Domingo, 1 de Maio de 2011
25 - Primeiro de Maio - DIA INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES

E chegamos ao fim desta comemoração do Primeiro de Maio -  canções e poemas... Canções porque, de facto, a Cantiga é uma Arma - Vitorino, Samuel e outros companheiros, cantam-nos esta canção de José Mário Branco:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A poesia não está nas olheiras imorais de Ofélia

nem no jardim dos lilases.(...)

 

 

A poesia está na luta dos homens,

 

está nos olhos abertos para amanhã.

 

 

 

 

 

Mário Dionísio (1916-1993)

 

 

Arte poética

 

A poesia não está nas olheiras imorais de Ofélia

nem no jardim dos lilases.

 

A poesia está na vida,

nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos,

nos ascensores constantes,

na bicha de automóveis rápidos de todos os feitios e de todas as cores,

nas máquinas da fábrica e nos operários da fábrica

e no fumo da fábrica.

A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais,

no vaivém de milhões de pessoas conversando ou praguejando ou rindo.

Está no riso da loira da tabacaria,

vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos.

Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar.

A poesia está na doca,

nos braços negros dos carregadores de carvão,

no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar

e só durou esse minuto.

A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento,

nas rodas do comboio a caminho, a caminho, a caminho

de terras sempre mais longe,

nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus,

na angústia da vida.

 

A poesia está na luta dos homens,

está nos olhos abertos para amanhã.

 

Encerramos as comemorações do Primeiro de Maio de 2011, como começámos - com A Internacional. Desta vez cantada em catalão, uma das nossas línguas de trabalho. Homenagem do Estrolabio aos trabalhadores catalães.

 

Viva o Primeiro de Maio! Viva a luta dos trabalhadores de todo o mundo!

 

 

 



publicado por Carlos Loures às 23:20
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24 - Primeiro de Maio - DIA MUNDIAL DO TRABALHADOR

António Ramos Rosa (1924)

 

 

Um Ofício que Fosse de Intensidade e Calma

 

 

 

 

 

Um ofício que fosse de intensidade e calma
e de um fulgor feliz E que durasse
com a densidade ardente e contemporâneo
de quem está no elemento aceso e é a estatura
da água num corpo de alegria E que fosse   fundo
o fervor de ser a metamorfose da matéria
que já não se separa da incessante busca
que se identifica com a concavidade originária
que nos faz andar e estar de pé
expostos sempre à única face do mundo
Que a palavra fosse sempre   a travessia
de um espaço em que ela própria fosse aérea
do outro lado de nós e do outro lado de cá
tão idêntica a si que unisse o dizer e o ser
e já sem distância e não-distância nada a separasse
desse rosto que na travessia é o rosto do ar e de nós próprios 

(Poemas Inéditos)

 

 

  


 

Ruy Belo (1933-1978)

 

 

 

Emprego e Desemprego do Poeta

 

 

 

Deixai que em suas mãos cresça o poema  

como o som do avião no céu sem nuvens
ou no surdo verão as manhãs de domingo
Não lhe digais que é mão-de-obra a mais
que o tempo não está para a poesia

Publicar versos em jornais que tiram milhares
talvez até alguns milhões de exemplares
haverá coisa que se lhe compare?
Grandes mulheres como semiramis
públia hortênsia de castro ou vitória colonna
todas aquelas que mais íntimo morreram
não fizeram tanto por se imortalizar

Oh que agradável não é ver um poeta em exercício
chegar mesmo a fazer versos a pedido
versos que ao lê-los o mais arguto crítico em vão procuraria
quem evitasse a guerra maiúsculas-minúsculas melhor
Bem mais do que a harmonia entre os irmãos
o poeta em exercício é como azeite precioso derramado
na cabeça e na barba de aarão

Chorai profissionais da caridade
pelo pobre poeta aposentado
que já nem sabe onde ir buscar os versos
Abandonado pela poesia
oh como são compridos para ele os dias
nem mesmo sabe aonde pôr as mãos

(Aquele Grande Rio Eufrates)

 

Fausto canta Cantiga do Desemprego:

 



publicado por Carlos Loures às 22:00
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23- Primeiro de Maio - DIA INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES

 

 

 

 

Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007)

 

Poema para a padeira que estava a fazer pão

enquanto se travava a batalha de Aljubarrota

 

 

Está sobre a mesa e repousa

o pão

como uma arma de amor

em repouso

 

As armas guardam no campo

todo o campo

Já os mortos não aguardam

e repousam

 

Dentro de casa ela aguarda

abrir o forno

Ela tem mão que prepara

o amor

 

Pelos campos todos armas

não repousam

nem aguardam mais os mortos

ter amor

 

 

 

Sobre a mesa põe as mãos

pôs o pão

Fora de casa o rumor

sem repouso

 

Lá de fora entram armas

os homens

As mãos dela não repousam

acolhem

 

Sobre a mesa pôs o pão

arma de paz

Contra as armas de batalha

arma de mão

 

 

Contra a batalha das armas

não repousa

Caem contra a mesa os mortos

contra o forno

 

Outra paz não defende ela

que a do pão

Defende a paz que é da casa

a das mãos

 

 

 

  -------------------------------------------------------------

 

 Ó Gente da Minha Terra é um fado cantado por Mariza com poema de Amália Rodrigues e música de Tiago Machado - toda a gente conhece. Perguntarão: o que tem este fado a ver com o poema da Fiama e com a padeira de Aljubarrota? Responderemos - a gente da nossa terra sempre preferiu a paz à guerra, semear trigo e fazer pão do que matar. Além disso, o fado é bonito e não vimos melhor oportunidade para o integrar nesta comemoração - digamos que está aqui porque sim. Querem melhor razão?

 

 



publicado por Carlos Loures às 21:00
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22 – Primeiro de Maio – DIA INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES

 

Trabalhar que nem um galego
(expressão popular em Portugal sinónimo de trabalhar muito e arduamente, ser explorado)


Celso Emilio Ferreiro (1912-1979)

 

Monólogo do velho trabalhador

 


Agora tomo o sol. Pero até agora

traballei cincoenta anos sin sosego.

Comín o pan suando día a día

nun labourar arreo.

Gastei o tempo co xornal dos sábados,

pasou a primavera, veu o inverno.

Dinlle ao patrón a frol do meu esforzo

i a miña mocedade. Nada teño.

O patrón está rico á miña conta,

eu, á súa, estou vello.

Ben pensado, o patrón todo mo debe.

Eu non lle debo

nin xiquera iste sol que agora tomo.

 

Mentras o tomo, espero.

 

 

Monólogo do velho trabalhador (Pucho Boedo)

 

 

 

Axuntémonos todos, é a loita final

 

 

 

 

 

 

A Internacional (em galego)

 

En pé os escravos da terra,
en pé os que non teñen pan;
a nosa razón forte berra,
o triunfo chega en volcán.
Crebemos o xugo do pasado,
pobo de servos, ergue xa,
que o mundo vai ser transformado
e unha orde nova vai reinar.

Axuntémonos todos,
é a loita final,
o xénero humano
forma a Internacional.

Non hai salvadores supremos,
nin rei, nin tribuno, nin deus,
temos que salvarnos nós mesmos,
o Pobo Traballador.
Para que nos devolvan o roubado,
para derrubar esta prisión,
batamos no lume sagrado,
ferreiros dun mundo mellor.

Axuntémonos todos,
é a loita final,
o xénero humano
forma a Internacional.

 



publicado por Pedro Godinho às 20:00
editado por Carlos Loures em 30/04/2011 às 16:52
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21 - Primeiro de Maio - DIA INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES

 

 

Joaquim Namorado (1914-1986)

 

 

Port-wine

 

 

O Douro é um rio de vinho
que tem a foz em Liverpool e em Londres
e em Nova-York e no Rio e em Buenos Aires:
quando chega ao mar vai nos navios,
cria seus lodos em garrafeiras velhas,
desemboca nos clubes e nos bars.

O Douro é um rio de barcos
onde remam os barqueiros suas desgraças,
primeiro se afundam em terra as suas vidas
que no rio se afundam as barcaças.

Nas sobremesas finas, as garrafas
assemelham cristais cheios de rubis,
em Cape-Town, em Sidney, em Paris,
tem um sabor generoso e fino
o sangue que dos cais exportamos em barris.

As margens do Douro são penedos
fecundados de sangue e amarguras
onde cava o meu povo as vinhas
como quem abre as próprias sepulturas:
nos entrepostos dos cais, em armazéns,
comerciantes trocam por esterlino
o vinho que é o sangue dos seus corpos,
moeda pobre que são os seus destinos.

Em Londres os lords e em Paris os snobs,
no Cabo e no Rio os fazendeiros ricos
acham no Porto um sabor divino,
mas a nós só nos sabe, só nos sabe,
à tristeza infinita de um destino.

O rio Douro é um rio de sangue,
por onde o sangue do meu povo corre.
Meu povo, liberta-te, liberta-te!,
Liberta-te, meu povo! – ou morre.

 

 Manoel de Oliveira (1908)

 

Realizou em 1931 Douro, Faina Fluvial - 80 anos e muitos filmes depois,

continua a ser uma obra-prima. Ao poema do alentejano Joaquim

Namorado, juntamos cenas do filme do portuense Manoel de Oliveira,

numa homenagem aos trabalhadores do Norte de Portugal.

 

 



publicado por Carlos Loures às 19:00
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20 - Primeiro de Maio - DIA INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES

 

Maria Rosa Colaço (1935-2004)

 

Para um operário da Lisnave

 

Sou um operário!

Amarra certa

neste cais de angústia

 

Olho o casco azul

de um navio do mundo

sonho por momentos

com viagens que nunca farei.

 

Sem trabalho

aqui estou frente ao Tejo

 

Mas permaneço

vigilante.

 

 

(O Trabalho - antologia poética)

 

Ouçamos, um outro poema de Maria Rosa Colaço musicado e interpretado por Luís Represas e os Trovante:

 

 

 

 

Gomes Leal (1848-1921)

 

Oh mineiro

 

Oh mineiro! Oh mineiro!…ai, quando, sob a terra,

desces, longe da luz, as espirais da dor,

e esquecendo as canções natais da tua serra,

espancastes de ti as ilusões do amor!…

quando, tornado o peito um túmulo vasio,

descestes para sempre à tenebrosa mina,

onde não vem gemer a fresca voz do rio,

nem vulto de mulher branqueia na neblina!…

quando fechastes a alma à ansia dos desejos,

como um faminto lobo uivando n’um pinhal,

ou como um cenobita esconde o rosto aos beijos

das líricas visões, pelo sabbat do Mal!…

quando, nas solidões dos trópicos ardentes,

rojaste ao árido chão a fronte e os membros nus,

e lembrou-te a palmeira e o estrondo das torrentes,

e, ao fundo, o Azul calado, a erva, o mar, a luz!…

quando no gelo enfim das solidões estranhas,

no deserto polar da escuridão do inferno,

para sempre fugiste aos lírios das montanhas,

à grande Natureza e ao grande Amor eterno!…

dize, sabias já, - ó lúgubre mineiro!…

que o pálido metal que ias desenterrar,

vergado, semi-nú, talvez um ano inteiro,

gastam os reis sómente, um dia, n’um jantar?…

Dize, sabias já que a Providência avára

Concede a um a luz, a outro a treva exangue,

a um a taça d’ouro, a outro a esponja amára,

e a noite árida e má em que se sua sangue?…

Dize, sabias já que existem sobre o sólo

infames cortesãos, lacaios resplendentes,

meretrizes ducais a quem se inunda o colo

com Champagne, com Rum, e vinhos eloquentes?…

Dize, sabias já, na escuridão das minas,

agachado, aos clarões das lívidas lanternas,

que existem cortesãs, duquezas libertinas,

excedendo os ladrões e as fêmeas das tabernas?…

Dize se, como o Fausto, em sua escura cela,

tu viste o pranto, o escárneo, e a loura meretriz,

sabias que se atira ouro pela janela,

e que, ó infámia! há reis que vendem seu país?…

Ó infámia! ó infámia! – ó século maldito, -

em que se vende tudo, a Mãe, a Pátria, o Amor…

ó veneno sutil, sórdido, e corruptor,

que Satanás cuspiu no poço do infinito!…

Ó encanto infernal das vastas Capitais,

delícia dos ladrões, dos vícios, da ralé,

em que se afunda a alma, enxerga-se a galé,

e afia-se o sorriso, e afiam-se os punhais…

Levantai para o céu as vossas mãos honestas,

como um protesto heróico, enérgico, sublime,

Cavaleiros do Bem, que vindes das florestas

da Ideia… e jurais guerra à Podridão e ao Crime.

Correi sobre este charco a toda a rédea solta,

vós, justos campeões, puros como os arminhos…

- e agitai pelo ar a espada da Revolta!

- e afiai os punhais nas pedras dos caminhos!

 

(Autópsia de Um Rei - A Traição, parte II)

 

 

 O coro dos MIneiros de Aljustrel cantando o Hino dos Mineiros. Durante a Guerra Civil de Espanha, este hino foi adoptado na Galiza como hino dos mIneiros galegos:

 

 

"Tralalalalalalala


Morreram nas tuas minas...

Tralalalalalalala

Morreram tantos mineiros, vê lá!

Vê lá companheiro, vê lá!

Vê lá como venho eu...

Tralalalalalalala

Eu trago a cabeça aberta...

Tralalalalalalala

Que me abriu uma barreira, vê lá!

Vê lá companheiro, vê lá!

Vê lá como venho eu...

Tralalalalalalala

Eu trago a camisa rota...

Tralalalalalalala

E sangue de um camarada, vê lá!

Vê lá companheiro, vê lá!

Vê lá como venho eu...

Tralalalalalalala

Santa Bárbara bendita...

Tralalalalalalala

Padroeira dos mineiros, vê lá!



Vê lá companheiro, vê lá!


Vê lá como venho eu..."




publicado por Carlos Loures às 18:00
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19 - Primeiro de Maio - DIA INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES

Alguns poemas, duas canções e uma pergunta:

 

- Que força é essa? 

 

Vamos falar de mãos - o Grupo de Acção Cultural canta "As mãos dos trabalhadores":

 

 

 

 

 Miguel Macedo*

 

*Maria Rosa Colaço, a poetisa de Operário da Lisnavee de A Outra Margem que aqui apresentámos, era pelos anos 60, professora do Ensino Primário. Estimulando nos seus alunos o amor pela leitura e o gosto pela escrita, reuniu em 1969 textos de meninos sobre os mais variados temas - foi um livro de grande sucesso A Criança e a Vida. Entre os textos deste livro, escolhemos este de Miguel Macedo.

 

 

 São mãos que trabalham.

 

 

 

 

 

 

 

São mãos que trabalham.

 

São os homens que puxam barcos, guiam máquinas, arrancam pedras, martelam nas ruas.

 

Estas mãos têm dores.

 

As mãos com feridas têm saudades da água fresca, das flores, da língua dum cão, das penas dum passarinho.

 

Os homens destas mãos são tristes. Têm fome, têm sede, gostavam de acordar num dia a descansar de manhã à noite.

 

Gosto muito das mãos das pessoas que trabalham.

 

Estas mãos fazem lembrar um coração com susto.

 

 

(A criança e a Vida, ITAU, 1969)

 

 

 

 

José Gomes Ferreira (1900-1985)

 

 

 

O Suor dos operários

 

 

 

O suor dos operários

 

sujos de trabalho e sol

 

engrossa a argamassa

 

conclui a cal.

 

 

 

E os tijolos?

 

Que sangue os trespassa?

 

 

 

Não o meu

 

que, enquanto os outros agem,

 

fica nas urzes que piso.

 

 

 

Quando chego,

 

dou os bons-dias,

 

dou as boas-tardes,

 

construo nuvens de casas no céu

 

com novos horizontes,

 

espreguiço-me, bocejo no sorriso,

 

e atiro os olhos para a paisagem

 

que por momentos pairam

 

sobre as águias dos montes

 

«ó Sintra de Lorde Byron!»

 

 

 

Entretanto,

 

os pedreiros, já sem o rigoir de juntar as pedras,

 

não perdem tempo como eu

 

a tange a lira de Orfeu

 

para construir uma mulher

 

de sombra eterna.

 

 

 

Preferem a intimidade

 

de uma Eurídice provisória qualquer

 

- harpa de suor,

 

leite de sonho efémero.

 

(Obra Poética)

 

 

 

 

 

 Sérgio Godinho e José Mário Branco cantam Que força é essa, com música e letra do primeiro:

 

 

 

 

 

 



publicado por Carlos Loures às 17:00
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18- Primer de Maig - DIA INTERNACIONAL DELS TREBALLADORS

Joaquim Horta (Barcelona, 1930)

 

          

HOME AMB ESPERANÇA 

Acabarem algun dia, potser demà,

amb les paraules inútils i boniques,

el dring de la porcellana fina,

i les marionete de foscos colors.

I ensenyarem als fills, parits sense dolor,

el com i el perquè de cada cosa,

i els baixarem al carrer, sense temor,

i jugaran a construir pobles.

I tocaran la terra,

i la faran seva i de tots,

i escriuran, amb nous mots,

noves lleis, història i vida.

També vindrà un vaixell de vela àgil,

esquivant tempestes i roques altives,

i s'endurà tot l'or de la terra, mites i falsos déus,

i ens deixarà quieta la mar, i una barca petita.

Anb ella anirem a saludar els pobles,

a l'espatlla un sarrío amb eines i amb llibres,

als ulls un esclat d'alegria,

i creurem en els homes i en els dies.

 

 (Un poema de Paraules per a no dormir, 1960)

 

 

 

Isidre Molas (Barcelona, 1940)

 

          

Som nosaltres, els joves

 

Som nosaltres, els joves, qui hem d'agafar l'arada

i remoure aquesta terra cansada i vella,

plena de rostolls i d'història

amarada en sang.

 

Cal que hi llancem llavors de sol a sol,

cal abocar-hi torrents de suor,

fer fermentar les pedres

i amorosament contemplar-la, al capvespre,

com la gossa la seva cria.

 

Que cada brot nou que surti

no mori per la gebrada, ni la pedra,

ni tampoc per la sequedat,

que creixi erecte i violent com una llança,

que arreu trobi companys en la lluita,

units tots

entorn d'un mateix

foc.

 

(Un poema del recull D'aquesta terra,1966)

 

 

Ovidi Montllor (1942-1995) 

 

La fera ferotge

 

Per ordre de l'Alcalde
es fa saber a tothom
que una fera ferotge
del parc s'escaparà.
Es prega a les senyores
compren força aliments
i no surten de casa
fins que torne el "bon temps".

Tot el que tinga cotxe
que fota el camp corrent,
i se'n vaja a la platja,
a la torre o als hotels.

L'Alcalde s'encarrega,
fent ús dels seus poders,
de la fera ferotge
deixar-la sense dents.
El que això no acompleixca
que no es queixe després
si per culpa la fera
ell rep algun torment.

Jo que no tinc ni casa,
ni cotxe, ni un carret
em vaig trobar aquell dia
la fera en el carrer.

Tremolant i mig mort:
-Ai Déu, redéu, la fera!
I en veure'm tan fotut
em va dir molt planera:

-Xicot, per què tremoles?
Jo no te'n menjaré.
-I doncs, per què t'escapes
del lloc que tens marcat?

-Vull parlar amb l'Alcalde
i dir-li que tinc fam,
que la gàbia és petita,
jo necessite espai.
Els guàrdies que la veuen
la volen atacar,
la fera es defensa,
no la deixen parlar.

Com són molts i ella és sola,
no pot i me l'estoven.
I emprenyats per la feina,
a la gàbia me la tornen.

Per ordre de l'Alcalde
es fa saber tothom
que la fera ferotge
ja no ens treurà la son.
I gràcies a la força
no ha passat res de nou,
tot és normal i "maco"
i el poble resta en pau. Au!

 

 Ovidi Montllor canta La fera ferotge:

 

 

 



publicado por Carlos Loures às 16:00
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17 - Primeiro de Maio - DIA INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES

 Chico Buarque (1944)

Construção

 

Amou daquela vez como se fosse a última


Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado

Por esse pão pra comer, por esse chão prá dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir,
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair,
Deus lhe pague
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,
Deus lhe pague

 

 

O almoço do trolha - Júlio Pomar

 

 

 



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16 - Primeiro de Maio - DIA INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES

 

Maio em dois poemas e uma canção:

 

Casimiro de Brito (1938)

Memória do Primeiro de Maio

  

Um país iluminado por ruínas nunca repousada

Em teus olhos cegos subitamente

Rasgados / um país distendido

Entre velha colónias emancipadas

No ardor da guerra / um povo libertando-se

Do seu ovo de silêncio amoras cifrado & usura –

Tubérculo apodrecido

D’onde foi banido

o dente cariado da ditadura

 

O mar foi o mar na praça pública a luxuriante

Vegetação / a festa solar / a luz crua

Do exílio e da morte / o espectáculo

De um povo (águas

D’abril) a quem foi devolvido

O dom da fala / a mística

Da revolução. Ouve-se

Por toda a cidade

grande coral da liberdade

 

 

(Labyrinthus, Lisboa, 1981 e Poemabril, 2ª edição, 1994)

 

Egito Gonçalves (1920-2001)

 

 

 

Um dia de Maio

 

 

 

 

 

Recordo esse momento, esse

 

terrível entusiasmo. Eram

 

milhares, dezenas de milhar

 

e todos se esticavam, todos

 

tentavam ver os carros, sentiam

 

 o solene momento, gritavam

 

da alegria mais pura. Era

 

um som de pólvora liberta,

 

uma explosão de esperança,

 

de loucura, de vida – sim,

 

por uma vez, a vida -. Lembro

 

esse gosto de pão, o corte

 

brusco na inércia, o fogo

 

da presença em oferenda,

 

a compressão da ira vinculada

 

agora a um caminho. Hoje

 

contemplo esta praça, estas ruas

 

que a tristeza semeou

 

de novo e espero a multidão

 

que uma vez aqui floresceu.

 

Confio em que virá. O vento

 

fala já nos seus passos, faz

 

da espera alimento; o ar

 

vai encher-se de vozes, vai

 

ver-nos todos juntos, livres,

 

respirando através das mãos

 

unidas, através do ardente

 

fluido de alegria que liberta

 

as raízes do canto estagnado.

 

 

 

 

 

 Teresa Salgueiro e "Os Madredeus" em "Maio, Maduro Maio". de José Afonso.

 

 

 



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15 - Primeiro de Maio - DIA INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES

Urbano Tavares Rodrigues (1923)

 

 

 

 

 

Mulheres do Alentejo

 

Mulheres do Alentejo

Com papoilas nos olhos

São primaveras erguidas

Contra os bastões contra as balas

Oculto o rosto

Seus negros chapéus descidos

Frene ao sol

O claro choro nas mãos

Com bagos de amanhã.

 

São cor de terra

Cor de trabalho

Cor da habituação à dor.

 

Nossa Pátria do sofrimento

E do valor

Meu sinal de luz

Em toda a palavra que escrevo

Meu território do regresso e do futuro

Minha praia de secura

Percorrida pelo ódio e pelo pânico

 

Eis o ardente povo torturado

Esperança viva de um sonho feito carne

Mulheres searas fontes azinheiras

Nossa esperança, ainda em flor e fruto

No vermelho das feridas deste País de Abril.

 

 

Desenho de Manuel Ribeiro Pavia

 

 

 

Vitorino canta Alentejanas e Amorosas:

 

 



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14 - Primeiro de Maio - DIA INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES

 

 

  

 

António Ramos Rosa (1924)

 

Poema de um funcionário cansado

 

A noite trocou-me os sonhos e as mãos

dispersou-me os amigos

tenho o coração confundido e a rua é estreita

estreita em cada passo

as casas engolem-nos

sumimo-nos

estou num quarto só num quarto só

com os olhos trocados

com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcionário apagado

um funcionário triste

a minha alma não acompanha a minha mão

Débito e Crédito Débito e Crédito

a minha alma não dança com os números

tento escondê-la envergonhado

o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em

Frente

e debitou-me na minha conta de empregado

Sou um funcionário cansado dum dia exemplar

Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?

Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço

Soletro velhas palavras generosas

Flor rapariga amigo menino

irmão beijo namorada

mão estrela música

São as palavras cruzadas do meu sonho

palavras soterradas na prisão da minha vida

isto todas as noites do mundo numa só noite comprida

num quarto só.

 

 

Manuel da Fonseca (1911-1993)

 

 

Coro dos empregados da câmara

 

 

É tão vazia a nossa vida,

 

é tão inútil a nossa vida
que a gente veste de escuro

 

como se andasse de luto.
Ao menos se alguém morresse

 

e esse alguém fosse um de nós
e esse um de nós fosse eu...

 


... O Sol andando lá fora,

 

fazendo lume nos vidros,
chegando carros ao largo

 

com gente que vem de fora
(quem será que vem de fora?)
e a gente práqui fechados

 

na penumbra das paredes,
curvados prás secretárias

 

fazendo letra bonita.

 


Fazendo letra bonita

 

e o vento andando lá fora
rumorejando nas árvores,

 

levando nuvens pelo céu,
trazendo um grito da rua

 

(quem seria que gritou?)
e a gente práqui fechados

 

na penumbra das paredes,
curvados prás secretárias

 

fazendo letra bonita,
enchendo impressos, impressos,

 

livros, livros, folhas soltas,
carimbando, pondo selos,

 

bocejando, bocejando,

bocejando.

 

Sérgio Godinho (1945)

 

As horas extraordinárias

 

 

 

 

Foi a saudade do teu braço
e o olhar que já da luz me dói
trabalhei sem dar p´lo cansaço
horas extraordinárias, foi
um dia que passou num furacão
um furacão que se amainou, só
quando, aparte o amor
eu me vi só
atirando amoeda ao ar
diz-me que cara ou coroa
eu vou ganhar
diz-me quanto eu fiz bem
em me apostar
e que bem fiz em ter por necessárias
as horas extraordinárias

E assim que volto ao meu lugar
reencontro com dor e com prazer
o coração que fiz falar
à máquina de escrever, a ver
ela a dar corda à máquina de amar
e um coração a se amainar, só
quando aparte o amor
eu me vi só
atirando amoeda ao ar
diz-me que cara ou coroa
eu vou ganhar
diz-me quanto eu fiz bem
em me apostar
e que bem fiz em ter por necessárias
as horas extraordinárias

 

 

Ouçamos a canção que Sérgio Godinho canta com estes versos:

 



publicado por Carlos Loures às 12:00
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13 - Primeiro de Maio - DIA INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES

Anos após anos na Galiza, como em Portugal, a miséria e falta de trabalho criaram sucessivas vagas de emigração


“… porque é preferível emigrar para ganhar a vida, do que morrer à fome no torrão nativo…”

 

            (Daniel Castelão, Sempre em Galiza, 1935)

 

 

 Castelão

 

 

 

Rosalia de Castro (1837 –1885)

 

Cantar da emigração

 


Este parte, aquele parte

e todos, todos se vão

Galiza ficas sem homens

que possam cortar teu pão

Tens em troca órfãos e órfãs

tens campos de solidão

tens mães que não têm filhos

filhos que não têm pai

Coração que tens e sofre

longas ausências mortais

viúvas de vivos mortos

que ninguém consolará



Cantar de Emigração (por Adriano Correia de Oliveira)

 

 

País marcado pela terra e pelo mar, assim também os seus trabalhadores

 

Manuel Colmeiro, A sega da herba

 Manuel Maria (1929-2004)

 

O labrego


Un labrego tan só é unha cousa

que case non repousa.

 

Da sementeira a seitura,

pasando pela cava,

a súa vida é moi dura

e moi escrava.

 

Sempre trafegando,

arando,

sachando,

malhando,

gadanhando,

percurando o gando.

 

Sempre a olhar pró ceo

com medo e com receo.

Sempre a sementar ilusión

ponhendo na semente o corazón

pra colheitar probeza e mais tristura.

 

Dilhe ao labrego da beleza

da campía,

da súa fermosura

e poesia.

 

Dírache que sí,

que a beleza pra tí.

 

Pró labrego é o trabalho

o andar tocado do caralho,

o pan mouro i o toucinho.

 

(Múdanse de calzado ou de traxe

cando van de viaxe,

de feira ou de romaxe

e xantan, eses días, pulpo e vinho);

os eidos ciscados, minifundiados

que quér decir atomizados);

o matarse sachar de sol a sol

pra lograr seis patacas

com furacas,

catro grãos de centeo i unha col;

o dobregarse sobor dos sucos

pra pagar gabelas e trabucos;

o vivir entre esterco i animales

en chouzas case inhabitabeles.

 

I aguantar, aguanta e aguantar,

Agardando morrer pra descansar.

 

Canto de seitura (Fuxan os Ventos)

 



publicado por Pedro Godinho às 11:00
editado por Carlos Loures às 08:26
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Agenda cultural de 2 a 8 de Maio de 2011 por Rui Oliveira

 

 

           

 

  

   Na Segunda  2/5 :  Neste início duma semana de recuperação das comemorações recentes, pode  manter-se o espírito das celebrações findas deslocando-se à Casa da Achada – Centro Mário Dionísio onde prossegue o ciclo de cinema Revoltas e Revoluções. Diz a sua programação : “…

Os filmes sobre REVOLTAS e REVOLUÇÕES que vale a pena ver (ou rever) são muitos. Grande parte, documentários. Mas escolhemos para este ciclo, sobretudo ficções (ou perto disso) a partir de acontecimentos . Abrimos uma excepção para Portugal 1974-1975…” E neste dia “vale a pena ver” Cenas da luta de classes em Portugal de Robert Kramer (1977, 90 min.)   

  

   Outro modo sugerido para homenagear esse passado é recuar no tempo ao ver a última obra de Manoel de Oliveira, filme construído sobre um argumento escrito há sessenta anos, uma revisitação parcial da sua filmografia, “filme sobre o cinema ... (como diz o crítico do Ipsilon)…sobre uma atracção (entre a máxima inocência e máxima perversidade) pelo cinema como porta de entrada para um mundo alternativo onde tudo é possível” .

 

Trata-se de O Estranho Caso de Angélica, com Ricardo Trêpa, Pilar López de Ayala, Leonor Silveira, Luís Miguel Cintra e Ana Maria Magalhães, estreado no ano passado no Un Certain Regard de Cannes (e logo ali vivamente louvado). Face à qualidade desta que poderia ter sido a “obra-prima do cinema português dos anos 50”, convém recordar que o mesmo foi “chumbado” pelos censores do salazarismo (o SNI) com o veredicto medíocre de «argumento pessimista e demasiado mórbido» !                           

  

 

   No teatro "A Barraca" retomam-se às 21h30 os Encontros Imaginários (texto e encenação de Helder Costa) onde se confrontam formas diversas de exercer o Poder através do debate entre personagens marcantes da História da Humanidade, neste caso Damião de Gois (Adérito Lopes), Mussolini (Ruben Garcia) e Marylin Monroe (Rita Fernandes).

  

   Na Biblioteca Museu República e Resistência, à Cidade Universitária, às 18h30, no ciclo “A Poesia e a Liberdade”, Yang Liang, poeta chinês exilado no Reino Unido, falará sobre Liberdade e Exílio.

  

   Na Sala de Conferências da Reitoria da Universidade de Lisboa, as palestras (das 18-20h) do ciclo das "100 Lições" comemorativo do centenário da UL. serão de Adolfo Morais de Macedo  Profissão: Diletante. Da Música à Conservação da Natureza e de Margarida Gil  Reverberações das letras no Cinema.

 

 

 

   Na Terça  3/5 :  No Teatro Tivoli, às 21h30, a Orquestra Sinfónica Estatal Ucraniana de Dneproprtrovsk executa o Concerto nº1 em Si Bemol Menor, op. 23, O Lago dos Cisnes, op.20  e a Abertura 1812,op.49 de Pyotr Ilyich Tchaikovsky.

  

   Também merece atenção o filme/documentário Lixo Extraordinário – Waste Land (2009) de Lucy Walker e os seus co-directores João Jardim and Karen Harley que, durante quase três anos, seguiram o artista plástico brasileiro Vik Muniz até à mega-lixeira do Jardim Gramacho, perto do Rio de Janeiro onde este envolveu os catadores de lixo na criação dos seus “retratos”, doando os lucros consideráveis da venda internacional dessas obras. Reflecte bem (diz um crítico) “… as dúvidas do artista (se) estão a ajudar a gente ou a instilar expectativas insustentáveis para o futuro”.

  

 

 

   Manuel Lucena (investigador do Instituto de Ciências Sociais) e Pedro Santana Lopes (político) serão  os palestrantes no ciclo das "100 Lições" comemorativo do centenário da UL, na Sala de Conferências da Reitoria da Universidade de Lisboa, às 18h.

 

 

 

   Na Quarta  4/5 :  Recomeçou Sábado passado no Teatro da Comuna, às 21h, a exibição da peça  do Desassossego  (que por lapso não noticiámos), de Bernardo Soares / Fernando Pessoa, com  adaptação de Carlos Paulo e versão cénica e encenação de João Mota,

 

 tendo no elenco Carlos Paulo e Hugo Franco. Relembra o texto as palavras do escritor: “… A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos. Enquanto sentimos os males e as injúrias de Hamlet, príncipe da Dinamarca, não sentimos os nossos vis porque são nossos e vis porque são vis … Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência … Só lamento o não ser criança, para que pudesse crer nos meus sonhos ....   

  

   Às 13h30, no Museu Gulbenkian, há uma visita temática (no programa Uma obra de arte à hora do almoço) ao retrato de Duval de l’Epinoy, analisando em pormenor esta obra seleccionada da colecção permanente do Museu.  (gratuito)

  

   O trio Carlos Barretto Lokomotiv, o projecto do conhecido contrabaixista com o guitarrista Mário Delgado e o baterista José Salgueiro, vai actuar no palco Restart (R. da Quinta do Almargem, a Belém) pelas 19 horas.

  

   Aloe Blacc, que é já uma das referências da soul actual, actua na Aula Magna da Reitoria da UL às 22h.

 

   No MusicBox, às 22h30, tocam os Chain & The Gang, mais uma banda  rock de Ian Svenonius que aqui vem apresentar o seu mais recente álbum Music’s Not For Everyone.

  

   Na Sala de Conferências da Reitoria da Universidade de Lisboa, as palestras (das 18-20h) do ciclo das "100 Lições" comemorativo do centenário da UL. serão de João Bosco Mota Amaral (ex-presidente da Assembleia da República) e de Manuel Maria Carrilho (ex-ministro da Cultura).

 

 

   Na Quinta  5/5 :  Na Fundação Calouste Gulbenkian (no Grande Auditório, às 21h), a Orquestra Gulbenkian dirigida pelo maestro Lawrence Foster,  acompanhada pela violinista sul-coreana Hae-Sun Kang, interpretará de Johannes Brahms  Danças Húngaras (nºs 1,3 e 10), de Béla Bartók  Concerto para Violino nº2, Sz 112, de Georges Enesco  Suite nº3, op.27,Suite Villageoise e de Bedrich Smetana  A Minha Pátria: O Moldava.  Repete Sexta 6/5 às 19h.

  

   No Grande Auditório do CCB, às 21h, a Paolo Conte Band deste cantautor italiano apresenta o álbum mais recente Nelson, num estilo definido a partir do seu primeiro e emblemático disco de 1974 Novecento, que mistura jazz, tango e temas de musical.   

  

                                    

   Inicia-se o IndieLisboa’11 Festival Internacional de Cinema Independente, agora

 na sua 8ª edição, com a projecção espalhada pelas salas do Cinema São Jorge, Culturgest, Cinemateca Nacional e Teatro do Bairro (ver programação em http://indielisboa.com/uploads/files/support_30.pdf ). Curtas e longas metragens de ficção, documentário e animação serão distribuidas por nove secções: Competição Internacional, Competição Nacional, Observatório, Cinema Emergente, Herói Independente, Director’s Cut, IndieMusic, Pulsar do Mundo e IndieJúnior.

  

   No São Luiz Teatro Municipal, estreia às 21h a peça O JOGADOR  a partir de Fiódor Dostoiévski, adaptação de Emília Costa encenada por Gonçalo Amorim, cujos intérpretes são António Fonseca, Carla Galvão, Carla Maciel, Duarte Guimarães, Iris Cayatte, Joana de Verona, João Villas Boas, Mónica Garnel, Nicolas Brites, Raquel Castro, Romeu Costa e Vânia Rovisco. É exibida em quatro episódios sucessivos, dois por dia. “A história decorre em Roletemburgo, num hotel, na Alemanha, num ambiente de casinos. A nossa inspiração manter-se-á nesse universo e é essa a imagética em que mergulhamos”, diz o encenador “... este é também um trabalho sobre o vício, mas não só o vício da roleta e do jogo. O vício formula-se no formato: esta peça de teatro assume o formato ‘série’. São quatro episódios que podem ser vistos em sequência, ou não, só de uma vez ou não”. As sessões são às 4ªs e 5ªs às 21h e de Sexta a Domingo às 18h.

 

   No Maria Matos Teatro Municipal, às 22h, actua o Vladislav Delay Quartet, composto por Vladislav Delay bateria, percussão, Mika Vainio electrónica, Lucio Capece saxofone, clarinete e Derek Shirley contrabaixo. Diz o programa que “… juntos formam um quarteto imponente, que faz uma revisão do jazz contemporâneo explorando até ao limite os espaços e silêncios que ocupam os seus interstícios sonoros...  por outras palavras, cumprem uma das muitas visões de Delay sobre a música ambiental”. De seu verdadeiro nome Sasu Ripatti, o finlandês Vladislav Delay começou  a sua carreira como percussionista até atingir as actuais magníficas polifonias electrónicas dos seus variadíssimos projectos.

 

                                      

  

   No Auditório da Fundação Portuguesa das Comunicações, às 19h, o Quinteto de Cordas da Metropolitana (Mafalda Pires violino, André Gaio Pereira violino, Paul Wakabayashi viola, Hugo Paiva violoncelo e Margarida Ferreira contrabaixo) tocará de George Onslow  Quinteto de Cordas, Op. 74  e de Antonin Dvořák  Quinteto de Cordas, Op. 77.

  

   Também na Sociedade Portuguesa de Autores, às 18h30, o Quinteto de Sopros da Metropolitana  (Teresa Reis flauta, André Machado oboé, Samuel Matos clarinete, Edgar Barbosa trompa e Catherine Stockwell fagote) e o seu Quarteto de Cordas (Eliana Magalhães violino, Ana Rita Damil violino, Ana Rita Cardona viola e Catarina Gonçalves violoncelo) executarão de Robert Washburn   Suite para Quinteto de Sopros, de Darius Milhaud   La Cheminée du Roi René, Op. 205, Malcolm Arnold   Três Shanties, Op. 4 e de Wolfgang Amadeus Mozart   Quarteto de Cordas n.º 22 em Si bemol maior, KV 589, Prussiano n.º 2.

  

   No Ondajazz, às 22h30, actua o Jacques Vidal Trio, composto por Jacques Vidal contrabaixo, Gilles Clement guitarra e Sílvio Franco bateria.

  

   Na Galeria ZDB, às 22h, actuam duas bandas : a portuguesa The Glockenwise, versão nacional da versão contemporânea do garage-rock e autora do disco Building Waves e a norte-americana Abe Vigoda, que assinaram Kid City, uma revisitação do punk de Los Angeles.

  

   Na LX Factory, às 21h30, apresenta-se Yann Tiersen, o músico bretão autor de várias bandas sonoras, com o seu novo trabalho de estúdio Dusty Lane.

  

   No MusicBox, às 22h30, pode ouvir-se Ursula Rucker, cantora norte-americana de ascendência italiana, conhecida por uma boa técnica poética e um ritmo musical “místico”.

  

   Alberto Dassieu, milongueiro que partilhou pistas de dança com alguns dos mais reconhecidos bailarinos argentinos  como Gerardo Portalea, Pepe Dafonte, Virulazo ou Juan Carlos Copes, entre outros, dará  uma exibição na Milonga Brava, no Clube Vendedores de Jornais (rua das Trinas, 55).

  

   No Auditório Jorge Sampaio do CC Olga Cadaval, às 21h30, o Karlik Danza Teatro apresenta Frágil, o novo trabalho do coreógrafo (e intérprete) Rob Tannion (Stan Won’t Dance) que une os elementos-chave do teatro : cenografia, música, movimento e palavra. Com Elena Lucas estabelece-se “um duo, homem e mulher que medirá a delicada linha divisória entre a estabilidade contida e o potencial desalento…”.

  

   Termina nesta data na Plataforma Revolver do Edifício Transboavista a exposição

 

Exploração do Processo do Imaginário onde o artista francês Julien Isoré procura abordar o princípio da imaginação. Gaëlle Scali, Emilie Shalck, Bertrand Zsymanski e Rémy Russotto foram convidados a debruçarem-se sobre estas questões, experimentando a relação entre a percepção sensível, o imaginário e a narração.  

  

Às 18h, no Museu Nacional de Arqueologia, tem lugar uma sessão pública de divulgação do tema Entre as Abelhas e os Ursos Muros Apiários, um património comum no Sudoeste Europeu onde falarão Luis Raposo (MNA), Francisco Henriques (AE Alto Tejo), José Aguiar (ICOMOS) e Pedro Castro Henriques (I.Conservação da Natureza e da Biodiversidade).

  

Maria do Rosário Pedreira (escritora e editora) e Adalberto Campos (director do Centro Hospitalar de Lisboa Norte) Os novos desafios do sistema de saúde  serão  os palestrantes no ciclo das "100 Lições" comemorativo do centenário da UL, na Sala de Conferências da Reitoria da Universidade de Lisboa, às 18h.



 

                                                    

   Na Sexta  6/5 :  No Maria Matos TM (em colaboração com a Transforma-Torres Vedras) inicia-se às 10h a conferência internacional intitulada DOIS GRAUS / TWO DEGREES  Arte, Alterações Climáticas e Desenvolvimento Sustentável. Os problemas postos são :  “O aumento da temperatura não é apenas um problema global, mas também transversal. A emissão de gases de estufa está ligada a todos os sectores da actividade humana e uma redução significativa das emissões só pode ser alcançada através do esforço de todos. Qual é o papel do sector cultural neste contexto? A arte tem a capacidade de informar o público? Tem o dever de incitar as pessoas a reduzir a sua pegada ecológica? Os próprios artistas e agentes culturais podem desenvolver métodos ecológicos para produzir, apresentar e distribuir obras artísticas?”  (entrada livre)

  

   A Cinemateca Nacional inicia às 21h30 (na sala Dr.Félix Ribeiro) a retrospectiva de dezassete filmes de Júlio Bressane, o “herói independente” do IndieLisboa 2011, activo desde 1969 e autor, à data de hoje, de vinte e seis longas–metragens, «o mais importante realizador underground brasileiro, em tudo oposto ao Cinema Novo de Glauber Rocha, pois as suas referências eram as da chamada contracultura dos anos 60». Exibe-se o filme A Erva do Rato (2008) com Selton Melo e Alessandra Negrini, inspirado nos contos de Machado de Assis A Causa Secreta e Um Esqueleto.

   

                                    

 

 

   No Grande Auditório da FCG, às 21h30, Solistas da Orquestra Gulbenkian (Cristina Ánchel, Denise Ribera Luxton, Pedro Ribeiro, Nelson Alves, Esther Georgie, Jose Maria Mosqueda, Vera Dias, Ricardo Santos, José Coronado, Jonathan Luxton, Eric Murphy, Keneth Best e Darcy Edmundson-Andrade) tocarão de Lopes-Graça  Sete Lembranças para Vieira da Silva, de Joly Braga Santos  Quinteto para Sopros e de Richard Strauss  Serenata, op.7. (entrada livre)

  

   Adriana Calcanhoto canta O Micróbio do Samba (novo

 álbum integralmente de sua autoria) no Grande Auditório do CCB (às 21h), acompanhada de Davi Moraes (violão/percussões), Alberto Continentino (contrabaixo) e Domenico Lancellotti (bateria). Repete Sábado 7/5.

  

   No Auditório da Reitoria da Universidade Nova de Lisboa, às 21h, Orquestra Metropolitana de Lisboa (dir. musical Doron Salomon) com David Krakauer no clarinete interpretará, num concerto intitulado de Música Klezmer,  de Sergei Prokofiev  Abertura sobre Temas Hebraicos, Op. 34, de Ofer Ben-Amots  The Klezmer, Concerto, para clarinete, cordas, harpa e percussão, de Ernest Bloch  Concerto Grosso n.º 1 e de Zoltán Kodály  Danças de Galanta.

  

   No El Corte Inglés, às 19h, dois Trios da Orquestra  Metropolitana  (Carlos Tomás clarinete, Eva Mendonça flauta e Catherine Stockwell fagote) e (Carolina Patricio flauta, Madalena Melo viola  e Salomé Matos harpa) tocarão de Sérgio Azevedo  Suite Campestre para Sopros, Pelos campos fora, de César Guerra Peixe  Trio n.º 2 para Sopros, de Robert Muczynski  Fragmentos, de Claude Debussy  Sonata e de Manuel Moreno-Buendía  Suite Popular Espanhola.

  

   No Museu do Oriente abre a exposição Brinquedos e Jogos da Ásia  onde se reúnem

  peças de coleccionadores particulares e do acervo do Museu do Oriente para contar uma história que começa nos brinquedos tradicionais e locais e acaba nos brinquedos industriais que, a partir da Ásia, invadiram o mundo.

  

No Ondajazz, às 22h30, canta Ana Laíns, acompanhada por Paulo Loureiro piano/ acordeão/ clarinete, Vasco Sousa baixo, Luís Guerreiro  guitarra portuguesa e João Coelho bateria. Uma viagem pela música de caris português, com ponte entre o fado e uma homenagem ao cancioneiro tradicional.

 

 

   No Sábado  7/5 :  No Grande Auditório da FCG, às 18h, o cravista Pierre Hantaï tocará, num único recital, o Livro II do Cravo Bem Temperado de Johann Sebastian Bach.

 

                                     

  

   No Pequeno Auditório do CCB, às 21h, o DSCH Schostakovich Ensemble (Filipe Pinto-Ribeiro piano, Ramón Ortega oboé, Tatiana Samouil violino, James Boyd viola e Justus Grimm violoncelo) homenageia Mozart tocando além da Gran Partita, KV 361 deste compositor, ainda a Sonata BWV 538 de J.S.Bach e o Trio de cordas, D 581 de F. Schubert.

  

   Na Sala de Ensaio do CCB, às 19h, pode ver-se a performance  Every.Body.Hunts de Sylvia Rijmer, onde esta bailarina/coreógrafa, em conjunto com o músico Miguel Lucas Mendes, “… desenvolve um enredo que toma a caça como forma primária de contacto social…”.

  

   No Palácio Nacional da Ajuda, às 16h, vários elementos dos Agrupamentos da Academia Superior da Orquestra  Metropolitana  tocarão de Darius Milhaud  Suite, Op. 157b e de Joan Albert Amargós  1º Andamento de Atlantic Trio (Ana Margarida violino, Sérgio Coelho clarinete e Ricardo Vicente piano);  em seguida de Gustav Mahler  Quarteto com Piano em Lá menor e de Johannes Brahms  1º andamento do Quarteto com Piano nº1, Op. 25  (Félix Duarte violino,

 

Bárbara Pires viola, João Matos violoncelo e Sara Ascenso piano) e, por último, de Astor Piazzolla  Quatro Estações Portenhas (Francisco Barbosa flauta, Sara Abreu violoncelo e Jennifer Granlund piano).

  

   Na Igreja de São Roque, ocorre às 16h um concerto do Ciclo de Órgão em São Roque promovido pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa onde o organista Jens Christensen tocará obras de Nikolaus Bruhns, Antonio Carreira, Carlos de Seixas, Sousa Carvalho e Diego da Conceição. 

  

   A Cinemateca colabora com o IndieLisboa’11 projectando, às 19h, o filme de Júlio Bressane Cleópatra (2007) com Alessandra Negrini, Miguel Falabella e Bruno Garcia, onde o realizador propõe «uma Cleópatra lírica e não uma Cleópatra épica» e mais tarde, às 21h30, O Anjo Nasceu (1969) com Hugo Carvana, Milton Gonçalves, Maria Gladys, Norma Bengell, um clássico do cinema marginal brasileiro que foi alvo de censura durante vários anos e ficou conhecido pela sua proposta de ruptura narrativa.

 

  

   Prossegue no Maria Matos TM a conferência internacional  DOIS GRAUS / TWO DEGREES. Depois de na véspera,  Peter Tom Jones, pesquisador na área da Ecologia Industrial na Universidade de Lovaina (Bélgica) e Julie Bromilow, Directora de Educação do Centro de Tecnologias Alternativas (País de Gales) terem apresentado um enquadramento da situação actual  apontando caminhos de transição para uma sociedade sustentável,  Helen Heathfield,  da organização britânica mais experiente a nível mundial no desenvolvimento e na aplicação de políticas sustentáveis nas indústrias criativas e nas artes, a Julie’s Bicycle, apresenta um conjunto de metodologias e medidas para reduzir a pegada ecológica no sector cultural, enquanto Judith Knight (da agência artística Londrina ArtsAdmin) aborda o papel das artes na divulgação da problemática.                                       

 

Estes e outros peritos orientarão uma série de seis seminários diferentes onde serão apresentadas e discutidas metodologias e ferramentas concretas, de um lado, para abordar o tema na criação artística e na programação, de outro lado, para reduzir o desperdício e minimizar o impacto ambiental na organização de festivais, gestão diária de teatros e centros culturais, digressões de concertos e espectáculos, desenho de luz, etc. A entrada do público é livre.

  

   Termina no Espaço 2.15 da LX Factory o ciclo de conferências promovido por António Guerreiro intitulado A Sismografia da Cultura (Passagens por Walter Benjamin e Aby Warburg).  Diz o texto introdutório : “…A aproximar estes dois autores está uma concepção da história e da cultura que encontra na questão da imagem um dispositivo fundamental. A ideia de «imagem dialética» em Walter Benjamin pode ser posta a par da visão warburguiana da imagem como «fórmula de pathos», como energia onde se polariza a memória cultural e as leis da sua transmissão trans-histórica…”.

  

   No Ondajazz, às 22h30, Melissa Oliveira canta, acompanhada por Pedro Costa (piano), João Cação (contrabaixo) e Fernando Sanchez (sax tenor), as dez faixas do seu primeiro CD gravado em Boston, que conta com participações especiais de Greg Osby e Jason Palmer.

  

   Na Biblioteca Museu República e Resistência, à Cidade Universitária, às 16h, Álvaro Arranja fará uma conferência promovida pelo Centro de Estudos Libertários sobre Dos fuzilamentos de Setúbal à ruptura Operariado/República em 1911.

 

 

  

   No Domingo  8/5 :  No Museu do Oriente, às 17h no Salão Macau, o Quinteto de Cordas dos Jovens Solistas da Metropolitana (Mafalda Pires violino, André Gaio Pereira violino, Paul Wakabayashi viola, Hugo Paiva violoncelo e Margarida Ferreira contrabaixo) tocará de George Onslow  Quinteto de Cordas, Op. 74 e de Antonín Dvořák  Quinteto de Cordas, Op. 77.

  

   No Grande Auditório da FCG, às 19h, o notável pianista polaco Piotr Anderszewski vai tocar de Johann Sebastian Bach Suite francesa nº 5, em Sol maior, BWV 816,  de Robert Schumann  Seis estudos em cânone, para piano com pedaleira, op. 56 (trans. de P. Anderszewski), de Robert Schumann Waldszenen, op. 82  e de Johann Sebastian Bach Suite inglesa nº 6, em ré menor, BWV 811.

 

                                          

                                         

 

Para além desta entrevista, sugiro vivamente que ouçam Anderszewski através deste link :

http://www.youtube.com/watch?v=6F95x91i_zo&feature=relmfu

 

 

 

E com esta melodia vos deixo, caros leitores.



publicado por ruideoliveira às 10:30
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12 - Primeiro de Maio - DIA INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES

 

Da lavadeira de D. Dinis à Maria de José Afonso, passando pela Luísa de António Gedeão e pela Engomadeira de Almada Negreiros, prestámos aqui uma homenagem ao que tem sido até aos nossos dias o sacrifício, a secundarização, a escravização das mulheres. Se actualmente a lei consagra a plena igualdade de direitos, a luta pelo total e efectivo respeito por essa lei, ainda não terminou. Simone de Beauvoir disse: «É pelo trabalho que a mulher tem conseguido diminuir a distância que a separava do homem; somente o trabalho lhe poderá garantir uma independência concreta». Hoje, Dia Internacional dos Trabalhadores, saudamos especialmente as trabalhadoras!

 

 

D. Dinis (1261-1325)

 

 

 

Levantou-s, a velida

 

Levantou-s´a velida,
levantou-s´alva
e vai lavar camisas
em no alto,
vai-las lavar alva.

Levantou –s´a louçana,
levantou-s´alva,
e vai lavar delgadas
em no alto,
vai-las lavar alto.

Vai lavar camisas,
levantou-s´alva,
o vento lhas desvia
em no alto,
vai-las lavar alva.

E vai lavar delgadas,
levantou-s´alva,
o vento lhas levava
em no alto,
vai-las lavar alva.

O vento lhas desvia,
levantou-s´alva,
meteu-s´alva em ira
em no alto,
vai-las lavar alva.

O vento lhas levava,
levantou-s´alva,
meteu-s´alva em sanha
em no alto
vai-las lavar alva.

 

 

 

António Gedeão (1906 – 1997)

 

 

 

 Calçada do Carriche

 

Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada. 
          

                                                                                                                                                        

 

Luísa é nova,

desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada;
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

 



(Teatro do Mundo, 1956)  

 (quadro de Almada Negreiros)

 

 

 

 José Afonso canta "Maria", acompanhado à viola por Rui Pato:

 

 

 



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11 - Primer de Maig - DIA INTERNACIONAL DELS TREBALLADORS

 

Joan Salvat Papasseit (1894-1924)

 

 

 

 

          

Nocturn per a acordió

 

Heus aquí: jo he guardat fusta al moll.

(Vosaltres no sabeu

                                   què és

                                               guardar fusta al moll:

però jo he vist la pluja

a barrals

            sobre els bots,

i dessota els taulons arraulir-se el preu fet de l'angoixa:

sota els flandes

i els melis,

sota els cedres sagrats.

 

Quan els mossos d'esquadra espiaven la nit

 

 

i la volta del cel era una foradada

sense llums als vagons:

i he fet un foc d'estelles dins la gola del llop.

 

Vosaltres no sabeu

                                   què és

                                               guardar fusta al moll:

però totes les mans de tots els trinxeraires

com una farandola

feien un jurament al redós del meu foc.

I era com un miracle

que estirava les mans que eren balbes.

I en la boira es perdia el trepig.

 

Vosaltres no sabeu

                                   què és

                                               guardar fusta al moll.

Ni sabeu l'oració dels fanals dels vaixells

-que són de tants colors

com la mar sota el sol:

que no li calen veles.

 

 

 

 

L'ofici que més m'agrada

                                                                 

Hi ha oficis que són bons perquè són de bon viure,

mireu              l'ésser fuster:

-serra que serraràs

                                 i els taulons fan a miques,

i de cada suada deu finestres ja han tret.

Gronxada d'encenalls, et munten una taula;

si ho vols, d'una nouera te'n faran un cobert.

I caminen de pla-

damunt les serradures de color de mantega.

 

I els manyans              oh, els manyans!

De picar mai no es cansen:

pica que picaràs i s'embruten els dits;

però fan unes reixes i uns balcons que m'encanten

i els galls de les teulades

que vigilen de nits.

I són homes cepats

com els qui més treballin.

 

¿I al dic?       Oh, els calafats!

Tot el Port se n'enjoia

                                       car piquen amb ressò

i es diu si neix un peix a cada cop que donen

-un peix cua daurada, blau d'escata pertot.

Penjats de la coberta, tot el vaixells enronden:

veiéssiu les gavines

                                 com els duen claror.

 

I encara hi ha un ofici

que és ofici de festa      el pintor de parets:

si no canten abans, no et fan una sanefa,

si la cançó és molt bella deixen el pis més fresc:

un pis que hom veu al sostre

que el feien i cantaven:

tots porten bata llarga

                                       de colors a pleret.

 

I encara més

si us deia l'ofici de paleta:

                                          de paleta que en sap

                        i basteix d'aixoplucs.

El mateix fan un porxo com una xemeneia

-si ho volen

                     sense escales

                                             pugen al capdamunt;

fan també balconades que hom veu la mar de lluny

-els finestrals que esguarden tota la serralada,

i els capitells

                        i els sòcols

                                          i les voltes de punt.

Van en cos de camisa com gent desenfeinada!

Oh, les cases que aixequen d'un tancar i obrir d'ulls!

 

 

 (Dos poemes del recull Óssa Menor,1925)

 

 

De Joan Salvat Papasseit, Joan Manuel Serrat canta "Res no és mesquí" (nada é supérfluo):

 

 

 

Miquel Martí i Pol (1929-2003)

 

         Tres poemes de La fàbrica (1972)

 

L'Elionor

 

 

L'Elionor tenia
catorze anys i tres hores
quan va posar-se a treballar.
Aquestes coses queden
enregistrades a la sang per sempre.
Duia trenes encara
i deia: "sí, senyor" i "bones tardes".
La gent se l'estimava,
l'Elionor, tan tendra,
i ella cantava mentre
feia córrer l'escombra.
Els anys, però, a dins la fàbrica
es dilueixen en l'opaca
grisor de les finestres,
i al cap de poc l'Elionor no hauria
pas sabut dir d'on li venien
les ganes de plorar
ni aquella irreprimible
sensació de solitud.
Les dones deien que el que li passava
era que es feia gran i que aquells mals
es curaven casant-se i tenint criatures.
L'Elionor, d'acord amb la molt sàvia
predicció de les dones,
va créixer, es va casar i va tenir fills.
El gran, que era una noia,
feia tot just tres hores
que havia complert els catorze anys
quan va posar-se a treballar.
Encara duia trenes
i deia: "sí, senyor", i "bones tardes".

 

Mot d'ordre

 

Amb el fil entortolligat en una bitlla
es podrien lligar de mans i peus
mitja dotzena d'explotadors.

Però el fil és molt prim
i només subjecta,
subtilment i eficaçment,
els explotats.

Un conjunt de fils
ben trenat
és una corda.

 

De semàntica

 

Tot darrerament
a la fàbrica
han millorta molt
les relacions humanes.
Ara mateix, per exemple,
de treure la prima setmanal
a una treballadora
per un barreig de fil,
posem per cas,
o algun acte menor d'indisciplina,
ja no se'n diu imposar una sanció;
se'n diu
estimular el sentit
de la responsabilitat.

 

 

 



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10 - Primeiro de Maio - DIA INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES

António Aleixo (1899-1949)

 

Quadras

 

A ninguém faltava o pão,
se este dever se cumprisse:
ganharmos em relação
com o que se produzisse.

Quem trabalha e mata a fome,
não come o pão de ninguém,
mas quem não trabalha e come,
come sempre o pão de alguém.

 

Quantas sedas aí vão,
quantos brancos colarinhos,
são pedacinhos de pão
roubados aos pobrezinhos!

 

Forçam-me, mesmo velhote,
de vez em quando, a beijar
a mão que brande o chicote
que tanto me faz penar.

 

 Francisco Fanhais continua a série de quadras, simples e sábias, do António Aleixo:

 

(Este Livro que vos Deixo, 1983)

 



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9 - Primeiro de Maio - DIA INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES

Trabalha, trabalha...

 

uma parte deste latifúndio, está para ti reservada

 

Enterro do camponês - Gravura do artista plástico brasileiro Abelardo da Hora (1924)

 

 

António Cabral (1931-2007)

 

In memoriam do camponês desconhecido

 

O que tinha setenta anos de terra,
um como tantos, morreu pela última vez.
Que umbral de papoilas receberia
devidamente o seu rosto vitorioso?

Quando entrou no cemitério,
o orvalho cintilava em todas as roseiras
e um pássaro de que não sei o nome
descreveu alguns círculos e partiu.

Os calos floriam nas mãos dos homens,
as mulheres perdiam-se no céu azul,
enquanto ele, um como tantos, regressava.

Eu te saúdo, irmão da urze bravia,
setenta vezes setenta
anos de terra em flor e de miséria.

(Poemas Durienses, 1965)

 

Ouçamos a Dança dos Camponeses, de Carlos Paredes, interpretada pelo autor e, em seguida, um excerto de Vida e Morte Severina, o imortal poema de João Cabral de Mello Neto (1966), musicado por Chico Buarque, que nos parece fazer todo o sentido integrar aqui.  «É a parte que te cabe neste latifúndio».

 

 



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8 - Primeiro de Maio - DIA INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES

O trabalho em diversas interpretações

 

 

 

Guilherme de Azevedo (1839-1882)

 

A Alma Nova XVII

 

Ó máquinas febris! eu sinto a cada passo,

nos silvos que soltais, aquele canto imenso,

que a nova geração nos lábios traz suspenso

como a estância viril duma epopeia d’aço!

 

Enquanto o velho mundo arfando de cansaço

prostrado cai na luta; em fumo negro e denso

levanta-se a espiral desse moderno incenso

que ofusca os deuses vãos, anuviando o espaço!

 

Vós sois as criações fulgentes, fabulosas,

que, vibrantes, cruéis, de lavas sequiosas,

mordeis o pedestal da velha Majestade!

 

E as grandes combustões que sempre vos

           consomem     

começam, num cadinho, a refundir o homem

fazendo ressurgir mais larga a Humanidade.

 

(Alma Nova, 1874)

 

 

Alexandre O’Neill (1924-1986)

 

Velha fábula em bossa nova

 

Minuciosa formiga
não tem que se lhe diga:
leva a sua palhinha
asinha, asinha.

Assim devera eu ser
e não esta cigarra
que se põe a cantar
e me deita a perder.

Assim devera eu ser:
de patinhas no chão,
formiguinha ao trabalho
e ao tostão.

Assim devera eu ser
se não fora
não querer.

(-Obrigado, formiga!
Mas a palha não cabe
onde você sabe...)

 

(Feira Cabisbaixa,1998)

 

 

 

 Arranja-me um emprego - pede o Sérgio Godinho:

 



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7 - Primeiro de Maio - DIA INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES

 

 

Cecilia Meireles (1901-1964)

 

Os varredores

 

Por baixo dos largos fícus
plantados à beira-mar,
em redor dos bancos frios
onde se dita o luar,
vão passando os varredores,
calados, a vassourar.
Diríeis que andam sonhando,
se assim o vísseis passar,
por seu calmo rosto branco,
sua boca sem falar,
- e por varrerem as flores
murchas, de verem amar.

E por varrerem os nomes
desenhados par a par,
no vão desejo dos homens,
na areia ao pisar...
- por varrerem os amores
que houve naquele lugar.
Visto de baixo, o arvoredo
é renda verde luar,
desmanchada ao vento crespo
que à noite regressa ao mar
vão passando os varredores
vão passando e vão morrendo
a terra, a lembrança, o tempo.

E de momento em momento,
varrem seu próprio passar.

 

 

 O Varredor - Acrílico sobre tela de



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6 - Primeiro de Maio - DIA INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES

José Carlos Ary dos Santos (1937-1984)

 

Soneto do Trabalho

 

 

 

Das prensas dos martelos das bigornas

das foices dos arados das charruas

das alfaias dos cascos das dornas

é que nasce a canção que anda nas ruas.

-

Um povo não é livre em águas mornas

não se abre a liberdade com gazuas

á força do teu braço é que transformas

as fábricas e as terras que são tuas

-

Abre os olhos e vê. Sê vigilante

a reacção não passará diante

do teu punho fechado contra o medo.

-

Levanta-te meu povo. Não é tarde.

Agora é que o mar canta é que o sol arde

pois quando o povo acorda é sempre cedo.

 

 

 

(Vinte Anos de Poesia, 1983)

 

Vamos ouvir Fernando Tordo interpretar com música sua este poema de Ary dos Santos: 

 

 

 



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5 - Primeiro de Maio - DIA INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES

Isto anda tudo ligado

 

Quadro de Júlio Pomar

 

 

 

 

 

Eduardo Valente da Fonseca (1928 - 2003)

 

Canto do Ceifeiro

 

 

 

 

Canta ceifeiro canta,
sob o sol de Agosto, canta,
a terra é tão farta e tanta,
que chega para a tua fome
e cresce para a tua manta,

Canta ceifeiro canta
a charneca e não sossobres.
Espanta o medo e o cansaço,
aguenta mais um pedaço
e canta ceifeiro canta
o heroísmo dos pobres.

Canta ceifeiro canta
o Alentejo todo teu,
canta a charneca em flor,
canta o trigo com suor,
canta a lonjura do céu.
Canta ceifeiro canta
em Serpa. Cuba ou Ermidas,
ia que os braços são pequenos
dêem-se as vozes ao menos
que as vozes serão ouvidas.

 

 
Canta ceifeiro canta
canta sempre sem espanto
tudo quanto tanto anseias,
que não vem longe o minuto
do teu suor ser enchuto
e tu seres a própria Paz.
Canta ceifeiro canta
e diz de quanto és capaz,

Canta esses sulcos vermelhos
como as tuas maiores veias,
canta a luta e a tua sede
os azinheiros e o trigo,
canta a carne e o desabrigo
por todo o frio do inverno,
canta a morte dos teus filhos
mais a dos teus companheiros,
canta sempre canta, canta
belas canções de ceifeiro,
que o Alentejo cresceu.
dos teus braços de sobreiro
erguidos ao sol de estio,
e de todo o teu suor
Já do tamanho dum rio.

Canta ceifeiro canta
o Alentejo todo teu,
que nele foi que nasceste
com raízes desde o fundo,
e nele os irmãos da terra
vem sendo há muito ofendidos
nos seus sempre sagrados
e humanos cinco sentidos.

Canta ceifeiro canta
canta com ânsia e bravura
e que o canto que se levante
dê mais força á tua altura.

 

(A Cidade e os Homens e outros poemas, sem data)

 

 

Francisco Fanhais canta, com música de sua autoria, estes versos de Eduardo Valente da Fonseca:

.

 

 

E falando de ceifeiros, como podíamos esquecer o Cantar Alentejano, de José Afonso?

 

José Afonso (1929-1987)

 

Cantar alentejano 

 

 

Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram-na em vida
Baleizão a viu morrer

Ceifeiras na manhã fria
Flores na campa lhe vão pôr
Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou

Acalma o furor campina
Que o teu pranto não findou
Quem viu morrer Catarina
Não perdoa a quem matou

Aquela pomba tão branca
Todos a querem p´ra si
Ó Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti

Aquela andorinha negra
Bate as asas p´ra voar
Ó Alentejo esquecido
Inda um dia hás-de cantar

 

(Cantares, 1967)

 

 

 

 

 

E, como dizia o Eduardo Guerra Carneiro, isto anda tudo ligado - vejam a gravura que José Dias Coelho fez como homenagem à mesma Catarina Eufémia que inspirou a canção doZeca: 

 

 

 

 

 

 

 

 

 E(isto anda mesmo tudo ligado), ouçamos a canção que o Zeca dedicou a José Dias Coelho que foi assassinado a tiro pela PIDE, em 19 de Dezembro de 1961, na Rua dos Lusíadas, em Lisboa: A Morte Saiu à Rua - uma canção de uma arrepiante beleza:

 

 

 

 

 

 



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4 - Primeiro de Maio - DIA INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES

Afonso Duarte (1884-1958)

 

Elegia do cavador

 Quadro de Graça Morais

Deus do céu venha a meu rogo

Que a enxada já mal se ferra:

Grita o sol dardos de fogo

E eu ando farto da terra!

Há nuvens negras a prumo

sobre os meus ombros, ó dor!

São minha carne a pôr fumo,

São bagas do meu suor.

Vejo daqui a subir

Fumeiros da minha casa…

Outros que passam a rir

Custam-me os nervos em brasa.

Serei eu escravo dum crime

que a Deus fizesse algum homem?

De corpo feito num vime,

Minhas lágrimas consomem.

Deu-me Deus a vida cara,

P´rás nuvens se vai meu ganho:

Custam-me os olhos da cara

Donas das terras que amanho.

 

(Sete Poemas Líricos, 1929)

 

 

 Cavador ( 1913 ) Jardim Guerra Junqueiro (Jardim da Estrela), escultura de 

Augusto da Costa Motta (tio) (1862-1930)
 
 

Guerra Junqueiro (1850-1923)

 

O cavador


Dezembro, noite, canta o galo...
Rouco na treva canta o galo...
– Oh, dor! oh, dor! –
Aldeão não durmas!... Vai chamá-lo,
Miséria negra, vai chamá-lo!...
– Oh, dor! oh, dor! –
Bate-lhe à porta, é teu vassalo,
Que traga a enxada, é teu vassalo,
Miséria negra, o cavador!


O vento ulula... Tremem ninhos...
Na noite aziaga tremem ninhos...
– Oh, dor! oh, dor! –
A neve cai, fria d’arminhos...
Na escuridão, fria d’arminhos...
– Oh, dor! oh, dor! –
Passa maldito nos caminhos,
D’enxada ao ombro nos caminhos,
Fantasma negro, o cavador!


Vem roxa a estrela d'alvorada...
Vem morta a estrela d'alvorada –
– Oh, dor! oh, dor! –
Montanhas nuas sob a geada!...
Hirtas, de bronze, sob a geada!...
– Oh, dor! oh, dor! –
Torvo, inclinado sobre a enxada,
Rasga as montanhas com a enxada,
Fantasma negro, o cavador!


Cavou, cavou desde que é dia...
Cavou, cavou... Bateu meio-dia...
– Oh, dor! oh, dor! –
De pé na encosta erma e bravia,
Triste na encosta erma e bravia,
– Oh, dor! oh, dor! –
Largando a enxada, «Ave-Maria!...»
Reza em silêncio... «Ave-Maria!...»
Fantasma negro, o cavador!

Cavou, cavou na serra agreste,
D'alva à noitinha, em serra agreste...
– Oh, dor! oh, dor! –
E um caldo em prémio tu lhe deste,
Meu Deus!... seis filhos tu lhe deste...
– Oh, dor! oh, dor! –
Batem trindades... «Pai Celeste!...
Bendito sejas, Pai Celeste!...»
Reza, fantasma, o cavador!

Cavou cem montes... que é do trigo?
Gerou seis bocas... que é do trigo?!
– Oh, dor! oh, dor! –
Bateu a Fome ao seu postigo...
Bateu a Morte ao seu postigo...
– Oh, dor! oh, dor! –
«Que a paz de Deus seja comigo!...
Que a paz de Deus seja comigo!...»
Disse, expirando, o cavador!

 

 

 

 

 

(Os Simples, 1892)

 

Luís Cília canta-nos, com música de sua autoria, os versos de Guerra Junqueiro:

 

 

 

 



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3 - Primeiro de Maio - DIA INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES

 

 

 Afonso Duarte (1884-1958)

 

 

 

Búzios do mar

 

 

 

Praguejam pescadores: Ora esta, ora esta,

 

O mar na praia é um tambor em festa!

 

 

 

Danado e rouco ele há lá quem o fateixe!

 

O mar não anda bom…

 

E som, e som, som-som,

 

Deita a fugir o peixe.

 

 

 

Meus amigos, poveiros tal e qual

 

É a nobreza maior de Portugal!

 

 

 

Mesmo sou duma aldeia à beira-mar,

 

E ouço-o bem duas léguas em redol:

 

Meio ano a lavoirar,

 

Outro meio ao anzol!

 

 

 

Meus patrícios cada qual

 

Tem o seu bote que é o seu casal.

 

 

 

Mas, o Oceano, o mar nâo anda bom:

 

Ondas são trambolhões, e trambolhões de som!

 

 

 

Ó mar, meu brutamontes,

 

Música, deixa ouvi-la da noitinha;

 

Eu quero ouvir o murmurar das fontes

 

Que a noite já se avizinha….

 

 

 

 

 

 

 (Lápides e outros poemas, organizado por Carlos de Oliveira e João José Cochofel, 1960)

 

 

 

 

Almeida Garrett (1799-1854)

 

Barca bela

 

 

Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela,
Que é tão bela,
Ó pescador?

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Ó pescador!

 


 

 

 

 Deita o lanço com cautela,

Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Ó pescador!

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Ó pescador!

Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela,
Foge dela,
Ó pescador!

 

(Folhas Caídas, 1853)

 

Ouçamos agora o poema de Garrett cantado por Teresa Silva de Carvalho , autora da música:

 

 



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