Quinta-feira, 30 de Junho de 2011
Sons da Noite - Bairro do Oriente - versão ao vivo (Rui Veloso Ar de Rock Vinte Anos Depois), pelos Clã (Carla Romualdo)


publicado por Augusta Clara às 23:00
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Um Novo Coração 38 - Sílvio Castro

 

Sílvio Castro  Um Novo Coração

 

 

Capítulo 38

 

 

PENSO que este seja o melhor momento para interromper por um pouco a narração feita até aqui e dirigir-me mais diretamente ao leitor que me acompanha nesta aventura de conhecimentos incontidos. Assim o faço para estabelecer com ele uma ligação ainda mais profunda, se tal coisa nessas alturas ainda fosse possível, de quanto por todas estas páginas temos descoberto, contando-lhe então de um episódio distante nos anos, aqueles da minha juventude, mas que pensando bem me parece como o precedente direto do estado das coisas que juntos estamos procurando desvendar sobre “a doença mortal”. O conto que agora começa pode ser tomado como se toma o conhecimento vago, generalizado, mas que nem por isso deixa de revelar-se concreto e real, quase como um indispensável complemento daquele outro, o conhecimento final, resultado da matéria cruel de revelações que desnudam sentimentos e coisas.

 

Se por acaso, nesse ponto, uns ou outros murmurassem que não compreendem do porquê de tal suspensão, quando a narrativa se processava coerentemente, como podem atestar pelo simples fato de terem chegado nela até aqui, muito gratamente lhes respondo que o faço na procura insone do ritmo narrativo ideal, o qual sonho de alcançar assim agindo.

 

Começo o interlúdio narrativo.

 

 

TUDO ACONTECEU numa quinta-feira de novembro de 1955: a data exata, agora não a sei recuperar, ainda que tenha a certeza que era uma quinta-feira. Certamente era na metade do mês, porque faltavam ainda alguns dias, mais de uma semana, para o dia 26, quando eu completaria meus vinte e quatro anos com um aniversário sem festas. E também porque naquela quinta-feira eu participava de um dos últimos atos previstos pelo calendário das atividades da Faculdade Nacional de Direito no seu ano-acadêmico de 1955.

 

Naquela tarde de novembro cheguei à Faculdade na rua Moncorvo Filho vindo do centro da cidade. Caminhara da Avenida Rio Branco até a Praça da República e me lembro que, enquanto caminhava pelas ruas entre carros, ônibus, bondes, não lhes dava maior atenção. Caminhava em passos lestos, seguros, mas com uma desatenção quase total em relação às coisas que me circundavam, ainda que essas fossem, como eram – disso tomo consciência agora, quando as rememoro – ruidosas, quase caóticas.

 

Eu caminhava absorto em alguma coisa indefinida quando superei a Praça da República, tomei a Moncorvo Filho e entrei, como fazia todos os dias desde 1953, certamente na Faculdade, subi as escadas de mármore que do andar-térreo vão para o primeiro-andar e ali entrei no grande, iluminado Salão Nobre. A conferência programada estava por começar naquela quinta-feira de novembro, com a máxima puntualidade, às 18 horas.

 

Aquele novembro já mostrava as cores e as luzes do verão que ainda devia chegar.

 

Entrei no Salão Nobre e procurei um lugar nas cadeiras dos fundos e ali me sentei. O Salão estava repleto de estudantes e enquanto eu percorria com os olhos todo o espaço via José Roberto, Thiago, Waldir, Venâncio, Bolivar, Pierre, Luiz Fernando, Mário Cesar. Leila, Maria de Lourdes, Nadyr, Esther, Manuela, Esterzinha. Mas, como já acontecera na caminhada do Centro até a rua Moncorvo Filho, eu sabia que eles estavam ali, mas como se vistos à distância, apartados da atenção que eu imaginava dar àqueles rostos e fatos. Nessa sensação não-dolorosa de ausência, tenho em mente apenas a consciência de uma queda, a minha.

 

Recuperei os sentidos encontrando-me deitado na cama de meu quarto, na minha casa da rua Pereira Nunes, 385. O que acontecera entre a rua Moncorvo Filho e a rua Pereira Nunes?

 

Abro os olhos e vejo meu pai, minha mãe, meus irmãos, minhas primas. Todos eles me olhavam como que espantados. Sorri para eles, principalmente para minha mãe que chorava; sorri como se lhes perguntasse por que aquele espanto geral. Eu lhes sorria, mas me parecia que não acreditassem no meu sorriso.

 



publicado por Augusta Clara às 22:00
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1 - José Estaline (Иосиф Виссарионович Сталин)* - por Carlos Loures

 

Subitamente na rádio Moscovo

 

Às primeiras horas da manhã de sexta-feira, 6 de março de 1953, a

Rádio Moscovo anunciou subitamente a morte de Estaline.

Uma enorme multidão começou a concentrar-se na Praça Vermelha. Chorando silenciosamente, comprimindo-se umas contra as outras, suportando o frio que subia da mistura de lama e neve que cobria o pavimento, as pessoas esperavam que o corpo fosse colocado na Sala das Colunas do Kremlin. A turba não cessou de aumentar e, ao fim da tarde dessa sexta-feira, a bicha ultrapassava já os quinze quilómetros. Dezenas de milhares de cidadãos soviéticos, de Moscovo e de regiões distantes, passaram perante a urna. Para arranjar lugar nesta fila imensa, atropelavam-se, espezinhavam-se. Diz-se que mais de mil e quinhentas pessoas morreram esmagadas.

 

 

De Vladivostoque, no remoto leste, até Leninegrado; de Arcangel a Astracã, portas e janelas exibiam bandeiras vermelhas com tarjas negras. Mesmo nos campos de trabalho, cheios de homens e mulheres que sofriam na carne uma dura repressão, há desolação e dor. Um estado com duzentos milhões de pessoas parecia sofrer de um sentimento colectivo de orfandade.

 

Em 1936, Louis Aragon, o grande poeta francês, considerou a Constituição estalinista que criara a União Soviética, uma obra acima das de Shakespeare, Rimbaud, Goethe e Puchkine, e Estaline um génio, um filósofo na acepção marxista do termo. Dele disse Milovan Djilas, o político e escritor montenegrino: “No caso de Estaline qualquer crime era possível, pois não existe nem um só que ele não tenha cometido. Seja qual for a medida que usarmos para o medir, merecerá sempre a glória – esperemos que eterna – de ser o maior criminoso da história.”

 

Foi Estaline um génio, como afirmou o autor de Os Sinos de Basileia ou um criminoso como disse o entrevistador de Conversations with Stalin:. Se foi um génio, que ecos restam dessa genialidade e que possam ser comparados a Romeu e Julieta, por exemplo? Se foi um criminoso, como explicar que o povo que oprimiu o chorasse, preferindo morrer espezinhado a deixar de lhe prestar uma última homenagem?

 

 

Numa série de pequenos artigos vamos tentar aprofundar um pouco o mistério de José Estaline.

 

 

(Continua)

 

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*Este texto é, com algumas alterações, o que foi publicado em 1997 no livro Oitenta Vidas que a Morte não Apaga, antologia de biografias ficcionadas dirigida por Fernando Correia da Silva.

 

 

 



publicado por Carlos Loures às 21:00
editado por João Machado em 01/07/2011 às 14:18
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Um Discurso sobre as Ciências (4) - Boaventura de Sousa Santos

 

Boaventura de Sousa Santos  Um Discurso Sobre As Ciências (4)

 

 

 

(Continuação)

 

O rigor científico afere-se pelo rigor das medições. As qualidades intrínsecas do objecto são, por assim dizer,desqualificadas e em seu lugar passam a imperar as quantidades em que eventualmente se podem traduzir. O que não é quantificável é cientificamente irrelevante. Em segundo lugar, o método científico assenta na redução da complexidade. O mundo é complicado e a mente humana não o pode compreender completamente. Conhecer significa dividir e classificar para depois poder determinar relações sistemáticas entre o que se separou. Já em Descartes uma dasregras do Método consiste precisamente em “dividir cada uma das dificuldades...em tantas parcelas quanto for possível e requerido para melhor as resolver"(11). A divisão primordial é a que distingue entre “condições iniciais” e “leis da natureza”. As condições iniciais são o reino da complicação, do acidente e onde é necessário seleccionar as que estabelecem as condições relevantes dos factos a observar; as leis da natureza são o reino da simplicidade e da regularidade onde é possível observar e medir com rigor. Esta distinção entre condições iniciais e leis da natureza nada tem de “natural”. Como bem observa Eugene Wigner, é mesmo completamente arbitrária(12). No entanto, é nela que assenta toda a ciência moderna.

 

A natureza teórica do conhecimento científico decorre dos pressupostos epistemológicos e das regras  metodológicas já referidas. É um conhecimento causal que aspira a formulação de leis, à luz de regularidades observadas, com vista a prever o comportamento futuro dos fenómenos. A descoberta das leis da natureza assenta, por um lado, e como já se referiu, no isolamento das condições iniciais relevantes (por exemplo, no caso da queda dos corpos, a posição inicial e a velocidade do corpo em queda) e, por outro lado, no pressuposto de que o resultado se produzirá independentemente do lugar e do tempo em que se realizarem as condições iniciais. Por outras palavras, a descoberta das leis da natureza assenta no princípio de que a posição absoluta e o tempo absoluto nunca são condições iniciais relevantes. Este princípio é, segundo Wigner, o mais importante teorema da invariância na física clássica(13).

 

As leis, enquanto categorias de inteligibilidade, repousam num conceito de causalidade escolhido, não arbitrariamente, entre os oferecidos pela física aristotélica. Aristóteles distingue quatro tipos de causa: a causa material, a causa formal, a causa eficiente e a causa final. As leis da ciência moderna são um tipo de causa formal que privilegia o como funciona das coisas em detrimento de qual o agente ou qual o fim das coisas. É por esta via que o conhecimento científico rompe com o conhecimento do senso comum que, enquanto no senso comum, e portanto no conhecimento prático em que ele se traduz, a causa e a intenção convivem sem problemas, na ciência a determinação da causa formal obtém-se com a expulsão da intenção. É este tipo de causa formal que permite prever e, portanto, intervir no real e que, em última instância, permite à ciência moderna responder à pergunta sobre os fundamentos do seu rigor e da sua verdade com o elenco dos seus êxitos na manipulação e na transformação do real.

 

Um conhecimento baseado na formulação de leis tem como pressuposto metateórico a ideia de ordem e de estabilidade do mundo, a ideia de que o passado se repete no futuro. Segundo a mecânica newtoniana, o
mundo da matéria é uma  máquina cujas operações se podem determinar exactamente por meio de leis físicas e atemáticas, um mundo estático e eterno a flutuar num espaço vazio, um mundo que o racionalismo cartesiano torna cognoscível por via da sua decomposição nos elementos que o constituem. Esta ideia do mundo-máquina é de tal modo poderosa que se vai transformar na grande hipótese universal da época moderna, o  mecanicismo. Pode parecer surpreendente e até paradoxal que uma forma de conhecimento, assente numa tal visão do mundo, tenha vindo a constituir um dos pilares da ideia de progresso que ganha corpo no pensamento europeu a partir do século XVIII e que é o grande sinal intelectual da ascensão da burguesia(14). Mas a verdade é que a ordem e a estabilidade do mundo são a pré-condição da transformação tecnológica do real.

 

11 Descartes, ob. cit..
p. 17.

12 E. Wigner, Symmetries and
Reflections. Scientific Essays. Cambridge, Cambridge University Press,
1970, p. 3.

13 E. Wigner, ob. cit.. p. 226.

14 Cfr., entre muitos, S. Pollard, The
Idea of Progress. Londres, Penguin,
1971, p. 39.


  
 (Continua) 



publicado por Carlos Loures às 19:00
editado por Augusta Clara em 29/06/2011 às 17:39
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A República nos livros de ontem nos livros de hoje - CIC e CC, por José Brandão

O 28 de Maio e o Fim do Liberalismo

 

(Das Lutas Liberais de Oitocentos ao Advento da República)

 

José António Saraiva/Júlio Henriques

 

Livraria Bertrand, 1977

 

A que se deve a tradição centralista do Poder em Portugal e a dificuldade da afirmação no País de uma burguesia activa e autónoma em relação ao Poder do Estado? Como se entende a incapacidade da sociedade portuguesa para produzir no seu interior uma classe dominante e a delegação cíclica do poder na força das armas? Recuando até ao século XIX, e mesmo antes, à procura das raízes profundas do Estado Novo, buscando no século XIX as razões de ser de um período que foi, só, um dos mais longos períodos de estabilidade política e institucional da história portuguesa moderna. O 28 de Maio e o Fim do Liberalismo não é, ainda assim, um livro sobre o século XIX. A História é normalmente a história das células vivas de um Tempo – e este livro, em certo sentido, é o seu contrário: a procura, num Tempo, das suas células mortas.

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O 28 de Maio e o Fim do Liberalismo

 

(Do Advento da República à Revolta de Braga)

 

José António Saraiva/Júlio Henriques

 

Livraria Bertrand, 1978

 

A análise das circunstâncias em que se dá o golpe militar de 28 de Maio; o facto de ele se ter feito praticamente sem um tiro e de a passagem do Poder das mãos dos militares para as mãos dos políticos civis ter acontecido depois praticamente sem convulsões; de, com ele, se ter iniciado um dos períodos mais longos de estabilidade política e institucional da história portuguesa moderna levaram-nos a concluir da impossibilidade de entender o 28 de Maio pela análise apenas da conjuntura próxima.

 

Com este volume, que trata da I República e do seu tempo – uma República que aqui se entende simultaneamente como prolongamento e estertor do liberalismo monárquico – dá-se por concluída a tentativa de descobrir aquilo a que se poderão chamar as «raízes distantes» do Estado Novo.

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publicado por João Machado às 17:00
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Fernando Nobre, por Edmundo Pedro

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mão amiga remeteu-nos o recorte acima, do Diário de Notícias de anteontem. Inserimo-lo no nosso blogue (com os nossos cumprimentos ao autor e ao DN) por nos parecer que se trata de um problema que surge frequentemente na cena portuguesa. Nada nos move contra a pessoa de Fernando Nobre, nem pretendemos aqui julgar, sequer analisar as suas opções. Nem de qualquer outra figura da nossa cena política que tenha estado envolvida em episódios semelhantes. Mas pensamos ser necessário que as nossas figuras políticas assumam nos seus actos posições que se coadunem com as necessidades do país, claro, e também com o seu pensamento próprio (os que o têm, que os outros não nos interessam, e julgamos que também não interessam ao país). Os portugueses terão sido enganados muitas vezes, mas não são parvos nem ignorantes. 



publicado por João Machado às 16:00
editado por Carlos Loures às 15:10
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A poesia e a organização do trabalho, por Carlos Loures

 

Este texto foi incluído no Estrolabio, pela primeira vez, em 29 de Agosto de 2010. Pelo seu especial interesse e por ter relação com algumas matérias que temos abordado voltamos hoje a publicá-lo.

 

 

Prosseguindo neste debate em que, com o Adão Cruz, tenho vindo a dar achegas para a compreensão da poesia enquanto fenómeno social, trago hoje um testemunho de um filósofo e antropólogo britânico, George Derwent Thomson (1903-1987). Num estudo que publicou em 1945 e que a que deu o título de «Marxism and Poetry» (com uma edição portuguesa, da Teorema, em 1977 – «Marxismo e Poesia»), aborda o tema de uma óptica onde se integram a sociologia, a antropologia e a linguística. Baseia-se, principalmente, em estudos de campo e na recolha de testemunhos de sociedades primitivas, já que a poesia produzida por esse tipo de sociedades não pode ser estudada em espécimes escritos; a sua natureza oral antecede em muitos milhares de anos a escrita e o conceito de literatura. Como Thomson diz, a poesia representa um tipo especial de palavra – se queremos estudar a sua origem, temos de a procurar na origem da palavra e isto, em última análise, significa estudar a origem do homem, pois a palavra constitui um dos traços distintivos mais importantes do homem.

 

O aparecimento do homem não está cabalmente explicado e localizado no tempo. Há, porém um ponto em que os investigadores estão de acordo – o homem diferencia-se dos outros primatas através de duas características principais: pelo uso sistemático de utensílios especializados e pela palavra. De uma forma mais geral, os primatas diferem dos vertebrados inferiores por serem capazes de permanecer de pé e de usar as extremidades anteriores como mãos. Ter-se-ão desenvolvido e evolucionado a partir de condições particulares do meio e que determinaram um progressivo aperfeiçoamento da região do cérebro que comanda os órgãos motores. Animais florestais, a vida nas árvores, exigiu-lhes agilidade, rigorosa coordenação da vista e do tacto (visão binocular e um delicado controlo muscular). Desenvolvidas as mãos, elas colocaram ao cérebro uma gama de novos problemas, recebendo em troca um mundo de novas possibilidades. Desde a origem, portanto, existiu sempre uma total ligação entre a mão e o cérebro.

 

O homem difere dos outros primatas evoluídos, por conseguir não só colocar-se de pé, mas andar erecto, usando só os membros inferiores. Há quem defenda que esta aptidão se desenvolveu em consequência de um despovoamento arborícola que o forçou a instalar-se no solo. Seja isto verdade ou não, o importante é ele ter operado uma completa divisão, uma especialização, entre as funções das mãos e as dos pés. Os dedos grandes dos pés perderam a preensabilidade; os dedos das mãos atingiram um elevado grau de destreza, desconhecida entre os demais primatas superiores – gorilas e chimpanzés, por exemplo, podem manipular troncos e pedras e usá-las como armas ou ferramentas, mas só as mãos humanas conseguem transformar esses materiais em utensílios especializados.

 

Esta terá sido uma etapa decisiva, pois marcou o início de um novo sistema de vida – o homem, equipado com utensilagem, lançou-se na produção dos seus meios de subsistência, em vez de pura e simplesmente deles se apropriar – cavou a terra, plantou-a, regou-a, colheu, moeu os grãos, fez o pão. De utente passivo da natureza, passou a controlá-la e, nessa luta por dominá-la, apercebeu-se de que ela se regia por leis próprias, independentes da sua vontade. Apreendendo o sentido dessas leis naturais, deixou de ser escravo da natureza, passou a ser seu amo.

 

Necessitando de encontrar uma explicação para o universo, concebia-o como coisa que pudesse ser transformada por actos arbitrários da vontade – terá surgido a magia como técnica ilusória compensadora da falência da técnica real; ou digamos antes que é a técnica real apresentada sob um aspecto subjectivo. O acto mágico é a tentativa que os homens fazem para impor a sua vontade ao meio, imitando o processo natural que querem desencadear – se querem chuva, executam uma dança em que imitam o movimento das nuvens adensando-se, o ruído do trovão, o raio que cai… Nos estádios iniciais, o trabalho de produção era colectivo. As mãos da comunidade trabalhavam em conjunto e, o emprego de utensílios, motivou um novo meio de comunicação. A gama de gritos animais é limitada. No homem, porém, esses gritos tornaram-se articulados, foram elaborados e sistematizados como meios de coordenação dos movimentos do grupo. Por isso, quando inventou os utensílios, o homem inventou a palavra. Mais uma vez se verifica a íntima ligação entre a mão e o cérebro.

 

Quando vemos uma criança a tentar manejar pela primeira vez um pequeno martelo, podemos imaginar o grande esforço mental que as tentativas iniciais para usar um utensílio devem ter custado ao homem. Tal como as crianças na orquestra do infantário, o grupo trabalhava em comum e cada movimento da mão ou do pé, cada golpe sobre uma pedra ou sobre uma vara era ritmado por um recitativo mais ou menos inarticulado que todos cantavam em uníssono. Sem esse acompanhamento vocal o trabalho não poderia ser executado. A palavra terá, pois, surgido como elemento essencial da produção colectiva.

 

À medida que a habilidade foi evoluindo, o acompanhamento vocal ritmador foi deixando de constituir uma necessidade psíquica. Os elementos do grupo foram sendo capazes de trabalhar individualmente. Mas o aparelho colectivo sobreviveu sob a forma de uma repetição executada antes do início da tarefa concreta – uma dança através da qual os trabalhadores reproduziam os movimentos colectivos que anteriormente eram indissociáveis da tarefa propriamente dita. É aquilo a que os antropólogos chamam «dança mimética» e que ainda hoje se pratica entre as tribos primitivas.

 

Entretanto, a palavra desenvolveu-se – de acompanhamento directo do emprego de utensílios, na origem, transformou-se em linguagem tal como hoje a conhecemos – um meio de comunicação, consciente e articulado, entre os indivíduos. Sobreviveu na dança mimética e, enquanto parte falada, manteve a função mágica. Assim, em todas as línguas, encontramos dois modos de conceber a palavra – a «palavra corrente», o meio de comunicação quotidiano entre os homens, e a «palavra poética», material mais expressivo e mais apropriado aos actos colectivos do rito fantástico, rítmico e mágico.

 

 

 

 

Tentei aqui sintetizar, reproduzindo o sentido, o raciocínio de Thomson. Se o seu raciocínio é correcto, isso significa que a linguagem poética é essencialmente mais primitiva do que a palavra corrente, na medida em que preserva em elevado grau as qualidades de ritmo, de melodia, de fantasia, inerentes à palavra enquanto tal. Sendo apenas uma hipótese, apoia-se no que se conhece das sociedades primitivas – verificamos que a diferenciação entre a palavra poética e a palavra corrente é relativamente incompleta. Thomson estabelece, pois, uma estreita ligação entre colectividade, trabalho e poesia. É uma tese que vem colidir com os que querem que a poesia se situe num plano isolado (e superior) da realidade objectiva; esta teoria vincula a palavra poética, desde a sua mais remota origem, às tarefas concretas do quotidiano, nomeadamente ao trabalho.

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publicado por João Machado às 15:00
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Sigmund Freud - por Raúl Iturra

Sigmund Freud (Příbor, 6 de Maio de 1856 — Londres, 23 de Setembro de 1939) foi um médico neurologista judeu-austríaco, fundador da psicanálise. Nasceu em Freiberg, Morávia (hoje Příbor), quando esta pertencia ao Império Austríaco. Em 833 era parte da Magna Morávia, que incluía ao povo Magyar ou Hungria. Freud era Magyar de origem histórica, de origem civil austro – húngaro pelas políticas europeias de anexar territórios de nações fracas ou empobrecidas aos Estados mais fortes.

 

O método básico da Psicanálise é a interpretação da transferência e da resistência com a análise da livre associação. O analisado, numa postura relaxada, é solicitado a dizer tudo o que lhe vem à mente. Sonhos, esperanças, desejos e fantasias são de interesse, como também as experiências vividas nos primeiros anos de vida em família. Geralmente, o analista simplesmente escuta, comentando apenas quando no seu julgamento profissional visualiza uma crescente oportunidade para que o analisando torne consciente os conteúdos reprimidos do seu Id, que são criados supostos, a partir de suas associações.

 

Escutando o analisado, o analista tenta manter uma atitude empática de neutralidade. Uma postura de não – julgamento para criar um ambiente seguro. A descoberta da orientação do comportamento pela mente humana pelo eu, o super eu e o igual a si ou Id teve começo em 1890. Época na qual ainda pensava-se que havia dois tipos de seres humanos: os civilizados, povos que eram resultado dos progressos da humanidade na sua evolução social e intelectual: agiam com a razão que dominava ou orientava os seus sentimentos e as suas emoções, como explica em uma dezena de livros escritos na base da sua pratica psicanalítica.

 

Essa prática foi incrementada e também dissociada pelo próprio Freud e os seus discípulos, na base das suas descobertas. Cada novo texto, trazia uma novidade. Tempos em que se pensava também sobre povos não civilizados, pensados como pessoas que não tinham razão, apenas emoções: não pensavam, agiam. O seu comportamento era conjuntural. No meu ver, como explico em outro livro meu: O saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade, editado Repositório ISCTE-IUL, parece-me bem ao contrário: Se os seres humanos não civilizados orientam o seu comportamento individual e social pelas emoções sem nenhuma racionalidade, as formas de vida para estruturar relações sociais, o sistema de parentesco, as formas matrimoniais, o cuidado com o saber genealógico, os monumentos totémicos e especialmente o agir ritual, religiosos e económico, não teriam essa delicadeza que obriga aos analistas estudar com cuidado as formas e processos da vida social. Para comprovar este acerto, o meu antigo amigo e colega, Georges Devereux, no Collège de France, ensinou-me a arte de entender a psicanálise que pratica a etnia Mohave que habita ao Sul dos EUA. No Sudoeste dos Estados Unidos e Noroeste do México, quatro desertos ligam-se entre si. O Deserto da Grande Bacia é o que fica mais a Norte. É um deserto frio: tem chuva em abundância e neve no Inverno.

 

O arbusto é a vegetação dominante. Ocupa a quase totalidade do Estado do Nevada e estende-se para norte a Idaho, Oregon e Wyoming, para leste ao Utah e Colorado, e para sul ao Arizona. Ocupa uma área de 305 mil quilómetros quadrados (mais do triplo de Portugal, que tem 92 mil quilómetros quadrados). Os outros três desertos são o Mohave, o Sonora e o Chihuahua. São desertos quentes, com altas temperaturas durante o longo Verão e com vegetação típica das planícies áridas. O deserto de Mohave começa no Sul do Estado de Nevada e desce para a Califórnia. Ocupa 40 mil quilómetros quadrados. Alberga o Vale da Morte, que é a região mais funda da América. Está 85 metros abaixo do nível do mar. Vários leitos de lagos de outrora são depósitos de sal. Joshua é a árvore deste deserto. O deserto de Sonora cobre 193 mil quilómetros quadrados no Sul dos Estados norte-americanos da Califórnia e do Arizona, e no Norte dos Estados de Sonora, Baixa Califórnia e Sinaloa, na República do México. Inclui as regiões áridas do Colorado e de Yuma. O Colorado tem o Grand Canyon, um desfiladeiro que o rio Colorado cavou durante milhares de anos. Por fim, o Chihuahua ocupa cerca de 322 mil quilómetros quadrados. Uma parte fica nos Estados norte-americanos do Novo México e do Texas. Mas mais de 80 por cento situa-se no México, nos Estados de Chihuahua, Coahuila, Durango, Zacatecas e San Luís Potosí. É cortado pelo rio Grande que faz de fronteira entre o Estado norte-americano do Texas e o mexicano de Chihuahua. As palmeiras yucas e os agraves caracterizam a paisagem. Só tem 8000 anos. A desertificação acentuou-se nos últimos 150 anos. Georges Devereux foi morar com eles ao longo de vários anos e em 1961 escreveu o seu livro Mohave Ethnopsychiatry The Psychic Disturbances of an Indian Tribe, Smithonianan Institute, reeditado em 1972 e traduzido ao francês em 1996. Se os Mohave foram o povo escolhido, era por causa de ter uma teoria da mente semelhante a nossa, o que facilitava a compreensão para um austro-húngaro. A interpretação da vida dos Mohave é a partir dos sonos. A diferença entre a análise Mohave e a nossa, é pelo tipo de tecnologia e ecologia empregue e trabalhada. A vida de luta contra uma natureza não domesticada, é diferente a nossa. Entre nós, é a divisão de classe social e o império do capital como forma de produção, que marca essa diferencia.

 

Ecsreve Devereux que entre os Mohave há alegria e divertimento, bondade e entretenimento. Os comportamentos considerados abomináveis entre nós, são entendidos pelos Mohave como uma iluminação xamanista, donde, não da sua responsabilidade individual. Fonte: Devereux, Georges, (1961) 1996 Ethno-psychiatie des indiens Mohaves, Synthébalo Group, Paris. Sobre o autor: George Devereux (nascido Dobó György em 13 September 1908 — 28 May 1985) foi um American – French ethnologist e psychoanalyst, nascido no seio de uma família Jewish de Banat, Roménia. Foi um dos pioneiros da ciência da ethnopsychoanalysis e ethnopsychiatry. A sua biografia e obra podem ser lidas em: http://en.wikipedia.org/wiki/George_Devereux . A sua vida entre os Mohave foi tão feliz e as suas crenças de vida após falecimento tão sedutoras, que solicitou ser enterrado com os rituais Mohave e no seu campo profundo ou vale dos mortos. Referia o texto de Freud, Totem e Tabu. Freud nunca fez trabalho de campo, como Devereux. Retirou os dados dos estudos dos Aranda ou Arunta da Austrália, analisados por Durkheim, sem nunca citar ao pai da Sociologia. Até dá a impressão de ter retirado os seus dados de James Frazer, MacLennan e William Hass Rivers Rivers. Os livros de Devereux não estão em linha, mas há uma introdução de Tobie Natham no livro sobre a Etnopsiquiatria dos Mohave, que pode ser lida em:http://www.ethnopsychiatrie.net/GDengl.htm Biografia e livros escritos por ele, em: http://en.wikipedia.org/wiki/George_Devereux. Op. Cit. nota 6. A obra citada na nota 6, refere a obra de Émile Durkheim de 1912: Les structures élémentaires da vie religieuse, Félix Alkan, Paris. Texto comigo, editado pelas Press Universitaires de France. O livro é um debate entre até, para se centrar nas formas da vida religiosa da etnia Arunta – também denominada Aranda – de Austrália. Durkheim e Max Müller sobre o animismo e as formas de religiosidade. No entanto, Durkheim ultrapassa o devia Central e como as crianças são ensinadas a saber domesticar a natureza, a dominar e a reproduzir. Apesar de ser um cientista muito conhecido, penso que a sua biografia e ideias chaves dêem ser lembradas brevemente. Sigmund Freud, 119:Totem and Taboo. Resemblances between the Psychic lives of savages and neurotics, Routledge & Sons Ltd: Londres, 1919. É um livro de Sigmund Freud publicado em German. O original en língua Austro-húngara, [não alemão, engano da fonte que me informa] é de 1913: Totem und Tabu: Einige Übereinstimmungen im Seelenleben der Wilden und der Neurotiker. Traduzido para o francês em 1923, pode ser acedido em: http://classiques.uqac.ca/classiques/freud_sigmund/totem_tabou/totem_et_tabou.doc Antes de continuar, parece-me necessário definir o conceito de neuroses, central na problemática da análise de Freud por ser parte da cultura do comportamento ocidental: O termo neurose foi criado pelo médico escocês William Cullen em 1769 para indicar "desordens de sentidos e movimento" causadas por "efeitos gerais do sistema nervoso". Na psicologia moderna, é sinónimo de psico neurose ou distúrbio neurótico e se refere a qualquer desordem mental que, embora cause tensão, não interfere com o pensamento racional ou com a capacidade funcional da pessoa. Essa é uma diferença importante em relação à psicose, desordem mais severa. A palavra deriva de duas palavras gregas: neuron (nervo) e osis (condição doente ou anormal). A neurose, na teoria psicanalítica, é uma estratégia ineficaz para lidar com sucesso com algo.



publicado por Carlos Loures às 14:00
editado por João Machado em 29/06/2011 às 18:19
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O centralismo é um pecado original - por Luis Moreira

" A percentagem média da despesa pública pelas administrações centrais na UE, é de 66%. Em Portugal é de 87% - cabendo às autarquias 10% e 3% aos governos regionais. Este é um espelho fiel do centralismo da nossa administração, que tão mau resultado apresenta no controlo da despesa e no fomento de um país equilibrado e coeso" - in Público - Reformar a administração territorial sem regionalizar o continente?

 

Uma das propostas centrais do "memorando de entendimento" é ..."melhorar a eficiência e reduzir a administração pública em todos os seus níveis"

 

Esta é uma oportunidade única, talvez a mais ousada reforma depois de consolidada a democracia. Para a levar à prática convém comparar com outros países da Europa:

 

A existência de um nível regional é a norma europeia que é, justamente, a que nos falta ( temos a autarquia e a freguesia). As regiões administrativas têm provado ser o modelo mais consonante com a moderna administração territorial. O objectivo de "reforçar a prestação de serviços, melhorar a eficiência e reduzir custos", deveria passar, além de uma redefinição do mapa autárquico, pelo reforço das competências "que o principio da subsidiariedade consigna aos organismos de proximidade". Reduzir a reforma a cortes de unidades territoriais sem alterar o equilíbrio entre o centro hipertrofiado e  a nova configuração territorial seria perder esta oportunidade de reforma estrutural.

 

Pessoalmente, acredito que este nível de poder regional se pode criar a partir da autoridade democrática das autarquias, com fusões e divisões, por forma a não se correr o risco de se criar uma nova "classe política regional", com os consequentes custos. Descentralizar meios financeiros e humanos, autoridade e capacidade de decisão, autonomia de procedimentos, é o caminho para tornar mais próximos das populações os serviços prestados pelo estado e, assim, aumentar a sua eficácia.

 

Acresce "estarmos em vésperas de um novo quadro de apoios comunitários, instrumento de médio prazo com uma forte vertente regionalizada.Seria muito útil que a sua aplicação depois de 2014 fosse feita com recurso a autarquias regionais democraticamente sufragadas."

 

Descentralizar o ensino, a saúde, a Justiça, a economia...tudo o que tão mal funciona no modelo conservador estatista e centralista que tudo faz que tudo pode!

 

 

 

 

 



publicado por Luis Moreira às 13:00
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Notas sobre o texto Cavalgada wagneriana para o abismo Júlio Marques Mota

Notas sobre o texto Cavalgada wagneriana para o abismo
Júlio Marques Mota

Um amigo meu de muito longa data, e de tão longa é que já quase nos esquecemos do seu início, escreve-me revoltado face à leitura que ele fazia do texto, A cavalgada Wagneriana para o abismo. E escreveu-me, a dizer:

“Então esse texto conclui a defender que (última página):

 

Em vez de amputar um membro gangrenado, os dirigentes europeus correm o risco de infectar todo o corpo fatalmente - enfraquecendo as posições financeiras dos membros da zona euro mais fortes e as suas economias, que estão a pagar pelo resgate e sofrerão as suas perdas quando os incumprimentos inevitavelmente aparecerem.
Isto quer dizer que os “bons” europeus deveriam expulsar a Grécia do Euro?! E a seguir logicamente …Portugal?!”

A minha resposta foi simples a este comentário, foi curta:

“Não interpretei assim o texto. Vê como é que o texto abre.”

Aos leitores de Estrolabio relembro a abertura. E o texto abre com o seguinte parágrafo:

“No livro A importância de se chamar Ernesto de Oscar Wilde, Lady Bracknell numa memorável observação diz que: "perder um dos pais ... pode ser considerado como uma infelicidade mas que perder os dois pode ser tomado como uma falta de cuidado" A zona euro tem necessidade de resgatar três dos seus membros (Grécia, Irlanda e Portugal) com outros três (Espanha, Bélgica e Itália) cada vez mais a serem vistos com diferentes possibilidades de serem atacados devido a uma incompetência institucionalizada.”

O texto é claro. A União Europeia têm de ajudar, têm de resgatar…. Não há aqui dúvidas. Mas o meu amigo é ainda mais teimoso que eu e volta à carga:

“Ora é mais do que claro na abertura: Diz claramente que é preciso extirpar um para não haver dois!! Terá ele [o autor]  noção do que está verdadeiramente a propor?!!”

O meu amigo, eu, e muitos de nós temos medo, muito medo que se abandone Portugal nesta crise e que este seja forçado a sair do euro. Pessoalmente nunca publicaria um texto por empenho pessoal se não concordasse com ele ou se não o pudesse desmontar caso dele discordasse. Não era aqui o caso pois fiquei colado ao texto. Portanto não estava a fazer a mesma leitura que o meu amigo e respondi-lhe:

“Não e não. O texto diz: morrer um, é um grande desastre, morrerem dois só por descuido, por negligência, em suma, por não querer ver e mais, diz-nos  que é necessário salvar a Grécia, Portugal e Irlanda.”

E a nossa discussão ficou por aqui. Mas perguntará ainda não muito convencido um meu amigo qualquer que estes textos leia no Estrolabio: e então a amputação de que fala o texto no fim?

 

A resposta ainda aqui é directa: por este caminho, por esta política de submissão o que vai acontecer é que vai saltar a Grécia, vai saltar a Irlanda, vai saltar Portugal. E é preciso evitar isso, reestruturando a dívida grega. Pelo meio do texto são múltiplas as referências às posições da direita crescentes em vários Países, como a Finlândia, a França, tendência claramente a alargar por essa Europa e à direita não deve ser a esquerda a dar-lhe de bandeja os trunfos para esta política suicida, e dá-los-á se aceita a actual condução da crise feita pela União Europeia, que esta sim, é uma verdadeira cavalgada para o abismo, para a destruição da própria União.

 

Saída? A primeira de acordo com a minha leitura pessoal do texto é a necessária reestruturação da dívida grega e rapidamente, reestruturação essa que deve ser negociada sob os auspícios da própria União e cortar de raiz as possibilidades de contágio, de infecção, caso contrário pode ficar tudo doente. Exige-se coragem, exige-se politicamente classe e o autor duvida que actualmente a classe política no poder seja capaz de fazer com que essa outra política exista. . Esse é talvez o maior drama e, neste caso, retomando o início do texto de Das, retomando Oscar Wilde, acontecer-nos um drama é já de si uma infelicidade, acontecerem dois dramas juntos é uma negligência. E basta de tanta negligência. O povo grego dessa já se cansou, está nas ruas. E que nos diz Das? Diz-nos:

“Em suma e ao que parece mais ninguém, excepto os europeus, são os culpados. A dissonância cognitiva aumenta fortemente Cada vez mais, a trajectória da crise é motivada por considerações políticas. O desenlace da crise da dívida na Europa, provavelmente ainda um pouco longe, virá pela via da "rua" ou das urnas.
Nas nações em dificuldade, os protestos e as manifestações públicas estão a aumentar com a população a recusar aceitar ainda mais austeridade.”

Caros leitores do Estrolabio, trata-se, do meu ponto de vista, de um texto duríssimo e além disso, de um texto culturalmente nada fácil, sabemo-lo, e dê-se disso um exemplo. A ajuda que agora é feita funciona como uma espécie de passe para sair da prisão, não lhe tira a situação de condenado e vejamos já agora em inglês como o autor se exprime:

“In reality, markets understood that the EU bailouts were a "get-out-of-jail" pass for poor lending decisions.”,

 

A saída, perguntou-se acima e pergunta-se agora, também?. Como segunda via é necessário, por outras palavras, é urgente, uma outra política que, segundo Das, irá ser decidida nas ruas ou nas urnas. É sobre este texto que muito gostaria que reflectissem, mas é importante também dizer-se ainda sobre a saída da crise: é necessário mudar de modelo. Muito do endividamento que está agora em questão, e o autor di-lo claramente, deve-se a que se tratou de um modelo cuja dinâmica esteve assente na precariedade e assente também no endividamento e assim não. A crise, a  crise de hoje é assim também o resultado de opções feitas ao longo de décadas enquanto nos vendiam a soberania dos mercados como verdade absoluta. E é isso que é preciso mudar, nas ruas ou nas urnas, como nos diz o autor.

 

E é tudo.

Júlio Marques Mota.



publicado por Luis Moreira às 12:00
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Terreiro da Lusofonia - Apresentação - por Carlos Loures

Vamos voltar a apresentar no nosso blogue o Terreiro da Lusofonia. Começaremos amanhã, 1 de Julho, às 11 horas. A seguir incluímos uma introdução que explica os objectivos que pretendemos alcançar. Pedimos aos nossos colaboradores e leitores a melhor atenção e que pensem como podem colaborar com este objectivo de difusão da cultura portuguesa, nos países lusófonos e não só.

  

 

Camões, Zeca e Uxia - um tandem alucinante

 

Como sabemos, a língua portuguesa é falada em nove países, oito independentes e um não - precisamente aquele que foi o berço do idioma – a Galiza, integrada no estado espanhol. Nestes nove territórios, fala-se o português ou, se quisermos ser rigorosos, o galego-português. Há entre os que defendem que se ponha cobro à aculturação castelhana na Galiza, quem afirme mesmo que o idioma se devia chamar galego e não português. Haveria razões históricas para adoptar essa designação, mas não seria, a meu ver, justo.

 

Foi em Portugal que o idioma se preservou, porque preservada a independência política. Sem as lutas que os portugueses travaram pela sua independência, não haveria galego, nem português, nem galego-português – falaríamos castelhano e, na melhor das hipóteses, haveria investigadores que registariam a remota existência de um idioma na faixa Oeste da Península… Esta posição que alguns galegos assumem é extremista e peca por ingratidão – sim, a Galiza é o berço da língua comum – a mãe, a nai, do galego-português, mas foi em Portugal que ele cresceu, e devido à existência de Portugal e à forma como sempre recusámos ser assimilados, que o idioma se firmou e se espalhou pelo mundo. Hoje somos mais de 200 milhões de falantes. De galego-português, digo eu.

 

Porém, como conclui um estudo encomendado pelo Governo português. a influência da língua portuguesa no mundo não corresponde ao seu número de falantes. Encomendado pelo Ministério da Educação e pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros ao reitor da Universidade Aberta, Professor Carlos Reis, o estudo constatou também a dispersão da política da língua e o fraco empenho dos sucessivos executivos portugueses na sua promoção -"Existe uma grande disparidade entre o universo falante de português e a efectiva influência internacional da língua portuguesa", afirmou o professor.

 

Vamos, a partir de Julho reeditar esta série, com música, poemas, pintura, cinema, teatro… em suma, as artes e as letras do universo lusófono. E, com esta informação, um «tandem alucinante», como o classifica Uxía Senlle – Verdes São os Campos, a composição de Zeca Afonso para um poema de Luís de Camões, na voz de Uxía, a grande cantora galega. Galiza e Portugal foi onde começou e se desenvolveu esta língua, a nossa língua, que será a grande protagonista desde terreiro onde traremos artistas de todo este vasto universo da lusofonia.

 

 

 

 

 

 



publicado por Carlos Loures às 11:00
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Um dia saberei – poema e ilustração de Carlos Loures

 

 

 

 

 

 

 

 

Um dia saberei a tua face luminosa

de  colina húmida e
amanhecente.

Subirei os socalcos da tua ironia,

descerei o caule do teu sorriso

até à rosa incandescente onde

nasce o dia e a vida, à terra negra

e pedregosa onde o regato murmura.

Lá, onde, silencioso o pinheiro vigia

a frágil toalha da neblina pura,

cortando com verdes agulhas

o sol nascente

………………………………

Sim, um dia saberei também

os teus seios de cidade ensanguentada

pela fina poalha do sol moribundo…

 

(fragmentos de “Mais uma canção de amor”, in O Cárcere e o Prado Luminoso,
Lisboa, 1990)



publicado por Carlos Loures às 10:00
editado por João Machado em 29/06/2011 às 17:28
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Lançamento do livro Tempo com Espectador, de Manuel Simões. Amanhã em Lisboa.

 

 

 

 

Informação pormenorizada sobre esta obra em: http://www.edi-colibri.pt/Detalhes.aspx?ItemID=1478

 

 

Edições Colibri

Apartado 42.001

1601-801 Lisboa

www.edi-colibri.pt



publicado por João Machado às 09:30
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Revoluções em dança - cursos intensivos de Verão com a UMAR
 
 
 
 
 Revoluções em dança - teorias práticas em movimento 

 

 

Cursos Intensivos de Verão Julho e Setembro 2011, Lisboa

 

 

 

 

 

 

 

 

Dois cursos que se completam, cada um dentro de uma semana intensiva de trabalho assente no movimento entre teoria e prática. Encontros diários com a duração de 4h onde serão tocados conteúdos relativos à dança, à produção de pensamento, à história (da dança e do corpo), aos feminismos e às representações do corpo. Trabalharemos para que dessa reflexão/ criação colectiva na dança e na partilha do conhecimento teórico e activista, possa nascer também um documento colectivo, em escrita, em performance, em...


Anexo: Programa e outras informações
        

-------------------------------------------Sócias da UMAR, têm desconto de 50% no pagamento dos dois cursos.------------------------------------

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publicado por João Machado às 09:00
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Os jornais e as notícias que fazem o seu dia 30/6/2011 por Luis Moreira

Clicando nos links acede às rádios e jornais. Toda a imprensa de referência ao seu pequeno almoço, só ainda não lhe servimos o café mas estamos a pensar nisso...

 

 

Rádio on line, ouça boa música e leia as notícias que fazem a sua manhã.

 

Notícias Público -edição impressa.

 

DN - edição impressa

 

JN

 

Diário de negócios

 

Aljazeera live - em inglês

 

 A Marca - jornal de desporto

 

Jornais e revistas italianos - todos os jornais e revistas publicados em Itália. Escolha a seu prazer.

 

Financial Times - os negócios

 

Nouvelle Observateur - edição impressa

 

Le Monde

 

La Vanguardia,

 

El País

 

Corriere della Sera

 

New Yorker

jornal i

 

Record

 

O Jogo

 

Expresso

 

http://www.estadio.in/sicnoticias



publicado por Luis Moreira às 08:00
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EDITORIAL
AUTORES
Adão Cruz

Adriano Pacheco

Alexandra Pinheiro

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António Marques

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Carlos Loures

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Carlos Mesquita

Clara Castilho

Ethel Feldman

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