Domingo, 17 de Outubro de 2010
Basileia e as rotas do caos
Carlos Loures

Há meses atrás, publiquei aqui no Estrolabio um texto a que dei o título da obra «A Nave dos Loucos», de Sebastian Brant (1457-1521), um jurista alsaciano de língua alemã, formado na universidade de Basileia.

Foi em 1494 que escreveu Das Narrenschiff ou, em latim Stultifera navis – «nave dos loucos». Nesse artigo dizia, entre outras coisas, como essa obra, considerada menor, influenciou artistas como Bosch ( mostro à direita o seu quadro que tem o nome da obra de Brant), e Dürer, entre muitos outros por essa Europa fora. Coloquei até a hipótese de Gil Vicente se ter nele inspirado para alguns dos seus autos.

Brant metia na Sultifera navis 112 tipos de loucos, representando clérigos, nobres, mercadores, poetas, camponeses e artífices. A cada louco, dedicava um capítulo e não se esqueceu de si mesmo – "O Louco dos Livros" e "Dos Livros Inúteis", que, como ele, amavam a sua biblioteca mais do que o saber que ela lhe oferecia, transformando-o em coleccionador de livros, mas não em pessoa sábia (com livros espalhados por toda a casa, a carapuça também me serve).

Portanto, em cada capítulo retratava um vício humano personificado num louco – o louco da moda, o da avareza, o da discórdia, o da luxúria, o da gula, o da inveja, etc. Sobre todos, predominava a figura de Frau Venere (Vénus). É um poema moralista, abundando as sentenças bíblicas e os aforismos portadores da sabedoria conceptual da Idade Média. Representava-se ali uma viva angústia pela situação da Igreja, onde sopravam os ventos da Reforma da iminente desagregação do Sacro-Império, ameaçado na época por poderosos inimigos internos e externos. A Nave dos Loucos era a «Civitas christiana» à deriva num mar de loucura e de inovações «sacrílegas», resultantes do Renascimento.

Dizia como a narrativa inspirou o romance Ship of fools de Katherine Anne Porter e baseado nesse livro, um filme de Stanley Kramer – num paquete de luxo, em 1933, pessoas de diversos estratos sociais, viajavam do México para a Alemanha – durante a viagem, a situação mudou na Alemanha, Hitler subiu ao poder. Alguns passageiros, judeus por exemplo, vão alegremente a caminho do holocausto.

.Passava depois para a actual política partidária portuguesa e classificava-a de repugnante. Não compreendendo como se podem as pessoas preocupar com os políticos do governo e da oposição, quando quem os manipula são grandes empresários, grandes multinacionais, organizações internacionais. Vinha depois a moralidade da história, dizendo como numa barca cheia de gente alienada, vamos navegando na irremediável direcção do caos. Não seria inevitável, se soubéssemos exigir aquilo a que temos direito, se soubéssemos escolher entre nós os mais capazes de dirigir a barca e de escolher a rota.

Mas vamos elegendo como capitães os servos de poderes afastados da ribalta. Chegados à ponte de comando, perguntam aos patrões como e para onde devem conduzir a barca, pois não são eles os timoneiros da nave que nos conduz ao caos. São marionetas. Rostos e as bocas da corrupção, mas não o seu coração, os seus pulmões. «Uma nave de loucos conduzida por crápulas». - era assim que concluía o artigo.

Decorridos estes três ou quatro meses, o pântano adensou-se – novos escândalos, reais ou não. Temos a sensação de estar a ser governados não pelos poderes constitucionais, mas por entidades ocultas, servidas por jornalistas sem escrúpulos. A nave dos loucos com uma chusma de corruptos aos remos e com crápulas (os do costume e outros) a dar-lhes ordens. Voltemos a Basileia:

Foi ali assinada a Paz de Basileia – conjunto de três tratados de paz celebrados pela França em 1795 com a Prússia, Espanha e o Hessen-Kassel. Os acordos representaram o fim das guerras revolucionárias francesas contra a Primeira Aliança. Mas não foi uma paz duradoura. Foi também em Basileia que, em Agosto de 1897, se reuniram quase 200 representantes de 17 países para participar no Primeiro Congresso Sionista. O escritor judeu Theodor Herzl fez um discurso emocionado e emocionante: “Somos um povo. Todos os povos têm uma pátria. Precisamos de uma pátria nacional para nosso povo. Por isso queremos lançar a pedra fundamental para a casa que um dia vai abrigar a nação judaica”. Pode dizer-se que Israel (e o problema da Palestina) começou em Basileia.

Ainda a propósito de Basileia, lembrei-me de um outro livro, «Os Sinos de Basileia», «Les Cloches de Bâle», de Louis Aragon (1897-1982), o poeta comunista, Aragon foi um dos principais activistas do movimento surrealista que, nos seus primeiros anos, esteve ligado ao marxismo, até que, Breton, figura de proa do movimento abandonou o partido. Aragon ficou no PCF até morrer e, do surrealismo, passou ao realismo-socialista. Resistente destacado durante a ocupação alemã entre 19939 e 1944, além de maravilhosos poemas deixou-nos um ciclo novelístico em seis romances dos quais «Os Sinos de Basileia», é o último. Situado nos anos que antecedem a Primeira Guerra Mundial, conta como três mulheres, muito diferentes entre si, interagem numa situação-limite – Diane, Clara Zetkin e Catherine, que vai das concepções burguesas ao anarquismo e daqui chega ao socialismo.

O romance conduz-nos até Basileia, em cuja catedral se realizou, em Novembro de 1912 um congresso socialista para prevenir o perigo de uma guerra imperialista cuja eclosão se temia a todo o momento. Mais de 500 delegados estavam presentes. Os sinos da catedral que tinham soado durante a manhã, calaram-se e ouviram-se os discursos de oradores inspirados, como Jaurés, que seria assassinado no ano seguinte. «Os sinos ouviam os oradores», diz Aragon.

O manifesto sobre a guerra foi aprovado por unanimidade. Prevenia os povos sobre o perigo do conflito mundial que se avizinhava. Mostrava os objectivos espoliadores da confrontação que os imperialistas preparavam e exortava os trabalhadores de todos os países a travar uma luta decidida pela paz, contra o perigo da guerra, a «contrapor ao imperialismo capitalista a força da solidariedade internacional do proletariado».

Quando começasse a guerra imperialista, o manifesto recomendava aos socialistas que utilizassem a crises económica e política provocada pelo conflito para lutar pela revolução socialista. Os dirigentes da II Internacional – Kautsky, Vandervelde e outros – votaram no congresso pela aprovação do manifesto contra a guerra. Porém, quando a guerra eclodiu, o Manifesto de Basileia, bem como outras resoluções dos congressos socialistas internacionais foram esquecidos por muitos dos mais destacados congressistas que lutaram nos exércitos dos seus países. porque se os sinos de Basileia escutaram as vozes do congresso, os poderes internacionais foram surdos e em 1914 eclodia a I Guerra Mundial. O bem-intencionado Manifesto de Basileia foi esquecido até pela maioria dos seus signatários. Os povos parecem gostar de ser conduzidos por loucos e por crápulas.

Este mundo, esta civilização global, está a globalizar a corrupção, a droga, a miséria, o crime. Portugal está a transformar-se num país violento, onde é perigoso sair à noite nas ruas das nossas cidades. No regime democrático, os marginais aterrorizando os cidadãos pacatos e cumpridores, substituem os agentes da polícia política que, durante a ditadura, os ameaçavam. Aos centros de poder, eleitos por nós, vão chegando marginais de outro tipo que não nos assaltam junto ao multibanco de seringa em punho, mas nos retiram o dinheiro dos bolsos pela chamada «via legal». A Igreja contempla esta realidade, contribuindo com os seus marginais, pedófilos e quejandos, para a abençoar. Pobre gente que somos! Nas próximas eleições lá iremos ordeiramente eleger os timoneiros da nave.

E saberemos escolher entre os piores! A nave dos loucos continua a sua viagem rumo ao caos.




publicado por Carlos Loures às 12:00
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6 comentários:
De augusta.clara a 17 de Outubro de 2010 às 16:34
Carlos, o teu artigo é tão bom, tão bom que, mais uma vez, lembro a necessidade de comprarmos o tal software que nos vai permitir ter os textos à mão. Gostei muito. Não sabia que o livro da Katherine Ann Porter, que li há muitos anos, se baseava nesse outro mais antigo. E os livros espalhados pela casa toda, pois, pois. Ainda vou morrer antes de os ler todos. Mas, lembro-me duma coisa que ouvi ao Eduardo Prado Coelho: se um dia tivesse que ficar fechado em casa, pelo menos, contava com a companhia daqueles livros todos que comprara e ainda não tinha lido.


De carlos loures a 17 de Outubro de 2010 às 17:39
O livro é muito bom e o filme uma maravilha - realizado pelo Stanley Kramer, era interpretado por gente como o Lee Marvin, a Vivien Leigh, a Simone Signoret, o José Ferrer... e muitos outros de que não me lembro. Uma obra como a do Sebastian Brant, considerada coisa sem valor, influenciou pintores como Dürer e Bosch, não sei se o Gil Vicente, mas é muito provável que sim, e quase nos nossos dias ainda dê lugar a livros e filmes. A resposta não está na arte, está na força da metáfora - os homens sempre optaram por ser guiados por crápulas que lhes dizem o que eles querem ouvir. obrigado Augusta Clara.


De augusta.clara a 17 de Outubro de 2010 às 17:53
Acho que não vi o filme. Do Bosch comprei uma reprodução barata, que mandei emoldurar. daquele "Jardim das Delícias" de que gosto tanto.


De Sales a 17 de Outubro de 2010 às 18:39
Carlos, gostei do teu artigo. Nos conceitos que dizem respeito a Portugal já não há gente com personalidade política e força de carácter para governar. Quando dizes "lá vamos votar" é naquilo que nos apresentam os Partidos e o pessoal procurar escolher entre os maus os menos maus.Um 1º ministro dizis "è a vida!" e eu digo "É o destino!". Mas este destino é para continuar, não nos iludamos. Nos anos 13, 15, 20 e etc. haverá crises permanentes. E nem vou mais além porque sabes o que eu penso disto: a democracia já foi tomada por dentro.
Continua com os teus artigos.


De carlos loures a 17 de Outubro de 2010 às 19:25
Obrigado António Augusto. É como dizes - a democracia foi minada, roída até às raízes pelos escaravelhos. É uma árvore sem futuro. Os inimigos da igualdade entre os seres humanos, descobriram que não há meio melhor para combater a igualdade e a justiça, do que a democracia. Os ditadores do século passado bem podiam ter poupado aquelas parafernálias - exércitos, polícias políticas, campos de concentração, holocaustos - comparados com os «democratas» foram uns toscos. Para quê aquelas coisas que só dão mau aspect, se com o marketing, os opinian makers, o politicamente correcto, a anormalidade é aceite como normal e as vítimas vão põr a cabeça no cepo de livre vontade. Depois, andam para aí sem cabeça a «pensar» todos o mesmo. Uma família feliz.Vou continuar,enquanto puder, a bramar no deserto. E tu continua com os teus poemas. Deu-te tarde, mas com força. E beleza.


De augusta.clara a 17 de Outubro de 2010 às 19:51
Tens mesmo que continuar, Carlos, e todos nós dentro daquilo para que temos capacidade porque já não me restam dúvidas de que esta luta terá que ser permanente e continuada pelo simples facto de que todos os poderes, todos, sempre se hão-de apropriar daquilo que for semente de algo diferente, revolucionário no genuíno sentido do termo, e destrui-lo-ão, transformando-o na papa mole da "normalidade".


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