25 - Primeiro de Maio - DIA INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES
E chegamos ao fim desta comemoração do Primeiro de Maio - canções e poemas... Canções porque, de facto, a Cantiga é uma Arma - Vitorino, Samuel e outros companheiros, cantam-nos esta canção de José Mário Branco:
A poesia não está nas olheiras imorais de Ofélia
nem no jardim dos lilases.(...)
A poesia está na luta dos homens,
está nos olhos abertos para amanhã.
Mário Dionísio (1916-1993)
Arte poética
A poesia não está nas olheiras imorais de Ofélia
nem no jardim dos lilases.
A poesia está na vida,
nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos,
nos ascensores constantes,
na bicha de automóveis rápidos de todos os feitios e de todas as cores,
nas máquinas da fábrica e nos operários da fábrica
e no fumo da fábrica.
A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais,
no vaivém de milhões de pessoas conversando ou praguejando ou rindo.
Está no riso da loira da tabacaria,
vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos.
Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar.
A poesia está na doca,
nos braços negros dos carregadores de carvão,
no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar
e só durou esse minuto.
A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento,
nas rodas do comboio a caminho, a caminho, a caminho
de terras sempre mais longe,
nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus,
na angústia da vida.
A poesia está na luta dos homens,
está nos olhos abertos para amanhã.
Encerramos as comemorações do Primeiro de Maio de 2011, como começámos - com A Internacional. Desta vez cantada em catalão, uma das nossas línguas de trabalho. Homenagem do Estrolabio aos trabalhadores catalães.
Viva o Primeiro de Maio! Viva a luta dos trabalhadores de todo o mundo!
24 - Primeiro de Maio - DIA MUNDIAL DO TRABALHADOR
António Ramos Rosa (1924)
Um Ofício que Fosse de Intensidade e Calma
Um ofício que fosse de intensidade e calma e de um fulgor feliz E que durasse com a densidade ardente e contemporâneo de quem está no elemento aceso e é a estatura da água num corpo de alegria E que fosse fundo o fervor de ser a metamorfose da matéria que já não se separa da incessante busca que se identifica com a concavidade originária que nos faz andar e estar de pé expostos sempre à única face do mundo Que a palavra fosse sempre a travessia de um espaço em que ela própria fosse aérea do outro lado de nós e do outro lado de cá tão idêntica a si que unisse o dizer e o ser e já sem distância e não-distância nada a separasse desse rosto que na travessia é o rosto do ar e de nós próprios
(Poemas Inéditos)
Ruy Belo (1933-1978)
Emprego e Desemprego do Poeta
Deixai que em suas mãos cresça o poema
como o som do avião no céu sem nuvens ou no surdo verão as manhãs de domingo Não lhe digais que é mão-de-obra a mais que o tempo não está para a poesia
Publicar versos em jornais que tiram milhares talvez até alguns milhões de exemplares haverá coisa que se lhe compare? Grandes mulheres como semiramis públia hortênsia de castro ou vitória colonna todas aquelas que mais íntimo morreram não fizeram tanto por se imortalizar
Oh que agradável não é ver um poeta em exercício chegar mesmo a fazer versos a pedido versos que ao lê-los o mais arguto crítico em vão procuraria quem evitasse a guerra maiúsculas-minúsculas melhor Bem mais do que a harmonia entre os irmãos o poeta em exercício é como azeite precioso derramado na cabeça e na barba de aarão
Chorai profissionais da caridade pelo pobre poeta aposentado que já nem sabe onde ir buscar os versos Abandonado pela poesia oh como são compridos para ele os dias nem mesmo sabe aonde pôr as mãos
Ó Gente da Minha Terra é um fado cantado por Mariza com poema de Amália Rodrigues e música de Tiago Machado - toda a gente conhece. Perguntarão: o que tem este fado a ver com o poema da Fiama e com a padeira de Aljubarrota? Responderemos - a gente da nossa terra sempre preferiu a paz à guerra, semear trigo e fazer pão do que matar. Além disso, o fado é bonito e não vimos melhor oportunidade para o integrar nesta comemoração - digamos que está aqui porque sim. Querem melhor razão?
22 – Primeiro de Maio – DIA INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES
Trabalhar que nem um galego (expressão popular em Portugal sinónimo de trabalhar muito e arduamente, ser explorado)
Celso Emilio Ferreiro (1912-1979)
Monólogo do velho trabalhador
Agora tomo o sol. Pero até agora
traballei cincoenta anos sin sosego.
Comín o pan suando día a día
nun labourar arreo.
Gastei o tempo co xornal dos sábados,
pasou a primavera, veu o inverno.
Dinlle ao patrón a frol do meu esforzo
i a miña mocedade. Nada teño.
O patrón está rico á miña conta,
eu, á súa, estou vello.
Ben pensado, o patrón todo mo debe.
Eu non lle debo
nin xiquera iste sol que agora tomo.
Mentras o tomo, espero.
Monólogo do velho trabalhador (Pucho Boedo)
Axuntémonos todos, é a loita final
A Internacional (em galego)
En pé os escravos da terra, en pé os que non teñen pan; a nosa razón forte berra, o triunfo chega en volcán. Crebemos o xugo do pasado, pobo de servos, ergue xa, que o mundo vai ser transformado e unha orde nova vai reinar.
Axuntémonos todos, é a loita final, o xénero humano forma a Internacional.
Non hai salvadores supremos, nin rei, nin tribuno, nin deus, temos que salvarnos nós mesmos, o Pobo Traballador. Para que nos devolvan o roubado, para derrubar esta prisión, batamos no lume sagrado, ferreiros dun mundo mellor.
Axuntémonos todos, é a loita final, o xénero humano forma a Internacional.
publicado por Pedro Godinho às 20:00 editado por Carlos Loures em 30/04/2011 às 17:52 link do post | comentar
21 - Primeiro de Maio - DIA INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES
Joaquim Namorado (1914-1986)
Port-wine
O Douro é um rio de vinho que tem a foz em Liverpool e em Londres e em Nova-York e no Rio e em Buenos Aires: quando chega ao mar vai nos navios, cria seus lodos em garrafeiras velhas, desemboca nos clubes e nos bars.
O Douro é um rio de barcos onde remam os barqueiros suas desgraças, primeiro se afundam em terra as suas vidas que no rio se afundam as barcaças.
Nas sobremesas finas, as garrafas assemelham cristais cheios de rubis, em Cape-Town, em Sidney, em Paris, tem um sabor generoso e fino o sangue que dos cais exportamos em barris.
As margens do Douro são penedos fecundados de sangue e amarguras onde cava o meu povo as vinhas como quem abre as próprias sepulturas: nos entrepostos dos cais, em armazéns, comerciantes trocam por esterlino o vinho que é o sangue dos seus corpos, moeda pobre que são os seus destinos.
Em Londres os lords e em Paris os snobs, no Cabo e no Rio os fazendeiros ricos acham no Porto um sabor divino, mas a nós só nos sabe, só nos sabe, à tristeza infinita de um destino.
O rio Douro é um rio de sangue, por onde o sangue do meu povo corre. Meu povo, liberta-te, liberta-te!, Liberta-te, meu povo! – ou morre.
Manoel de Oliveira (1908)
Realizou em 1931 Douro, Faina Fluvial - 80 anos e muitos filmes depois,
continua a ser uma obra-prima. Ao poema do alentejano Joaquim
Namorado, juntamos cenas do filme do portuense Manoel de Oliveira,
numa homenagem aos trabalhadores do Norte de Portugal.
20 - Primeiro de Maio - DIA INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES
Maria Rosa Colaço (1935-2004)
Para um operário da Lisnave
Sou um operário!
Amarra certa
neste cais de angústia
Olho o casco azul
de um navio do mundo
sonho por momentos
com viagens que nunca farei.
Sem trabalho
aqui estou frente ao Tejo
Mas permaneço
vigilante.
(O Trabalho - antologia poética)
Ouçamos, um outro poema de Maria Rosa Colaço musicado e interpretado por Luís Represas e os Trovante:
Gomes Leal (1848-1921)
Oh mineiro
Oh mineiro! Oh mineiro!…ai, quando, sob a terra,
desces, longe da luz, as espirais da dor,
e esquecendo as canções natais da tua serra,
espancastes de ti as ilusões do amor!…
quando, tornado o peito um túmulo vasio,
descestes para sempre à tenebrosa mina,
onde não vem gemer a fresca voz do rio,
nem vulto de mulher branqueia na neblina!…
quando fechastes a alma à ansia dos desejos,
como um faminto lobo uivando n’um pinhal,
ou como um cenobita esconde o rosto aos beijos
das líricas visões, pelo sabbat do Mal!…
quando, nas solidões dos trópicos ardentes,
rojaste ao árido chão a fronte e os membros nus,
e lembrou-te a palmeira e o estrondo das torrentes,
e, ao fundo, o Azul calado, a erva, o mar, a luz!…
quando no gelo enfim das solidões estranhas,
no deserto polar da escuridão do inferno,
para sempre fugiste aos lírios das montanhas,
à grande Natureza e ao grande Amor eterno!…
dize, sabias já, - ó lúgubre mineiro!…
que o pálido metal que ias desenterrar,
vergado, semi-nú, talvez um ano inteiro,
gastam os reis sómente, um dia, n’um jantar?…
Dize, sabias já que a Providência avára
Concede a um a luz, a outro a treva exangue,
a um a taça d’ouro, a outro a esponja amára,
e a noite árida e má em que se sua sangue?…
Dize, sabias já que existem sobre o sólo
infames cortesãos, lacaios resplendentes,
meretrizes ducais a quem se inunda o colo
com Champagne, com Rum, e vinhos eloquentes?…
Dize, sabias já, na escuridão das minas,
agachado, aos clarões das lívidas lanternas,
que existem cortesãs, duquezas libertinas,
excedendo os ladrões e as fêmeas das tabernas?…
Dize se, como o Fausto, em sua escura cela,
tu viste o pranto, o escárneo, e a loura meretriz,
sabias que se atira ouro pela janela,
e que, ó infámia! há reis que vendem seu país?…
Ó infámia! ó infámia! – ó século maldito, -
em que se vende tudo, a Mãe, a Pátria, o Amor…
ó veneno sutil, sórdido, e corruptor,
que Satanás cuspiu no poço do infinito!…
Ó encanto infernal das vastas Capitais,
delícia dos ladrões, dos vícios, da ralé,
em que se afunda a alma, enxerga-se a galé,
e afia-se o sorriso, e afiam-se os punhais…
Levantai para o céu as vossas mãos honestas,
como um protesto heróico, enérgico, sublime,
Cavaleiros do Bem, que vindes das florestas
da Ideia… e jurais guerra à Podridão e ao Crime.
Correi sobre este charco a toda a rédea solta,
vós, justos campeões, puros como os arminhos…
- e agitai pelo ar a espada da Revolta!
- e afiai os punhais nas pedras dos caminhos!
(Autópsia de Um Rei - A Traição, parte II)
O coro dos MIneiros de Aljustrel cantando o Hino dos Mineiros. Durante a Guerra Civil de Espanha, este hino foi adoptado na Galiza como hino dos mIneiros galegos:
19 - Primeiro de Maio - DIA INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES
Alguns poemas, duas canções e uma pergunta:
- Que força é essa?
Vamos falar de mãos - o Grupo de Acção Cultural canta "As mãos dos trabalhadores":
Miguel Macedo*
*Maria Rosa Colaço, a poetisa de Operário da Lisnavee de A Outra Margemque aqui apresentámos, era pelos anos 60, professora do Ensino Primário. Estimulando nos seus alunos o amor pela leitura e o gosto pela escrita, reuniu em 1969 textos de meninos sobre os mais variados temas - foi um livro de grande sucesso A Criança e a Vida. Entre os textos deste livro, escolhemos este de Miguel Macedo.
São mãos que trabalham.
São mãos que trabalham.
São os homens que puxam barcos, guiam máquinas, arrancam pedras, martelam nas ruas.
Estas mãos têm dores.
As mãos com feridas têm saudades da água fresca, das flores, da língua dum cão, das penas dum passarinho.
Os homens destas mãos são tristes. Têm fome, têm sede, gostavam de acordar num dia a descansar de manhã à noite.
Gosto muito das mãos das pessoas que trabalham.
Estas mãos fazem lembrar um coração com susto.
–
(A criança e a Vida, ITAU, 1969)
José Gomes Ferreira (1900-1985)
O Suor dos operários
O suor dos operários
sujos de trabalho e sol
engrossa a argamassa
conclui a cal.
E os tijolos?
Que sangue os trespassa?
Não o meu
que, enquanto os outros agem,
fica nas urzes que piso.
Quando chego,
dou os bons-dias,
dou as boas-tardes,
construo nuvens de casas no céu
com novos horizontes,
espreguiço-me, bocejo no sorriso,
e atiro os olhos para a paisagem
que por momentos pairam
sobre as águias dos montes
«ó Sintra de Lorde Byron!»
Entretanto,
os pedreiros, já sem o rigoir de juntar as pedras,
não perdem tempo como eu
a tange a lira de Orfeu
para construir uma mulher
de sombra eterna.
Preferem a intimidade
de uma Eurídice provisória qualquer
- harpa de suor,
leite de sonho efémero.
(Obra Poética)
Sérgio Godinho e José Mário Branco cantam Que força é essa, com música e letra do primeiro:
18- Primer de Maig - DIA INTERNACIONAL DELS TREBALLADORS
Joaquim Horta (Barcelona, 1930)
HOME AMB ESPERANÇA
Acabarem algun dia, potser demà,
amb les paraules inútils i boniques,
el dring de la porcellana fina,
i les marionete de foscos colors.
I ensenyarem als fills, parits sense dolor,
el com i el perquè de cada cosa,
i els baixarem al carrer, sense temor,
i jugaran a construir pobles.
I tocaran la terra,
i la faran seva i de tots,
i escriuran, amb nous mots,
noves lleis, història i vida.
També vindrà un vaixell de vela àgil,
esquivant tempestes i roques altives,
i s'endurà tot l'or de la terra, mites i falsos déus,
i ens deixarà quieta la mar, i una barca petita.
Anb ella anirem a saludar els pobles,
a l'espatlla un sarrío amb eines i amb llibres,
als ulls un esclat d'alegria,
i creurem en els homes i en els dies.
(Un poema de Paraules per a no dormir, 1960)
Isidre Molas (Barcelona, 1940)
Som nosaltres, els joves
Som nosaltres, els joves, qui hem d'agafar l'arada
i remoure aquesta terra cansada i vella,
plena de rostolls i d'història
amarada en sang.
Cal que hi llancem llavors de sol a sol,
cal abocar-hi torrents de suor,
fer fermentar les pedres
i amorosament contemplar-la, al capvespre,
com la gossa la seva cria.
Que cada brot nou que surti
no mori per la gebrada, ni la pedra,
ni tampoc per la sequedat,
que creixi erecte i violent com una llança,
que arreu trobi companys en la lluita,
units tots
entorn d'un mateix
foc.
(Un poema del recull D'aquesta terra,1966)
Ovidi Montllor (1942-1995)
La fera ferotge
Per ordre de l'Alcalde es fa saber a tothom que una fera ferotge del parc s'escaparà. Es prega a les senyores compren força aliments i no surten de casa fins que torne el "bon temps".
Tot el que tinga cotxe que fota el camp corrent, i se'n vaja a la platja, a la torre o als hotels.
L'Alcalde s'encarrega, fent ús dels seus poders, de la fera ferotge deixar-la sense dents. El que això no acompleixca que no es queixe després si per culpa la fera ell rep algun torment.
Jo que no tinc ni casa, ni cotxe, ni un carret em vaig trobar aquell dia la fera en el carrer.
Tremolant i mig mort: -Ai Déu, redéu, la fera! I en veure'm tan fotut em va dir molt planera:
-Xicot, per què tremoles? Jo no te'n menjaré. -I doncs, per què t'escapes del lloc que tens marcat?
-Vull parlar amb l'Alcalde i dir-li que tinc fam, que la gàbia és petita, jo necessite espai. Els guàrdies que la veuen la volen atacar, la fera es defensa, no la deixen parlar.
Com són molts i ella és sola, no pot i me l'estoven. I emprenyats per la feina, a la gàbia me la tornen.
Per ordre de l'Alcalde es fa saber tothom que la fera ferotge ja no ens treurà la son. I gràcies a la força no ha passat res de nou, tot és normal i "maco" i el poble resta en pau. Au!
17 - Primeiro de Maio - DIA INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES
Chico Buarque (1944)
Construção
Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última E cada filho seu como se fosse o único E atravessou a rua com seu passo tímido Subiu a construção como se fosse máquina Ergueu no patamar quatro paredes sólidas Tijolo com tijolo num desenho mágico Seus olhos embotados de cimento e lágrima Sentou pra descansar como se fosse sábado Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago Dançou e gargalhou como se ouvisse música E tropeçou no céu como se fosse um bêbado E flutuou no ar como se fosse um pássaro E se acabou no chão feito um pacote flácido Agonizou no meio do passeio público Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
Amou daquela vez como se fosse o último Beijou sua mulher como se fosse a única E cada filho seu como se fosse o pródigo E atravessou a rua com seu passo bêbado Subiu a construção como se fosse sólido Ergueu no patamar quatro paredes mágicas Tijolo com tijolo num desenho lógico Seus olhos embotados de cimento e tráfego Sentou pra descansar como se fosse um príncipe Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo Bebeu e soluçou como se fosse máquina Dançou e gargalhou como se fosse o próximo E tropeçou no céu como se ouvisse música E flutuou no ar como se fosse sábado E se acabou no chão feito um pacote tímido Agonizou no meio do passeio náufrago Morreu na contramão atrapalhando o público
Amou daquela vez como se fosse máquina Beijou sua mulher como se fosse lógico Ergueu no patamar quatro paredes flácidas Sentou pra descansar como se fosse um pássaro E flutuou no ar como se fosse um príncipe E se acabou no chão feito um pacote bêbado Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado
Por esse pão pra comer, por esse chão prá dormir A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir Por me deixar respirar, por me deixar existir, Deus lhe pague Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair, Deus lhe pague Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir, Deus lhe pague
Foi a saudade do teu braço e o olhar que já da luz me dói trabalhei sem dar p´lo cansaço horas extraordinárias, foi um dia que passou num furacão um furacão que se amainou, só quando, aparte o amor eu me vi só atirando amoeda ao ar diz-me que cara ou coroa eu vou ganhar diz-me quanto eu fiz bem em me apostar e que bem fiz em ter por necessárias as horas extraordinárias
E assim que volto ao meu lugar reencontro com dor e com prazer o coração que fiz falar à máquina de escrever, a ver ela a dar corda à máquina de amar e um coração a se amainar, só quando aparte o amor eu me vi só atirando amoeda ao ar diz-me que cara ou coroa eu vou ganhar diz-me quanto eu fiz bem em me apostar e que bem fiz em ter por necessárias as horas extraordinárias
Ouçamos a canção que Sérgio Godinho canta com estes versos:
publicado por Pedro Godinho às 11:00 editado por Carlos Loures às 09:26 link do post | comentar
Agenda cultural de 2 a 8 de Maio de 2011 por Rui Oliveira
Na Segunda 2/5 : Neste início duma semana de recuperação das comemorações recentes, pode manter-se o espírito das celebrações findas deslocando-se à Casa da Achada – Centro Mário Dionísio onde prossegue o ciclo de cinema Revoltas e Revoluções. Diz a sua programação : “…
Os filmes sobre REVOLTAS e REVOLUÇÕES que vale a pena ver (ou rever) são muitos. Grande parte, documentários. Mas escolhemos para este ciclo, sobretudo ficções (ou perto disso) a partir de acontecimentos . Abrimos uma excepção para Portugal 1974-1975…” E neste dia “vale a pena ver” Cenas da luta de classes em Portugal de Robert Kramer (1977, 90 min.)
Outro modo sugerido para homenagear esse passado é recuar no tempo ao ver a última obra de Manoel de Oliveira, filme construído sobre um argumento escrito há sessenta anos, uma revisitação parcial da sua filmografia, “filme sobre o cinema ... (como diz o crítico do Ipsilon)…sobre uma atracção (entre a máxima inocência e máxima perversidade) pelo cinema como porta de entrada para um mundo alternativo onde tudo é possível” .
Trata-se de O Estranho Caso de Angélica, com Ricardo Trêpa, Pilar López de Ayala, Leonor Silveira, Luís Miguel Cintra e Ana Maria Magalhães, estreado no ano passado no Un Certain Regard de Cannes (e logo ali vivamente louvado). Face à qualidade desta que poderia ter sido a “obra-prima do cinema português dos anos 50”, convém recordar que o mesmo foi “chumbado” pelos censores do salazarismo (o SNI) com o veredicto medíocre de «argumento pessimista e demasiado mórbido» !
No teatro "A Barraca" retomam-se às 21h30 os Encontros Imaginários (texto e encenação de Helder Costa) onde se confrontam formas diversas de exercer o Poder através do debate entre personagens marcantes da História da Humanidade, neste caso Damião de Gois (Adérito Lopes), Mussolini (Ruben Garcia) e Marylin Monroe (Rita Fernandes).
Na Biblioteca Museu República e Resistência, à Cidade Universitária, às 18h30, no ciclo “A Poesia e a Liberdade”, Yang Liang, poeta chinês exilado no Reino Unido, falará sobre Liberdade e Exílio.
Na Sala de Conferências da Reitoria da Universidade de Lisboa, as palestras (das 18-20h) do ciclo das "100 Lições" comemorativo do centenário da UL. serão de Adolfo Morais de MacedoProfissão: Diletante. Da Música à Conservação da Natureza e de Margarida GilReverberações das letras no Cinema.
Na Terça 3/5 : No Teatro Tivoli, às 21h30, a Orquestra Sinfónica Estatal Ucraniana de Dneproprtrovsk executa o Concerto nº1em Si Bemol Menor, op. 23, OLago dos Cisnes, op.20 e a Abertura 1812,op.49 de Pyotr Ilyich Tchaikovsky.
Também merece atenção o filme/documentário Lixo Extraordinário – Waste Land (2009) de Lucy Walker e os seus co-directores João Jardim and Karen Harley que, durante quase três anos, seguiram o artista plástico brasileiro Vik Muniz até à mega-lixeira do Jardim Gramacho, perto do Rio de Janeiro onde este envolveu os catadores de lixo na criação dos seus “retratos”, doando os lucros consideráveis da venda internacional dessas obras. Reflecte bem (diz um crítico) “… as dúvidas do artista (se) estão a ajudar a gente ou a instilar expectativas insustentáveis para o futuro”.
Manuel Lucena (investigador do Instituto de Ciências Sociais) e Pedro Santana Lopes (político)serão os palestrantes no ciclo das "100 Lições" comemorativo do centenário da UL, na Sala de Conferências da Reitoria da Universidade de Lisboa, às 18h.
Na Quarta 4/5 : Recomeçou Sábado passado no Teatro da Comuna, às 21h, a exibição da peça do Desassossego (que por lapso não noticiámos), de Bernardo Soares / Fernando Pessoa, com adaptação de Carlos Paulo e versão cénica e encenação de João Mota,
tendo no elenco Carlos Paulo e Hugo Franco. Relembra o texto as palavras do escritor: “… A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos. Enquanto sentimos os males e as injúrias de Hamlet, príncipe da Dinamarca, não sentimos os nossos −vis porque são nossos e vis porque são vis … Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência … Só lamento o não ser criança, para que pudesse crer nos meus sonhos ...”.
Às 13h30, no Museu Gulbenkian, há uma visita temática (no programa Uma obra de arte à hora do almoço) ao retrato de Duval de l’Epinoy, analisando em pormenor esta obra seleccionada da colecção permanente do Museu. (gratuito)
O trio Carlos Barretto Lokomotiv, o projecto do conhecido contrabaixista com o guitarrista Mário Delgado e o baterista José Salgueiro, vai actuar no palco Restart (R. da Quinta do Almargem, a Belém) pelas 19 horas.
Aloe Blacc, que é já uma das referências da soul actual, actua na Aula Magna da Reitoria da UL às 22h.
No MusicBox, às 22h30, tocam os Chain & The Gang, mais uma banda rock de Ian Svenonius que aqui vem apresentar o seu mais recente álbum Music’s Not For Everyone.
Na Sala de Conferências da Reitoria da Universidade de Lisboa, as palestras (das 18-20h) do ciclo das "100 Lições" comemorativo do centenário da UL. serão de João Bosco Mota Amaral (ex-presidente da Assembleia da República) e de Manuel Maria Carrilho (ex-ministro da Cultura).
Na Quinta 5/5 : Na Fundação Calouste Gulbenkian (no Grande Auditório, às 21h), a Orquestra Gulbenkian dirigida pelo maestro Lawrence Foster, acompanhada pela violinista sul-coreana Hae-Sun Kang, interpretará de Johannes Brahms Danças Húngaras (nºs 1,3 e 10), de Béla Bartók Concerto para Violino nº2, Sz 112, de Georges Enesco Suite nº3, op.27,Suite Villageoise e de Bedrich Smetana A Minha Pátria: O Moldava. Repete Sexta 6/5 às 19h.
No Grande Auditório do CCB, às 21h, a Paolo Conte Band deste cantautor italiano apresenta o álbum mais recente Nelson, num estilo definido a partir do seu primeiro e emblemático disco de 1974 Novecento, que mistura jazz, tango e temas de musical.
Inicia-se o IndieLisboa’11 Festival Internacional de Cinema Independente, agora
na sua 8ª edição, com a projecção espalhada pelas salas do Cinema São Jorge, Culturgest, Cinemateca Nacional e Teatro do Bairro (ver programação em http://indielisboa.com/uploads/files/support_30.pdf ). Curtas e longas metragens de ficção, documentário e animação serão distribuidas por nove secções: Competição Internacional, Competição Nacional, Observatório, Cinema Emergente, Herói Independente, Director’s Cut, IndieMusic, Pulsar do Mundo e IndieJúnior.
No São Luiz Teatro Municipal, estreia às 21h a peça O JOGADOR a partir de Fiódor Dostoiévski, adaptação de Emília Costa encenada por Gonçalo Amorim, cujos intérpretes são António Fonseca, Carla Galvão, Carla Maciel, Duarte Guimarães, Iris Cayatte, Joana de Verona, João Villas Boas, Mónica Garnel, Nicolas Brites, Raquel Castro, Romeu Costa e Vânia Rovisco. É exibida em quatro episódios sucessivos, dois por dia. “A história decorre em Roletemburgo, num hotel, na Alemanha, num ambiente de casinos. A nossa inspiração manter-se-á nesse universo e é essa a imagética em que mergulhamos”, diz o encenador “... este é também um trabalho sobre o vício, mas não só o vício da roleta e do jogo. O vício formula-se no formato: esta peça de teatro assume o formato ‘série’. São quatro episódios que podem ser vistos em sequência, ou não, só de uma vez ou não”. As sessões são às 4ªs e 5ªs às 21h e de Sexta a Domingo às 18h.
No Maria Matos Teatro Municipal, às 22h, actua o Vladislav Delay Quartet, composto por Vladislav Delay bateria, percussão, Mika Vainio electrónica, Lucio Capece saxofone, clarinete e Derek Shirleycontrabaixo. Diz o programa que “… juntos formam um quarteto imponente, que faz uma revisão do jazz contemporâneo explorando até ao limite os espaços e silêncios que ocupam os seus interstícios sonoros... por outras palavras, cumprem uma das muitas visões de Delay sobre a música ambiental”. De seu verdadeiro nome Sasu Ripatti, o finlandês Vladislav Delay começou a sua carreira como percussionista até atingir as actuais magníficas polifonias electrónicas dos seus variadíssimos projectos.
No Auditório da Fundação Portuguesa das Comunicações, às 19h, o Quinteto de Cordas da Metropolitana (Mafalda Pires violino, André Gaio Pereira violino, Paul Wakabayashi viola, Hugo Paiva violoncelo e Margarida Ferreira contrabaixo) tocará de George Onslow Quinteto de Cordas, Op. 74 e de Antonin Dvořák Quinteto de Cordas, Op. 77.
Também na Sociedade Portuguesa de Autores, às 18h30, o Quinteto de Sopros da Metropolitana (Teresa Reis flauta, André Machadooboé, Samuel Matosclarinete, Edgar Barbosa trompa e Catherine Stockwellfagote)e o seu Quarteto de Cordas (Eliana Magalhãesviolino, Ana Rita Damil violino, Ana Rita Cardona viola e Catarina Gonçalves violoncelo) executarão de Robert Washburn Suite para Quinteto de Sopros, de Darius Milhaud La Cheminée du Roi René, Op. 205, Malcolm Arnold Três Shanties, Op. 4 e de Wolfgang Amadeus Mozart Quarteto de Cordas n.º 22 em Si bemol maior, KV 589, Prussiano n.º 2.
No Ondajazz, às 22h30, actua o Jacques Vidal Trio, composto por Jacques Vidal contrabaixo, Gilles Clement guitarra e Sílvio Franco bateria.
Na Galeria ZDB, às 22h, actuam duas bandas : a portuguesa The Glockenwise, versão nacional da versão contemporânea do garage-rock e autora do disco Building Waves e a norte-americana Abe Vigoda, que assinaram Kid City, uma revisitação do punk de Los Angeles.
Na LX Factory, às 21h30, apresenta-se Yann Tiersen, o músico bretão autor de várias bandas sonoras, com o seu novo trabalho de estúdio Dusty Lane.
No MusicBox, às 22h30, pode ouvir-se Ursula Rucker, cantora norte-americana de ascendência italiana, conhecida por uma boa técnica poética e um ritmo musical “místico”.
Alberto Dassieu, milongueiro que partilhou pistas de dança com alguns dos mais reconhecidos bailarinos argentinos como Gerardo Portalea, Pepe Dafonte, Virulazo ou Juan Carlos Copes, entre outros, dará uma exibição na Milonga Brava, no Clube Vendedores de Jornais (rua das Trinas, 55).
No Auditório Jorge Sampaio do CC Olga Cadaval, às 21h30, o Karlik Danza Teatro apresenta Frágil, o novo trabalho do coreógrafo (e intérprete) Rob Tannion (Stan Won’t Dance) que une os elementos-chave do teatro : cenografia, música, movimento e palavra. Com Elena Lucas estabelece-se “um duo, homem e mulher que medirá a delicada linha divisória entre a estabilidade contida e o potencial desalento…”.
Termina nesta data na Plataforma Revolver do Edifício Transboavista a exposição
Exploração do Processo do Imaginário onde o artista francês Julien Isoré procura abordar o princípio da imaginação. Gaëlle Scali, Emilie Shalck, Bertrand Zsymanski e Rémy Russotto foram convidados a debruçarem-se sobre estas questões, experimentando a relação entre a percepção sensível, o imaginário e a narração.
Às 18h, no Museu Nacional de Arqueologia, tem lugar uma sessão pública de divulgação do tema Entre as Abelhas e os Ursos Muros Apiários, um património comum no Sudoeste Europeu onde falarão Luis Raposo (MNA), Francisco Henriques (AE Alto Tejo), José Aguiar (ICOMOS) e Pedro Castro Henriques (I.Conservação da Natureza e da Biodiversidade).
Maria do Rosário Pedreira (escritora e editora) e Adalberto Campos (director do Centro Hospitalar de Lisboa Norte) Os novos desafios do sistema de saúde serão os palestrantes no ciclo das "100 Lições" comemorativo do centenário da UL, na Sala de Conferências da Reitoria da Universidade de Lisboa, às 18h.
Na Sexta 6/5 : No Maria Matos TM (em colaboração com a Transforma-Torres Vedras) inicia-se às 10h a conferência internacional intitulada DOIS GRAUS / TWO DEGREES Arte, Alterações Climáticas e Desenvolvimento Sustentável. Os problemas postos são : “O aumento da temperatura não é apenas um problema global, mas também transversal. A emissão de gases de estufa está ligada a todos os sectores da actividade humana e uma redução significativa das emissões só pode ser alcançada através do esforço de todos. Qual é o papel do sector cultural neste contexto? A arte tem a capacidade de informar o público? Tem o dever de incitar as pessoas a reduzir a sua pegada ecológica? Os próprios artistas e agentes culturais podem desenvolver métodos ecológicos para produzir, apresentar e distribuir obras artísticas?” (entrada livre)
A Cinemateca Nacional inicia às 21h30 (na sala Dr.Félix Ribeiro) a retrospectiva de dezassete filmes de Júlio Bressane, o “herói independente” do IndieLisboa 2011, activo desde 1969 e autor, à data de hoje, de vinte e seis longas–metragens, «o mais importante realizador underground brasileiro, em tudo oposto ao Cinema Novo de Glauber Rocha, pois as suas referências eram as da chamada contracultura dos anos 60». Exibe-se o filme A Erva do Rato (2008) com Selton Melo e Alessandra Negrini, inspirado nos contos de Machado de Assis A Causa Secreta e Um Esqueleto.
No Grande Auditório da FCG, às 21h30, Solistas da Orquestra Gulbenkian (Cristina Ánchel, Denise Ribera Luxton, Pedro Ribeiro, Nelson Alves, Esther Georgie, Jose Maria Mosqueda, Vera Dias, Ricardo Santos, José Coronado, Jonathan Luxton, Eric Murphy, Keneth Best e Darcy Edmundson-Andrade) tocarão de Lopes-Graça Sete Lembranças para Vieira da Silva, de Joly Braga Santos Quinteto para Sopros e de Richard Strauss Serenata, op.7. (entrada livre)
Adriana Calcanhoto canta O Micróbio do Samba (novo
álbum integralmente de sua autoria) no Grande Auditório do CCB (às 21h), acompanhada de Davi Moraes (violão/percussões), Alberto Continentino (contrabaixo) e Domenico Lancellotti (bateria). Repete Sábado 7/5.
No Auditório da Reitoria da Universidade Nova de Lisboa, às 21h, Orquestra Metropolitana de Lisboa (dir. musical Doron Salomon) com David Krakauer no clarinete interpretará, num concerto intitulado de Música Klezmer, de Sergei Prokofiev Abertura sobre Temas Hebraicos, Op. 34, de Ofer Ben-Amots The Klezmer, Concerto, para clarinete, cordas, harpa e percussão, de Ernest Bloch Concerto Grosso n.º 1 e de Zoltán Kodály Danças de Galanta.
No El Corte Inglés, às 19h, dois Trios da Orquestra Metropolitana (Carlos Tomás clarinete, Eva Mendonça flauta e Catherine Stockwell fagote) e (Carolina Patricio flauta, Madalena Melo viola e Salomé Matos harpa) tocarão de Sérgio Azevedo Suite Campestre para Sopros, Pelos campos fora, de César Guerra Peixe Trio n.º 2 para Sopros, de Robert Muczynski Fragmentos, de Claude Debussy Sonata e de Manuel Moreno-Buendía Suite Popular Espanhola.
No Museu do Oriente abre a exposição Brinquedos e Jogos da Ásia onde se reúnem
peças de coleccionadores particulares e do acervo do Museu do Oriente para contar uma história que começa nos brinquedos tradicionais e locais e acaba nos brinquedos industriais que, a partir da Ásia, invadiram o mundo.
No Ondajazz, às 22h30, canta Ana Laíns, acompanhada por Paulo Loureiro piano/ acordeão/ clarinete, Vasco Sousa baixo, Luís Guerreiro guitarra portuguesa e João Coelho bateria. Uma viagem pela música de caris português, com ponte entre o fado e uma homenagem ao cancioneiro tradicional.
No Sábado 7/5 : No Grande Auditório da FCG, às 18h, o cravista Pierre Hantaï tocará, num único recital, o Livro II do Cravo Bem Temperado de Johann Sebastian Bach.
No Pequeno Auditório do CCB, às 21h, o DSCH Schostakovich Ensemble (Filipe Pinto-Ribeiro piano, Ramón Ortega oboé, Tatiana Samouil violino, James Boyd viola e Justus Grimm violoncelo) homenageia Mozart tocando além da Gran Partita, KV 361 deste compositor, ainda a Sonata BWV 538 de J.S.Bach e o Trio de cordas, D 581 de F. Schubert.
Na Sala de Ensaio do CCB, às 19h, pode ver-se a performanceEvery.Body.Hunts de Sylvia Rijmer, onde esta bailarina/coreógrafa, em conjunto com o músico Miguel Lucas Mendes, “… desenvolve um enredo que toma a caça como forma primária de contacto social…”.
No Palácio Nacional da Ajuda, às 16h, vários elementos dos Agrupamentos da Academia Superior da Orquestra Metropolitana tocarão de Darius Milhaud Suite, Op. 157b e de Joan Albert Amargós 1º Andamento de Atlantic Trio (Ana Margarida violino, Sérgio Coelho clarinete e Ricardo Vicente piano); em seguida de Gustav Mahler Quarteto com Piano em Lá menor e de Johannes Brahms 1º andamento do Quarteto com Piano nº1, Op. 25 (Félix Duarte violino,
Bárbara Pires viola, João Matos violoncelo e Sara Ascenso piano) e, por último, de Astor Piazzolla Quatro Estações Portenhas (Francisco Barbosa flauta, Sara Abreu violoncelo e Jennifer Granlund piano).
Na Igreja de São Roque, ocorre às 16h um concerto do Ciclo de Órgão em São Roque promovido pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa onde o organista Jens Christensen tocará obras de Nikolaus Bruhns, Antonio Carreira, Carlos de Seixas, Sousa Carvalho e Diego da Conceição.
A Cinemateca colabora com o IndieLisboa’11 projectando, às 19h, o filme de Júlio Bressane Cleópatra (2007) com Alessandra Negrini, Miguel Falabella e Bruno Garcia, onde o realizador propõe «uma Cleópatra lírica e não uma Cleópatra épica» e mais tarde, às 21h30, O Anjo Nasceu (1969) com Hugo Carvana, Milton Gonçalves, Maria Gladys, Norma Bengell, um clássico do cinema marginal brasileiro que foi alvo de censura durante vários anos e ficou conhecido pela sua proposta de ruptura narrativa.
Prossegue no Maria Matos TM a conferência internacional DOIS GRAUS / TWO DEGREES. Depois de na véspera, Peter Tom Jones, pesquisador na área da Ecologia Industrial na Universidade de Lovaina (Bélgica) e Julie Bromilow, Directora de Educação do Centro de Tecnologias Alternativas (País de Gales) terem apresentado um enquadramento da situação actual apontando caminhos de transição para uma sociedade sustentável, Helen Heathfield, da organização britânica mais experiente a nível mundial no desenvolvimento e na aplicação de políticas sustentáveis nas indústrias criativas e nas artes, a Julie’s Bicycle, apresenta um conjunto de metodologias e medidas para reduzir a pegada ecológica no sector cultural, enquanto Judith Knight (da agência artística Londrina ArtsAdmin) aborda o papel das artes na divulgação da problemática.
Estes e outros peritos orientarão uma série de seis seminários diferentes onde serão apresentadas e discutidas metodologias e ferramentas concretas, de um lado, para abordar o tema na criação artística e na programação, de outro lado, para reduzir o desperdício e minimizar o impacto ambiental na organização de festivais, gestão diária de teatros e centros culturais, digressões de concertos e espectáculos, desenho de luz, etc. A entrada do público é livre.
Termina no Espaço 2.15 da LX Factory o ciclo de conferências promovido por António Guerreiro intitulado A Sismografia da Cultura (Passagens por Walter Benjamin e Aby Warburg). Diz o texto introdutório : “…A aproximar estes dois autores está uma concepção da história e da cultura que encontra na questão da imagem um dispositivo fundamental. A ideia de «imagem dialética» em Walter Benjamin pode ser posta a par da visão warburguiana da imagem como «fórmula de pathos», como energia onde se polariza a memória cultural e as leis da sua transmissão trans-histórica…”.
No Ondajazz, às 22h30, Melissa Oliveira canta, acompanhada por Pedro Costa (piano), João Cação (contrabaixo) e Fernando Sanchez (sax tenor), as dez faixas do seu primeiro CD gravado em Boston, que conta com participações especiais de Greg Osby e Jason Palmer.
Na Biblioteca Museu República e Resistência, à Cidade Universitária, às 16h, Álvaro Arranja fará uma conferência promovida pelo Centro de Estudos Libertários sobre Dos fuzilamentos de Setúbal à ruptura Operariado/República em 1911.
No Domingo 8/5 : No Museu do Oriente, às 17h no Salão Macau, o Quinteto de Cordas dos Jovens Solistas da Metropolitana (Mafalda Pires violino, André Gaio Pereira violino, Paul Wakabayashi viola, Hugo Paiva violoncelo e Margarida Ferreira contrabaixo) tocará de George Onslow Quinteto de Cordas, Op. 74 e de Antonín Dvořák Quinteto de Cordas, Op. 77.
No Grande Auditório da FCG, às 19h, o notável pianista polaco Piotr Anderszewski vai tocar de Johann Sebastian Bach Suite francesa nº 5, em Sol maior, BWV 816, de Robert Schumann Seis estudos em cânone, para piano com pedaleira, op. 56 (trans. de P. Anderszewski), de Robert Schumann Waldszenen, op. 82 e de Johann Sebastian Bach Suite inglesa nº 6, em ré menor, BWV 811.
Para além desta entrevista, sugiro vivamente que ouçam Anderszewski através deste link :
12 - Primeiro de Maio - DIA INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES
Da lavadeira de D. Dinis à Maria de José Afonso, passando pela Luísa de António Gedeão e pela Engomadeira de Almada Negreiros, prestámos aqui uma homenagem ao que tem sido até aos nossos dias o sacrifício, a secundarização, a escravização das mulheres. Se actualmente a lei consagra a plena igualdade de direitos, a luta pelo total e efectivo respeito por essa lei, ainda não terminou. Simone de Beauvoir disse: «É pelo trabalho que a mulher tem conseguido diminuir a distância que a separava do homem; somente o trabalho lhe poderá garantir uma independência concreta». Hoje, Dia Internacional dos Trabalhadores, saudamos especialmente as trabalhadoras!
D. Dinis (1261-1325)
Levantou-s, a velida
Levantou-s´a velida, levantou-s´alva e vai lavar camisas em no alto, vai-las lavar alva.
Levantou –s´a louçana, levantou-s´alva, e vai lavar delgadas em no alto, vai-las lavar alto.
Vai lavar camisas, levantou-s´alva, o vento lhas desvia em no alto, vai-las lavar alva.
E vai lavar delgadas, levantou-s´alva, o vento lhas levava em no alto, vai-las lavar alva.
O vento lhas desvia, levantou-s´alva, meteu-s´alva em ira em no alto, vai-las lavar alva.
O vento lhas levava, levantou-s´alva, meteu-s´alva em sanha em no alto vai-las lavar alva.
António Gedeão (1906 – 1997)
Calçada do Carriche
Luísa sobe, sobe a calçada, sobe e não pode que vai cansada. Sobe, Luísa, Luísa, sobe, sobe que sobe sobe a calçada.
Saiu de casa de madrugada; regressa a casa é já noite fechada. Na mão grosseira, de pele queimada, leva a lancheira desengonçada. Anda, Luísa, Luísa, sobe, sobe que sobe, sobe a calçada.
Luísa é nova,
desenxovalhada, tem perna gorda, bem torneada. Ferve-lhe o sangue de afogueada; saltam-lhe os peitos na caminhada. Anda, Luísa. Luísa, sobe, sobe que sobe, sobe a calçada.
Passam magalas, rapaziada, palpam-lhe as coxas, não dá por nada. Anda, Luísa, Luísa, sobe, sobe que sobe, sobe a calçada.
Chegou a casa não disse nada. Pegou na filha, deu-lhe a mamada; bebeu da sopa numa golada; lavou a loiça, varreu a escada; deu jeito à casa desarranjada; coseu a roupa já remendada; despiu-se à pressa, desinteressada; caiu na cama de uma assentada; chegou o homem, viu-a deitada; serviu-se dela, não deu por nada. Anda, Luísa. Luísa, sobe, sobe que sobe, sobe a calçada.
Na manhã débil, sem alvorada, salta da cama, desembestada; puxa da filha, dá-lhe a mamada; veste-se à pressa, desengonçada; anda, ciranda, desaustinada; range o soalho a cada passada; salta para a rua, corre açodada, galga o passeio, desce a calçada, desce a calçada, chega à oficina à hora marcada, puxa que puxa, larga que larga, puxa que puxa, larga que larga, puxa que puxa, larga que larga, puxa que puxa, larga que larga; toca a sineta na hora aprazada, corre à cantina, volta à toada, puxa que puxa, larga que larga, puxa que puxa, larga que larga, puxa que puxa, larga que larga. Regressa a casa é já noite fechada. Luísa arqueja pela calçada. Anda, Luísa, Luísa, sobe, sobe que sobe, sobe a calçada, sobe que sobe, sobe a calçada, sobe que sobe, sobe a calçada. Anda, Luísa, Luísa, sobe, sobe que sobe, sobe a calçada.
(Teatro do Mundo, 1956)
(quadro de Almada Negreiros)
José Afonso canta "Maria", acompanhado à viola por Rui Pato:
11 - Primer de Maig - DIA INTERNACIONAL DELS TREBALLADORS
Joan Salvat Papasseit (1894-1924)
Nocturn per a acordió
Heus aquí: jo he guardat fusta al moll.
(Vosaltres no sabeu
què és
guardar fusta al moll:
però jo he vist la pluja
a barrals
sobre els bots,
i dessota els taulons arraulir-se el preu fet de l'angoixa:
sota els flandes
i els melis,
sota els cedres sagrats.
Quan els mossos d'esquadra espiaven la nit
i la volta del cel era una foradada
sense llums als vagons:
i he fet un foc d'estelles dins la gola del llop.
Vosaltres no sabeu
què és
guardar fusta al moll:
però totes les mans de tots els trinxeraires
com una farandola
feien un jurament al redós del meu foc.
I era com un miracle
que estirava les mans que eren balbes.
I en la boira es perdia el trepig.
Vosaltres no sabeu
què és
guardar fusta al moll.
Ni sabeu l'oració dels fanals dels vaixells
-que són de tants colors
com la mar sota el sol:
que no li calen veles.
L'ofici que més m'agrada
Hi ha oficis que són bons perquè són de bon viure,
mireu l'ésser fuster:
-serra que serraràs
i els taulons fan a miques,
i de cada suada deu finestres ja han tret.
Gronxada d'encenalls, et munten una taula;
si ho vols, d'una nouera te'n faran un cobert.
I caminen de pla-
damunt les serradures de color de mantega.
I els manyans oh, els manyans!
De picar mai no es cansen:
pica que picaràs i s'embruten els dits;
però fan unes reixes i uns balcons que m'encanten
i els galls de les teulades
que vigilen de nits.
I són homes cepats
com els qui més treballin.
¿I al dic? Oh, els calafats!
Tot el Port se n'enjoia
car piquen amb ressò
i es diu si neix un peix a cada cop que donen
-un peix cua daurada, blau d'escata pertot.
Penjats de la coberta, tot el vaixells enronden:
veiéssiu les gavines
com els duen claror.
I encara hi ha un ofici
que és ofici de festa el pintor de parets:
si no canten abans, no et fan una sanefa,
si la cançó és molt bella deixen el pis més fresc:
un pis que hom veu al sostre
que el feien i cantaven:
tots porten bata llarga
de colors a pleret.
I encara més
si us deia l'ofici de paleta:
de paleta que en sap
i basteix d'aixoplucs.
El mateix fan un porxo com una xemeneia
-si ho volen
sense escales
pugen al capdamunt;
fan també balconades que hom veu la mar de lluny
-els finestrals que esguarden tota la serralada,
i els capitells
i els sòcols
i les voltes de punt.
Van en cos de camisa com gent desenfeinada!
Oh, les cases que aixequen d'un tancar i obrir d'ulls!
(Dos poemes del recull Óssa Menor,1925)
De Joan Salvat Papasseit, Joan Manuel Serrat canta "Res no és mesquí" (nada é supérfluo):
Miquel Martí i Pol (1929-2003)
Tres poemes de La fàbrica (1972)
L'Elionor
L'Elionor tenia catorze anys i tres hores quan va posar-se a treballar. Aquestes coses queden enregistrades a la sang per sempre. Duia trenes encara i deia: "sí, senyor" i "bones tardes". La gent se l'estimava, l'Elionor, tan tendra, i ella cantava mentre feia córrer l'escombra. Els anys, però, a dins la fàbrica es dilueixen en l'opaca grisor de les finestres, i al cap de poc l'Elionor no hauria pas sabut dir d'on li venien les ganes de plorar ni aquella irreprimible sensació de solitud. Les dones deien que el que li passava era que es feia gran i que aquells mals es curaven casant-se i tenint criatures. L'Elionor, d'acord amb la molt sàvia predicció de les dones, va créixer, es va casar i va tenir fills. El gran, que era una noia, feia tot just tres hores que havia complert els catorze anys quan va posar-se a treballar. Encara duia trenes i deia: "sí, senyor", i "bones tardes".
Mot d'ordre
Amb el fil entortolligat en una bitlla es podrien lligar de mans i peus mitja dotzena d'explotadors.
Però el fil és molt prim i només subjecta, subtilment i eficaçment, els explotats.
Un conjunt de fils ben trenat és una corda.
De semàntica
Tot darrerament a la fàbrica han millorta molt les relacions humanes. Ara mateix, per exemple, de treure la prima setmanal a una treballadora per un barreig de fil, posem per cas, o algun acte menor d'indisciplina, ja no se'n diu imposar una sanció; se'n diu estimular el sentit de la responsabilitat.
9 - Primeiro de Maio - DIA INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES
Trabalha, trabalha...
uma parte deste latifúndio, está para ti reservada
Enterro do camponês - Gravura do artista plástico brasileiro Abelardo da Hora (1924)
António Cabral (1931-2007)
In memoriam do camponês desconhecido
O que tinha setenta anos de terra, um como tantos, morreu pela última vez. Que umbral de papoilas receberia devidamente o seu rosto vitorioso?
Quando entrou no cemitério, o orvalho cintilava em todas as roseiras e um pássaro de que não sei o nome descreveu alguns círculos e partiu.
Os calos floriam nas mãos dos homens, as mulheres perdiam-se no céu azul, enquanto ele, um como tantos, regressava.
Eu te saúdo, irmão da urze bravia, setenta vezes setenta anos de terra em flor e de miséria.
(Poemas Durienses, 1965)
Ouçamos a Dança dos Camponeses, de Carlos Paredes, interpretada pelo autor e, em seguida, um excerto de Vida e Morte Severina, o imortal poema de João Cabral de Mello Neto (1966), musicado por Chico Buarque, que nos parece fazer todo o sentido integrar aqui. «É a parte que te cabe neste latifúndio».
7 - Primeiro de Maio - DIA INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES
Cecilia Meireles (1901-1964)
Os varredores
Por baixo dos largos fícus plantados à beira-mar, em redor dos bancos frios onde se dita o luar, vão passando os varredores, calados, a vassourar. Diríeis que andam sonhando, se assim o vísseis passar, por seu calmo rosto branco, sua boca sem falar, - e por varrerem as flores murchas, de verem amar.
E por varrerem os nomes desenhados par a par, no vão desejo dos homens, na areia ao pisar... - por varrerem os amores que houve naquele lugar. Visto de baixo, o arvoredo é renda verde luar, desmanchada ao vento crespo que à noite regressa ao mar vão passando os varredores vão passando e vão morrendo a terra, a lembrança, o tempo.
E de momento em momento, varrem seu próprio passar.
5 - Primeiro de Maio - DIA INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES
Isto anda tudo ligado
Quadro de Júlio Pomar
Eduardo Valente da Fonseca (1928 - 2003)
Canto do Ceifeiro
Canta ceifeiro canta, sob o sol de Agosto, canta, a terra é tão farta e tanta, que chega para a tua fome e cresce para a tua manta,
Canta ceifeiro canta a charneca e não sossobres. Espanta o medo e o cansaço, aguenta mais um pedaço e canta ceifeiro canta o heroísmo dos pobres.
Canta ceifeiro canta o Alentejo todo teu, canta a charneca em flor, canta o trigo com suor, canta a lonjura do céu. Canta ceifeiro canta em Serpa. Cuba ou Ermidas, ia que os braços são pequenos dêem-se as vozes ao menos que as vozes serão ouvidas.
Canta ceifeiro canta canta sempre sem espanto tudo quanto tanto anseias, que não vem longe o minuto do teu suor ser enchuto e tu seres a própria Paz. Canta ceifeiro canta e diz de quanto és capaz,
Canta esses sulcos vermelhos como as tuas maiores veias, canta a luta e a tua sede os azinheiros e o trigo, canta a carne e o desabrigo por todo o frio do inverno, canta a morte dos teus filhos mais a dos teus companheiros, canta sempre canta, canta belas canções de ceifeiro, que o Alentejo cresceu. dos teus braços de sobreiro erguidos ao sol de estio, e de todo o teu suor Já do tamanho dum rio.
Canta ceifeiro canta o Alentejo todo teu, que nele foi que nasceste com raízes desde o fundo, e nele os irmãos da terra vem sendo há muito ofendidos nos seus sempre sagrados e humanos cinco sentidos.
Canta ceifeiro canta canta com ânsia e bravura e que o canto que se levante dê mais força á tua altura.
(A Cidade e os Homens e outros poemas, sem data)
Francisco Fanhais canta, com música de sua autoria, estes versos de Eduardo Valente da Fonseca:
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E falando de ceifeiros, como podíamos esquecer o Cantar Alentejano, de José Afonso?
José Afonso (1929-1987)
Cantar alentejano
Chamava-se Catarina O Alentejo a viu nascer Serranas viram-na em vida Baleizão a viu morrer
Ceifeiras na manhã fria Flores na campa lhe vão pôr Ficou vermelha a campina Do sangue que então brotou
Acalma o furor campina Que o teu pranto não findou Quem viu morrer Catarina Não perdoa a quem matou
Aquela pomba tão branca Todos a querem p´ra si Ó Alentejo queimado Ninguém se lembra de ti
Aquela andorinha negra Bate as asas p´ra voar Ó Alentejo esquecido Inda um dia hás-de cantar
(Cantares, 1967)
E, como dizia o Eduardo Guerra Carneiro, isto anda tudo ligado - vejam a gravura que José Dias Coelho fez como homenagem à mesma Catarina Eufémia que inspirou a canção doZeca:
E(isto anda mesmo tudo ligado), ouçamos a canção que o Zeca dedicou a José Dias Coelho que foi assassinado a tiro pela PIDE, em 19 de Dezembro de 1961, na Rua dos Lusíadas, em Lisboa: A Morte Saiu à Rua - uma canção de uma arrepiante beleza:
4 - Primeiro de Maio - DIA INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES
Afonso Duarte (1884-1958)
Elegia do cavador
Quadro de Graça Morais
Deus do céu venha a meu rogo
Que a enxada já mal se ferra:
Grita o sol dardos de fogo
E eu ando farto da terra!
Há nuvens negras a prumo
sobre os meus ombros, ó dor!
São minha carne a pôr fumo,
São bagas do meu suor.
Vejo daqui a subir
Fumeiros da minha casa…
Outros que passam a rir
Custam-me os nervos em brasa.
Serei eu escravo dum crime
que a Deus fizesse algum homem?
De corpo feito num vime,
Minhas lágrimas consomem.
Deu-me Deus a vida cara,
P´rás nuvens se vai meu ganho:
Custam-me os olhos da cara
Donas das terras que amanho.
(Sete Poemas Líricos, 1929)
Cavador ( 1913 ) Jardim Guerra Junqueiro (Jardim da Estrela), escultura de
Augusto da Costa Motta (tio) (1862-1930)
Guerra Junqueiro (1850-1923)
O cavador
Dezembro, noite, canta o galo... Rouco na treva canta o galo... – Oh, dor! oh, dor! – Aldeão não durmas!... Vai chamá-lo, Miséria negra, vai chamá-lo!... – Oh, dor! oh, dor! – Bate-lhe à porta, é teu vassalo, Que traga a enxada, é teu vassalo, Miséria negra, o cavador!
O vento ulula... Tremem ninhos... Na noite aziaga tremem ninhos... – Oh, dor! oh, dor! – A neve cai, fria d’arminhos... Na escuridão, fria d’arminhos... – Oh, dor! oh, dor! – Passa maldito nos caminhos, D’enxada ao ombro nos caminhos, Fantasma negro, o cavador!
Vem roxa a estrela d'alvorada... Vem morta a estrela d'alvorada – – Oh, dor! oh, dor! – Montanhas nuas sob a geada!... Hirtas, de bronze, sob a geada!... – Oh, dor! oh, dor! – Torvo, inclinado sobre a enxada, Rasga as montanhas com a enxada, Fantasma negro, o cavador!
Cavou, cavou desde que é dia... Cavou, cavou... Bateu meio-dia... – Oh, dor! oh, dor! – De pé na encosta erma e bravia, Triste na encosta erma e bravia, – Oh, dor! oh, dor! – Largando a enxada, «Ave-Maria!...» Reza em silêncio... «Ave-Maria!...» Fantasma negro, o cavador!
Cavou, cavou na serra agreste, D'alva à noitinha, em serra agreste... – Oh, dor! oh, dor! – E um caldo em prémio tu lhe deste, Meu Deus!... seis filhos tu lhe deste... – Oh, dor! oh, dor! – Batem trindades... «Pai Celeste!... Bendito sejas, Pai Celeste!...» Reza, fantasma, o cavador!
Cavou cem montes... que é do trigo? Gerou seis bocas... que é do trigo?! – Oh, dor! oh, dor! – Bateu a Fome ao seu postigo... Bateu a Morte ao seu postigo... – Oh, dor! oh, dor! – «Que a paz de Deus seja comigo!... Que a paz de Deus seja comigo!...» Disse, expirando, o cavador!
(Os Simples, 1892)
Luís Cília canta-nos, com música de sua autoria, os versos de Guerra Junqueiro: