Domingo, 19 de Dezembro de 2010
Fialho de Almeida - 1
Carlos Loures


ENTRE EMPLASTROS E PÍLULAS



Quando em 1866, com apenas nove anos de idade, José Valentim Fialho de Almeida ruma a Lisboa a ideia da família é dar-lhe a possibilidade de estudar e de se formar a nível superior. Matriculado no Colégio Europeu, no Largo do Barão, ali frequenta os estudos regulamentares até 1872. Na sua Autobiografia, publicada em A Esquina, Fialho relata ter sido sempre um bom estudante, «uma criaturinha triste e sossegada», razões que se juntam ao facto de seu pai nunca o poder vir visitar e de, devido à sua pobreza, não poder mandar bons presentes ao director, para lhe valerem seis anos de privações e de maus tratos, suportados por uma «resistência aparentemente submissa e tímida de orgulho», que pela vida fora irá ser, segundo ele, a sua independência e a sua força. Escutemos então a voz do próprio Fialho: «No meu tempo de colegial [...] a vida no internato era a seguinte. Erguíamo-nos da cama às cinco horas, Verão e Inverno, estudávamos até às oito, hora regulamentar do almoço [...] depois do que, entrávamos de novo nas salas de estudo, onde nos amesendávamos até às quatro da tarde [...] Quatro horas dadas, caligrafia durante hora e meia, e ia-se jantar.[...] Nas aulas. quase sempre fechadas, sem respiradouros, nem capacidade aérea, nem tiragem, havia constantemente um fétido morno a leite azedo [...] Os dormitórios eram no andar de cima dum prédio velho, grosseiramente adaptado à moradia de tamanha tropa de indivíduos [...] Os banhos raríssimos. Aos domingos de manhã, meia hora de ginástica em argolas e barras, não obrigatória, mas à vontade das famílias, que ainda nesse tempo, as da província sobretudo, consideravam a ginástica como um exercício de palhaços.»1 Mas, se, como por estas palavras se pode ver, as coisas já não estão a correr muito bem ao nosso jovem alentejano, elas irão ainda piorar. Em 1872, por se ter agravado a já de si precária situação económica da família, vê-se obrigado a abandonar o colégio. Tem 15 anos e arranja uma modesta colocação como praticante de farmácia numa lúgubre botica do Largo do Mitelo, perto do Campo de Santana. Aí vive sete anos a «apodrecer entre emplastros e pílulas». Diz ele: «Ninguém pode imaginar os tormentos que eu passei. Davam-me três horas aos domingos para oxigenar os pulmões cansados de respirar fedentinas de drogas e ervas podres; a minha alimentação era uma berundaga que sobrava do jantar da família do patrão, e que mal poderei comparar como nutriência e aspecto, às mais asquerosas pastas que os soldados distribuem nos quartéis, à pobralhada. Dormia num cacifro de seis palmos de largo por vinte de comprido e dez de altura, numa enxerga metida numa espécie de gaveta, que, que de manhã reentrava na parede, e da qual tanta vez pedi a Deus me talhasse o caixão onde acabar os meus grotescos males por uma vez. A baiuca onde eu praticava era tão velha, infecta, escura e desordenada, que ainda hoje me surpreendo da triunfância vital deste arcabouço que pôde resistir sete anos àquele inferno de ratos, pias rotas, miséria alimentícia, e rançuns de unguentos pré-históricos.»

Apesar de mergulhado neste ambiente malsão, consegue concluir os seus estudos secundários e ganhar mesmo um grande amor pela literatura - os livros são como que uma fuga à pobre realidade que lhe é dado viver – «Esta residência entre drogas estragou-me a saúde e além de outros achaques de espírito e de corpo, incutiu-me uma tendência mórbida para as letras.» E continua: «Gastei sete anos a percorrer todos os lugares-comuns dos escritores nacionais, de 1830 para cá e a matar o tédio desta leitura com romances de cadernetas, e pequenos ensaios literários de fábrica própria para jornais de província, onde a petulância das minhas asneiras me acarretou, por Leiria e Viseu, foros de escritorinho esperançoso. Minavam-me o tédio e uma ânsia de liberdade insaciável, e alcancei que me deixassem ir findar os preparatórios do liceu, findos os quais, ao matricular-me na Escola Politécnica, o falecimento de meu pai me obrigou a abandonar botica e estudos, para ir acudir ao bem estar dos meus, ameaçado terrivelmente por aquela morte que nos deixara às portas da miséria. Por lá estive um ano inteiro, e tornado no ano seguinte, por aí fora vim vindo, té terminar o curso médico. Como vivi todo este tempo? Dos recursos do pouco que minha pobre mãe podia dar-me, de alguma colaboração avulsa por dicionários e pequenas folhas literárias, e enfim de lições que fui dando à hora em que os meus condiscípulos folgavam, descuidados, felizes, bem comidos, bem vestidos, ignorando o martírio do pão ganho aos patacos, e os prodígios de energia heróica, consumida a vencer economias de cigarros e de ceias, e a desaparecer enfim de toda a parte onde o ‘sucesso tem praça’, e poderia ser notado o nosso casaco velho, o nosso cabelo crescido e as nossas botas roídas nos tacões. Vencidos os cursos científicos, em vez de seguir, como os meus condiscípulos, nas facilidades profissionais que eles fomentavam, cometi a tolice de me lançar numa vida literária, de querer viver por uma pena donde continuamente espirravam revoltas, e que fatalmente havia de me agravar as dificuldades do caminho.»


FIALHO, BOÉMIO E «PONTÍFICE DE CAFÉ»

Café A Brasileira


Enquanto prossegue, lenta mas porfiosamente, os seus estudos (irá concluir o curso de Medicina aos 38 anos!...) Fialho torna-se conhecido nos meios boémios, jornalísticos e literários colabora em jornais e revistas, escreve folhetins, crónicas, críticas literárias e teatrais, faz traduções. Escreve os Contos e, depois, a Cidade do Vício, onde estão os seus melhores trabalhos de ficção. O seu habitat é a mesa do café - O Martinho, a Brasileira, são as suas paragens dilectas. Num livro editado postumamente em 1922, Figuras de Destaque, confidencia-nos: «Nos meus primeiros anos de escolar, não me lembro de sair nunca do Martinho, com o pai Rosa e António Pedro e outros noctâmbulos, senão depois de terem batido no Carmo as quatro da alva.»


O jovem aldeão de Vilar de Frades converte-se numa figura temida da vida literária, teatral e jornalística da capital. Os seus pareceres são aguardados com algum temor, pois a sua língua e a sua pena são tudo menos benévolos. Na História da Literatura Portuguesa, de António José Saraiva e Óscar Lopes, aventa-se a possibilidade de a agressividade das críticas de Fialho, bem como certos aspectos realistas e «progressistas» da sua obra se relacionarem com «as pretensões a mentor do bom gosto diletante e da boémia artística, que se revelam já nos seus artigos de adolescente e que se observam na sua crítica de arte, de teatro, de literatura, nas suas notas impressionistas de música, e viagem, de boémia nocturna, de cenas espectaculares, no seu trajo, e no seu pontificado de café em emulação com Gualdino Gomes.» Por seu turno, nas suas Memórias, Raul Brandão descreve um Fialho boémio, sarcástico: «um príncipe de gabinardo que fazia cair as peças do alto do galinheiro, a um gesto seu irrespeitoso». Diz também que era seguido por uma «malta atónita de matulas suspeitos e jornalistas de ocasião, que deslumbrou de fantasia e atascou em sonho. [...] Esses aplaudiram-no e amaram-no. Esquecidos do frio e da pobreza, não despregavam os olhos daquele sonho desconforme.»4 Porém, apesar da severidade com que sempre julga actores e autores, Eduardo Brasão, naqueles anos finais do século XIX, o actor por antonomásia, nas Memórias compiladas por seu filho e publicadas em 1925, transcreve uma crítica (globalmente desfavorável) - Brasão o Olímpico - («Figura de actor francês, índole ardente, braços descomunais, e uma voz sem flexibilidade com tendência a enriquecer o som pelos rugidos.»), sentindo-se honrado pela atenção que despertou no crítico feroz -«E, demolindo-nos, Fialho alteia-nos, ou pelo menos, se preciso fosse tornava-nos conhecidos.5


OS GATOS


Entretanto, Ramalho Ortigão publicara as suas Farpas e o editor Alcino Aranha, aliciado pelo grande êxito que aquelas crónicas tinham obtido junto do público, convida Fialho a escrever um texto mensal de análise à vida portuguesa. Fialho aceita e, em Agosto de 1889, é publicado o primeiro panfleto. A reacção dos leitores é de tal modo positiva que depressa a publicação de Os Gatos passa de mensal a semanal. Até Janeiro de 1894, quando sai o derradeiro panfleto, reúne material que é depois publicado em seis volumes. Porquê este título – Os Gatos? Fialho explica-o no pórtico do primeiro panfleto: «Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, e fez o crítico à semelhança do gato. Ao crítico deu ele, como ao gato, a graça ondulosa e o assopro, o ronrom e a garra, a língua espinhosa e a câlinerie. Fê-lo nervoso e ágil, reflectido e preguiçoso; artista até ao requinte, sarcasta até à tortura, e para os amigos bom rapaz, desconfiado para os indiferentes e terrível com agressores e adversários.» [...] Desde que o nosso tempo englobou os homens em três categorias de brutos, o burro, o cão e o gato – isto é, o animal de trabalho, o animal de ataque e o animal de humor e fantasia – porque não escolhermos nós o travesti do último? É o que se quadra mais ao nosso tipo, e aquele que melhor nos livrará da escravidão do asno, e das dentadas famintas do cachorro.»


(Continua)

(Excerto de uma biografia publicada pelo autor em "Vidas Lusófonas")


publicado por Carlos Loures às 12:00
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