Domingo, 17 de Outubro de 2010
Os Senhores Singulares -( O romance da revelação do Brasil)- 6 - por Sílvio Castro
(Continuação)

Quero confessar a Vossa Senhoria uma coisa que me inquieta. Uma coisa importante. Até agora eu não sabia que era assim, que sentia assim, mas agora sei. Me parece que isto seja o conto, foi o conto que de certo tirou de dentro de mim e me esclareceu este meu certo sentimento. Desde que vos estou contando as minhas estórias passei a compreender essas coisas escondidas que agora vos tento revelar.

Este meu novo mundo desde logo me incutiu um grande medo. Não era, depois de um primeiro momento de indecisão, o medo de sofrer dores, violências. De morrer. Em verdade a minha vida me parecia tão miserável que a morte era pouca coisa diante dela. Era um outro medo. Tudo me era desconhecido e ao mesmo tempo se revelava com clareza espantosa a cada momento. Tudo me parecia como que a perda do que eu era, e quanto mais eu entrava no contacto e no conhecimento das coisas e da gente, mais me sentia perdido. Mesmo quando a bondade de Coaracy procurava ligar-me a tudo aquilo que era o contrário da minha vida, mesmo assim a cada momento mais se fazia indefinido o meu dia, o meu ver, escutar, gostar, o meu ser todo. Eu agora sei que me confrontava a cada dia com as novas coisas e me atormentava porque ao mesmo tempo queria e não queria participar delas. Me encontrava com a gente, e não queria, como queria, conhecê-las, estar com elas. Mais ainda era silenciosa a dor quando aquele mundo parecia de repente, por tantas suas coisas, se transformar dentro de mim numa adesão.


Lembro-me que um dia caminhara longamente pela floresta e me perdera sem pensar no tempo. Assim fui a longo, com os pensamentos que não se fixavam em nada, mas que se ligavam como coisa física com aquelas árvores, cores, sons, e que não se perdiam, mas me encaminhavam com tranquilidade na floresta encantada de cantos e calores. Assim eu ia quando, de repente, senti que estava muito longe da aldeia e que ela, com a sensação de uma grande distância, crescia dentro de mim como uma ausência dolorosa. Então eu voltei atrás, rapidamente, cada vez mais velozmente, até‚ que vi, entre os ramos das árvores, aparecer os vultos das primeiras cabanas.

Vê-las me encheu de surpreendente alegria. Então fiquei de longe a contemplar a aldeia e não sabia o que sentia. Agora sei. Eu começava a conhecer o mundo, pois começava também a saber-me perdido. Meu antigo sentimento das coisas natais não morriam, de certo, mas eu acrescentava a ele a novidade da descoberta de mim fora das minhas alegrias juvenis. Minha mãe me apareceu então mais uma vez, muito junto de mim. E ela me contemplava como que feliz. Eu tinha medo de fixar os seus olhos, mas ela me sorria e me acariciava. Diante de seu sorriso amoroso eu pude olhá-la sem medo enquanto caminhava alegre na direção da aldeia. Por que será que agora essas coisas me começam a ser claras, Vossa Senhoria me pode explicar? Será porque contar‚ escrever, nomear o mundo? Eu sei somente que agora não sinto mais a necessidade que tinha antes de apropriar-me das coisas que o novo mundo me revelava.

Eu sentia sempre, cada vez que me confrontava com as coisas novas, uma necessidade absoluta de tomá-las para mim, dispor delas, usá-las e quase sempre negá-las. Eu queria apropriar-me sempre das coisas que se me revelavam, mas não porque era feliz por conhecê-las, mas porque elas me levavam a comparar o que vivia com o que antes havia vivido. Eu não queria que as novidades cobrissem o sentimento de minha terra, de minha gente, de meus sonhos, e temia que assim fosse. Mas, ao mesmo tempo, eu sabia que não podia ignorar as novas coisas. Então sentia uma intensa vontade de dar-lhes os meus nomes, mudá-las e chamá-las com as palavras que minha mãe me ensinara. Assim eu vivia em inquietude. Agora sei de tanto desconcerto, porque conto. O que será, afinal, este meu contar?

Acredito que chegou a hora de contar a Vossa Senhoria, sempre bondoso em escutar-me, o primeiro momento verdadeiro de meus encontros com as coisas e a gente daqui. Mas isso não será possível se eu não contar também que tudo começou não entre mim e a gente nova, mas através da presença de meus companheiros de exílio. Desde logo entendi que eu não podia estar completamente a sós com a terra nova e sua gente, com Coaracy e seu povo. Entendi que todas as minhas descobertas passavam também por aqueles outros três homens que comigo ficaram na praia no dia de todos os começos.

Eu os vejo ali - Antônio Fragoso, silencioso, o olhar duro, modos e gestos ríspidos; mais adiante, completamente diversos na agitação repetida sem fim, José Pacheco e João Osório. Nos dois marinheiros fugitivos, suas juventudes e ingenuidades tomavam corpo em tudo o que faziam. Enquanto Antônio Fragoso como se escondia nas sombras inexistentes da manhã, os dois jovens se confundiam logo com o colorido solar daquele dia mágico e davam interminável vazão às próprias alegrias por uma escolha que somente eles tinham feito.

Depois, com o passar dos dias, eles foram sempre assim diversos. É por isso - e Vossa Senhoria me deve desculpar pela lentidão de meu modo de contar - que os três terão vidas diversas nas nossas descobertas. Muito diversas.

Não sei como falar de Antônio Fragoso. Mesmo hoje, quando tudo já passou, não consigo afastar de mim o agastamento que a sua presença sempre me provocava. Isso já acontecia na navegacão, pois o meu Comandante desde então o colocara junto a mim aos serviços de Bartolomeu Dias. Eu me imaginava sozinho, mas Antônio Fragoso rondava ao meu redor. Será que a nota sabedoria de Pedro Álvares já resolvera desde então que seríamos nós dois, eu e Antônio Fragoso, os degredados destinados a não prosseguir viagem até as Índias?

Assim foi e digo que a presença de Antônio Fragoso me causava sempre inquietação. Eu não sabia porque sentia tal coisa; sabia somente que estar ao lado dele, de sua dureza, de seus olhos escuros que não se iluminavam jamais, de seus gestos bruscos, de todo ele, era como esperar que o imprevisto mais desastroso acontecesse.

Não, Vossa Senhoria que é muito sério, ainda que sempre gentil, não pode saber como eram os dois jovens marinheiros que encontrei na beira-mar a olhar as naves que se perdiam na direção do sul, vistas sempre mais longe daquela praia de palmeiras e areias muito brancas.

Eu não contava certamente com eles, mas Osório e Pacheco ali comigo naquela manhã não eram logo uma surpresa. Será porque, a partir de então, sonho e realidade eram uma só coisa? Foram os saltos e os gritos de Pacheco e Osório que me fizeram abandonar o olhar do horizonte e retornar à realidade naquela primeira manhã de descobertas.

Logo nos vimos envolvidos por homens mulheres e crianças que abandonavam a praia e nos levavam para dentro do bosque já conhecido por nós. Passado o riacho de águas que correm para a praia, caminhando não muito entre árvores que começávamos a distinguir, mesmo quando diversas daquelas de Portugal, logo demos com a aldeia da gente de Coaracy. Era um largo espaço rodeado de verde. No meio estava uma grande cabana, a maior de um conjunto de vinte, trinta. Eu já as conhecia desde aquelas vezes que Pedro Álvares me comandara de ficar entre eles. Mas neste preciso momento elas me pareciam outras, como se as visse pela primeira vez. Ali estávamos e a aldeia surgia diante de nossos olhos com uma movimentação que desconhecíamos. De todos os lados surgia gente; os homens se organizavam em frente às entradas das cabanas como que para fazer muitas coisas; as mulheres entravam e saiam como as mulheres das aldeias do Ribatejo, ativas e ruidosas, carregando objetos vários; as crianças corriam livres nos jogos. Ver e ouvir todas essas muitas coisas provocava, não sei se diretamente na minha cabeça, ou se vindo do estômago, subindo pelos braços, peito, olhos, uma atordoamento que no início era sem voz, depois um intensivo murmúrio, para chegar a ser uma ressonância de vozes, gritos que me enchiam a cabeça e me faziam como que flutuar na direção do verde das árvores e do luminoso amarelo do sol que entre elas se mostrava.

Coaracy nos acompanhou os quatro até uma cabana menor situada na parte oeste da aldeia. Esta seria a nossa casa.

Quando entrei pela primeira vez na cabana não sei porque me veio à lembrança aquela distante manhã do Restelo quando devíamos partir para a grande viagem e quando, então, como seguindo os passos do bom Pero Vaz, entrei na capelinha de Santa Maria. Como naquela manhã que já vai longe, como naquela manhã do Restelo, dentro de mim procurei socorro na fé‚ e orei no espaço que deverá ser o meu para sempre.

(Continua)


publicado por Carlos Loures às 22:30
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