido liberarse, entre nosotros y tal vez tampoco más allá de nosotros, de la carga asfixiante de valores, criterios y argumentos heredada del pasado.

Na minha opinião, a dificuldade em estarmos de acordo tem origem nas lentes com que cada um de nós analisa as situações – tu usas a História como guia, na convicção de que ela se repete e de que é possível utilizá-la na decifração do que nos acontece e na perscrutação daquilo que nos vai acontecer. Conheces a minha metáfora para caracterizar esse método – usar a História como guia, é o mesmo que guiar um carro olhando para o retrovisor.

Por isso valorizas o esplendor civilizacional do Al-Andalus para justificar a lógica da independência da Andaluzia. Eu digo-te que os muçulmanos invadiram um território alheio o colonizaram e, sete séculos depois, foram expulsos. Não é aquilo que achamos que seria justo que viesse a acontecer na Palestina?

Espanhol ou Hispânico, é a mesma palavra e designa habitante da península Ibérica, embora, actualmente, hispânico seja mais aplicado aos latino-americanos. No trajecto do latim hispanus até espanhol, há todo um percurso, onde surge hispaniolu, e depois, já em documentos portugueses, as grafias são diversas – espanholl, hespanol, espanhol - mas sempre na acepção de habitante da Península Hispânica. Só tardiamente, no século XVII, com Francisco Manuel de Mello, entre outros, a palavra começou a substituir o castelhano na designação dos súbditos dos reinos vizinhos. Mas isto, que confirmei com a ajuda do “Dicionário Etimológico” do saudoso amigo José Pedro Machado, não tem importância. Não seria por isso que mereceria a pena divergimos.

A tal maneira que temos de encarar as nossas respectivas utopias e de com ela relacionarmos as nossas opiniões, aí sim, reside o problema. Para mim, o País Basco, a Catalunha, a Galiza, a Andaluzia, constituem realidades diferentes e que exigem abordagens diferentes. Os galegos, na sua generalidade, têm consciência da sua cultura, da História, daquilo que os diferencia. Onde me parece estarem divididos é nas soluções que defendem para consagrar essa diferença – há os que querem imediatamente a independência, os que a querem atingir por etapas, os que se satisfazem com o reconhecimento do idioma e da cultura e com a autonomia política de que gozam no seio do estado espanhol – haverá ainda mais matizes. Perante este mosaico, eu, sabendo o que quereria se fosse galego – a independência, claro – não me acho no direito de dizer que esse é o único caminho possível.

Tu, meu caro Leça da Veiga, entendes que o único caminho que merece a pena contemplar é aquele que te (que nos) parece mais correcto – o da separação. Não sei se os galegos considerados no seu conjunto, como povo, desejam essa separação. E não estou também de acordo que nós portugueses tenhamos como missão ser árbitros das nacionalidades. Para mim, essa missão não deve caber a nenhum povo. E não é porque os esquerdalhos se riam, é porque na minha opinião essa função que as superpotências desempenham só deveria caber a uma entidade supranacional de moralidade inquestionável, coisa que a ONU não é.

Não estabeleço fronteiras às tuas utopias. Não queiras que as minhas as não tenham. O escoteiro (com o e não com u, já te explico porquê)* ao forçar a senhora idosa a atravessar a estrada que ela não necessita atravessar, ou pensa que não necessita, está a pôr as regras do escotismo e a sua ânsia de cometer uma boa acção, coisas que só a ele dizem respeito, a uma pessoa que tem as suas próprias necessidades e regras. Os galegos sabem muito bem que têm uma nacionalidade; o escolherem um caminho diferente daquele que te parece correcto não faz que estejam alienados.

O fenómeno da Jugoslávia não deve ser extrapolado para o de Espanha. A Jugoslávia durou uma décadas – Espanha, na acepção de estado espanhol, existe há mais de cinco séculos (de facto; pois de jure somente depois das Cortes de Cádis, em 1812). O exemplo da Jugoslávia e da forma dramática como as nacionalidades foram recuperadas, deve a todo o transe ser evitado pelos galegos e pelos outros povos oprimidos da Península. A Guerra Civil, à escala da História, foi ontem. Há feridas ainda mal fechadas.

Porque acho que a partir daqui, será partir pedra, dou, pelo que me diz respeito, por encerrada a nossa troca de opiniões. Não sem antes dizer o seguinte: lamento muito ter, ao falar de Olivença, referido a tua exigência, numa carta de dias antes, da independência da Galiza. Foi um reforço de argumentação absolutamente desnecessário e que, embora sem qualquer intenção de te atingir, te ofendeu. Peço desculpa, sabendo desde já que com a tua bondade me desculparás.

Como sabemos, as nossas divergências no que se refere às utopias respectivas, nunca nos impediu de estar unidos quando é preciso enfrentar realidades provenientes das utopias dos cérebros doentes que conduzem os destinos, do País e do Mundo.

Um grande e fraterno abraço do

Carlos Loures
_____________________________

*- Fui escoteiro. Num grupo filiado na Associação dos Escoteiros de Portugal, a primeira, laica. Para nós, a tradução de scout é escoteiro, cujo étimo seria escota - corda, cabo fixo... Os escuteiros são os membros do Corpo Nacional de Escutas, organização posterior, ligada à Igreja Católica. Para eles o étimo é escuta, pois o general Baden Powell usava uns jovens indígenas como mensageiros e espias (escutas). O que, como calculas, nos tempos da ditadura dava pano para mangas em termos de picardias políticas - escutas... Eu sou escoteiro, porque "escoteiro um dia, escoteiro toda a vida".


publicado por Carlos Loures às 19:30
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1 comentário:
De Luis Moreira a 22 de Junho de 2010 às 22:50
Dois bons escoteiros conhecedores dos caminhos dificeis da(s) nacionalidade(s)


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