O Mistério da camioneta fantasma, de Hélder Costa -12
(Continuação)
2o. Acto
A confissão
(Berta Maia - chapéu e véu, agente Barbosa Viana).
Barbosa Viana – D. Berta Maia, o Abel Olímpio está muito perturbado e não mostrou nenhum interesse em voltar a vê-la.
Berta Maia – sr. Barbosa Viana, eu não desisto. Quero vê-lo. Por favor, tragam-mo.
( Barbosa Viana traz Abel Olímpio, muito pálido, com ar de tuberculoso).
Berta Maia – Ai, Abel, como tu estás! Morres e eu fico sem saber nada! O que é que te fizeram? Berta Maia –Abel, o que ganhas tu com essa situação? O que ganhas tu em esconder os que te atiraram para esta cadeia e que te estão a matar aos poucos? Tu estás doente, Abel, tu estás muito doente. Se calhar andam a envenenar-te aos poucos, com a comida.
Abel Olímpio – Eu já pensei nisso, minha senhora. Sinto-me mal, não tenho apetite, definho a olhos vistos.
Berta Maia – Sim, pareces tuberculoso com essa palidez e essas olheiras. Andam a matar-te, Abel. Tens que te tratar. Eu mando-te um médico. Não morras sem me dizeres a verdade. Não morras com esses remorsos na consciência. Acredita na palavra de Cristo. Ele é piedoso e desculpará os teus crimes na eternidade. Mas tens de ser sincero e corajoso. Diz-me quem te mandou matar o meu marido.
Abel Olímpio – Ninguém mandou. Desconfie a senhora daqueles que mais choram o seu marido.
Berta Maia – Acusa esse meu melhor amigo, acusa! Diz quem é!
Barbosa Viana – D. Berta, calma! Abel Olímpio, os crimes foram praticados e não há solução. Ninguém pode fazer tornar à vida Carlos da Maia, António Granjo, Machado Santos e os outros. Mas pode-se fazer luz sobre todo esse caso que tem perturbado a nossa sociedade. Ninguém acredita que tu tivesses agido sozinho, por tua conta e risco. Essa camioneta fantasma apontou muito alto, foi aos grandes vultos da República. Nunca, em nenhum país, se passou um caso tão cruel e misterioso. Para bem de todos, o assunto deve ser esclarecido. E tu és a pessoa que podes ajudar a que se faça luz sobre este mistério. Falando, limpas o teu nome. Coragem, Abel Olímpio.
Abel Olímpio( titubeante, com pausas) – Não fiz nada, não sei nada, andei com a camioneta tenente Mergulhão Granjo o país na ruína, jornal a “ Época”, Padre Lima eu sou contra traidores criminosos da República, Época crime morte D. Carlos marinheiros na marinha a luta miséria minha mãe Padre Lima monsanto...
Berta Maia – “ Época”, o que é isso do jornal a “Época”?
Abel Olímpio – Não foi nada de importante.
Berta Maia – Justamente porque não é nada de importante, diz.
Abel Olímpio – Houve uma revolução, vaca e Alguidar, plano em Monsanto, juntávamo-nos, acreditava-mos que íamos ganhar Monsanto, D. Carlos, vacas e porcos, sementeiras de milho, Época, quero ir para o mar, senhor padre, castigo divino, tiros...
Barbosa Viana – Porquê toda essa história que não tem fim e que não nos interessa nada? O que é que ias fazer ao jornal? O que ias fazer à Época?
Abel Olímpio – O Padre Lima levava-me lá para me darem dinheiro. Tínhamos reuniões na Avenida ali por alturas da Rua das Pretas, e no escritório do sr. Moutinho de Carvalho...
Barbosa Viana – Vamos, homem, coragem! Vai até ao fim! Não foste o maior criminoso, fala!
Abel Olímpio – Minha senhora, a República não avança porque os monárquicos se introduzem nela e não deixam. Quem me deu a camioneta foi o tenente Mergulhão. É monárquico ou republicano? Isso não sei, mas isto é verdade.
Berta Maia – E porque é que foste matar esta gente?
Abel Olímpio – Porque faziam parte de uma lista que o Padre Lima me deu.
Berta Maia – Uma lista? Onde está essa lista?
Abel Olímpio – Essa lista ficou em poder do adjunto da polícia de segurança do Estado senhor Virgílio Pinhão...
Barbosa Viana – Está na polícia?
Abel Olímpio – Foi ele quem ficou com ela. Eu quero dizer uma coisa à senhora.
Eu decidi falar porque o Augusto Gomes está preso por ter assassinado a actriz Maria Alves. Ele jurou que me matava se eu falasse. E eu sei que é verdade, porque já matou o José de Pinho que tinha sido marinheiro como ele, mulheres com quem viveu... é um criminoso sem remorsos, e eu tenho medo.
Barbosa Viana – então, o Augusto Gomes era um dos chefes do golpe...( risos)... afinal, entre os empresários teatrais há grandes artistas...
Berta Maia – Com ele preso, já não tens de ter medo.
Abel Olímpio – Tenho medo, tenho. Ele tem sicários capazes de tudo. Minha senhora, proteja-me, façam a revisão do meu processo. Ajude-me!
(Barbosa Viana leva – o)
Berta Maia – Mataste o meu marido, mas eu vou ajudar-te. Vão saber quem ordenou estes crimes.
Boaventura de Sousa Santos no Estrolabio - As Grandes Ilusões
Tudo foi feito para que os cidadãos do mundo se sentissem aliviados e confortados com os resultados da Cimeira do G20 que acaba de se realizar em Londres. Os sorrisos e os abraços encheram os noticiários, o dinheiro jorrou para além do que estava previsto, não houve conflitos – do tipo dos que houve na Conferência de Londres de 1933, em igual tempo de crise, quando Roosevelt abandonou a reunião em protesto contra os banqueiros – e, como se não houvesse melhor indicador de êxito, os índices das bolsas de valores, a começar por Wall Street, dispararam em estado de euforia. Além de tudo, foi muito eficaz. Enquanto uma reunião anterior, com objectivos algo similares, durou mais de 20 dias – Bretton Woods, 1944, donde saiu a arquitectura financeira dos últimos cinquenta anos – a reunião de Londres durou um dia. Podemos confiar no que lemos, vemos e ouvimos? Não. Por várias razões. Qualquer cidadão com as simples luzes da vida e da experiência sabe que, com excepção das vacinas, nenhuma substância perigosa pode curar os males que causa. Ora, por sob a retórica, o que se decidiu em Londres foi garantir ao capital financeiro continuar a agir como tem agido nos últimos trinta anos, depois de se ter libertado dos controlos estritos a que antes estava sujeito. Ou seja, acumular lucros fabulosos nas épocas de prosperidade e contar, nas épocas de crise, com a “generosidade” dos contribuintes, desempregados, pensionistas roubados, famílias sem casa, garantida pelo Estado do Seu Bem Estar. Aqui reside a euforia de Wall Street. Nada disto é surpreendente se tivermos em mente que os verdadeiros artífices das soluções – os dois principais conselheiros económicos de Obama, Timothy Geithner e Larry Summers – são homens de Wall Street e que esta, ao longo das últimas décadas, financiou a classe política norte-americana em troca da substituição da regulamentação estatal por auto-regulação. Há mesmo quem fale de um golpe de Estado de Wall Street sobre Washington, cuja verdadeira dimensão e estrago se revela agora.
O contraste entre os objectivos da reunião de Bretton Woods, onde participaram não 20, mas 44 países, e a de Londres explica a vertiginosa rapidez desta última. Na primeira, o objectivo foi resolver as crises económicas que se arrastavam desde 1929 e criar uma arquitectura financeira robusta, com sistemas de segurança e de alerta, que permitisse ao capitalismo prosperar no meio de forte contestação social, a maior parte dela de orientação socialista. Ao contrário, em Londres, assistimos a pura cosmética, reciclagem institucional, sem outro objectivo que não o de manter o actual modelo de concentração de riqueza, sem qualquer temor do protesto social – por se assumir que os cidadãos estão resignados perante a suposta falta de alternativa – e mesmo recuando em relação às preocupações ambientais, as quais voltaram ao seu estatuto de luxo para usar em melhores tempos.
As instituições de Bretton Woods (FMI e Banco Mundial, em especial) há muito que vinham a ser desvirtuadas. As suas responsabilidades nas crises financeiras dos últimos 20 anos (México, Ásia, Rússia, Brasil) e no sofrimento humano causado a vastas populações por meio de medidas depois reconhecidas como tendo sido erradas – por exemplo, a destruição, de um dia para o outro, da indústria do caju de Moçambique, deixando milhares de famílias sem subsistência – levaram a pensar que poderíamos estar num novo começo, com novas instituições ou profundas reformas das existentes. Nada disso ocorreu. O FMI viu-se reforçado nos seus meios, continuando a Europa a deter 32% dos votos e os EUA 16,8%. Como é possível imaginar que os erros não vão repetir-se?
A reunião do G20 vai, pois, ser conhecida pelo que não quis ver ou enfrentar: a crescente pressão para que a moeda internacional de reserva deixe de ser o dólar; o crescente proteccionismo como prova de que nem os países que participaram nela confiam no que foi decidido (o Banco Mundial identificou 73 medidas de proteccionismo tomadas recentemente por 17 dos 20 países participantes); o fortalecimento de integrações regionais Sul-Sul, na América Latina, na África, na Ásia, e entre a América Latina e o Mundo Árabe; a reposição da protecção social – os direitos sociais e económicos dos trabalhadores – como factor insubstituível de coesão social; a aspiração de milhões para que as questões ambientais sejam finalmente postas no centro do modelo de desenvolvimento; a ocasião perdida para terminar com o segredo bancário e os paraísos fiscais – como medidas para transformar a banca num serviço público ao dispor de empresários produtivos e de consumidores conscientes.
Vou fazer outra escolha emocional - "Caminito", um tango cantado pelo grande e eterno Carlos Gardel, patrono (esta escolha é da Carla) da fracção onomástica dos Carlos, verdadeira vanguarda revolucionária da nação estrolábica. Dedicado com amizade às duas partes em que a Humanidade se divide:
a) os Carlos;
b) aqueles que por infelicidade, mau gosto e imperícia dos padrinhos têm outro nome.
Salvador Bacarisse Chinoria (Madrid, 1898 – París,1963), músico e compositor espanhol. Durante o Governo da República, desempenhou funções na sua área de competência, sendo director artístico da Unión Radio até 1936. Quando, em 1939, terminou a Guerra Civil, exilou.-se em Paris. Foi militante do Partido Comunista de Espanha a partir de 1945 e, até 1963, ano de sua morte, trabalhou na Radiodiffusion-Télévision Française como produtor de programas em língua castelhana.
Entre a sua vasta obra, destaca-se este "Concertino para guitarra e orquestra em lá menor, opus 72", composto em 1957 num estilo romântico próximo do "Concerto de Aranjuez", composto em 1940 por Joaquín Rodrigo. Vamos ouvir com atenção.
A ocupação de tempos livres dos reformados do meu bairro é a ida à farmácia. Vão-se revezando no banquinho posto ali a modos de confessionário, contam a tensão alta, a diabetes, os bicos-de-papagaio, o sopro no coração, os filhos distantes, a casa vazia, o temor a não ter quem lhes valha.
Cá no bairro não há reformados nas universidades sénior nem sócios do Inatel, não há quem aprenda xadrez ou mandarim, ou vá por fim visitar as Berlengas ou percorrer a Rota dos Templos Marianos. As horas livres passam-se na farmácia, e aviar receitas é somente uma pequena parte do muito que a farmácia tem para oferecer. À falta de emoções tumultuosas, dessas que uma experiência tardia de salto de parapente poderia proporcionar, sentam-se destemidamente no banquinho e medem as tensões todas as manhãs, picam o dedo à cata de uma glicose com a mania das grandezas, mostram sem vergonha a unha encravada do pé ou a manchinha suspeita no braço, descrevem, com detalhe de maníaco, aquela pontada-à-espécie-de-uma lâmina-que-se-crava-na-carne.
Bem pode o jovem afogueado bufar atrás deles, comentar que está atrasado para o trabalho, queixar-se que só queria paracetamol para a dor de cabeça, que de nada serve. Os reformados do meu bairro desfrutam de cada instante na farmácia e não dispensam as animadas, ainda que sempre respeitosas, discussões com o farmacêutico, seja sobre as propriedades do anticoagulante, as percentagens da comparticipação, a análise da situação política – “uma pouca vergonha” – ou as virtudes das benzodiazepinas – “Eu sem isto já não durmo, seu doutor”.
Os reformados do meu bairro detestam os domingos. Saem de casa contrariados nesse dia, resmungam pela rua a caminho da padaria, passam pouco depois com o saco da regueifa, e vão espreitar a cruz verde com uma réstia de esperança que seja dia de serviço na farmácia.
Suspeito que, em algum canto da cidade, o farmacêutico experimenta a mesma angústia e anseia secretamente pela chegada da segunda-feira. Porque se vissem esse homem, com olhos bondosos e bigode afável, a voz ligeiramente nasalada, um pouco aguda, e a agilidade com que saltita por entre os gavetões dos comprimidos, a facilidade com que evoca o nome do periquito do senhor asmático ou o aniversário da morte do marido da senhora da flebite, concordariam que em nenhum outro lugar é mais feliz.
Animador de tempos livres, terapeuta de reabilitação de solitários amedrontados pelos médicos e obcecados pelas virtudes dos fármacos, há-de entretê-los até os ver passar no carro fúnebre e não deixará de vir à porta saudar a sua passagem nesse dia, com a bata branca imaculada e as costas ligeiramente curvadas.
E por isso eu espero tanto na farmácia, e saio sem chegar a comprar nada, prometendo voltar depois, porque sei que me intrometo no que não me pertence, como quem força a entrada em casa alheia sem nunca ter sido convidado. E de cada vez que espreito a essa casa apetece-me largar a correr e não parar tão cedo.
República nos livros de ontem nos livros de hoje - 193 e 194 (José Brandão)
Um Jornal na Revolução
Jacinto Baptista
Seara Nova, 1966
O Século, apesar das suas opiniões. era, predominantemente, jornal de informação, enquanto o outro, O Mundo, a despeito das suas informações, se afirmava, essencialmente, jornal de opinião, não devia diferir muito, à data da revolução de Outubro, senão a tiragem, pelo menos a cotação de que um e outro fruíam no mercado de leitores, a avaliar pela publicidade (quer-se atestado mais qualificado?) que, por igual, preenche o espaço de ambos nas edições que lançam para a rua, por exemplo no dia 7 de Outubro de 1910: num, como noutro caso, uma página inteira de anúncios para cinco de texto.
Mas, apesar de tudo, não se tome como rigorosamente infalível o critério de avaliar a expansão de um jornal só pela quantidade de anúncios que insere: desconsertar-nos-ia. O País daquele mesmo dia 7, que reparte as suas quatro páginas em duas de anúncios e duas de redacção.
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Um Marinheiro Romântico
Bourbon e Menezes
Lisboa, 1924
A viúva de José Carlos da Maia agradece a Rocha Marfins e a Bourbon e Meneses a sua anuência para a publicação deste livrinho como homenagem a seu infeliz marido, e dedica-o ao seu querido filho Francisco Manuel para no exemplo da vida honestíssima e altamente Patriótica de seu Pai aprender a imitá-lo.
Também o dedica aos poucos mas excelentes Amigos que se comoveram ante a tragédia horrível, e tem manifestado o seu protesto, prestando culto á memória de seu adorado Marido, carinhos esmolas e benefícios á mulher e ao filhinho que ele tanto amou. _______________________________________
Dia Mundial da Música - Ornatos Violeta - Capitão Romance
Eva Cruz
A propósito do pedido de colaboração para o Dia Mundial da Música, lembrei-me de uma melodia muito bonita do Manuel Cruz, cuja letra incluo e que não é menos bonita. A única barreira à Democracia é ser da família. Peço desculpa, mas pela sua modernidade e beleza vale a pena ser partilhada. Envio apenas a letra. Não domino suficientemente estes meios de comunicação para enviar a música. Mas é fácil procurar, julgo eu. Manuel Cruz - Ornatos Violeta - Capitão Romance. È o segundo single do álbum de 1999 dos Ornatos Violeta “ O monstro precisa de amigos “ Esta música conta também com a voz de gordon gano, vocalista dos “ Violent femmes “ que viajou até Portugal para cantar esta música com os Ornatos.
Não vou procurar quem espero Se o que eu quero é navegar. Pelo tamanho das ondas conto não voltar. Parto rumo à Primavera Que em meu fundo se escondeu. Esqueço tudo do que eu sou capaz Hoje o mar sou eu. Esperam-me ondas que persistem Nunca param de bater Esperam-me homens que desistem Antes de morrer. Por querer mais do que a vida Sou a sombra do que eu sou E ao fim não toquei em nada Do que em mim tocou.
Eu vi Mas não agarrei
Parto rumo à maravilha Rumo à dor que houver pra vir. Se eu encontrar uma ilha Paro para sentir E dar sentido à viagem. Pra sentir que eu sou capaz Se o meu peito diz coragem Volto a partir em paz.
Hoje, dia mundial da música, não posso deixar de evocar o conjunto musical britânico “ The Beatles” que marcaram a minha geração. O conjunto oriundo de Liverpool e formado por John Lennon, Ringo Star, Paul McCartney e George Harrison, ficará para sempre como um dos marcos da chamada era (década de 60) em que o mundo mudou. Começou com o “Love me do” em 1962 e julgo ter terminado com “The long and winding road” em 1969. Criado em 1962, dissolveu-se em 1970.
A primeira vez que os ouvi (1962) foi no rádio da casa de um amigo meu em Castelo Branco. O pai professor primário que tinha vivido em Londres, tinha uma visão avançada para a época e tinha posto à disposição dos filhos um quarto no rés-do-chão, com janela para a rua.
A Janela estava sempre aberta. Lá dentro era "terreno livre" dos filhos e dos amigos que faziam da janela porta, para entrar naquele espaço onde apenas estava a telefonia (muito potente) que nos permitia ouvir rádios estrangeiras, incluindo as chamadas rádios “pirata”.
Nas férias de verão (Julho a Setembro) desde manhã até á noite, com a janela aberta podíamos ouvir toda aquela música da nova vaga dos anos 60. Foi portanto através de uma rádio “pirata” cujo nome não me lembro que ouvi os “Beatles” pela primeira vez. Ainda me lembro do nome da música “Love me do”, que foi o primeiro “single” gravado em Setembro/62. As músicas dos “Beatles”, para além de serem agradáveis de ouvir e romperem com todo o tipo de música ligeira que ouvíamos, estão associadas na minha memória aos bailes e aos namoricos (o facto de ouvirmos a música e a dançarmos fazia-nos sentir como parte dos rebeldes da época).
O single “Love me do” (1962), esteve nos Top 20 do Reino Unido e chegou a ser nº 1 nos Estados Unidos da América.
A partir deste êxito a inspiração de John, Paul e mais tarde George de que se destaca “something”, nunca mais parou e cada música passou a ser um êxito, que todo o mundo jovem conhecia e cantava.
Entre a sua colectânea, destaco (por anos) as seguintes músicas: Love me do (1962); She Loves you (1963); I Want to hold your hand (1963); “ A hard day’s night (1964); Help (1965); Yesterday (1965); Yellow submarine (1966); Eleanor Rigby (1966); Penny Lane (1967) All you need is love (1967); hello, goodbye (1967); Hei Jude (1968); Get back (1969); something (1969); Let it be (1969); The long and winding road (1969).
As rádios nacionais não passavam a nova música dos anos 60. Só em 1965 os portugueses ouvem, pela primeira vez, no programa “Em Órbita” do Rádio Clube Português os sons do mítico álbum dos Beatles Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, ou os êxitos dos “Rolling Stones” “The Doors” “Animals” “The Who” ou dos “Beach Boys”.
Gostaria de terminar com a reprodução de uma das letras cantadas pelos “Beatles”, mas não conheço nenhuma com substância equivalente à sua musicalidade. Por isso deixo o “Imagine” de John Lennon (edição a solo de 1971) depois de os Beatles terem terminado.
O compositor, nascido em Bonn, foi baptizado em 17 de Dezembro de 1770 — faleceu em Viena, no dia 26 de Março de 1827 de mudou a fase da música. Introduziu, com o saber do seu professor, Joseph Haydn (1732-1809) . É possível supor que tenha nascido a 15 de Dezembro desse ano, porque era hábito cristianizar ao bebé, antes que a morte os leva-se. Como nos tempos de van Beethoven os pequenos morriam prematuramente, as famílias luteranas e católicas romanas, levavam ao bebé a sua paróquia enquanto puder sair de casa, especialmente no frio do inverno da germânica Bonn ou Bona. Era o segundo filho mais velho de sete irmãos, dos quais apenas sobreviveram, Kaspar Anton Carl van Beethoven (1774-1815) que também tinha dotes para a música e que morreu com 41 anos; o quarto, Nicolaus Johann van Beethoven (1776-1848), que se tornou muito rico, graças à indústria farmacêutica, e que morreu com 72 ano. Os outros cinco três faleceram ao nascer, e os outros, com dois anos de idade. O seu pai, (1740-1792). O seu pai, Johann van Beethoven (1740-1792), viúvo já e com filhos para criar, experimentou educar este segundo Ludwig, o primeiro tinha falecido ao nascer um ano antes de aparecer no mundo este segundo Ludwig, para a nossa glória e prazer. Em pequeno era já capaz de tocar o cravo, antes de aparecer o Pina forte sem pedais, no qual compôs o seu primeiro concerto, em 1795, para passar a seguir, a escrever os seus concertos quatro e cinco no Forte Piano com pedais, 1824. A sua nota preferida era a tonalidade Mi Maior, tonalidade que empregou em várias das suas peças de música, especialmente na muito cumprida sinfonia nº3 em Mi bemol Maior, apelidada de "Eroica", cuja dedicatória a Napoleão Bonaparte foi retirada com alguma polémica. A sinfonia Eroica era duas vezes mais longa que qualquer sinfonia escrita até então.
Tenho afirmado antes, que Beethoven era um revolucionário, não apenas na vida musical, como compositor e concertista de recitais públicos, bem como na vida política. Não era apenas um bonapartista, era membro de grupo denominado da Ilustração, organização onde conheceu a Schiller, passando a ser amigos para toda a vida. Em honra a ele escreveu a sua nona sinfonia, denominada a Sinfonia Coral, com quatro movimentos, para orquestra e coro, que entra como música no quarto movimento. O 1º é um Allegro, para orquestra, o 2º movimento e na tonalidade muito vivace, o terceiro, onde são salientados os violinos e fagote, é na tonalidade Adágio ou lento e profundo. É no quarto movimento que a tonalidade Presto o rápido, que entra o coro como um quarto instrumento, que predomina por cima da som da orquestra. Foi, junto com a Missa em Ré, a obra cume do autor que comento, estreada em 1824 e intitulada Missa Solemnis. A sensação que causara fez que tiver que ser tocada várias vezes em actos solenes e rituais. Como a sua Sinfonia 9, que teve que ser repetida durante uma semana, com um Beethoven já absolutamente surdo, pelo que ele estava ao pé do Maestro que conduzia a Sinfonia. Era, para nossa tristeza, a música que o compositor nunca ouviu, mas ele insistia que era o autor e os instrumentos tocavam e os coros cantavam para ele, dentro da sua cabeça.
É difícil escreve em curto espaço, o prodígio Beethoven. A ele deve-se a denomina música clássica, a semelhança dos gregos antigos: cada nota em qualquer tonalidade, deve cair no minuto preciso para dar continuidade e seguimento harmonioso à peça interpretada, com agilidade, no Adagio, com os silêncios em do maior, para entrar a seguir aos andante com motto, ou os allegro com brio. Todas as notas som de uma octava e o pedal é usado para cortar a nota anterior e entrarem as notas brilhantes, que são cortadas para passar a outras tonalidades. O melhor exemplo é a dedicada a seu mecenas, o Conde de Waldstein, quem pagara os seus estudos de música e literatura. The Piano Sonata No. 21 in C major, Op. 53, also known as the Waldstein, é considerada como sendo a melhor sonata de Beethoven de entre tantas piano sonatas compostas por ele, bem como uma das melhores das três escritas ou compostas em esse período ou seu middle period (sendo as outras a Appassionata , sonata, Op. 57, e Les Adieux, Op. 81a). A Waldstein foi completada no verão de 1804. Causou estupor e muitos músicos retiraram dela a sua própria música: era uma lição feita música!
O compositor não tinha apenas problemas de interacção social, por causa da sua surdez, bem como esta falta de comunicação produzia um temperamento irascível. Amor teve muito, todas as condessas e duquesas que ele ensinava. Um compositor não pode subsistir apenas da sua composição, tem que ensinar ou ser servo de um Arcebispo, como Mozart com Colloredo. Beethoven libertou a música de tutelas e patronatos: doravante, a música passou a ser uma mercadoria que podia sustentar ao autor. Mas por ser ele o primeiro, muitos trabalhos sofreu para ser autónomo.
O problema mais grave, era ser celibatário e viver só. Todos conhecemos a história do seu sobrinho, que ele queria apadrinhar, o filho do já falecido irmão Kaspar. Não conseguiu, mas entre a sua papelada uma carta foi encontrada endereçada a uma mulher, a que denomina a sua Amada Imortal. Cartas iam, respostas tornavam, sempre sem nome. Um dela diz: Manhã de 6 de Julho
"Meu anjo, meu tudo, meu próprio ser – Hoje apenas algumas palavras a caneta (a tua caneta).
Só amanhã os meus alugueres estarão definidos – que desperdício de tempo....... por que sinto essa tristeza profunda se é a necessidade quem manda? Pode o teu amor resistir a todo sacrifício embora não exijamos tudo um do outro? Podes tu mudar o facto de que és completamente minha e eu completamente teu? Oh Deus! Olha para as belezas da natureza e conforta o teu coração. O amor exige tudo, assim sou como tu, e tu és comigo. Mas esqueces-te tão facilmente que eu vivo por ti e por mim. Se estivéssemos completamente unidos, tu sentirias essa dor assim como eu a sinto.
O meu dia foi terrível: ontem só cheguei aqui às 4 horas da manhã. Com a falta de cavalos, o cocheiro do correio escolheu um novo caminho, mas que terrível caminho, na penúltima paragem eu fui avisado para não viajar à noite, fiquei com medo da floresta, mas isso só me deixou mais ansioso - e eu estava errado. O cocheiro precisou parar na infeliz estrada, uma imprestável e barrenta estrada. Se eu estivesse sem todas as coisas que trago comigo teria ficado preso na estrada. Esterhazy, viajando pela estrada, teve o mesmo problema com oito cavalos que eu tive com quatro - sinto prazer com isso, como sempre sinto quando supero com sucesso as dificuldades.
Agora uma rápida mudança das coisas externas para as internas. Nós provavelmente devemos nos ver em breve, entretanto, hoje eu não posso dividir contigo os pensamentos que tive nos últimos dias sobre minha própria vida – Se os nossos corações estivessem sempre juntos, eu não teria nenhum.... O meu coração está cheio de coisas que eu gostaria de te dizer – ah – há momentos em que sinto que esse discurso é tão vazio – Alegra-te – Lembra-te da minha verdade, o meu único tesouro, o meu tudo como eu sou o teu. Os deuses devem-nos mandar paz... Teu fiel Ludwig
Foi a desgraça de Van Beethoven, desgraça que, entre outras - a sua falta de ouvido, o desdém do sobrinho e o seu carácter sarcástico, a sua lealdade à causa revolucionária para derrubar à aristocracia e a burguesia acomodada - fizeram dele um lutador tão radical como os seus reais amigos Iluministas e Maçons.
Faleceu muito cedo, aos 56 anos de idade, completando assim um ciclo de 46 anos de criar e recriar a música. Ludwig van Beethoven foi o paladino de la liberdade na expressão musical. Sentiu-se traído por Bonaparte e retirou a dedicatória. Era já o socialismo de Babeuf e o seu manifesto de Plebeus de 1785, prenúncio do escrito de Jenney Marx, que, com as ideias do seu marido, redigiu o Manifesto Comunista. Beethoven não apenas foi um músico de alta estatura teórica, bem como um radical que arremetia contra os opulentos com a sua música, composições às que tiveram que se adaptar a seguir o barroco e o pré classicismo de Haydn.
Se não houver dia da música, teria que ser criado o dia de Ludvig van Beethoven….Se ao funeral de Mozart, que alegra a vida ninguém foi, ao de Beethoven foi o Imperador, a sua corte e dezenas de pessoas. Um monumento marca o seu sítio de descanso.
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Ouçamos Für Elise, interpretado por Stephen Malinowski:
Na Baixa de Lisboa há imensos engraxadores de sapatos, porque engraxador de ego e de lugares bem pagos há muitos mais, todos eles com características bem distintas.
Há o engraxador ali à porta da ginjinha, é só sair reconfortado, com a "ginjinha com elas" e engraxar os sapatos depois, é um ritual de dezenas de anos que também vai bem com a ida ao teatro ou aos espectáculos do Coliseu.
Há também o engraxador junto do Rock Café, nos restauradores, com chapéu de sol, televisão e rádio, tudo à vontade do freguês que recostado em cadeira "rócócó" faz um figurão, antes de caminhar para o "Solar dos Presuntos" onde encontrará a cozinha minhota em todo o seu esplendor.
Temos ainda o engraxador "móvel" que podemos encontrar num qualquer café, serviços mínimos, é engraxar e andar para outra esplanada, ferramentas não mais que a caixa e " tem que ser tinta vermelha que a preta já acabou" e "ala" que este já está.
Mas há outros interessantíssimos como Zeca, "o fadista", antigo cantador de fados das melhores casas de Lisboa, discos gravados que rodam sem cessar no seu equipamento último modelo, não vá o som trair aquela voz. À tarde troca a caixa da graxa pela viola e junta-se-lhe a "Amélia cantadeira", já só lhe resta o xaile das noites de glória.
Nos Restauradores, à frente dos CTT ( querem tirar os CTT dali, daquele sítio sem igual, para mais uma negociata com um prédio igual a tantos outros ali no Parque das nações) há o único engraxador de todo o mundo que passa o santo dia a ler. Tem meia dúzia de livros em exposição (nunca o vi vender nenhum) e lê sem cessar, para o cliente ter o serviço precisa de tropeçar nele porque de outra maneira o homem está tão absorto que não ouve ninguém, cachimbo permanentemente na boca, barba de intelectual, boné à maneira, e o nosso leitor compulsivo, é o engraxador que menos factura, estou em crer que só começa a engraxar quando se lhe acabarem os livros. Pois, um dia já bem afastado, apanhei-o sem livros e lá o convenci a engraxar-me os sapatos, e meti conversa, o homem é uma enciclopédia, estávamos naquilo, não havia graxa nenhuma, ele para me explicar os livros e os autores, tinha que ter os olhos postos em mim, e estávamos naquela, conversa para aqui, livros para acolá, até que chega um par de "alemães" que me pediram para tirar uma fotografia, ao acto de engraxar os sapatos..
Olhei para o meu amigo amante de livros e ele com um sorriso condescendente disse que sim, e eu para "os alemães", uma só fotografia não mas se forem duas, sim senhor, levem lá o "very typical", e eles logo que sim, ainda era melhor. E, em pose, lá nos deixamos fotografar com o meu amigo na posição de engraxador, a seguir trocamos, fui eu sentar-me na caixa e ele em pé a estender-me os sapatos mais bem engraxados que eu já vira, e "os alemães" de sorriso amarelo lá tiraram a "very typical" fotografia de dois malucos que tinham encontrado ao sol de Lisboa.
Resolvi fazer uma escolha emocional - escolhi a «Jornada» com letra de José Gomes Ferreira, música de Fernando Lopes Graça - uma das suas belíssimas "Heróicas" - cantada superiormente pela linda voz da Luísa Basto. Em 1947, quando nasceu o ramo juvenil do MUD, o grande poeta José Gomes Ferreiraa escreveu a letra do hino «Jornada» ou «Vozes ao Alto», como é conhecido. Durante as frequentes e intensas lutas estudantis dos anos sessenta, este hino cantado por jovens, mesmo pelos que, mais à direita ou mais à esquerda, não militavam no Partido Comunista, organização tutelar do MUD Juvenil. O "Jornada" serviu também de indicativo à estação clandestina Rádio Portugal Livre que emiitia a partir de Praga,
Nos tempos que antecederam a Revolução de Abril, embora por todos os motivos, fosse uma composição ligada ao Partido Comunista, era cantada pelos antifascistas em geral. Toda a gente que me conhece sabe que não estou nem nunca estive ligado ao PCP, cuja linha sempre recusei, mas cujos militantes sempre respeitei, tendo por grandes amigos alguns deles. Seria sectarismo da minha parte não homenagear estes três pecepistas - José Gomes Ferreira, Fernando Lopes Graça e Luísa Basto - admiráveis no sentido mais literal da palavra- aos quais agradeço esta vibrante «Jornada» que os estudantes e trabalhadores conheciam como «Vozes ao Alto». No presídio de Caxias, muitas vezes a cantei a plenos pulmões - com a vantagem de não correr o risco de ser preso.
O Luís chegou a casa agitado. Marta, a sua mulher, recebeu-o notando o desassossego. Ela nada disse, ficou a vê-lo enquanto ele poisava as chaves do carro, esvaziava as algibeiras e deitava um olhar ao interior do maço de tabaco. Já só tenho dois cigarros, e é o segundo maço hoje…não dizes nada Marta? Estranhou o Luís levantando os olhos para ela sem mexer a cabeça. Não! Ou melhor, percebi logo na entrada que te exaltaste no serviço, e queres que puxe conversa para desabafares. Fez-se silêncio, Marta saboreou o efeito, e depois fechou, – e sabes que detesto esse vício do fumo. Martinha, disse o Luís mais equilibrado, não fui só eu a fumar naquele átrio dos elevadores, todo o escritório parou por lá. Nesse caso, Luís, se te ajudaram a queimar os cigarros pouparam-te a saúde. Não é nada disso Marta, eu fumei os meus cigarros; o que se passa é que andam todos preocupados com as medidas de austeridade, ninguém sabe o que deve fazer, estivemos a discutir o assunto. E concluíram alguma coisa? Bom, falam em fazer um orçamento familiar, aquela gente não é para lutas. E tu Luís o que achas? Também sou a favor do orçamento familiar, mas para tramar o governo e o Passos Coelho e todos os que querem mexer no nosso dinheirinho; olha Marta, chama o rapaz que já tem idade para participar e vamos fazer um orçamento. O Huguinho não pode vir, está a copiar um trabalho que encontrou na Internet para uma das suas disciplinas, eu depois dou um toque para não se ver que é brasileiro.
Está bem Marta, os estudos estão primeiro, o Huguinho é um vivaço, vai ter muito sucesso.
A minha ideia, Marta, parte deste princípio; para o ano tudo vai ser mais caro, portanto temos de comprar este ano para poupar, começamos por comprar novos automóveis. Ó Luís, mas ainda em Junho trocámos de carros. Marta, isso foi porque o IVA ia subir para 21% em Julho, ora em 2011 vai subir para 23%, ainda poupamos mais. E electrodomésticos o que faz falta? Nada. Então Martinha, não era bom ter um frigorífico “no frost” maior, uma máquina de lavar mais silenciosa, o tal fogão italiano, o centro da cozinha em mármore? Para isso tinha de se fazer obras, Luís. Fazem-se! Temos de fazer também uma lista de novas mobílias que esta decoração já cansa. E para o Huguinho, Luís? Ao rapaz não se deve negar nada, não ouves dizer que serão as novas gerações a pagar as dívidas de hoje? Tudo o que pedir tem. Amanhã continuamos a fazer a lista, vai pensando. Espera aí Luís, e como vamos pagar todas as compras do orçamento? A crédito claro, para isso fazemos uma segunda lista, somamos o plafond de crédito das nossas contas bancárias, mais os cartões e a Cofifaz e o Banco Diz e o Banco Menos que ainda hoje me mandou um “sms” com crédito aprovado que não pedi, etc. não te preocupes. O valor das parcelas das dívidas e do crédito dando o mesmo, temos o orçamento aprovado. Mas… e os empréstimos não é preciso pagá-los, e os juros? Ó Marta é com essas teorias que nos inventam a austeridade, mas para ficares descansada marcamos já uma reunião com a DECO para renegociar a divida daqui a seis meses, isto se as coisas correrem para o torto. Entretanto podemos comprar um cruzeiro de circum-navegação que por cá o ambiente não deve ser grande coisa.
No libreto de "Dido & Aeneas", de Henry Purcell, esta ária intitula-se "When I am laid in earth", mas popularmente ficou conhecida como "Lamento de Dido".
O poeta Virgílio conta-nos que Dido, rainha de Cartago, se perde de amores por Eneias, que lhe jura amor eterno para logo, acatando o capricho dos deuses, seguir viagem rumo ao seu destino, a fundação de Roma. Dido fica para trás e sabe que Eneias não regressará.
Na inspirada versão de Henry Purcell, este é o seu lamento final, aqui interpretado por Jessye Norman, a extraordinária soprano norte-americana.
When I am laid, am laid in earth, May my wrongs create
Não vos vou falar do romance de Júlio Dinis. Os serões são outros.
Há quarenta anos estava-se no auge da luta antifascista. Salazar caíra da cadeira, Caetano prometer democratizar, mas tudo continuou na mesma – guerra colonial, polícia política, censura, partido único… ditadura, para tudo dizer numa palavra. Mudou os nomes às coisas, mas tudo ficou na mesma.
Uma boa parte da população conspirava, sobretudo nas camadas mais esclarecidas da pequena-burguesia – professores, profissionais liberais, oficiais do exército (geralmente de patente não superior a capitão), pequenos empresários, estudantes… E, sobretudo nas pequenas cidades, conspirava como?
Não falando dos militantes do Partido Comunista que estavam enquadrados por elementos ligados a estruturas regionais ou sectoriais, os chamados «controleiros» e que reuniam em obediência a regras estritas de segurança, próprias do funcionamento de um partido (casas clandestinas de apoio, pseudónimos, regras estritas do funcionamento das reuniões, etc.), a chamada gente da «oposição democrática», não observava essas regras de segurança. Uma reunião tinha, por vezes, sobretudo nas pequenas cidades, o ar de um serão cultural.
A Oposição Democrática só fazia reuniões formais em período de eleições. Passados esses períodos, grupos de amigos continuavam a reunir-se, muitas vezes sem que essas reuniões tivessem outro objectivo que não fosse o de manter acesa a chama da resistência. De uma forma geral, era gente que não estava organizada em partidos, embora por vezes aparecesse um ou outro «pescador» tentando cooptar elementos. O PC fazia isso, as outras organizações mais pequenas também. Os resultados não eram muito bons. A «conspiração» desta gente resumia-se a fazer serões culturais. Um projector de 8mm, uma cópia do «Aniki Bobó» ou do «Couraçado Potenkin», discos com canções do Yves Montand, do Jean Ferrat, do Brel, do José Afonso, do Fanhais, do Luís Cília ou da María Casares; bobinas com as declarações de Havana, do Fidel Castro ou com canções da Guerra Civil espanhola… Coisas assim, acompanhadas por brande (o uísque não era tão barato como é hoje e quando aparecia era uma festa), uns bolos caseiros feitos pela anfitriã e assim se reuniam vinte trinta pessoas. Era, mais ou menos, uma vez por semana – a noite de sexta-feira era a preferida. Chamar a isto resistência parecerá excessivo se não tivermos em conta o contexto político. Caso estas reuniões fossem sempre na mesma casa, corria-se o risco de, sem ser convidada, a PIDE aparecer.
Esta era sobretudo uma maneira de resistir à ofensiva cultural do Estado Novo que, sentindo a morte aproximar-se, apertava as suas malhas. E a cultura não fugia a essa ofensiva. Na música era o «nacional-cançonetismo», expressão inventada, salvo erro, pelo Mário Castrim, com o Calvário, a Madalena Iglésias, o Artur Garcia, e a Simone ...
A televisão, com dois canais, a Emissora Nacional e outras estações de rádio controladas pelo regime, os jornais e as editoras, apertados pela censura e depois pelo exame prévio… Enfim, um aro de ferro apertado em torno das cabeças. Os serões da província eram uma forma de cultura alternativa. As pessoas abriam janelas para outros conteúdos culturais. Não terá sido por acaso que as mentalidades se abriram à Revolução de forma tão espontânea. Os serões tiveram o seu papel nessa abertura.
Ia-se mudando de casa, para não dar muito nas vistas. Mesmo assim, havia quem denunciasse, geralmente por carta anónima, que na casa de fulano havia reuniões estranhas. Lembro-me de uma reunião, essa mesmo conspirativa, numa cidade minhota onde no fim cantámos os «parabéns a você» para simular uma festa de aniversário. Era muita gente, vinda de vários pontos do país, muitos carros estacionados numa rua de pouco movimento. Enfim dava nas vistas e aquela foi a saída. Este cenário que estou a descrever era mais frequente nas pequenas cidades. Mas assisti a muitas reuniões deste tipo político – gastronómico – cultural, no Porto e em Lisboa. Prova, se fosse preciso, de que todo o País continuava (e continua) a ser provinciano.
Segue-se uma série de vídeos com algumas das audições recorrentes nas tais reuniões. Por exemplo, esta canção de Jean Ferrat (recentemente falecido) era muito escutada, «Nuit et brouillard», tradução de «Nacht und Nebel», noite e nevoeiro, nome dado pelos nazis à operação de deportação de prisioneiros para os campos de extermínio. Noite e nevoeiro, porque queriam que sobre o crime caísse uma noite que o tornasse invisível e um nevoeiro que o fizesse esquecer. Em 1956. Alain Resnais realizou um filme com este título. Ouçamos Ferrat:
Outra presença certa nos serões era «Ay Carmela», um canto da Guerra Civil de Espanha. Todos cantávamos em coro, com o anfitrião a pedir para não fazermos muito barulho por causa da vizinhança – El ejercito del Ebro, rumba, la rumba, la rumba la…
Yves Montand e o seu «Chant de la libération», mais conhecido por "Chant des Partisans",que se converteu durante a ocupação em hino da Resistência, nunca faltava às nossas reuniões:
E o Zeca, como podíamos nós passar sem o Zeca?
Cuba! Quantas vezes ouvimos Fidel e as suas emocionadas e emocionantes declarações de Havana. Para meados da década, começámos a perceber que Fidel se rendia a um pragmatismo que o obrigava a fugir do imperialismo americano, lançando-se nos braços do imperialismo soviético. Guevara era a voz pura da Revolução de 26 de Julho:
O «Couraçado Potenkin», cujas cópias conseguíamos comprar em Paris ou em Londres, animavam muitas das nossas reuniões. Realizado por Sergei Eisenstein em 1925, provinha de uma União Soviética ainda não totalmente estalinizada. Era peça de êxito assegurado, com palmas no final. Se não viram e dispõem de algum tempo, não percam este filme que constitui um elo imperdível da história da cinematografia mundial.
Quando as reuniões acabavam, os «conspiradores» iam saindo em pequenos grupos. As casas ficavam desarrumadas. O casal anfitrião, enquanto levava copos e pratos para a cozinha, repunha cadeiras no lugar, comentava entre si: «Não correu mal, pois não?»