Maratona Poética - Alberto Caeiro e Bernardo Marques
Alberto Caeiro
E há poetas que são artistas
E trabalham nos seus versos
Como um carpinteiro nas tábuas!...
Que triste não saber florir!
Ter que pôr verso sobre verso, como quem constrói um muro
E ver se está bem, e tirar se não está!...
Quando a única casa artística é a Terra toda
Que varia e está sempre bem e é sempre a mesma.
Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem respira.
E olho para as flores e sorrio...
Não sei se elas me compreendem
Nem se eu as compreendo a elas,
Mas sei que a verdade está nelas e em mim
E na nossa comum divindade
De nos deixarmos ir e viver pela Terra
E levar ao colo pelas Estações contentes
E deixar que o vento cante para adormecermos
E não termos sonhos no nosso sono.
E terminamos como começámos - Autopsicografia, agora dito pelo grande João Villaret. E despedimo-nos até à próxima iniciativa. Queremos que a última palavra seja a de um grande poeta e que seja a palavra coração.
Gabriel Celaya (Hernani, Guipúzcoa, 1911 – Madrid, 1991
LA POESÍA ES UN ARMA CARGADA DE FUTURO
Cuando ya nada se espera personalmente exaltante, mas se palpita y se sigue más acá de la conciencia, fieramente existiendo, ciegamente afirmado, como un pulso que golpea las tinieblas,
cuando se miran de frente los vertiginosos ojos claros de la muerte, se dicen las verdades: las bárbaras, terribles, amorosas crueldades.
Se dicen los poemas que ensanchan los pulmones de cuantos, asfixiados, piden ser, piden ritmo, piden ley para aquello que sienten excesivo.
Con la velocidad del instinto, con el rayo del prodigio, como mágica evidencia, lo real se nos convierte en lo idéntico a sí mismo.
Poesía para el pobre, poesía necesaria como el pan de cada día, como el aire que exigimos trece veces por minuto, para ser y en tanto somos dar un sí que glorifica.
Porque vivimos a golpes, porque apenas si nos dejan decir que somos quien somos, nuestros cantares no pueden ser sin pecado un adorno. Estamos tocando el fondo.
Maldigo la poesía concebida como un lujo cultural por los neutrales que, lavándose las manos, se desentienden y evaden. Maldigo la poesía de quien no toma partido hasta mancharse.
Hago mías las faltas. Siento en mí a cuantos sufren y canto respirando. Canto, y canto, y cantando más allá de mis penas personales, me ensancho.
Quisiera daros vida, provocar nuevos actos, y calculo por eso con técnica qué puedo. Me siento un ingeniero del verso y un obrero que trabaja con otros a España en sus aceros.
Tal es mi poesía: poesía-herramienta a la vez que latido de lo unánime y ciego. Tal es, arma cargada de futuro expansivo con que te apunto al pecho.
No es una poesía gota a gota pensada. No es un bello producto. No es un fruto perfecto. Es algo como el aire que todos respiramos y es el canto que espacia cuanto dentro llevamos.
Son palabras que todos repetimos sintiendo como nuestras, y vuelan. Son más que lo mentado. Son lo más necesario: lo que no tiene nombre. Son gritos en el cielo, y en la tierra son actos. _______________
Como só ele sabe, Paco Ibañez canta agora- "La Poesia es un arma cargada de Futuro".
Daqui a 20 minutos acaba a nossa maratona. Um último poeta; quem será? Será apenas um?
Souvent, pour s'amuser, les hommes d'équipage Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers, Qui suivent, indolents compagnons de voyage, Le navire glissant sur les gouffres amers.
A peine les ont-ils déposés sur les planches, Que ces rois de l'azur, maladroits et honteux, Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches Comme des avirons traîner à côté d'eux.
Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule! Lui, naguère si beau, qu'il est comique et laid! L'un agace son bec avec un brûle-gueule, L'autre mime, en boitant, l'infirme qui volait!
Le Poète est semblable au prince des nuées Qui hante la tempête et se rit de l'archer; Exilé sur le sol au milieu des huées, Ses ailes de géant l'empêchent de marcher.
O poema, na voz de Leo Ferré parece ainda mais belo:
Maratona Poética -E pedimos a vossa atenção para Luís Filipe Castro Mendes, Raúl Iturra e Octavio Paz
Luis Filipe Castro Mendes (Idanha-a-Nova, 1950)
CRÍTICA DE POESIA
Que a frenética poesia me perdoe se a um baço rumor levanto o laço, pois que verso não há onde não soe a música discreta doutro espaço.
Horizonte do verso é a dureza: já mansidão não cabe neste olhar que se pousa na faca sobre a mesa e aprende nela o fio do seu cantar.
Mas se olhar nela pousa, como corta? E se as palavras sabemos retomar, quem nos devolve a chave dessa porta onde a herança está por encerrar?
Tão longe está de nós a poesia como nuvem nos rouba a luz do dia.
(Viagem de Inverno)
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Raúl Iturra (Chile, 1942)
A POESIA
Conheci-a um dia, nada pedi, mas foi-me dado tudo
Em troca de emotividade, paixão e amor
Os sentimentos são apenas passíveis de exprimir
Através da arte poética, que nos comove
Faz-nos felizes, com ou sem razão.
A arte poética não pensa, faz pensar
A arte poética não beija, faz beijar
A arte poética é o prelúdio de canções sem palavras
Arte que sem palavras, apenas música,
Não permitia a paixão que nos devora
Devora-nos ao longo da vida, dá felicidade e alegria
Vivemos graças à arte poética
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Octavio Paz
(Cidade do México, 1914-1998)
DESTINO DEL POETA
¿Palabras? Sí, de aire, y en el aire perdidas.
Déjame que me pierda entre palabras, déjame ser el aire en unos labios, un soplo vagabundo sin contornos que el aire desvanece.
También la luz en sí misma se pierde.
DESTINO DE POETA
Palavras? Sim, de ar, e no ar perdidas. Deixa-me perder entre palavras, deixa-me ser o ar nuns lábios, um sopro vagabundo sem contornos que o ar desvanece.
Também a luz em si mesma se perde.
(Liberdade sob Palavra)
Tradução de Luis Pignatelli
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"La Poesía" é uma obra emblemática do grande poeta mexicano Octavio Paz. Apresentamos uma gravação desse famoso poema.
Agora, só vos dizemos que dentro de quarenta minutos chega um grande poeta(mais um)- às 23:20 em ponto. Quem será?
Maratona Poética - Eis António Salvado, Domingos da Mota e Joan Vinyoli!
António Salvado (Castelo Branco, 1936)
A POESIA
Difícil, estreita passagem, força quente perscrutada, corpo de névoa, de imagem, com sulcos de tatuagem, voz absoluta escutada...
Destino de aranha, tece com fios vários da vida alegria se amanhece ou chora se a luz fenece pela noite perseguida.
Intimidade exterior, pureza de impuras formas, conhecimento e amor, água límpida, estertor, sem regras feita de normas.
(Difícil Passagem)
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Domingos da Mota (Cedrim, Vale do Vouga, 1946) ARTE POÉTICA
Um poema tomara: e que fosse à raiz das raízes ou mais alto, temporão ou serôdio: e se precoce que andasse por aí em sobressalto
a abalar, a criar desassossego, mesmo à beira da fonte d'água pura, desvelasse o mais íntimo do ego e mostrasse o porquê da abrasadura
que ferra este pobre zé-ninguém, pois em busca de rumo perde o passo (com a perna mais curta vai além
do que pode o seu pé e o seu braço): um poema tomara eu fazer que fosse ao coração do próprio ser.________________________________________Joan Vinyoli (Barcelona, 1914—1984)
NO RES, UN FUM
La poesia allunya de les aparences i fa propera la realitat. Memòria: perdre’s com un dellà que és sols l’aquí, darrera cortines transparents. I què veus? No res, un fum. En veritat us dic que no es fa res en veritat sinó per la paraula creadora de silenci.
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Às 22:00, chegam três poemas
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Às dez esperamos por Luís Filipe Castro Mendes, Raúl Iturra e Octavio Paz. Vão chegar às 22:00 em ponto.
Maratona Poética - Agora são os poemas de Manuel António Pina, Gustavo Adolfo Bécquer e Mario Quintana.
Manuel António Pina (Sabugal, Beira Interior, 1943)
A POESIA VAI ACABAR
A poesia vai acabar, os poetas vão ser colocados em lugares mais úteis. Por exemplo, observadores de pássaros (enquanto os pássaros não acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao entrar numa repartição pública. Um senhor míope atendia devagar ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum poeta por este senhor?» E a pergunta afligiu-me tanto por dentro e por fora da cabeça que tive que voltar a ler toda a poesia desde o princípio do mundo. Uma pergunta numa cabeça. — Como uma coroa de espinhos: estão todos a ver onde o autor quer chegar? —
(Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde)
¿Qué es poesía?, dices mientras clavas en mi pupila tu pupila azul: ¿qué es poesía? ¿Y tú me lo preguntas? Poesía... eres tú. ________________________________________
Mario Quintana
(Alegrete, 1906 — Porto Alegre, 1994)
PROJETO DE PREFÁCIO
Sábias agudezas... refinamentos... - não! Nada disso encontrarás aqui. Um poema não é para te distraíres como com essas imagens mutantes de caleidoscópios. Um poema não é quando te deténs para apreciar um detalhe Um poema não é também quando paras no fim, porque um verdadeiro poema continua sempre... Um poema que não te ajude a viver e não saiba preparar-te para a morte não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras.
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Às 21:00 podemos contar com António Salvado, Domingos da Mota e Joan Vinyoli.
Maratona Poética- ,Atenção a Jorge Torres , Holderlin e Nicolás Guillén
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Jorge Torres
(Mendoza, Argentina, 1959)
LA POESÍA
Si digo: LA POESÍA ES UNA TORRE DE BABEL, me acusarán de poco original. Si digo: LA POESÍA ES LA ORDENACIÓN DEL CAOS EN LA PALABRA, me acusarán de cursi. Si digo: LA POESÍA ES UNA CASA DE PUTAS Y LOS POETAS SUS CAMPANILLEROS, me acusarán de obsceno y procaz. Por eso cierro el pico. So pena, me acusen de complicidad.
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Friedrich Hölderlin (Lauffen am Neckar, 1770 — Tübingen,1843),
fragmento...
Doch es gebührt es, unter Gottes Gewittern, Ihr Dichter! mit entblößten Haupte zu stehen, Des Vaters Strahl, ihn selbst, mit eigner Hand zu fassen, und dem Volk ins Lied Gehüllt die himlische Gaabe zu reichen.
Cabe-nos a nós, poetas, ficar firmes perante as tempestades de Deus,
De cabeça descoberta,
apressando pelas nossas mãos o raio de luz enviado pelo Pai,
Maratona Poética - Machado de Assis, Miquel Martí i Pol e Vicente Huidobro
Machado de Assis (Rio de Janeiro, 1839-1908) ÚLTIMA FOLHA
Musa, desce do alto da montanha Onde aspiraste o aroma da poesia, E deixa ao eco dos sagrados ermos A última harmonia.
Dos teus cabelos de ouro, que beijavam Na amena tarde as virações perdidas, Deixa cair ao chão as alvas rosas E as alvas margaridas.
Vês? Não é noite, não, este ar sombrio Que nos esconde o céu. Inda no poente Não quebra os raios pálidos e frios
O sol resplandecente. Vês? Lá ao fundo o vale árido e seco Abre-se, como um leito mortuário;
Espera-te o silêncio da planície,
Como um frio sudário.
Desce. Virá um dia em que mais bela, Mais alegre, mais cheia de harmonias, Voltes a procurar a voz cadente Dos teus primeiros dias.
Então coroarás a ingênua fronte Das flores da manhã, — e ao monte agreste, Como a noiva fantástica dos ermos, Irás, musa celeste!
Então, nas horas solenes Em que o místico himeneu Une em abraço divino Verde a terra, azul o céu;
Quando, já finda a tormenta Que a natureza enlutou, Bafeja a brisa suave Cedros que o vento abalou;
E o rio, a árvore e o campo, A areia, a face do mar, Parecem, como um concerto, Palpitar, sorrir, orar;
Então sim, alma de poeta, Nos teus sonhos cantarás A glória da natureza, A ventura, o amor e a paz!
Ah! mas então será mais alto ainda; Lá onde a alma do vate Possa escutar os anjos,
E onde não chegue o vão rumor dos homens;
Lá onde, abrindo as asas ambiciosas, Possa adejar no espaço luminoso, Viver de luz mais viva e de ar mais puro, Fartar-se do infinito!
Musa, desce do alto da montanha Onde aspiraste o aroma da poesia, E deixa ao eco dos sagrados ermos A última harmonia!
(in 'Crisálidas')
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Miquel Martí i Pol
(Roda de Ter, 1929 - Barcelona,2003).
GOIG DE LA PARAULA
Em crides sempre a més combat, pensament viu, paraula viva, enllà i endins de mi mateix. No em dol, però; què fóra sense tu? Tot es resol en el teu foc que crema sense consumir i en la pedra que dreces davant meu. En tu i amb tu restitueixo la densitat de cada cosa dita, la densitat i més i tot, la vida. ___________________
Vicente Huidobro (Santiago do Chile, 1893 -Cartagena, Chile, 1948)
ARTE POÉTICA
Que el verso sea como una llave Que abra mil puertas. Una hoja cae; algo pasa volando; Cuanto miren los ojos creado sea Y el alma del oyente quede temblando.
Inventa mundos nuevos y cuida tu palabra; El adjetivo, cuando no da vida, mata.
Estamos en el ciclo de los nervios. El músculo cuelga, Como recuerdo, en los museos; Más no por eso tenemos fuerza; El vigor verdadero Reside en la cabeza.
¡Por qué cantais la rosa, oh Poetas! Hacedla florecer en el poema;
Maratona Poética - Aí temos Juan Ramón Jiménez, Gustave Flaubert e Alexandre O'Neill
Juan Ramón Jiménez
(Huelva, 1881-SanJuan de Puerto Rico, 1958)
LA POESÍA
1-La poesía no es sucesiva, como la ciencia. Un poeta no continúa a otro poeta, sino que recrea, revive, aísla y cierra en sí mismo «toda» la poesía.
2-Un camino por donde, aunque uno sabe que no llegará nunca, va uno bien y seguro de que es el único y verdadero.
3-La poesía…, esta eyaculación –¡qué deleite!– del espíritu.
4-Si la poesía fuera, como algunos pretenden, una cosa precisa, inflexible, ríjida, suntuosa, llegaría a desprestijiarse entre sus dos hermanas: la pintura y la música. En la pintura, realista o romántica, el pintor fija el motivo de la naturaleza como es ella misma y lo divulga o lo fija a través de su alma, para que sea fuente de sensación.
La música es una evaporación de la vida; es también maleable, irisada y temblorosa; tesorera, podríamos llamarla. El arte no traduce, comenta. La palabra fija y concreta, como el color, como la nota, debe tender a la difusión, a la melodía, a algo que se evoque y que emocione y que, al fin, abra la fuente de nuestros sentimientos ideales.
5- NO PROFÉTICA La poesía auténtica es siempre futura, nunca profética. Su profecía consiste precisamente en ser futura. Y no se me diga que la poesía, futura en la espresión, puede soportar también una profecía; porque la poesía es «sólo» una unidad completa.
(Quien puede ser profético es el poeta. Pero eso es otro asunto. Y se trata en prosa hablada.)
6-ESA CHISPA La poesía nos la trae todo el existir diario que rodea nuestro diario existir; y la hace saltar, buena chispa, el roce o el choque de las existencias encontradas. Pero, en sí, la poesía, es decir, lo que salta y lo que ilumina esa chispa a nuestra espresión no es más que lo absoluto.
7 -La poesía inferior gana declamada, aumentada a los oídos, no vista. La superior pierde así; gana leída en silencio con los ojos.
8-LA SANGRE VERDE La poesía no se renueva gritando a las señoras asustadas o crédulas que la sangre es verde; sino sorprendiendo las ideas esenciales que esa sangre, más verde o más roja, riega, fecunda y exalta.
9-COMO ESENCIA Poesía, una sustancia que alimenta como esencia.
10- Lo objetivo –que varía en cada país– no puede ser universal. Sólo es universal el alma del hombre. Así, la poesía subjetiva es la única que llena el universo.
11-Poesía, instinto cultivado.
12- La poesía, principio y fin de todo, es indefinible. Si se pudiera definir, su definidor sería el dueño de su secreto, el dueño de ella, el verdadero, el único dios posible. Y el secreto de la poesía no lo ha sabido, no lo sabe, no lo sabrá nunca nadie, ni la poesía admite dios. Por fortuna, para Dios y para los poetas.
13-El estreno de la poesía es influir superiormente sobre el mismo poeta que la ha escrito en instantes de su ser superior; hacer de un hombre divinizado un dios frecuente.
14-La conquista de la poesía es como la del amor, que nunca sabremos si su secreto es nuestro, y contamos para siempre con la belleza y la fuerza de esa duda.
15-Sólo la creación vence el ruido de la Creación.
16-Poesía metafísica no filosófica.
17-Poesía pura no es poesía casta, sino poesía esencial.
y 18-No hay poeta más puro, es decir, auténtico, que el poeta fatal.
(Estética y ética estética (aforismos, 1907-1954),
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Gustave Flaubert (Ruão,1821 – 1880)
Há no mundo uma conjura geral e permanente contra duas coisas, a poesia e a liberdade; as pessoas de gosto encarregam-se de exterminar uma, tal como os agentes da ordem de perseguir a outra
(Correspondência)
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Alexandre O'Neill
BOM E EXPRESSIVO
Acaba mal o teu verso, mas fá-lo com um desígnio: é um mal que não é mal, é lutar contra o bonito.
Vai-me a essas rimas que tão bem desfecham e que são o pão de ló dos tolos e torce-lhes o pescoço,
tal como o outro pedia se fizesse à eloquência, e se houver um vossa excelência que grite: — Não é poesia!,
diz-lhe que não, que não é, que é topada, lixa três, serração, vidro moído, papel que se rasga ou pe- dra que rola na pedra... Mas também da rima «em cheio» poderás tirar partido, que a regra é não haver regra, a não ser a de cada um, com sua rima, seu ritmo, não fazer bom e bonito, mas fazer bom e expressivo...
, (De Ombro na Ombreira)
Vamos ouvir um outro poema de Alexandre O'Neill ( que, de certo modo, tem a ver com o nosso tema)- "Há palavras que nos beijam", muito bem interpretado por Mariza. Nós acrescentaríamos - "Há palavras que nos beijam e há palavras que nos mordem!
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Às 18:00 (TMG) será a vez de Machado de Assis, António Aleixo e Vicente Huidobro.
Maratona Poética - Mais três colossos: Rafael Alberti, Ricardo Palma e Mia Couto
Rafael Alberti (Cádiz, España, 1902-1999)
RETORNO DE LA INVARIABLE POESÍA
¡Oh poesía hermosa, fuerte y dulce, mi solo mar al fin, que siempre vuelve! ¿Cómo vas a dejarme, cómo un día puede, ciego, pensar en tu abandono?
Tú eres lo que me queda, lo que tuve, desde que abrí a la luz, sin comprenderlo. Fiel en la dicha, fiel en la desgracia, de tu mano en la paz, y en el estruendo triste de la sangre y la guerra, de tu mano.
Yo dormía en las hojas, yo jugaba por las arenas verdes de los ríos subiendo a las veletas de las torres y a la nevada luna mis trineos. Y eran tus alas invisibles, era su soplo grácil quien me conducía.
¿Quién tocó con sus ojos los colores, quién a las líneas contagió su aire, y quién, cuando el amor, puso en su flecha un murmullo de fuentes y palomas? Luego, el horror, la vida en el espanto, la juventud ardiendo en sacrificio. ¿Qué sin ti el héroe, qué su pobre muerte sin el súbito halo de relámpagos con que tú lo coronas e iluminas?
¡Oh, hermana de verdad, oh compañera, conmigo, desterrada, conmigo, golpeado y alabado, conmigo, perseguido; en la vacilación, firme, segura, en la firmeza, animadora, alegre, buena en el oído necesario, buena y hasta feliz en la melancolía! ¿Qué no voy a esperar de ti en lo que me falte de júbilo o tormento? ¿Qué no voy a recibir de ti, di, que no sea sino para salvarme, alzarme, conferirme? Me matarán quizás y tú serás mi vida, viviré más que nunca y no serás mi muerte. Porque por ti yo he sido, yo soy música, de los juncos, vocablo de la mar, estribillo de las más simples cigarras populares. Porque por ti soy tú y seré por ti sólo lo que fuiste y serás para siempre en el tiempo.
(Retornos de lo vivo lejano, 1952)
E agora um poema de Rafael Alberti. recitado pelo autor; em fundo, canta Jarcha.
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Ricardo Palma
(Peru 1833-1919)
LA POESÍA
¿Es arte del demonio o brujería esto de escribir versos? -le decía, no sé si a Calderón o a Garcilazo un mozo más sin jugo que el bagazo.
Enséñame, maestro, a hacer siquiera una oda chapucera. -Es preciso no estar en sus cabales para que un hombre aspire a ser poeta,
pero, en fin, es sencilla la receta. Forme usted líneas de medidas iguales, y luego coloca juntas poniendo consonantes en la punta.
-¿Y en el medio? -¿En el medio? ¡Ese es el cuento! Hay que poner talento. ____________________
Mia Couto (Beira, Moçambique, 1955)
PRIMEIRA PALAVRA
Aproxima o teu coração e inclina o teu sangue para que eu recolha os teus inacessíveis frutos para que eu prove da tua água e repouse na tua fronte
Debruça o teu rosto sobre a terra sem vestígio prepara o teu ventre para a anunciada visita até que nos lábios umedeça a primeira palavra do teu corpo.
Quem será que vem agora? -Juan Ramón Jiménez, Gustave Flaubert e Alexandre O'Neill - às cinco da tarde (há um poema de Lorca... fica para outra altura)
Maratona Poética - Ora aí temos o Saúl Dias, a Ethel Feldman e o Vinicius de Moraes
Saúl Dias
(Vila do Conde, 1902-1983)
SANGUE
Versos escrevem-se depois de ter sofrido.
O coração dita-os apressadamente. E a mão tremente quer fixar no papel os sons dispersos...
É só com sangue que se escrevem versos.
Ethel Feldman (São Paulo, 1954)
POESIA
Brilharam teus olhos
Alcançou tua voz a natureza Fazendo de ti amigo do peixe que te vence Pode a loucura matar-te Tua lonjura será alívio dos homens bem comportados que surdos, perderam há anos o som que os rodeia Entre o velho e o mar Nasces tu desencontrado na cidade que não te acolhe e gritas sem educação: Sinto-me bem na natureza Que ela não fala!
Grito contigo em surdina o que não se explica ancas generosas desejo que se transcende
silenciosa é a poesia amor que se sente um olhar fugaz fazendo do tempo nosso presente.
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Vinicius de Moraes
(Rio de Janeiro, 1913-1980)
O POETA APRENDIZ
Ele era um menino Valente e caprino Um pequeno infante Sadio e grimpante Anos tinha dez E asas nos pés Com chumbo e bodoque Era plic e ploc O olhar verde gaio Parecia um raio Para tangerina Pião ou menina Seu corpo moreno Vivia correndo Pulava no escuro Não importa que muro Saltava de anjo Melhor que marmanjo E dava o mergulho Sem fazer barulho Em bola de meia Jogando de meia-direita ou de ponta Passava da conta De tanto driblar Amava era amar Amava Leonor Menina de cor Amava as criadas Varrendo as escadas Amava as gurias Da rua, vadias Amava suas primas Com beijos e rimas Amava suas tias De peles macias Amava as artistas Das cine-revistas Amava a mulher A mais não poder Por isso fazia Seu grão de poesia E achava bonita A palavra escrita Por isso sofria De melancolia Sonhando o poeta Que quem sabe um dia Poderia ser
Vamos ouvir o poema, cantado por Vinicius e por Toquinho, com música deste último:
Nós nunca fechamos - a seguir, às 16:00, vêm Rafael Alberti, Ricardo Palma e Mia Couto.
Maratona Pooética - Aí temos Juan Luis Panero, Boris Vian , Manuel Curros Enríquez¨ e António Aleixo
Juan Luis Panero (Madrid,1942)
ARTE POÉTICA
A comprida, vagarosa língua da morte lambeu a mão daquele que escreve, lucidez ou loucura, ninguém sabe; só restam palavras, palavras roídas
(Antes que chegue a noite, 2000) _______________
Boris Vian (Ville-d'Avray, 1920 — Paris, 1959)
SE OS POETAS FOSSEM MENOS PATETAS
Se os poetas fossem menos patetas E se fossem menos preguiçosos Faziam toda a gente feliz Para poderem tratar em paz Dos seus sofrimentos literários Construíam casas amarelas Com grandes jardins à frente E árvores cheias de zaves De mirliflautas e lizores De melfiarufos e toutiverdes De plumuchos e picapães E pequenos corvos vermelhos Que soubessem ler a sina Havia grandes repuxos Com luzes por dentro Havia duzentos peixes Desde o crusco ao ramussão Da libela ao papamula Da orfia ao rara curul E da alvela ao canissão Havia um ar novo Perfumado do odor das folhas Comia-se quando se quisesse E trabalhava-se sem pressa A construir escadarias De formas antes nunca vistas Com madeiras raiadas de lilás Lisas como ela sob os dedos
Mas os poetas são uns patetas Escrevem para começar Em vez de se porem a trabalhar E isso traz-lhes um remorso Que conservam até à morte Encantados de ter sofrido tanto Dedicam-lhes grandes discursos E são esquecidos num dia Mas se trabalhassem mais Só seriam esquecidos em dois
(Não Queria Patear )
Tradução de Irene Freire Nunes / Fernando Cabral Martins
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Manuel Curros Enríquez
(Celanova, Galiza, 1851, Havana, 1908)
INTRODUCION
Escribir nada máis pr' onha provincia
Ou, com' os povos árcades fixeron,
Escribir sobr' a casca d'os curtizos,
Cáxeque todo vén á ser o mesmo.
A nosa vos, n'a soledá perdida,
Morrerá sin deixar xiquera ise éco
Qu' a brisa malencónica d' outono
Deixa n'a copa azul d'os ameneiros.
Non pode ser tampouco d' outra sorte:
Pasaron xa, pra non volver, os tempos
En qu' o lenguaxe era unha cifra máxica
Fácele sólo ó sacerdote hebreo.
As xentes tristes que n'o verbo humano
Percuran os ideales q' entreveron
_________________
António Aleixo
(Vila Real de Santo António, 1899-1949)
Poeta, não, camarada, Eu também sou cauteleiro; Ser poeta não dá nada, Vender jogo dá dinheiro.
Não é só na grande terra Que os poetas cantam bem: Os rouxinóis são da serra E cantam como ninguém.
Tu já viste a «poesia» Que há numa casa sem ceia, Nem azeite na candeia, Nem luz, se morre a do dia ________________
Isto está a correr muito bem - e às 15:00 chegam mais três poetas: Saúl Dias, Ethel Feldman e Vinicius de Moraes.
Maratona Poética - Olha o Walt Whitman com as suas barbas brancas . Vêm também o Carlos Loures e o Gastão Cruz
Walt Whitman (Huntington, 1819 – Camden, 1892)
Ouçamos a leitura de um excerto de "Leaves of Grass", obra capital de Whitman, do qual extraímos o poema que seleccionámos para esta maratona.
MÁQUINA ALGUMA DE POUPAR TRABALHO
eu nada fiz, nada inventei, nem sou capaz de deixar para trás nenhum rico donativo para fundar um hospital ou uma biblioteca, reminiscência alguma de um acto de bravura pela América, nenhum sucesso literário ou intelectual, nem mesmo um livro bom para as estantes — apenas uns poucos cantos vibrando no ar eu deixo aos camaradas e amantes.
(Leaves of Grass)
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Joan Brossa (Barcelona, 1919-1998)
A LA POESIA
Oh Poesia, emmotlla en els avenços l’orgull de poder dir company o pàtria; els rics detalls han envelat les fustes dels brots del cant.
Cada hora modifica’t, Poesia; fes campejar severa fantasia amb l’escalfor de l’esperit del poble del meu país.
L’art del carrer on has estat bastida, l’escultura del ferro que afaiçones, no els vols un quadre mort. De vida intensa forja el record.
Esmena’t de l’afany dels qui et fan fosca, poetes de la mel i la melassa, capells de copa groga i cementiris, productes bords.
Treu-te la cucurulla dels diumenges, posa’t a lloc i reparteix els gustos per al coronament d’un goig estètic amb vida al fons.
Sigues mestressa amb seny en la manera de referir-te als homes i a les coses; constant corrent de brisa, ret justícia a pobres flors.
Torna, amor meu, integra’t a les vides, uneix les fletxes a la senzillesa; deixa de banda els fòssils de les bèsties fets de més tro.
Enrotlla’t al meu cos. Però il•lumina, com el feix lluminós d’una lent clara, la molta empenta d’aquest sol concepte: la Llibertat. __________________________
Carlos Loures
(Lisboa, 1937)
NÓS POETAS
Dizemos Povo cantamos Povo sem que as nossas vozes edifiquem por vezes as traves da palavra as sibilinas trevas do seu som.
A que pedra arrancámos a sua abóbada de mãos erguidas e crispados gritos? Em que mesa compartilhámos a sua fome em que dorso sofremos o seu cansaço e em que lenço enxugámos o seu suor? Em que rosto chorámos as suas lágrimas em que peito acolhemos a sua dor?
Ah companheiros de ofício nem sempre ou quase nunca o Povo dos poemas é aquele que transcorre pelas paisagens em que habita o desespero e espera a morte.
Bandeira será florindo o nosso verso mas Povo no poema é coisa rara que em rosa não cabe a sua sorte
(A Poesia deve ser feita por todos, 1970)
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Gastão Cruz (Faro, 1941)
A VIDA DA POESIA
Hoje sei como se exprime a vida da poesia com a sinceridade das emoções linguísticas com que o mundo devasta e enche as nossas vidas
Aprendi a clareza das imagens fictícias recolhidas na luz do corpo nu e vivo entre os golpes orais errante desferidos
(Campânula) _________________________________
Em sendo duas da tarde em ponto, chegarão com Juan Luis Panero, mais três poetas: Boris Vian , Manuel Curros Enríquez e António Aleixo
Maratona Poética - Os senhores que se seguem são o João Machado, António Osório e Vasco Graça Moura.
António Osório (Setúbal, 1933)
PESO DO MUNDO
A poesia não é, nunca foi uma enumeração ou composto de exuberância, bondade, altitude, nem arado ou dádiva sobre chão prenhe de mortos.
Nem o arrependimento de Deus por ter criado o homem com o rosto da sua memória, ao lado dos seus vermes.
Tão-pouco fôlego dos que amam abrindo a porta límpida do corpo e chovendo sobre a terra, ou carregam como tartarugas o peso do mundo.
Nem reverência por um tigre, pela leveza maligna de todas as patas, pela sonolência junto à estirpe aprisionada também na dureza de ser tigre.
É o milagre de uma arma total, de uma só palavra reduzindo o átomo à completa inocência.
(A Ignorância da Morte)
João Machado (Lisboa, 1943)
SOBRE UM MAU POETA
Vou contar-vos uma tragédia De um senhor que queria ser poeta Fazer lindos versos tinha por meta Resultava sempre uma fraca comédia
Rimas pobres era uma praga Pontapés na gramática em cada linha Pois a falta de talento esmaga Quem tem pouco juízo na pinha
A poesia é a arte de comunicar De quem tem o sentimento, a excepção Com quem vive o dia banal, o vulgar
Transmitir o fogo, a modulação De querer, sofrer, lutar, amar Sem dos medíocres vir atrapalhação
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Vasco Graça Moura (Porto, 1942)
As palavras estão presas ao real. Não há praticamente nenhuma poesia, nenhuma literatura, que sobreviva se não houver uma especial coerência entre elas e a realidade. Talvez o mesmo se possa dizer em relação a todas as outras artes, sendo certo que, na música, estas coisas se põem em termos qualitativamente diferentes (provavelmente na música, e no Ocidente, o sistema tonal tende a exercer a mesma força de atracção que o real). Estas coisas para mim põem-se em termos de uma extrema simplicidade, sem altos voos filosóficos, num plano prático e corrente dos significados. É claro que a espessura do real é múltipla: tanto inclui o onírico como o pensamento abstracto. Eppure... é sempre o real. Hoje, assim como nas artes o fim do século XX parece ter ficado assinalado por um "neo-figurativismo" (outra vez o real...), também na poesia se regressa ao real (subjectivo e objectivo) em muitas modalidades. O escritor é um ser humano que utiliza as palavras com um certo nível de exigência qualitativa. Capturar o real, mesmo que seja para fazê-lo "inflectir", é um dos seus objectivos. É provável que o cinema e a fotografia tenham contribuído para acentuar essa necessidade. Não penso que se trate de um vício, mas de uma condição inelutável. A literatura é uma forma de criação artística pela palavra, mesmo quando tenta convocar outras áreas (veja-se, por exemplo, a ekphrasis). A sua relação com o real decorre naturalmente desta condição verbal.
(em entrevista a João Luís Barreto Guimarães)
E já agora, um poema de Vasco da Graça Moura sobre os "Poetas de Lisboa", letra de um fado cantado por Carlos do Carmo:
Vamos entrar na segunda metade - vem aí, às 13:00,Walt Whitman, com as suas barbas brancas . Vêm também o Carlos Loures e o Joan Brossa.
Maratona Poética - Chegam mais três poetas - o Casimiro de Brito, a Augusta Clara de Matos e o Celso Emilio Ferreiro .
Casimiro de Brito
( Loulé- 1938)
DA POESIA: ARS COMBINATORIA
Agrada-me pensar que o poema (o livro) que estou a escrever são vários poemas, tantos quantos os leitores que fizerem do meu texto, por um momento que seja, o seu espelho, um espelho côncavo ou convexo, nunca liso, um rio onde possam encontrar interpretações distintas e até opostas sobre o amor e a morte, o poder e o prazer, os sentidos da existência. Não sei quem disse que um poema era um fruto comido por mil bocas, um fruto intacto.
(Fragmentos de Babel seguido de Arte Poética”).
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Augusta Clara de Matos (Lisboa, 1945)
À POESIA
Poesia, toda a minha vida fingi que te ignorava Mas sempre te invejei o elo aos que não se deixam atraiçoar pela língua. Como me parecias longínqua, inacessível. Eras d’outrém, não eras minha. Tinha ciúmes, mas era incapaz de competir. E ainda sou. Mas sinto-te, sabes, não preciso de te ceder. Sinto-te com o corpo todo, por todo o lado. E sem palavras.
Só no silêncio, poesia, te consigo entender.
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Celso Emilio Ferreiro
(Celanova ,Ourense, 1912 - Vigo, 1979)
A POESIA É VERDADE
Un procura a verdade por tódolos camiños, baixo as pedras, nas raigames mais escuras das olladas, máis alá das escumas i os solpores.
Busco a verdade en ti, rexa poesía dos homes que labouran, taito real das cousas que están e son, anque ninguén as vexa. Home total, que vas e ves sin sombra polas rúas e tes a túa verdade nos curutos do mundo, no profundo da historia, na esperiencia de un dia calisquera, e non ves os paxaros nin as nubes nin as lonxíncoas maus do vento dondo que acariñan o mundo desde sempre. Investiga a verdade do teu tempo i alcontrarás a poesia.
Maratona Poética - O Fernando Correia da Silva, traz dois amigos - o Carlos Pena filho e o José Luís Peixoto.
Fernando Correia da Silva (Lisboa, 1931) ADUNAR
Adunar na vertical é transformar o instinto em razão e esta naquele. É conseguirmos ver o Invisível. É usarmos de infravermelhos para localizar o Monstro agora diluído em estruturas canibais, omnipotência, omnipresença. É sabermos detectar a tempo as suas teias e evitar nelas pousar. É rasgarmos as suas máscaras, sejam elas lotes de acções ou abertura de caça ao preto e ao cigano. É darmos valor à vida humana, em vez do preço que ele pretende atribuir-lhe. É sermos indiferentes à diferença entre irmãos, homens que todos somos. É não deixarmos que ele converta as nossas vidas num andar solitário por entre a gente. É não deixarmos que ele transforme os homens em colónias de formigas. É conseguirmos pôr no Soweto um pianista japonês a emocionar a assistência com um nocturno de Chopin. É não deixarmos que tantos morram à fome enquanto permanecem terras férteis em pousio e há trigo acumulado nos celeiros. É não consentirmos que as máquinas tomadas pelo Monstro nos deixem com a alma em desarrimo. É não deixarmos que ele transforme o planeta em esgoto a céu aberto. É não aceitarmos as gorjetas que ele oferece para olharmos para o outro lado. É não deixarmos que nos atire para a lixeira. É não consentirmos que o Direito Comercial lace, aperte, esmague e devore os Direitos do Homem. É arrimar-nos a um tronco largo quando a jibóia ataca, comprimento ela não tem para laçar-nos juntamente com a árvore. É puxarmos da catana e retalhá-la se ela insistir no ataque. É dinamitarmos a digestão antropofágica do Labirinto. É espantarmos os disciplinados cumpridores de ordens, os bandos de corvos sempre à espera da sua quota-parte de carniça. É ensinarmos as gaivotas a cagar na cabeça de arrogantes e presunçosos. É darmos um banho de lixívia aos engravatados distribuidores de paninhos e água quente. É cravarmos malaguetas no umbigo do Dr. Prepotência, e outras, como flechas, no cu que o Dr. Banqueiro tem como cofre. É nunca ficarmos de costas para os traidores que há na vida. É estarmos sempre atentos às manobras do Piloto que elegemos. É sabermos transformar as espadas em arados e as metralhadoras em berbequins. É levarmos os mansos a possuir a terra. É consolarmos os que choram. É saciarmos os que têm fome e sede de justiça. É acreditarmos que, embora Invisível, será ainda possível empurrar o génio do Santo Lucro para dentro da garrafa, como outrora acreditámos que era possível vencer o Hitler, mesmo quando todos, até os nossos filhos, garantiam que ele já era o rei do mundo. _______________________
Carlos Pena Filho
(Recife, 1929 – 1960)
PARA FAZER UM SONETO
Tome um pouco de azul, se a tarde é clara, e espere pelo instante ocasional. Nesse curto intervalo, Deus prepara e lhe oferta a palavra inicial.
Aí, adote uma atitude avara: se você preferir a cor local, não use mais que o sol de sua cara e um pedaço de fundo de quintal.
Se não, procure a cinza e essa vagueza das lembranças da infância, e não se apresse; antes, deixe levá-lo a correnteza.
Mas ao chegar ao ponto em que se tece dentro da escuridão a vã certeza, ponha tudo de lado e então comece.
(O tempo da busca, 1952)
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José Luís Peixoto (Galveias, Ponte de Sôr, 1974)
ARTE POÉTICA
O poema não tem mais que o som do seu sentido, a letra p não é a primeira letra da palavra poema, o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma, poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura de cegos, lê-se mão de criança ou tu, mãe, que dormes e me fizeste nascer de ti para ser palavras que não se escrevem, lê-se país e mar e céu esquecido e memória, lê-se silêncio, sim, tantas vezes, poema lê-se silêncio, lugar que não se diz e que significa, silêncio do teu olhar de doce menina, silêncio ao domingo entre as conversas, silêncio depois de um beijo ou de uma flor desmedida, silêncio de ti, pai, que morreste em tudo para só existires nesse poema calado, quem o pode negar?, que escreves sempre e sempre, em segredo, dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem. o poema não é esta caneta de tinta preta, não é esta voz, a letra p não é a primeira letra da palavra poema, o poema é quando eu podia dormir até tarde nas férias do verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde eu fui feliz e onde eu morri tanto, o poema é quando eu não conhecia a palavra poema, quando eu não conhecia a letra p e comia torradas feitas no lume da cozinha do quintal, o poema é aqui, quando levanto o olhar do papel e deixo as minhas mãos tocarem-te, quando sei, sem rimas e sem metáforas, que te amo, o poema será quando as crianças e os pássaros se rebelarem e, até lá, irá sendo sempre e tudo. o poema sabe, o poema conhece-se e, a si próprio, nunca se chama poema, a si próprio, nunca se escreve com p, o poema dentro de si é perfume e é fumo, é um menino que corre num pomar para abraçar o seu pai, é a exaustão e a liberdade sentida, é tudo o que quero aprender se o que quero aprender é tudo, é o teu olhar e o que imagino dele, é solidão e arrependimento, não são bibliotecas a arder de versos contados porque isso são bibliotecas a arder de versos contados e não é o poema, não é a raiz de uma palavra que julgamos conhecer porque só podemos conhecer o que possuímos e não possuímos nada, não é um torrão de terra a cantar hinos e a estender muralhas entre os versos e o mundo, o poema não é a palavra poema porque a palavra poema é uma palavra, o poema é a carne salgada por dentro, é um olhar perdido na noite sobre os telhados na hora em que todos dormem, é a última lembrança de um afogado, é um pesadelo, uma angústia, esperança. o poema não tem estrofes, tem corpo, o poema não tem versos, tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e incertezas, a letra p não é a primeira letra da palavra poema, a palavra poema existe para não ser escrita como eu existo para não ser escrito, para não ser entendido, nem sequer por mim próprio, ainda que o meu sentido esteja em todos os lugares onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos, o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me olhas, o poema é o teu rosto, eu, eu não sei escrever a palavra poema, eu, eu só sei escrever o seu sentido.
(A Criança em Ruínas)
Às onze chegam o Casimiro de Brito, a Augusta Clara de Matos e o Celso Emilio Ferreiro
Maratona Poética - Chegam Carlos Drummond de Andrade, e o João Rui de Sousa, vêm a acompanhar o William, o Shakespeare
William Shakespeare
(Stratford on Avon 1564-1616)
A rose by any other name would smell as sweet
(Romeo and Juliet )
Juliet:
'Tis but thy name that is my enemy; Thou art thyself, though not a Montague. What's Montague? it is nor hand, nor foot, Nor arm, nor face, nor any other part Belonging to a man. O, be some other name!
What's in a name? that which we call a rose By any other name would smell as sweet; So Romeo would, were he not Romeo call'd, Retain that dear perfection which he owes
Without that title. Romeo, doff thy name, And for that name which is no part of thee Take all myself.
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Carlos Drummond de Andrade (Itabira, 1902 — Rio de Janeiro, 1987)
A FLOR E A NÁUSEA
Preso à minha classe e a algumas roupas, Vou de branco pela rua cinzenta. Melancolias, mercadorias espreitam-me. Devo seguir até o enjoo? Posso, sem armas, revoltar-me'? Olhos sujos no relógio da torre: Não, o tempo não chegou de completa justiça. O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera. O tempo pobre, o poeta pobre fundem-se no mesmo impasse. Em vão me tento explicar, os muros são surdos. Sob a pele das palavras há cifras e códigos. O sol consola os doentes e não os renova. As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase. Vomitar esse tédio sobre a cidade. Quarenta anos e nenhum problema resolvido, sequer colocado. Nenhuma carta escrita nem recebida. Todos os homens voltam para casa. Estão menos livres mas levam jornais e soletram o mundo, sabendo que o perdem. Crimes da terra, como perdoá-los? Tomei parte em muitos, outros escondi. Alguns achei belos, foram publicados. Crimes suaves, que ajudam a viver. Ração diária de erro, distribuída em casa. Os ferozes padeiros do mal. Os ferozes leiteiros do mal. Pôr fogo em tudo, inclusive em mim. Ao menino de 1918 chamavam anarquista. Porém meu ódio é o melhor de mim. Com ele me salvo e dou a poucos uma esperança mínima. Uma flor nasceu na rua! Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego. Uma flor ainda desbotada ilude a polícia, rompe o asfalto. Façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu. Sua cor não se percebe. Suas pétalas não se abrem. nome não está nos livros. É feia. Mas é realmente uma flor. Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde e lentamente passo a mão nessa forma insegura. Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se. Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico. É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
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João Rui de Sousa
(Lisboa, 1928)
OFÍCIO
Conduzo estas palavras que se erguem num alteroso mar onde o que seja a alegria, a dor ou a raiva imiscuída se transforma em árvores ampliadas no arfado crescendo de uma forja, no florescer de regras muito próprias (às vezes descobertas, encontradas, num rio de nudez ou no rumor das ruas e da casa) para o azul das massas levedadas e para os pães de variadas formas (e misturas, fermentos, intenções) com que abro portas, muros e janelas que dão para jardins que nunca acabam.
(De “Enquanto a Noite a Folhagem”).
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Quem vem a seguir? O Fernando Correia da Silva, o Carlos Pena filho e o José Luís Peixoto. Às dez.
A poem should be palpable and mute As a globed fruit
Dumb As old medallions to the thumb
Silent as the sleeve-worn stone Of casement ledges where the moss has grown -
A poem should be wordless As the flight of birds
A poem should be motionless in time As the moon climbs
Leaving, as the moon releases Twig by twig the night-entangled trees,
Leaving, as the moon behind the winter leaves, Memory by memory the mind -
A poem should be motionless in time As the moon climbs
A poem should be equal to: Not true
For all the history of grief An empty doorway and a maple leaf
For love The leaning grasses and two lights above the sea -
A poem should not mean But be __________________
Adão Cruz (Castelões, Vale de Cambra, 1937)
O MEU POEMA AZUL
Não sei fazer uma rosa nem me interessa não sei descer à cidade cantando nem é grande a pena minha. Não sei comer do prato dos outros nem quero não sei parar o fluir dos dias e das noites nem isso me apoquenta não sei recriar o brilho do poema azul... ...e isso dá-me vontade de morrer. Procuro para além das sílabas e dos versos a voz poderosa mais vizinha do silêncio o meu poema azul… o suspiro de Outono onde a brisa se aninha no breve silêncio do perfume do alecrim. Lugar das palavras e dos versos no caminho do teu rosto junto ao rio dos teus olhos onde a vida se faz poema e o mar se deita nos lençóis de luz do fim do dia. Procuro para lá das sílabas e dos versos encontrar meu barco à entrada do mar onde repousa teu corpo entre algas e maresia meu amor perdido num campo de violetas. O meu poema é tudo isto que me vive que me ilude que me prende ao lugar azul que procuro dia e noite por entre os versos do meu ser. Mas o poema mais lindo da minha vida ainda não nasceu não tem asas nem olhos nem sentimento que o traga um dia o vento se vento houver. Dizem que no cimo dos pinheiros ainda é primavera mas tão alto não chego. Mais à mão molho a minha camisa primaveril no regato cristalino que vai correndo por entre os dedos num solo de violino. Porém vestido de tempo sem espaço e de espaço sem tempo tento fundir a neve com o calor da nudez em versos que tecem mais tarde ou mais cedo o mundo das sombras. Não sei colher uma rosa nem sei descer à cidade cantando sou apenas aquele que ontem dormiu sobre um poema azul e das asas da ilusão se desprendeu. Sou aquele que ontem se despia nos braços do poema que vivia. Sou aquele que ontem habitava em silêncio o poema que acontecia. Sou aquele que ontem sonhou… em vão… com o poema azul de mais um dia.
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Manuel Alegre (Águeda, 1936)
AS PALAVRAS
Palavras tantas vezes perseguidas palavras tantas vezes violadas que não sabem cantar ajoelhadas que não se rendem mesmo se feridas.
Palavras tantas vezes proibidas e no entanto as únicas espadas que ferem sempre mesmo se quebradas vencedoras ainda que vencidas.
Palavras por quem eu já fui cativo na língua de Camões vos querem escravas palavras com que canto e onde estou vivo.
Mas se tudo nos levam isto nos resta: estamos de pé dentro de vós palavras. Nem outra glória há maior do que esta.
(De “O Canto e as Armas”).
Mário Viegas e a sua excelente tcnica de declamação neste poema de Manuel Alegre:
Vêm aí Carlos Drummond de Andrade, João Rui de Sousa,, mas trazem um tipo com uma roupa estranha - olha é o William, o Shakespeare - contem com eles às nove.
Maratona Poética - A Rosa Alice Branco traz "só" o Carlos de Oliveira e o Verlaine.
Rosa Alice Branco
(Aveiro, 1950)
ARTE POÉTICA
Gostaria de começar com uma pergunta ou então com o simples facto das rosas que daqui se vêem entrarem no poema. O que é então o poema? um tecido de orifícios por onde entra o corpo sentado à mesa e o modo como as rosas me espreitam da janela? Lá fora um jardineiro trabalha, uma criança corre, uma gota de orvalho acaba de evaporar-se e a humidade do ar não entra no poema. Amanhã estará murcha aquela rosa: poderá escolher o epitáfio, a mão que a sepulte e depois entrar num canteiro do poema, enquanto um botão abre em verso livre lá fora onde pulsa o rumor do dia. O que são as rosas dentro e fora do poema? Onde estou eu no verso em que a criança se atirou ao chão cansada de correr? E são horas do almoço do jardineiro! Como se fosse indiferente a gota de orvalho ter ou não entrado no poema!
(Soletrar o Dia. Obra Poética, 2002)
Carlos de Oliveira (Belém do Pará, 1921 — Lisboa, 1981) MICROPAISAGEM
(…)
5) O trabalho oficinal é o fulcro sobre que tudo gira. Mesa, papel, caneta, luz eléctrica. E horas sobre horas de paciência, consciência profissional. Para mim esse trabalho consiste quase sempre em alcançar um texto muito despojado e deduzido de si mesmo, o que me obriga por vezes a transformá-lo numa meditação sobre o seu próprio desenvolvimento e destino. É o caso da “Micropaisagem”. Um texto diante do espelho: vendo-se, pensando-se.
6) Escrevo com frequência interpretações doutros poetas. Perguntam-me porquê. Respondo precisamente citando um poeta: “J’imite. Tout le monde imite, tout le monde ne le dit pas” (Aragon). Porém os poetas nestas coisas não devem ser tomados muito à letra. Quem não sabe ainda que o poeta é um fingidor?
(“O Aprendiz de Feiticeiro”)
Paul Verlaine (Metz,1844 - Paris, 1896)
ART POÉTIQUE
De la musique avant toute chose, Et pour cela préfère l'Impair Plus vague et plus soluble dans l'air, Sans rien en lui qui pèse ou qui pose.
Il faut aussi que tu n'ailles point Choisir tes mots sans quelque méprise: Rien de plus cher que la chanson grise Où l'Indécis au Précis se joint.
C'est des beaux yeux derrière des voiles, C'est le grand jour tremblant de midi, C'est, par un ciel d'automne attiédi, Le bleu fouillis des claires étoiles!
Car nous voulons la Nuance encor, Pas la Couleur, rien que la nuance! Oh! la nuance seule fiance Le rêve au rêve et la flûte au cor!
Fuis du plus loin la Pointe assassine, L'Esprit cruel et le Rire impur, Qui font pleurer les yeux de l'Azur, Et tout cet ail de basse cuisine!
Prends l'éloquence et tords-lui son cou! Tu feras bien, en train d'énergie, De rendre un peu la Rime assagie. Si l'on n'y veille, elle ira jusqu'où?
O qui dira les torts de la Rime? Quel enfant sourd ou quel nègre fou Nous a forgé ce bijou d'un sou Qui sonne creux et faux sous la lime?
De la musique encore et toujours! Que ton vers soit la chose envolée Qu'on sent qui fuit d'une âme en allée Vers d'autres cieux à d'autres amours.
Que ton vers soit la bonne aventure Eparse au vent crispé du matin Qui va fleurant la menthe et le thym... Et tout le reste est littérature.
Para ver e ouvir «Art poétique» de Paul Verlaine e Léo Ferré, cantado por Léo Ferré:
E agora, quem se segue? -Archibald Mac Leish, Adão Cruz e Manuel Alegre- às oito em ponto.
Maratona Poética - Olha, o Manuel Simões traz o João Cabral de Melo Neto e o Salvador Espriu
Manuel Simões
(Jamprestes, Ferreira do Zêzere, 1933)
TEORIA DA COMPOSIÇÃO
O artífice imerge As mãos na matéria Avulsa a transformar.
Sem artifício investe o próprio corpo no acto preciso de plasmar.
Do ofício extremo Resta o resíduo: densa e intensa arte de amar.
(Micromundos, Lisboa, 2005)
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João Cabral de Melo Neto (Rio de Janeiro, 1920-1999)
CATAR FEIJÃO 1.
Catar feijão se limita com escrever: joga-se os grãos na água do alguidar e as palavras na folha de papel; e depois, joga-se fora o que boiar. Certo, toda palavra boiará no papel, água congelada, por chumbo seu verbo: pois para catar esse feijão, soprar nele, e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
2.
Ora, nesse catar feijão entra um risco: o de que entre os grãos pesados entre um grão qualquer, pedra ou indigesto, um grão imastigável, de quebrar dente. Certo não, quando ao catar palavras: a pedra dá à frase seu grão mais vivo: obstrui a leitura fluviante, flutual, açula a atenção, isca-a como o risco.
(A Educação pela pedra, 1965).
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Salvador Espriu (Santa Colomba de Farners,1913 - Barcelona, 1985)
LES PARAULES
Hi ha tristesa darrera les paraules, lents carros en corrua que porten runa de tu, molt tedi de tarda de diumenge, temor de dany. Se’t tanquen llibres i amics, els llavis de les coses. Malèvols aprenents d’homes grisos t’encalcen per difícils retorns a Déu. Intentes amagar-te ben dintre del teu hivern, on puguis amb tants records encendre l’últim foc. Després mires amb ulls ja buits i penses a dormir. Però encara, a les palpentes, vénen ferida porcellana, nocturna seda, i trenques, des d’una aigua profunda, veus d’oblidats, intacte vidre vell de paraules.
Ouçamos agora Raimon cantar um outro poema de Salvador Espriu: "He mirat aquesta terra"
Sabem quem chega às sete? - Rosa Alice Branco que traz "só" o Carlos de Oliveira e o Paul Verlaine.
Maratona Poética - Jean-Paul Sartre dá passagem a António Sales, Miguel Torga e Natália Correia, acabam de chegar,
Jean-Paul Sartre
(Paris,1905 -1980)
OS POETAS
Os poetas são homens que se recusam a utilizar a linguagem. Dado que é com e pela linguagem, concebida como uma espéie de instrumento que se pratica a busca da verdade, não é preciso imaginar que eles procurem descobrir o que é verdadeiro ou expô-lo. (...) Se o poeta conta, explica ou demonstra, a poesia torna-se prosaica; o poeta perdeu a partida.
(O que é a Literatura)
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António Sales (Torres Vedras, 1936)
LETRAS
De letras compõem-se as palavras, letras de muitas línguas muitos mundos. Sementes rituais de cores inebriantes, também ervas daninhas, amargas, soluçantes.
De letras grandes e pequenas fabricam-se as palavras, com pernas e sem pernas, gordas, magras, altas, baixas, todas elas, porém, prontas a marchar.
Umas redondas, meigas, esculpidas de beleza perdidas de paixão, arrebatadas. Letras obesas sebosas e servis, castradas de carácter pobres e imbecis.
Há letras de chorar e letras de sonhar, luminosas alegres de encantar, brilhantes como estrelas de mãos dadas a bailar.
Ai letras minhas queridas letras! Semeiam palavras orvalhadas de sol.
Miguel Torga
(São Martinho de Anta, Sabrosa, 1907 — Coimbra, 1995)
ARTE POÉTICA
Fecho os olhos e avanço. E começa o poema. Rodeiam-me os fantasmas Fugidios Dos versos que persigo. A regra é caminhar E chegar sem saber. De tal modo é cruzada A encruzilhada Onde o milagre pode acontecer.
Mas sendo, como é, de cabra-cega O jogo, E é um destino jogá-lo, É sempre incerto que o principio. Tacteio no vazio Da expressão, Vou seguindo Seguindo, E ganho quando sinto a salvação No próprio gosto de me ir iludindo.
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Natália Correia (Fajã de Baixo, São Miguel, 1923 — Lisboa, 1993)
A DEFESA DO POETA
Senhores jurados sou um poeta um multipétalo uivo um defeito e ando com uma camisa de vento ao contrário do esqueleto
Sou um vestíbulo do impossível um lápis de armazenado espanto e por fim com a paciência dos versos espero viver dentro de mim
Sou em código o azul de todos (curtido couro de cicatrizes) uma avaria cantante na maquineta dos felizes
Senhores banqueiros sois a cidade o vosso enfarte serei não há cidade sem o parque do sono que vos roubei
Senhores professores que pusestes a prémio minha rara edição de raptar-me em crianças que salvo do incêndio da vossa lição
Senhores tiranos que do baralho de em pó volverdes sois os reis sou um poeta jogo-me aos dados ganho as paisagens que não vereis
Senhores heróis até aos dentes puro exercício de ninguém minha cobardia é esperar-vos umas estrofes mais além
Senhores três quatro cinco e sete que medo vos pôs na ordem ? que pavor fechou o leque da vossa diferença enquanto homem ?
Senhores juízes que não molhais a pena na tinta da natureza não apedrejeis meu pássaro sem que ele cante minha defesa
Sou uma impudência a mesa posta de um verso onde o possa escrever ó subalimentados do sonho ! a poesia é para comer.
Num serão em casa de Amália Rodrigues, com a presença da anfitriã e de Vinicius de Moraes, David Mourão-Ferreira; José Carlos Ary dos Santos, Natália Correia decalmou "A defesa do poeta". Eis a gravação:
Às seis, chegam Manuel Simões, João Cabral de Melo Neto e Salvador Espriu.
ARTE POÉTICA (ou A Espístola aos Pisões) - fragmentos
Tomai um assunto, vós que escreveis, proporcional às vossas forças. Avaliai longamente o que os ombros ferrenhamente recusam e o que podem. A quem escolheu conforme suas forças, nem a eloqüência o abandonará, nem a ordem clara. Consistirá a força e a beleza da ordem, ou estou enganado, em que o autor do poema anunciado diga agora as coisas que agora devem ser ditas, muitas outras adie e omita no momento, ame isso, despreze aquilo.
Delicado e cauto também ao juntar palavras, te expressarás distintamente se, por combinação engenhosa, uma palavra conhecida produzir uma nova. Se casualmente for necessário mostrar o oculto da coisas com revelações novas, e acontecer de se criar coisas nunca ouvidas pelos Cétegos cintudos, permissão será dada, se usada com reserva, e as palavras inventadas ainda novas terão crédito se, derivadas com discrição, caírem de fonte grega. Concederá, pois, o romano a Cecílio e Plauto o que foi proibido a Virgílio e Vário ? Eu, por que sou invejado, se poucas coisas posso obter, quando a linguagem de Catão e Ênio enriqueceu a língua pátria e exibiu novos nomes de coisas?
Sempre foi e será permitido criar um nome assinalado com marca do presente. Como as florestas são transformadas por suas folhas com o passar dos anos, caindo as mais velhas, assim se perde a geração antiga das palavras e, como os jovens, florescem as nascidas há pouco e vingam.
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Nuno Júdice (Mexilhoeira Grande, 1949)
ARTE POÉTICA COM CITAÇÃO DE HÖLDERLIN
O poema lírico nasceu de uma roseira. Não digo que fosse a rosa de cima, aquela que todos olham, primeiro que tudo, pensando em cortá-la para a levarem consigo. É a rosa nem branca nem vermelha, a rosa pálida, vestida com a substância da terra a que toma a cor dos olhos de quem a fixa, por acaso, e ela agarra, como se tivesse mãos abstractas por dentro das suas folhas. Colhi esse poema. Meti-o dentro de água, como a rosa, para que flutuasse ao longo de um rio de versos. O seu corpo, nu como o dessa mulher que amei num sonho obscuro, bebeu a seiva dos lagos, os veios subterrâneos das humidades ancestrais, e abriu-se como o ventre da própria flor. Levou atrás de si os meus olhos, num barco tão fundo como a sua própria morte.
Abracei esse poema. Estendi-o na areia das margens, tapando a sua nudez com os ramos de arbustos fluviais. Arranquei os botões que nasciam dos seus seios, bebendo a sua cor verde como os charcos coalhados do outono. Pedi-lhe que me falasse, como se ele só ainda soubesse as últimas palavras do amor.
(Metáfora contínua de um único sentimento). _____________________________
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Jorge Luis Borges (Buenos Aires, 1899 — Genebra, 1986) ARTE POÉTICA
Mirar el río hecho de tiempo y agua Y recordar que el tiempo es otro río, Saber que nos perdemos como el río Y que los rostros pasan como el agua. Sentir que la vigilia es otro sueño Que sueña no soñar y que la muerte Que teme nuestra carne es esa muerte De cada noche, que se llama sueño. Ver en el día o en el año un símbolo De los días del hombre y de sus años, Convertir el ultraje de los años En una música, un rumor y un símbolo, Ver en la muerte el sueño, en el ocaso Un triste oro, tal es la poesía Que es inmortal y pobre. La poesía Vuelve como la aurora y el ocaso. A veces en las tardes una cara
Nos mira desde el fondo de un espejo; El arte debe ser como ese espejo Que nos revela nuestra propia cara. Cuentan que Ulises, harto de prodigios, Lloró de amor al divisar su Itaca Verde y humilde. El arte es esa Itaca De verde eternidad, no de prodigios. También es como el río interminable Que pasa y queda y es cristal de un mismo Heráclito inconstante, que es el mismo Y es otro, como el río interminable.
Ouçamos o próprio Borges declamando este poema:
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Vêm aí, às cinco em ponto, António Sales, Miguel Torga e Natália Correia.
Maratona Poética - Abu Tamman conduz Adília Lopes, Manuel Maria, Florbela Espanca (com o Luís Represas)
Abu Tammam (actual Síria,,788-845)
A POESIA
A glória sem a poesia é uma terra vazia, sem referências. São as palavras dos poetas que cobrem a seu talante de alegria ou de vergonha o rosto dos homens.
Transformam a insensatez em sabedoria e julgam, de acordo com a sua sentença, o que é injustiça ou opressão.
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Manuel Maria
(Outeiro de Rei, 1929 — Corunha, 2004)
A PALAVRA
Nós, de verdade, unicamente temos
a palavra. Só a palavra verdadeira
pode traduzir a fecha
e insondável soidade do nosso ser.
Só a palavra. A própria.
A que pertence à nossa língua.
A que amamos. A que usa,
conhece e reconhece a nossa gente.
Sem a palavra seria a pobreza,
a miséria total, a impotência
a escuridade e o nom ser.
Mas hai quem manipula, força,
retorce, desfai e prostitui
o autêntico senso da palavra.
Hai quem mente. E ainda hai
o frio, feroz assassino da palavra".
(A Luz Ressuscitada_. Corunha: Associaçom Galega da Língua. Carta-Prefácio e edição de António Gil) ________________________________
Adília Lopes (Lisboa, 1960)
ARTE POÉTICA
Escrever um poema é como apanhar um peixe com as mãos nunca pesquei assim um peixe mas posso falar assim sei que nem tudo o que vem às mãos é peixe o peixe debate-se tenta escapar-se escapa-se eu persisto luto corpo a corpo com o peixe ou morremos os dois ou nos salvamos os dois tenho de estar atenta tenho medo de não chegar ao fim é uma questão de vida ou de morte quando chego ao fim descubro que precisei de apanhar o peixe para me livrar do peixe livro-me do peixe com o alívio que não sei dizer
(Um jogo bastante perigoso. Lisboa:, 1985).
Florbela Espanca
SER POETA
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior Do que os homens! Morder como quem beija! É ser mendigo e dar como quem seja Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor E não saber sequer que se deseja! É ter cá dentro um astro que flameja, É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito! Por elmo, as manhãs de oiro e cetim… É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente… É seres alma e sangue e vida em mim E dizê-lo cantando a toda a gente!
(«Charneca em Flor», in «Poesia Completa»)
Luís Represas em espectáculo em 1988 no Campo Pequeno, canta SER POETA:
Às quatro, antecedidos do texto de Horácio, vêm os poemas de Nuno Júdice, Salvador Espriu e Jorge Luís Borges.
Maratona Poética - chegam agora Nicolas Boileau,José Saramago, Josep Anton Vidal e Hélia Correia. Ah, e vem também o José Jorge Letria.
Nicolas Boileau-Despréaux
(Paris, 1636 – 1711)
A ARTE DE ESCREVER (fragmento)
Há certos espíritos cujos sombrios pensamentos São como nuvem espessa, sempre emaranhados, O dia da razão não saberia atravessá-la. Antes, pois, de escrever, aprendam a pensar. Conforme a nossa ideia é mais ou menos escura Assim a expressão, ou menos nítida ou mais pura. O que se concebe bem exprime-se claramente, E as palavras para o dizer chegam facilmente. (...) Gosto mais dum riacho que sobre a macia areia Num prado cheio de flores lentamente passeia, Do que duma torrente transbordante, tempestuosa, Correndo cheia de pedras, em terreno lamacento. Acelerem lentamente e sem perder coragem, Vinte vezes empreendam a vossa obra: Limpem-na sem cessar e tornem a limpá-la; Acrescentem algumas vezes mas outras eliminem.
("Art Poétique", 1674)
José Saramago
(Azinhaga, Golegã, 1922 — Tías, Lanzarote, 2010)
ARTE POÉTICA
Vem de quê o poema? De quanto serve A traçar a esquadria da semente: Flor ou erva, floresta e fruto. Mas avançar um pé não é fazer jornada, Nem pintura será a cor que não se inscreve Em acerto rigoroso e harmonia. Amor, se o há, com pouco se conforma Se, por lazeres de alma acompanhada, Do corpo lhe bastar a presciência.
Não se esquece o poema, não se adia, Se o corpo da palavra for moldado Em ritmo, segurança e consciência.
(Os Poemas Possíveis)
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Josep Anton Vidal
(Barcelona, 1945 )
MOT A MOT
Veus l'horitzó i dius lluny, sents l'aire i dius presència, sents la pluja i dius vida; veus la mar, dius remor, veus els ulls d'un infant i dius tendresa, veus la dona que infanta i dius dolor i amor, i dius misteri; veus l'home i dius paraula, veus el pa i dius suor, sents el vol d'un insecte i dius silenci, mires els ulls del vell i dius record. Veus els camins que han obert les petjades i dius somnis i afanys i llibertat... Veus el cel i dius tot i inabastable, veus la volta estelada de la nit i dius inconegut, dius infinit, i dius immensitat, etern, petit... Sents que et batega el cor i dius esforç, dius coratge, dius lluita i ideals... Et veus sol, i abatut, i miserable, i dius jo, i dius tu, i dius nosaltres... I veus les ombres créixer en el ponent del dia i dius temps, i dius mort.
Així, mot rere mot, neix el poema –allunyada presència, sorda remor de vida–, il•lusió fugaç d'un món travat i fet, un univers complet –i irreal, tanmateix– on cada mot ocupa - vençut i dòcil, pulcre - el lloc que li pertoca en un ordre aparent...
[La tendresa, l'amor, el dolor i el misteri, el treball, la paraula, el silenci, el record, els somnis i els afanys, la llibertat. I el tot, inabastable. I el plural, impossible, del jo, del tu, de l'altre. I l'esforç obstinat, les idees, la història –tanta sang, tants deliris, tants i tants crims, tants plors, tantes vides desfetes per somnis miserables, tants reis i tants messies, tants profetes i augurs, tantes fes, tantes pors, tanta i tanta pregària, tantes paraules buides, tants destins, tans amors, tants camins que s'encreuen i tanta solitud, tants savis, tants poetes, tants senyors i tants déus–]
...per teixir i desteixir sentits contra l'absurd, per merèixer aquest temps d'atzar que en diem vida, per ofegar el dolor de ser com som –mesquins, inconsistents, fràgils, impurs– i guanyar, mot a mot, la dignitat de viure.
PALAVRA A PALAVRA (versão em português de Carlos Loures)
Fitas o horizonte e dizes longe, aspiras o ar e dizes presença, sentes a chuva e dizes vida; vês o mar, dizes rumor, vês os olhos de uma criança e dizes ternura, vês a mulher parir e dizes dor e amor, e dizes mistério; vês o homem e dizes palavra, vês o pão e dizes suor, ouves o voo do insecto e dizes silêncio, fitas os olhos de um velho e dizes recordação. Vês os caminhos abertos pelos passos e dizes sonhos e desejos e liberdade… Vês o céu e dizes todo e inatingível, vês a abóbada estrelada da noite e dizes ignorado, dizes infinito, e dizes imensidão, eterno, pequeno… Ouves bater o teu coração e dizes esforço, dizes coragem, luta e ideais… Vês-te só, abatido e miserável, e dizes eu, e dizes tu e dizes nós… E vês as sombras crescer ao pôr-do-sol e dizes tempo e dizes morte.
Assim, de palavra em palavra, nasce o poema – longínqua presença, surdo rumor de vida – fugaz ilusão de um mundo feito e acabado, um universo completo – e contudo irreal – no qual cada palavra ocupa - vencida e dócil o lugar que lhe cabe numa ordem aparente…
(A ternura, o amor, a dor e o mistério, o trabalho, a palavra, o silêncio, a recordação, os sonhos e os anseios, a liberdade. E o todo, inatingível. E o plural, impossível, do eu, do tu, do outro. E o esforço obstinado, as ideias, a história – tanto sangue, tantas quimeras, tantos e tantos crimes, tanto pranto, tantas vidas desfeitas por sonhos miseráveis, tantos reis e tantos messias, tantos profetas e augures, tantas fés, tantos medos, tanta e tanta prece, tantas palavras vazias, tantos destinos, tantos amores, tantos caminhos que se cruzam e tanta solidão, tantos sábios, tantos poetas, tantos senhores e tantos deuses.)
… para tecer e destecer sentidos contra o absurdo, para merecer este tempo de acaso a que chamamos vida para afogar a dor de ser como somos – mesquinhos, inconsistentes, cobardes, impuros – e ganhar, palavra a palavra, a dignidade de viver. ___________________
Hélia Correia
(Lisboa, 1949)
ARTE POÉTICA
Que o poema tenha carne ossos vísceras destino que seja pedra e alarme ou mãos sujas de menino. Que venha corpo e amante e de amante seja irmão que seja urgente e instante como um instante de pão.
Só assim será poema só assim terá razão só assim te vale a pena passá-lo de mão em mão.
Que seja rua ou ternura tempestade ou manhã clara seja arado e aventura fábrica terra e seara.
Que traga rugas e vinho berços máquinas luar que faça um barco de pinho e deite as armas ao mar.
Só assim será poema só assim terá razão só assim te vale a pena passá-lo de mão em mão.
Com música de sua autoria, José Jorge Letria canta este poema de Hélia Correia no Coliseu de Lisboa em 2009
E às três horas, Abu Tamman traz consigo Adília Lopes, Manuel Maria e Florbela Espanca (com o Luís Represas)
Maratona poética - - Aí estão Sílvio Castro, Sophia de Mello Breyner Andresen e Pablo Neruda.
Sílvio Castro (Laranjais, Rio de Janeiro, 1931)
O POEMA E SEUS SENTIDOS
(exercício de falso soneto de versos brancos)
Não cinco, mais que seis sentidos são todas as linhas primárias do poema nascente no tempo e em seu espaço de claridade onde sempre escorre.
O primeiro fulgor todo indistinto, mas lampejante como a certeza do encoberto caminho pressentido, logo ilumina o vagar da luz insone.
Fulgor caminho corrida e luz concorrem unidos no espaço aberto como nuvens ácidas doces verdes.
Tudo se recolhe no edifício de abertas janelas ao verdor de um tempo túrgido de amor romã e aroma.
Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 1919- LIsboa, 2004)
ARTE POÉTICAV
Na minha infância, antes de saber ler, ouvi recitar e aprendi de cor um antigo poema tradicional português, chamado ‘Nau Catrineta’. Tive assim a sorte de começar pela tradição oral, a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a literatura. Eu era de facto tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio. Pensava também que, se conseguisse ficar completamente imóvel e muda em certos lugares mágicos do jardim, eu conseguiria ouvir um desses poemas que o próprio ar continha em si. No fundo, toda a minha vida tentei escrever esse poema imanente. E aqueles momentos de silêncio no fundo do jardim ensinaram-me, muito tempo mais tarde, que não há poesia sem silêncio, sem que se tenha criado o vazio e a despersonalização. Um dia em Epidauro – aproveitando o sossego deixado pelo horário do almoço dos turistas –coloquei-me no centro do teatro e disse em voz alta o princípio de um poema. E ouvi, no instante seguinte, lá no alto, a minha própria voz, livre, desligada de mim. Tempos depois, escrevi estes trêsversos: “A voz sobe os últimos degraus/ Oiço a palavra alada impessoal/ Que reconheço por não ser já minha”.
(De “Ilhas”).
Pablo Neruda (Parral, 1904- Santiago do Chile, 1973)
ARTE POÉTICA
Entre sombra y espacio, entre guarniciones y doncellas, dotado de corazón singular y sueños funestos, precipitadamente pálido, marchito en la frente y con luto de viudo furioso por cada día de vida, ay, para cada agua invisible que bebo soñolientamente y de todo sonido que acojo temblando, tengo la misma sed ausente y la misma fiebre fría un oído que nace, una angustia indirecta, como si llegaran ladrones o fantasmas, y en una cáscara de extensión fija y profunda, como un camarero humillado, como una campana un poco ronca, como un espejo viejo, como un olor de casa sola en la que los huéspedes entran de noche perdidamente ebrios, y hay un olor de ropa tirada al suelo, y una ausencia de flores -posiblemente de otro modo aún menos melancólico-, pero, la verdad, de pronto, el viento que azota mi pecho, las noches de substancia infinita caídas en mi dormitorio, el ruido de un día que arde con sacrificio me piden lo profético que hay en mí, con melancolía y un golpe de objetos que llaman sin ser respondidos hay, y un movimiento sin tregua, y un nombre confuso.
E vamos ter o privilégio de ouvir este poema dito pelo autor:
Às duas em ponto, chegam, além de Nicolas Boileau, José Saramago, Josep Anton Vidal e Hélia Correia.
Maratona poética - Pessoa, Aristóteles e Manuel Bandeira, são os primeiros.
AUTOPSICOGRAFIA
O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda Gira, a entreter a razão, Esse comboio de corda Que se chama coração.
Com este poema de Fernando Pessoa (sob o heterónimo de Bernardo Soares), superiormente dito pelo grande actor brasileiro Paulo Autran, declaramos solenemente aberta a I Maratona Poética do Estrolabio
Aristóteles e Manuel Bandeira completam o trio com que a inauguramos:
Aristóteles (Séc. IV a.C.)
ORIGEM DA POESIA
Parece haver, em geral, duas causas, e duas causas naturais, na génese da Poesia. Uma é que imitar é uma qualidade congénita nos homens, desde a infância (e nisso diferem dos outros animais, em serem os mais dados à imitação e em adquirirem, por meio dela, os seus primeiros conhecimentos); a outra, que todos apreciam as imitações.
Prova disto é o que se passa na realidade. Daquilo mesmo que vemos com desagrado, apreciamos contemplar a imagem muito exacta, como, por exemplo, as formas dos animais mais desprezíveis e dos cadáveres.
Outro motivo ainda é que aprender é muito agradável, não só aos filósofos, mas aos outros homens igualmente.Porém, curta é a parte que nela têm. Por isso se regozijam, ao verem as imagens, porque têm oportunidade de aprender enquanto observam, e de compreender o que cada uma representa, por exemplo, que este assim e assim é fulano. Se se der o caso de a não terem visto anteriormente, já não é a imitação que provoca o prazer, mas a execução, o colorido, ou qualquer outro motivo neste género.
Ora, como é natural em nós a imitação, a harmonia e o ritmo (pois é evidente que os metros são partes dos ritmos), de início, os que nasceram para isso, progredindo aos poucos, criaram a Poesia, a partir dos seus improvisos.
(“Poética”, 1448 b, tradução de Maria Helena da Rocha Pereira).
Manuel Bandeira
(Recife 1886-Rio de Janeiro 1968)
POÉTICA
Estou farto do lirismo comedido Do lirismo bem comportado Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor. Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo. Abaixo os puristas Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis Estou farto do lirismo namorador Político Raquítico Sifilítico De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo De resto não é lirismo Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc. Quero antes o lirismo dos loucos O lirismo dos bêbados O lirismo difícil e pungente dos bêbedos O lirismo dos clowns de Shakespeare - Não quero mais saber do lirismo que não é libertação
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Daqui a uma hora, chegam mais três maratonistas - Sílvio Castro, Sophia de Mello Breyner Andresen e Pablo Neruda