Terça-feira, 31 de Agosto de 2010
Hoje falei com o Sérgio Godinho
Manuela Degerine

Não pertenci à categoria de adolescentes que cobria as paredes do quarto com imagens dos ídolos. Eu naquela época escrevia poemas-de-álvaro-de-campos ao quilómetro e à compita com a Ana Rodrigues; uma amiga. Reuníamo-nos para ler uma à outra as respectivas obras que achávamos quase tão geniais como as do Poeta. (Anos mais tarde, os textos pareceram-me insuportáveis e, talvez por revelarem, de maneira ingénua e sincera, facetas que preferia ignorar, deitei-os no lixo – o que agora lamento.)

Naquele tempo tão distante que sinto tentações de empregar o latim, in illo tempore cheguei a ter na mão uma fotografia de Fernando Pessoa porém, em vez de a pregar na madeira da estante, o primeiro impulso – arrumei-a numa gaveta. É que, então, para mim, o poeta futurista não se podia confundir com aquele bisavô de chapéu. O Álvaro de Campos continuava a ter constipações e dúvidas metafísicas, era meu contemporâneo e, compreendo agora, por me falar de mim, não podia ter rosto.

Descobri na mesma época as canções de Sérgio Godinho. Perguntará o leitor: qual a relação?... Pois: tal como o Álvaro de Campos, o Sérgio Godinho emprestou-me palavras para a conquista de mim. As suas canções dizem a poesia, a revolta, o amor, a liberdade... Traçam um percurso que, não raras vezes, se cruzou com o meu.

Ouvir uma canção, ler um poema ou um romance, é entrar em colisão com a singularidade de um autor, por isso todos vivemos grandes paixões com os nossos autores preferidos. Durante a adolescência o meu coração balançou muito entre o Álvaro de Campos e o Sérgio Godinho; comparados com eles, os colegas do liceu diziam-me frases bem triviais...

Cresci. Não tanto como pode parecer; mas passei a distinguir a poesia da interacção com os outros. Alguns rapazes começaram a aguentar o peso as comparações, aprendi que ninguém, nem o Álvaro de Campos, poeta futurista e tudo, detém o monopólio do génio, vi-me a aprender o peso ou o sentido da vida, por vezes, nas revelações de homens e mulheres iletrados.

Fui viver para França, os anos sucederam-se; continuei a ouvir o Sérgio Godinho. Nunca assisti a espectáculos pois, sempre que havia algum, não me encontrava em Lisboa. Até que, no princípio do mês de Junho de 2010, um dia, estava a lavar a loiça – e, quando estou na cozinha, costumo ouvir rádio. De súbito entrevistam a Inês Pedrosa, oiço-a expor o programa comemorativo do nascimento de Fernando Pessoa, 10 de Junho; e anunciar um espectáculo de Sérgio Godinho.

Vim, claro. Encontro-me de pé. Desligaram a iluminação na rua Coelho da Rocha e produzem os habituais cenários de luz colorida. Aos quais se juntam aqui, de vez em quando, os pássaros luminosos que, com luzes azuis e vermelhas, piscam acima do palco antes de se poisarem nas pistas do aeroporto. Nunca mais fixarei os aviões com o olhar de antigamente... Depois de me dar palavras de força e rebeldia, o cantor oferece-me esta beleza escondida no quotidiano. (A realidade é o modo como olhamos para a realidade; e um artista verdadeiro, pintor, escritor, cantor, revela-nos de maneira nova o que já pensávamos conhecer.)

Os outros espectadores cantam as canções com Sérgio Godinho. Eu sinto-me demasiado comovida para poder cantar. Se cantar, chorarei – e será ridículo. Tenho os olhos e as orelhas do tamanho dos pássaros que voam por cima do palco. Para além do autor e intérprete que conheço, este cantor tem 40 anos de profissionalismo e de cumplicidade com o público: é na verdade um grande espectáculo.

Nunca desejei aproximar-me das pessoas que os cantores ou autores também são. Aliás o encontro casual com alguns tem-me confirmado o que sei: põem o melhor de si no trabalho publicado. E, como vivemos numa sociedade que difunde – às vezes – estas obras, se as encontro, compro-as, leio-as, oiço-as... Não preciso de mais nada.

No tempo em que ainda ia à praia, isto é, há muitos anos, estive numa a poucos metros de distância de Sérgio Godinho; evidentemente: não o importunei com a minha admiração.

E hoje... Eu saía do MNAA e tinha ido buscar a bicicleta que, enquanto eu participava numa visita guiada das tapeçarias de Pastrana, ficara presa a um poste, por o museu não dispor de espaço ad hoc, depois subi a pé a Rua das Janelas Verdes para voltar à ciclovia na beira do Tejo. Vi chegar em sentido contrário dois peões que, naquela rua, costumam ser turistas; e, como é natural, por ocupar muito espaço com a bicicleta ao meu lado, quando passavam por mim, colei-me à parede:

- Faz favor...

- Deixe estar!

Era o Sérgio Godinho.




publicado por Carlos Loures às 23:55
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Amanhã, às 22:30, iniciamos a publicação de "António Botto no Brasil", de António Sales





Cartas devolvidas, poema de António Botto declamado por Luís Gaspar

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publicado por Carlos Loures às 22:30
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Boaventura de Sousa Santos no Estrolabio - Os EUA estão doentes

Em sentido metafórico, a sociedade norte-americana está doente por muitas razões. Há mais de trinta de anos passo alguns meses por ano nos EUA e tenho vindo a observar uma acumulação progressiva de “doenças”, mas não é delas que quero escrever hoje. Hoje escrevo sobre doença no sentido literal e faço-o a propósito da reforma do sistema de saúde em discussão final no Congresso. As lições desta reforma para o nosso país são evidentes. Os EUA são o único país do mundo desenvolvido em que a saúde foi transformada em mercadoria e o seu provimento entregue ao mercado privado das seguradoras. Os resultados são assustadores. Gastam por ano duas vezes mais em despesas de saúde que qualquer outro país desenvolvido e, apesar disso, 49 milhões de cidadãos não têm qualquer seguro de saúde e 45 mil morrem por ano por falta dele. Mais, a cada passo surgem notícias aterradoras de pessoas com doenças graves a quem as seguradoras cancelam os seguros, a quem recusam pagar tratamentos que lhes poderiam salvar a vida ou a quem recusam vender o seguro por serem conhecidas as suas “condições pré-existentes”, ou seja, a probabilidade de virem necessitar de cuidados de saúde dispendiosos no futuro.



A perversidade do sistema reside em que os lucros das seguradoras são tanto maiores quanto mais gente da classe média baixa ou trabalhadores de pequenas e médias empresas são excluídos, ou seja, grupos sociais que não aguentam constantes aumentos dos prémios de seguro que nada têm a ver com a inflação. No meio de uma grave crise económica e alta taxa de desemprego, a seguradora Anthem Blue Cross – que no ano passado a declarou um aumento de 56% nos seus lucros – anunciou há semanas uma subida de 39% nos prémios na Califórnia, o que provocaria a perda do seguro a 800.000 pessoas. A medida foi considerada criminosa e escandalosa por alguns membros do Congresso.



Por todas estas razões, há um consenso nos EUA de que é preciso reformar o sistema de saúde, e essa foi uma das promessas centrais da campanha de Barack Obama. A sua proposta assentava em duas medidas principais: criar um sistema público, financiado pelo Estado, que, ainda que residual, pudesse dar uma opção aos que não conseguem pagar os seguros; regular o sector de modo que os aumentos dos prémios não pudessem ser decididos unilateralmente pelas seguradoras. Há um ano que a proposta de lei tramita no Congresso e não é seguro que a lei seja aprovada até à Páscoa, como pede o Presidente. Mas a lei que virá a ser aprovada não contém nenhuma das propostas iniciais de Obama. Pela simples razão de que o lobbying das seguradoras gastou 300 milhões de euros para pagar aos congressistas encarregados de elaborar a lei (para as suas campanhas, para as suas causas e, afinal, para os seus bolsos). Há seis lobbyistas da área de saúde registados por cada membro do Congresso. Lobbying é a forma legal do que no resto do mundo se chama corrupção. A proposta, a ser aprovada, está de tal modo desfigurada que muitos sectores progressistas (ou seja, sectores um pouco menos conservadores) pensam que seria melhor não promulgar a lei. Entre outras coisas, a lei “entrega” às seguradoras cerca de 30 milhões de novos clientes sem qualquer controlo sobre o montante dos prémios. Os EUA estão doentes porque a democracia norte-americana está doente.



Que lições? Primeiro, é um crime social transformar a saúde em mercadoria. Segundo, uma vez dominantes no mercado, as seguradoras mostram uma irresponsabilidade social assustadora. São responsáveis perante os accionistas, não perante os cidadãos. Terceiro, têm armas poderosas para dominar os governos e a opinião pública. Em Portugal, convém-lhes demonizar o SNS só até ao ponto de retirar dele a classe média, mais sensível à falta de qualidade, mas nunca ao ponto de o eliminar pois, doutro modo, deixariam de ter o “caixote do lixo” para onde atirar os doentes que não querem. Os mais ingénuos ficam perplexos perante os prejuízos dos hospitais públicos e os lucros dos privados. Não se deram conta de que os prejuízos dos hospitais públicos, por mais eficientes que sejam, serão sempre a causa dos lucros dos hospitais privados

(Publicado na revista "Visão" em 11 Março de 2010)


publicado por Carlos Loures às 21:00
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Professores-Quem indemniza os não avaliados não colocados?
Luis Moreira

A colocação dos 18 000 professores contratados revela-nos que 10 000 já tinham sido colocados o ano passado e que 8 000 são colocados pela primeira vez. Ficam, ainda assim, 30 000 professores de fora de que os sindicatos aproveitam a desilusão para venderem mais uma demagogia. O quadro está subavaliado são precisos mais professores, de preferência a pagar quotas, digo eu.

Mas do que ninguem fala, é do prejuízo que os professores contratados não avaliados sofreram e que se vai repercutir em toda a sua vida. Foram na conversa da "sereia" dos sindicatos e dos colegas confortavelmente sentados no lugarzinho para toda a vida. Como qualquer pessoa de bom senso e saiba um mínimo dos principios que enformam um estado de Direito, quem cumpre uma directiva do Ministério e, com isso, se candidata às expectativas que o Ministério deu a quem cumprisse, não poderia nunca sair prejudicado.

Como se viu numa primeira faze com os tribunais e, agora, com os professores preteridos a queixarem-se que foram ulltrapassados em muitos lugares por colegas que entregaram a avaliação. Quem é que indemniza estes professores que, de boa fé, foram atrás da demagogia dos sindicatos e da ignorância ou má fé dos colegas instalados? Um dos estúpidos argumentos é que teriam "atraiçoado" os colegas que seguiram as instruções dos sindicatos. Atraiçoado?

Mas não estamos numa democracia onde as pessoas pensam pela sua própria cabeça e se responsabilizam pelas decisões que tomam?

Quem é agora tão lesto em dar opiniões que mais não são que bravatas irresponsáveis e se adianta para pagar as indemnizações devidas?

Se fosse comigo tinham um processo cível no tribunal mais pŕoximo da escola onde não param de lacrimejar a sua desdita de serem professores...


publicado por Luis Moreira às 19:30
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República nos livros de ontem nos livros de hoje - 131 e 132 (José Brandão)
Paixão e
Morte de Sidónio
Visconde do Porto da Cruz

Funchal, 1928

O Outono descia rápido, anunciando que se avizinhava um inverno rigoroso…
Sintra estava adorável e eu gozava aquelas ferias inesperadas, após tantos meses agitados com boatos e prevenções…
Quando reabririam as aulas na Escola de Guerra? Que importava? Abrissem quando abrissem era sempre a tempo. E no entanto ia-se gozando aqueles dias de doce tranquilidade. Mas de súbito o boato de novas tentativas do Partido Democrático vem quebrar aquele paradisíaco sossego…
De facto não tardou que rebentasse uma forte agitação revolucionaria no Barreiro, que o Porto, Coimbra e Lisboa tentaram secundar… Procurei os Camaradas que tinham, como eu, ido para Sintra e concertámos na forma de mais rápida e eficazmente chegar a Lisboa…

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Para a História da Maçonaria em Portugal
1913-1935

António Carlos Carvalho

Vega, 1976

Várias razões nos levaram a escrever este livro: um interesse muito grande, desde sempre, por estes assuntos: a noção de que está tudo, ou quase tudo, por dizer e esclarecer; a consciência de que a Maçonaria só tem sido apresentada parcialmente aos profanos; a verificação de que era importante continuar a obra de Borges Grainha, «História da Franco Maçonaria em Portugal» que se detém no ano de 1922, e incidir no período 1913 1935, ou seja, até à proibição das actividades das sociedades secretas, decretada pelo Governo de Salazar.
De 1935 até Abril de 1974, pouco se sabe acerca da acção da Maçonaria, a não ser que a Ordem nunca deixou de existir, apesar da forte repressão policial. Esse facto foi, aliás, confirmado recentemente pela própria Maçonaria, ao reclamar publicamente a propriedade do prédio da Travessa do Guarda-mor, em Lisboa, onde existia o Grémio Lusitano.

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publicado por Carlos Loures às 18:00
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O crescimento das crianças
Raúl Iturra



B-Pilar



Também entre os galegos, as crianças som acarinhadas. Ainda bebés, com mimos. Ao crescerem, com disciplina. Uma disciplina ligada às horas de trabalho do adulto. Uma disciplina que não pune, mas ensina como optar. A opção, essa lógica de procurar o que é melhor para quem obedece e para quem diz mandar. A opção que Pilar aprendeu e que a levou a Compostela. Em uma Galiza dos anos sessenta, ainda sob a mão firme do Governo Central espanhol, essa ditadura de cinquenta anos de um general que não permitia outra língua que a oficial castelhana. Mas Pilar, como a sua mãe e o seu pai e irmãos, ião falando a língua herdada do lusitano. Aprendiam o que era oficial e de interacção, em Galego também, esse lusitano antes definido neste texto.

Um lusitano misturado de castelhano, lusitano castellanisado. A conversa do lar era dividida entre o galego persistente da mãe, e o castelhano bem falado pelo pai. E o galego castelhano que os filhos, os irmãos de Pilar, ião combinando entre essa obrigação, ditada por lei, de aprender a vida social, na escola, em língua oficial; e o galego da vida denominada rural pelos professores que eles tinham. Professores ou maestros, como aí são denominados, de origem também rural, mas forçados a saber o saber na língua oficial, que não era o galego. O mundo estava dividido não apenas em hierarquias, bem como cada hierarquia tinha uma língua diferente. A classe mais pobre, era galego, a classe com mais recursos, era castelhano. A classe intelectual, um galego antigo feito para bater o castelhano. Esse castelhano que Pilar me falava todos os dias, para evitar o português que eu usava em casa e que ela não entendia. Era a diferença das línguas lusas, especialmente esse português de mil anos e o galego banido por dezenas de anos… Uma Pilar que, em pequena, olhava para o chão quando eu falava para ela, faz 26 anos, e que hoje olhava de olhos nos olhos, mediadas as conversas, com música de Haydn (1797) que ouvia-mos na rádio do carro, ou as sonatas de flauta do Teleman (1772-1773) enquanto corríamos de casa em casa e de Bispado em Bispado.

Uma Pilar que das cabras e o clarinete, tinha passado a ser mãe e a aprender comigo a ler textos escritos com a letra a escrita do século XVII em frente, que com rapidez aprendeu. A cortesia da adulta Pilar, era convincente, pela sua gentileza, palavras amáveis e directas, explicações do que procurávamos nos arquivos, e paciência na espera, entre café e café. Essa paciência que era difícil manter em casa, quando era preciso arrumar panelas, loiça, comidas, cuidado do filho. Filho do qual o pai tratava entre as horas de trabalho. Pode-se afirmar que Pilar tinha ficado saturada de tomar conta de irmãos, adultos e pequenos, dentro do lar paterno. Pesquisar comigo, era uma aprendizagem que a distraía dos afazeres domésticos e maternais, junto com dar a ela uma tarefa que nunca pensou ia ter que aprender… para aprender sobre a sua a sua família: a investigação era sobre os Medela, para provar como o se pai Hermínio era descendente dos Condes de Lemos e dos Duques de Alba.

Pilar tinha estudado na escola antiga, auto-denominada pelo seu fundador, Barrié de La Maza, o rico bonapartista, que tinha oferecido o dinheiro para o pequeno edifício. Uma sala para diferentes anos, a aprenderem diferentes matérias na mesma aula, com só uma professora. Diferente do edifício feito nos finais dos anos sessenta, uma enorme concentração escolar que trazia crianças de diferentes sítios das varias paróquias vizinhas. Pilar teve que aprender a ser rapaz e rapariga, para se defender das brincadeiras que os pequenos gostavam de fazer as pequenas. Brincadeiras que não eram levadas á casa, mas eram resolvidas entre eles. Os rapazes, sempre a brincarem juntos e a deixarem as raparigas entre as suas conversas. Pilar gostava, habituada como estava a brincar com irmãos, jogar aos berlindes e ao peão, jogo aprendido do pai e dos colegas da escola. Uma Pilar que aprende a ler no livro de leitura Nuevo Cantón (1958), universal para as escolas públicas do Estado Espanhol. Do monopólio do distribuidor de livros para escolas de todo o país. Disciplinada e atenta, é rápida na leitura e na escrita, habilidade útil para o seu entendimento posterior das situações da vida. Pilar é uma colaboradora do ensino da paróquia, essa aliada legal do estado espanhol, pela concordata entre ambas instituições, feita no Vaticano dos anos cinquenta, e pela legalidade imposta pelo Chefe do Estado Espanhol, um outro General, como o de Victoria. Pilar, como toda outra, criança, tem vários níveis de interacção, entre os quais a sua vida privada e pessoal da escola e das brincadeiras feitas na rua, nem sempre contadas em casa, aconteciam. Uma casa à qual o pai tinha voltado depois de gastar tempo na Venezuela, para ganhar, poupar e a construir. Retornado, passa a sua vida ocupado a investir, como foi referido no capítulo 3. Com a colaboração da mãe. A escola de Pilar, é assunto seu, com a colaboração do Cura de Paróquia. A mãe não sabia, o pai trabalhava. Só havia o esforço de ela, normal entre pessoas que orientam o seu corpo aos trabalhos materiais e não as letras. Colegas de ela, serão depois estudantes do ensino superior. Esse que Pilar decide, com a sua assistência ao conservatório, que nunca mais acaba, por ter pensado quais seriam as bases do lar que queria. O lar que tinha aprendido na escola de que era uma integridade entre a mãe, dedicada ao bebé, muito directamente, onde o bebé era sumiço, bom, que ama, mima e beija a sua mãe e é amado, mimado e beijado por ela. Assunto que em um lar de trabalho, de esforço, de investimentos, de separação entre adultos e crianças, não acontece, como esse que usava quando estudava música em Compostela. Fica uma contradição entre o que lhe é dito na sua vida pública e o que vive na privada. Assunto comum para as casas do lugar. Os seus colegas de classe, ião a casa, fugiam ao mato próximo a brincar e lutar, enquanto ela tinha que ir direito ao seu, para tomar conta do seu trabalho. Do seu trabalho de colaboração produtiva, e do seu trabalho de escola, que conseguia fazer à noite, no mesmo quarto que partilhava com o irmão mais novo, entregue à sua responsabilidade. A pequena, conta hoje, adormecia de cansaço por cima das folhas do caderno e do livro, só com um pai que, as tantas, dava uma mão para colaborar no estudo. A disciplina de Pilar, leva a acabar a sua escola primária de seis anos, para concorrer ao secundário do Liceu de Lalin, em autocarro e no meio dos colegas de estudo. Lalin, que servia para muitos para não assistir as aulas e andar pelas ruas e cafés a se divertirem. Acabou o seu secundário, quase até o fim no Liceu, para passar ao conservatório local. Pilar estava destinada a ser uma mulher de casa, com filhos e marido a colaborarem nos trabalhos doméstico. Não aconteceu, por en quanto: a sua fuga a Compostela foi decidida nesse intermédio. O panorama de Pilar era largo: entre ser camponesa a colaborar com mãe e pai no trabalho rural, essa força de trabalho que Hermínio tinha já pensado ao planificar uma família com sempre mais um ser novo em casa, que, ao crescer, ia a ajudara: Hermínio organizava a sua própria força de trabalho Mas, a abertura que a nível de Estado Espanhol acontece nos anos setenta e o crescimento industrial que o país experimenta com a inserção de sítios como Vilatuxe no mercado internacional do leite, começa a permitir uma escolha em estudos e habilitações, financiada pelo próprio Estado. Outra alternativa, é a de ser mulher casada a morar fora do lar paterno, como as suas irmãs, emigrantes em Venezuela e em Burgos. Mas, as opções fecham-se, quando a casa vai ficando vazia e as tarefas, as mesmas. E a sua opção final, é clarinete, matrimónio, maternidade, especialmente a causa da abertura de Espanha á então CEE, hoje União Europeia. Essa abertura orienta e torna a orienta varias vezes, o uso das terras. A família de Pilar, já na posse da herança familiar de José António Medela, um ano planta árvores por orientação do sindicato de agricultores. Essa instituição oficial para proprietários que considera como tais, aos capazes de mostrar conhecimento, iniciativa, capacidade empresarial e reprodutiva. A lei do estado espanhol hierarquiza as pessoas entre os que sabem gerir as terras e têm ainda idade suficientes para serem treinados e investir saber na produção. E pelos anos 94, após o Convénio de Maastricht, define Galiza como o sitio da produção de ervas ou relva para as vacas, acaba com a internacional Nestlé que tinha sido o objectivo e o salário do trabalho da aldeia (Iturra 1979, 1981,1988): o objectivo de a empresa é vender. Muda a criança de vacas, funda a cooperativas de proprietários. Cooperativa que têm auxilio de veterinários e técnicos agrícolas, que ensinam a genética das vacas, da créditos para a construção de estábulos, muito diferentes das quadras medievais, que serviam para animais e aquecimento das casas. Quadras que desaparecem, como o trabalho manual, que passa a ser feito com tractores. O problema passa a ser que a maquinaria não pode ser parte do uso de uma população habituada ao trabalho em grupo, em carro de bois, em carro de mão, com tempo largo para fazer, com tempo curto para cumprir. Tempo curto também. Lapso cronológico em que é impossível, para criar uma nova filharada a aprender o uso industrial da agricultura. Diz Pepe de Taboada, o parente de Pilar e o meu amigo por anos, de que é preciso aposentar cedo, para dar lugar aos mais novos ao entendimento do que é agora produzir e fazer as contas. Acrescenta que era mais claro saber a genealogia de uma vaca, do que a da própria família. Por isso é que para Pilar e família, é uma novidade procurar a historia dos seus antepassados. Como é para Pepe de Taboada, já nada habituado a gastar tempo em falar da mamã, do papa, dos tios e primos. Estudo que tinha feito na escola quando o professor mandou inquirir a genealogia dos estudantes. Agora, era a genealogia da vaca, para saber raças, cuidados, possíveis doenças, litros que podem dar por dia e qual a época do ano em que esses litros podem ser produzidos. Todo feito, dentro da industria que a cooperativa privada por eles instalada e tributaria da internacional Feiraco de Pontedeume, faz as contas para eles, com estrita cronologia do que deve ser produzido a futuro, mais uma vez, em curto espaço de tempo. O industrial leiteiro nasce já com dívidas a serem pagas pela produção que deve obter dentro de poucos meses de trabalho. Produção que pode ser assegurada se o dito proprietário sabe organizar uma reprodução humana que fique com a herdade. Pelo qual a lei (1994 e 1995) dispõem que em cada casa fique proprietária da industria, a pessoa mais nova, que garanta a continuidade humana sabia no trabalho do leite. E Pepe declara invalidez, transfere o seguro da propriedade a sua mulher Josefa Cela, e começa a treinar ao seu filho de doze anos, no saber industrial da produção, bem como a pensar casar a sua filha de oito anos com uma pessoa de fora, ou fazer de ela, uma profissional. Como todos os filhos mais novos das casas, excepto o mais velho, têm passado a ser. Porque, conforme a lei, as terras devem ter um mínimo de três hectares, quatro vacas e terras contíguas com proprietários que as quiserem juntar para a indústria ter crédito para existir, e receber subvenções. Pelo qual o matrimónio endogénico de proprietárias de nacos de poucos ferrados, a medida usada em Galiza desde que era Galeitia, ou meia ou um quarto de hectare por casa, para quem tenha o interesse de juntar, como em Pencahue, as sua pequenas propriedades e as converter em pequenas haciendas. A família é limitada à um Grupo Doméstico de dois ou três filhos apenas, porque só um pode ser o gestor e proprietário. Lei que manda oferecer uma subvenção de um milhão e meio de pesetas seja destinada a crédito, para retirar de casa aos irmãos que não ficaram a trabalhar essa indústria em que o lar se tem convertido.

Vilatuxe está cheio de profissionais, feitos a partir de 1984, quando se previa que uma mudança curta e rápida podia acontecer. Só que se pensava que seria para os próprios agricultores. Mas, como diz o Presidente do Sindicato de Jovens Agricultores, cunhado de Pilar, o Gestor Emílo Batán (entretanto, falecido), Galiza tem que mudar séculos de trabalho, em quatro ou cinco anos. E Pepe de Taboada acrescenta de que o mais difícil, são os agricultores velhos, habituados a um investimento de emigração para instalar tecnologia para a venda de leite a Nestlé. Esses velhos, como ele diz, nada facilitam e não querem trocar terras para concentrar, dificultando assim, o desenvolvimento da indústria. As famílias de hoje em dia, são convénios económicos também, onde a emotividade é cultivada pela conveniência de terem terras contíguas, como é o caso de Pepe de Taboada e da sua vizinha Carmen Cela, que de duas filhas, destina uma a Pepe e a outra, fica em casa para casar com um rapaz de fora que sabe agricultura. Essa Carmen Cela que, no grupo de trabalho de faz 26 anos antes, brincava com os seus amigos e comigo, quando apanhávamos folhas secas das árvores, no Outono. E que agora destina o seu tempo a gerir a família para formar indústrias para a produção de leite. Muito agricultor desesperado suicidam – se durante o meu segundo trabalho de campo prolongado en Vilatuxe, durante os finais dos anos 90. Observei que os filhos, a espera de poder aprender este tipo de produção, matam-se também por falta de orientação. Muitos pais expulsam os filhos inúteis para o trabalho e casam as filhas com potenciais agricultores, como o caso relatado de Carlitos Fernández, cuja irmã Olga e a proprietária da indústria, mas que não sabem, nem ela nem ele, trabalha-la. O meu amigo Eduardo Fernández Ramos, da raça dos Ferradas do José Ferradas alçado contra a monarquia em 1870 como foi relatado, é obrigado a trabalhar com tractor, e aos seus setenta anos começa a guiar. Como tinha feito a sua cunhada Neves, mulher do seu recentemente defunto irmão Ramón Ramos, nos anos sessenta, quando Vilatuxe era produto da emigração. As contas feitas com Pepe de Taboada, resultam em 40 tractores para os duzentos lares da Paróquia. Pilar sabe todo isto, o vive e vai largando a agricultura junto com a família. Para ficarem com uma agricultura de brincadeira com cavalos; e à antiga, com arado, charrua e grade, como presenciei não apenas nos anos 90, bem como este de Julho de 2010. Assim também o diálogo mudara: o diálogo entre iguais de faz 26 anos, acaba por ser desigual, por causa das diferentes formas de trabalho a prática do trabalho, diferenciado entre as formas antigas da agricultura e a dinamização da nova indústria de leite. E só para três vizinhos e parentes, futuros agricultores industriais apoiados estatalmente: Pepe de Taboada, que tem terras e sabe de raças de vacas e é novo de 49 anos – aposentado por doença combinada; a casa de González ou Canda, de Gondoriz Grande, os parentes de Hermínio, e Neves Arca, a cunhada de esse Eduardo que tenta desenfreadamente de salvar o seu investimento de quinze anos de emigração, que casa a sua filha Olga, com um possível agricultor. Sabido e conhecido o facto por Pilar e todos os outros, o hábito faz ao monge e a agricultura de subsistência que eu presenciei faz 37 anos, subsiste também para salvar a vida em objectivos e alimentos, a pesar de todos receber uma pensão estatal. As trocas matrimoniais, são trocas de conveniência, projectadas ao desenvolvimento industrial de uma Galiza que deve ser uma Holanda dentro de dez anos. Como diz o Presidente dos agricultores, esse sindicato do Partido Popular, para proprietários novos. Os sindicatos de antes, já não têm razão de ser. Pelo qual a opção de Pilar, é a livre empresa que faz com o marido técnico em electricidade, e ela própria, em musica.

A União Europeia tem formalmente mudado Vilatuxe em poucos anos. Embora fiquem ainda os rituais, os parentescos, mas não o tempo livre para as trocas de amizade e conversa. Pilar vê que há uma Vilatuxe antiga e outra que começa a emergir, e fica pelo meio de transição enquanto os seus pais forem vivos e activos. Pilar pensa, cabe a ela tomar conta dos pais, a causa dos irmãos serem comerciantes a andarem de um sítio para outro. E os amigos, como a seu antigo colega de Escola, Carlos Varela, que é Técnico em Engenheira nos seus 29 anos, enquanto o seu irmão Jorge é Arquitecto em Barcelona e a sua irmã Blanca Maestra ou professora primaria, filhos do pedreiro e construtor Amalio Varela e de Rita Ramos filha de Celestino Ramos Ferradas, e Luís Ramos, esse filho de Guilherme Arca morto aos 45 aos, que é o apoio da sua mãe solteira Rosa Ramos, Mecânico, e Berta e Pedro Tomé, os sobrinhos de o Xastre Novo, Pepe Fernández e Aurora Santomé, filho e nora dos meus amigos alfaiates e lavradores Pedro Fernández O Xastre Velho e Esperanza Bernárdez já defuntos, Maestra e Desenhador em Compostela, e Carmen Montoto Pichel a sua prima filha de António o Ferreirinho sobrinho de Hermínio, Modista, e Mariquinha Fernández, neta do Pedro do Cabo que aos seus trinta anos é medico, e Maria Ferreiroa López, advogado aos seus trinta e um anos, e Florentino Rodríguez, que aos seus vinte e nove é Construtor Civil em Compostela, esse filho segundo dos meus amigos Florentino e Avelina, enquanto o filho mais velho Eladio, é Agricultor, e Fina, filha dos meus antigos vizinhos e amigos Ismael e Saladina Ferreiroa, proprietária e enfermeira, e Luís o filho do meu vizinho contíguo Pepe Gil o Ferreiro , mecânico de profissão e trabalho, e o seu primo José Gregório, esse irmão de Carmen a Modista, que soube casar com Beatriz Ramos, a sobrinha dos irmãos proprietários sem filhos José e Celso Ramos, cuja herança ela aprendeu a gerir e possuir. Em essa casa grande, elegante, antiga, restaurada à cor dos pergaminhos da família Ramos, que eu estudara 26 anos antes, esse José Gregório comerciante em máquinas de computação para jogos. E tantos, que só posso detalhar em anexo para arrumar o meu pensamento e a leitura do leitor. Esses todos que vão e vêm.

Esses todos, não são agricultores, ni a moda antiga ni como indústria moderna. Esses todos que são a velha e a antiga Vilatuxe. Uma Vilatuxe que avança para a agricultura industrial e de fim-de-semana, como faz o Engenheiro de Aguas Luís, filho de Luís Iglesias e de Luz Taboada Medela, a descendente de Ramón Taboada e Maria Medela, comerciantes de ultramarinos y netos de Manuel Medela, o irmão de José António, pai do Hermínio, avô de Pilar.

Uma voragem de dados e mudanças em curtos anos, uma voragem de lembranças e de passagem do tempo, de idades que avançam e fazem pensar em objectivos diferentes para organizar o convívio, de classes sociais removidas e alteradas, de crianças que cresceram não apenas no tempo, bem como em sabedoria. Donde, a sua epistemologia retirada da de seus pais permite-lhes serem fruto do experimento, enquanto os seus valores são fruto da experiência. A ciência entrou a causa das opções feitas por bisavôs, avôs, pais e eles, num crescendo Haydiniano de Strum und drung (1790-1792). Como Benson (1981) estuda para um bairro de Londres e Gough (1981), para a Índia. Aí onde eu pensava que só Pierre Bourdieu revelava no seu Homo Academicus (1984) e Godelier no seu Meurtre du père. Sacrifice de la paternitè (1994), a sua origem rural e operária. Como fez Richard Hoggart em 33 Newport Street (1988), a sua proletária, como a de Anthony Giddens, ao longo da sua obra. Essa análise que Ricardo Vieira faz entre trânsfugas e oblatas (1997). É o que são os intelectuais como seres humanos, a combinarem a cultura de experiência, com a cultura da experimentação, como os meus novos da antiga Vilatuxe, que fazem de ela um sítio em transformação.

É o que Pilar é. É o que Pilar percebe. É o que Pilar sabe dos ciclos, a traves do tempo por ela vivido e, agora, estudado. O que Victoria é, como já debateram em dados, e o que deve ser Anabela. A qual de novo visitamos, para fechar o entendimento de como a experiência quotidiana não retira a aceitação da Ciência experimental, do entendimento.

Em síntese final, para não transferir todo este livro ao leitor, este verão de 2010 tenho observado que há três Vilatuxe: o da agricultura antiga, subvencionados pelo Estado com uma pensão para mal viver; ou dos seus filhos e netos, hoje em dia profissionais e comerciantes; e a nova, a da indústria de leite, da Empresa Feiraco.
Apenas uma conclusão: se alguém da primeira Paróquia falece, passa a ser insubstituível: os descendentes no sabem de agricultura; são profissionais, os de esta segunda Vilatuxe; e a terceira, o que espera a União Europeia: uma Holanda de trezentos anos, em curto espaço de tempo, indústria que nem família tem: são Grupos Domésticos organizados pelo interesse do capital e o lucro, quer de Vilatuxe, quer do Estado Autónomo de Galiza, quer ainda, do Estado Espanhol.

Um novo trabalho de campo é necessário ai e nos países da União Europeia que baseavam a sua economia em uma actividade rural que feneceu.

E o texto que entrego, acaba neste ponto final.

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publicado por Carlos Loures às 15:00
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Baixar os impostos aos milionários nos US !
Luis Moreira


É esta a grande batalha que se trava entre o Presidente Obama , os Republicanos e os membros do seu próprio partido, os conservadores democratas. Baixar os impostos às 120 000 famílias mais ricas da América!

Representando cerca de 1% dos contribuintes americanos, no topo da escala, esta baixa é igual a cerca de 680 mil milhões de dólares que iriam parar na sua quase totalidade às mãos dos 10% mais ricos daqueles 1%. Isto é, o que se discute é tornar permanentes os cortes da era Bush aos mais ricos, enquanto Obama tenta que os cortes de concentrem ou favoreçam a classe média.

Embustes e desonestidades é o que lhe chama Paul Kruman, prémio Nobel da Economia, isto tem a ver com uma cultura corrupta e disfuncional na qual o Congresso não toma medidas para reanimar a economia, porque isso seria aumentar os professores e os bombeiros, mas aí o argumento é a falta de fundos e a necessidade de travar o déficite, argumentos que não colhem quando se trata de dar dinheiro aos ricos.

Até agora a administração de Obama tem-se mantido firme no combate a esta vergonha. Esperemos que consiga vencer esta luta. Sem isso, vai ser muito dificil não perder completamente a fé no futuro dos EUA, termina Krugman.

Como sabem estas coisas costumam chegar cá 6 meses depois. É melhor avisar a malta!

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publicado por Luis Moreira às 13:30
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José Gomes Ferreira -1
Carlos Loures


Aproveitando a onda de poesia em que estamos a navegar, inicio hoje uma série em três partes, nas quais percorremos aspecto da vida de um grande escritor, de um grande poeta – José Gomes Ferreira. Nascido, em 1900, no Porto, «premonitoriamente na Rua das Musas», como se diz no vídeo, freguesia de Santo Ildefonso, viveu em Lisboa a partir dos quatro anos. E, tal como Camilo Castelo Branco, nascido em Lisboa, foi um homem e um escritor do Norte, José Gomes Ferreira, foi um homem e um intelectual de Lisboa. «A minha Aventura Poética começou aí por volta de 1908, tinha eu os meus oito anos, no dia em que reparei (ou procedi como se reparasse) na existência das palavras».


A intervenção política começou também cedo: com dez anos, em 4 de Outubro de 1910, na véspera de a República ser proclamada, veio para a rua, com um bando de miúdos, prendendo num cabo de vassoura uma bandeira verde e vermelha feita de papel de seda, onde colou com letras recortadas um vibrante «Viva a República!». O pai, democrata e republicano que viria a ser deputado por Lisboa, teve por certo influência na precocidade com que adquiriu consciência política .

Morou na Vila Rodrigues, na Calçada do Monte Agudo onde no final da década de 20 nasceu o Bairro das Colónias. Muitos anos depois, em 1958, soube que a escritora Irene Lisboa morara também na Calçada do Monte Agudo, na Vila Rodrigues, em casa pegada à sua. Numa conversa em casa de José, poucos meses antes do falecimento da escritora, descobriram essa vizinhança e que o «Zeca» que Irene ouvia chamar, era a mãe do poeta querendo onde parava o filho traquina, sempre empoleirado em muros ou trepando a nespereiras.

Depois de uma má experiência no Liceu Camões, passou para o Gil Vicente, onde teve como professor Leonardo Coimbra, com quem estudou os poetas saudosistas. E outros mestres distintos: Newton de Macedo, Damião Peres, Câmara Reys… Tornou-se amigo de todos ou de quase todos. Dirigiu a revista Ressurreição - «Revista de Arte e Vida Mental», na qual Fernando Pessoa colaborou com o soneto Abdicação. Em 1918 publicou o seu livro de estreia, o poemário Lírios do Monte, obra que retirou da sua bibliografia.

A música foi outra das suas paixões. Inspirado no romance Os Meus Amores, de Trindade Coelho, compôs um poema sinfónico, Idílio Rústico, que se estreou em 1918 no Teatro Politeama executado por uma orquestra dirigida por David de Sousa. Quando abandonou a via musical, Luís de Freitas Branco disse ter-se perdido a esperança de um notável compositor. Foi também neste ano que se filiou na Liga da Mocidade Republicana e queimou no Café Gelo um retrato de Sidónio. «E todavia quando, empurrado por Leonardo Coimbra e dentro da coerência da linha paterna, entrei no coro prestativo contra o histérico consulado de Sidónio Pais, nem de longe suspeitava a que ponto chegava a minha carência de vocação para a acção política.».

À breve ditadura sidonista encerrada com o assassínio do «presidente-rei», em 14 de Dezembro, seguiu-se a ameaça da Monarquia do Norte – Em 19 de Janeiro de 1919, os monárquicos encabeçados por Paiva Couceiro, proclamaram no Porto a monarquia. Quase todo o Norte do País e uma parte da Beira-Alta aderiu à sublevação. Em Lisboa, a guarnição de Monsanto, revoltou-se também contra a República. O nosso José, alistou-se no Batalhão Académico Republicano e, após breve treino militar em Tancos, participou na breve guerra civil que assolou o País. No Porto, a 13 de Fevereiro, eclodiu um movimento republicano chefiado por Sarmento Pimentel. Quatro dias depois, o último bastião monárquico, em Vila Real foi vencido. O episódio da Monarquia do Norte terminara. José voltou à Faculdade de Direito.
Os Cafés da Baixa lisboeta eram, nas primeiras décadas do século XX, centros de discussão, sedes de tertúlias artísticas e políticas. Ali se criavam revistas, se combinavam conspirações, se projectavam obras literárias. José Gomes Ferreira foi, por estes anos 20, assíduo frequentador do Martinho, do Portugal, do Gelo, da Brasileira, do Chiado… habitats do sonho e do pesadelo que os cafés eram naqueles anos vinte e continuaram a ser até que, pelos anos sessenta, começaram a ser «reconvertidos», reciclados – bancos, companhias de seguros, agências de viagens, cafetarias, pizzarias…

1921 foi o ano em que publicou Longe, outra colectânea de poemas que viria a considerar obra menor. Porém terá surpresas. Mais de dez anos depois, Soeiro Pereira Gomes dir-lhe-á: «A minha mulher e eu namorámos através do Longe…» e Fernando Lopes-Graça, que comprara o livrinho na Feira do Livro em 1942, musicou três sonetilhos. Se serviram para um grande escritor namorar e para um grande musicólogo os musicar, os poemas não podiam ser tão maus como ele julgara.

Em Novembro de 1925 foi nomeado cônsul de Portugal em Kristiansund, na Noruega. «Por fortuna não passei de cônsul de 4ª classe» (…) «e fora de todas as carreiras». No Porto, embarca no paquete Sicília, rumo a Oslo. No comboio de Oslo para Trondjem, atravessando planícies de neve, escreve: «A pior solidão é a que me espera agora: a de ter de esconder a minha verdadeira personalidade. Ai de mim se não conseguir aparentar a banalidade altiva dos medíocres! Tomar-me-ão por parvo.» Aprende a língua norueguesa, que lhe soa «como uma arcada de violoncelo». Ao fim de dez meses lê jornais com desembaraço e, com a ajuda de dicionário, consegue ler romances policiais.

Mais seis meses e começa a mergulhar em Ibsen, Björnson, Alexandre Killand, Knut Hamsum. Aproveita a solidão para de novo compor música - «meia dúzia de ninharias desprovidas de ânsias de futuro», diz com modéstia.

As cartas dos amigos mitigavam as saudades de Lisboa: «Por aqui tudo velho. Continuo a encontrar o Fortunato, continuam as tardes na Bertrand – o mesmo de sempre!», dizia Ferreira de Castro em Abril de 1926. «Lisboa está linda. As olaias floresceram mais cedo…» afirmava-lhe Alfredo Brochado pela mesma altura.

No São João desse ano, depois do Movimento de 28 de Maio, Brochado perguntava: «Você já sabe que vivemos em regime de ditadura?» Já sabia. E assim passou o «interregno norueguês», como designou estes cinco anos.


(Continua)



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publicado por Carlos Loures às 12:00
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Novas Viagens na Minha Terra



Manuela Degerine
Capítulo XCV

Vigésima terceira etapa: A mulher que vê passar os comboios (continuação)

O artista começa a impacientar-se. Mesmo na estação do Rossio, uma rebelde continuará rebelde, arranjará maneira de contestar, de protestar, de importunar, já chega de palavreado, ele pintava outro cenário, precisa de o entregar, a penúria é um cão teimoso, morde-lhe as canelas há décadas, pagaram-lhe a cena ferroviária, não volta a tocar-lhe, não e não, perdeu tempo demais a pintá-la, ao ponto de vir reclamar mudanças, não faltava mais nada, encomendaram-lhe o cenário para um comboio eléctrico, pudera ter despachado uma paisagem verde que, com duas vacas e três pinceladas, causa sempre efeito, em vez disso levou semanas na busca de um verdadeiro espaço ferroviário, encontrou em Pontevedra aquele albergue de peregrinos, uma imagem urbana complexa, pouco banal, ao contrário do que ela insinua, claro que estende roupa, também ele estende, como a maioria das pessoas, para além disso é escritora, percorreu quinhentos quilómetros a pé, quer situação menos trivial, é-o aliás tão pouco que, não raras vezes, pareceu bizarra, imprudente e até suspeita, resultando disto tudo, no fim de contas, o desencontro do costume, uma obra que ninguém encomendou e, pelas reacções, também não foi apreciada, bem feito para ele, nunca seguiu a moda nem a facilidade, resta-lhe aguentar as consequências.


Quem é que, nos dias de hoje, dá valor à pintura? As galerias expõem – e vendem – montes de lixo. Quem dá valor à técnica? Pensa que é fácil representar uma pele como a dela? Pois fique a saber: não é e não interessa a ninguém. Anda toda a gente a tirar fotografias. E ele pinta cenários disto e daquilo, quando calha, paredes de rua, as melhores encomendas, porém agora cobrem tudo com telas impressas, mais baratas, não admira, como se fosse igual... Cada obra dele é única – quem dá valor a isto? Recorre, tantas vezes, a outras tarefas para comer, pagar a renda, comprar pincéis, telas, tintas, aguarrás, um casaco, umas calças, uma camisa, a roupa nunca acima de um euro a peça, bem regateado na feira da ladra, já se vê, o pivete de borla, claro que lava e estende roupa, entre outras tarefas, o seu único luxo, a sua extravagância, levar o filho, que continua com a mãe, à praia ou ao cinema. Vive há dez anos sozinho: a boémia é fotogénica no cinema mas na realidade afasta as donzelas. Quem se importa com a solidão dos artistas? Ela sabe o quê da vida verdadeira? Veja passar o comboio e, se não lhe convém, paciência, três pinceladas: uma avozinha, apenas esboçada, para haver paz.

Interrompo aqui o debate. Receio que a história se conclua mal para esta mulher. Na verdade o comboio é verdadeiro e eu não sou feita de papel e tintas – fica o leitor mais sossegado.

Para simplificar as ideias, que se complicaram, dirijo-me para a cozinha, onde encontro fogão, copos e pratos; não precisamos de mais nada. Saio com Sérgio em busca de um supermercado. Interrogo dois passantes, que me aconselham, pouco mais adiante, um Froiz. Fazemos as compras contando cada passo e, sem força para mais caminhadas, regressamos de imediato ao albergue.

Continuo a pensar na mulher que vê passar os comboios. O pintor, pelo que percebo, enganou-se: ela não é escritora. Talvez o criador a imaginasse assim; no entanto a mulher – o nome dela é Rita – só se lembra de escrever as páginas do diário que acaba, com alguma surpresa, de encontrar; com os braços no ar, ignora quantos anos, não abriu aquela bolsa. E quem escolheu a camisola com uma frase em inglês?... Não foi ela de certeza.

Rita precisa agora de um momento de reflexão. Quer ler o diário, analisar o conteúdo da bolsa, despejar a mochila que sabe ter na camarata do albergue. Para além de sair do cenário, surge-lhe outra dificuldade: emancipar-se da mulher que o artista quis pintar.

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publicado por Carlos Loures às 10:00
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Saudação à Catalunha - Canto das Aves, de Pau Casals
El cant dels ocells
(O canto das aves)

Do grande Pau Casals

Mireille Mathieu canta em catalão (com legendas em castelhano).



«El Cant dels Ocells», do grande músico catalão Pau Casals



publicado por Carlos Loures às 09:00
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Espaço VerbArte - Três poetas da casa falam sobre as portas que a poesia fecha, sobre o sonho e sobre o que mais adiante se verá



Augusta Clara de Matos

As  portas que a poesia me fechou, com uma folha de plátano, como quem diz: "Contenta-te com este artifício, tu que não tens imaginação para mais".
______________________________________



Ethel Feldman


Quero viajar pelo mundo
viver/conviver com o sorriso
e o choro daqueles que habitam
outras paragens.

Não vou poder abraçar as mulheres - girafa,
nem as meninas que vestem a burca
mal o sangue lhes escapa.

Não vou conseguir aprender
com as gueixas a arte de ouvir,
nem com as índias a de parir
a sorrir.

Queria viajar e sentir
em todos um abraço
que resulta do que cada um
somos enquanto vida.

Queria aprender a dançar
e a rezar sem conceitos
e preconceitos.

Hoje acordei com a falta que tenho
de não poder jogar-me nos braços
do homem que dança o tango.

Hoje dei conta da falta,
e da vontade que tenho em voltar,~
do tempo que uma vezes é longo
e agora tão curto.

Vou abraçar-vos sem descanso
tenho todo o tempo do mundo.
_______________________

Adão Cruz

O sonho

O sonho
acesso do silêncio
ao dilatado vento da palavra
o direito da sombra
na luz de todas as cores.
O sonho
doce caminho dos lábios
perfumados de alheias maçãs
a voz que há-de voar
quando se calarem as asas.
O sonho
canção intemporal
que dá razão à loucura
a sede de todas as fontes
a água de toda a secura.
O sonho
vento leve e sensual
tocado de algas e maresia
adormecido o pensamento
na doce cama da fantasia.
O sonho
uma flor a sorrir
no outro lado do rio
onde as quebras do silêncio
dão voz ao melro vadio.
os barcos que chegam tarde
carregados de vinho amargo
a esperança de todo o tempo
sem outro tempo de esperar.

O sonho
mar derramado na areia fina
beijando o corpo feito casa
a paz da tarde adormecida
sem corpo para morar.

O sonho
mão apertada ao escudo
da liberdade ameaçada
o sonho tempo perdido
tempo de sonho e de nada.

O sonho
flor de orvalho colhida
no seio efémero da madrugada
o silêncio da canção perdida
no beijo da noite atraiçoada.

A grávida mais linda que já vi

Foi ela a grávida mais linda que já vi.
A grávida mais linda que já vi
tinha olhos aguados de ternura
olhos mansos de sonho e distância
olhos de sexo infinito.
Tinha estrelas pequeninas nas maçãs do rosto
e os lábios frutavam de carnudos
com gosto a sol e a sal.
A grávida mais linda que já vi
dormia no ventre da serra-mãe
entre asas e desejos
cabelos mortais sonhados de horizonte
hálitos de feno e maresia
que o sol acordava no acordar de cada dia.
O seu corpo nascia das ondas
e ondeava como seara madura.
A grávida mais linda que já vi
na paisagem lisa do tempo
dormia na areia branca
e tinha flores brancas
na raiz branca das coxas
dos beijos da espuma branca
que do mar sobrava.

                                                                                                                      (Quadro de Adão Cruz)                                                   


publicado por Carlos Loures às 08:00
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O Terreiro da Lusofonia, todos os dias à 1:30
A partir de amanhã, 1 de de Setembro, começaremos a inserir neste mesmo horário (1:30) o Terreiro da Lusofonia, numa ordem diferente da que foi seguida na primeira apresentação - trata-se de posts que podem ter passado despercebidos e aos quais queremos dar o protagonismo que merecem. Começaremos com a «diva dos pés descalços» - Cesária Évora.


publicado por Carlos Loures às 01:30
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A Manuela Degerine diz: "Hoje falei com o Sérgio Godinho" - e não é que o trouxe ao Espaço VerbArte?
Manuela Degerine


Não pertenci à categoria de adolescentes que cobria as paredes do quarto com imagens dos ídolos. Eu naquela época escrevia poemas-de-álvaro-de-campos ao quilómetro e à compita com a Ana Rodrigues; uma amiga. Reuníamo-nos para ler uma à outra as respectivas obras que achávamos quase tão geniais como as do Poeta. (Anos mais tarde, os textos pareceram-me insuportáveis e, talvez por revelarem, de maneira ingénua e sincera, facetas que preferia ignorar, deitei-os no lixo – o que agora lamento.)

Naquele tempo tão distante que sinto tentações de empregar o latim, in illo tempore cheguei a ter na mão uma fotografia de Fernando Pessoa porém, em vez de a pregar na madeira da estante, o primeiro impulso – arrumei-a numa gaveta. É que, então, para mim, o poeta futurista não se podia confundir com aquele bisavô de chapéu. O Álvaro de Campos continuava a ter constipações e dúvidas metafísicas, era meu contemporâneo e, compreendo agora, por me falar de mim, não podia ter rosto.

Descobri na mesma época as canções de Sérgio Godinho. Perguntará o leitor: qual a relação?... Pois: tal como o Álvaro de Campos, o Sérgio Godinho emprestou-me palavras para a conquista de mim. As suas canções dizem a poesia, a revolta, o amor, a liberdade... Traçam um percurso que, não raras vezes, se cruzou com o meu.

Ouvir uma canção, ler um poema ou um romance, é entrar em colisão com a singularidade de um autor, por isso todos vivemos grandes paixões com os nossos autores preferidos. Durante a adolescência o meu coração balançou muito entre o Álvaro de Campos e o Sérgio Godinho; comparados com eles, os colegas do liceu diziam-me frases bem triviais...




publicado por Carlos Loures às 00:30
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Segunda-feira, 30 de Agosto de 2010
Macho latino - contra a heterofobia !


Luis Moreira

Ontem demos conta que nos US se gritou numa gigantesca manifestação, a favor da "minoria branca", sentimento que se generalizou após a vitória de um negro, o Presidente Obama. Os homosexuais tomam conta da agenda mediática e política, ele são leis para se casarem, para adoptarem, entraram de sopetão na AR (por serem homosexuais?), enfim isto não pode ser.

As mulheres , é o que se vê, já são mais nas Universidades como alunas e como professoras pedem meças,são maioria nos lugares de destaque na sociedade, na vida profissional para lá caminham, para além de continuarem a usufruir da condição única de serem mães coisa que nenhum homem pode aspirar a ser. Somos uma espécie de "ajuda" cuja necessidade tambem está a desaparecer com essa coisa dos tubos de ensaio...

Mas chegou o momento da revolta, de colocar as coisas "en su sítio": "Ninguem pode ser discriminado devido à sua heterossexualidade. A discriminação poderá ser penalizada até três anos de prisão." É este o teor de um projecto de lei que o deputado Eduardo Cunha acaba de apresentar no Congresso nacional do Brasil.

Ainda não é agora que " o macho latino" deixa de ser um elemento essencial para o desenvolvimento da sociedade, mesmo que seja para coisas tão simples como entrar como padrinho num qualquer casamento "gay"... à "espanhola",claro!


publicado por Luis Moreira às 22:30
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Boaventura de Sousa Santos no Estrolabio - Estratégia Continental

Sobre a incursão do exército colombiano em território do Equador para eliminar um grupo de guerrilheiros das FARC parece estar tudo dito, tanto mais que é um caso encerrado e bem encerrado. Na verdade, assim não é. O que sobre ela se revela é tão importante quanto o que se oculta. Primeira ocultação: os processos políticos na América Latina estão a pôr em causa o controle territorial continental de que os EUA necessitam para garantir o livre acesso aos recursos naturais do continente. Trata-se de uma ameaça à segurança nacional dos EUA que, perante o iminente fracasso das respostas "consensualizadas" (comércio livre e concessões de bases militares), tem de ter uma resposta musculada e unilateral. Ou seja, a guerra global contra o terrorismo chega ao continente – chegou com o Plan Colômbia mas a "deriva" no Médio Oriente provocou algum atraso– e assume aqui as mesmas características que tem assumido noutros continentes: utilizar um aliado privilegiado – seja ele a Colômbia, Israel ou Paquistão – a quem ao longo dos anos se fornece ajuda militar e informação de espionagem sofisticada que o põe ao abrigo de represálias e lhe permite acções dramáticas de baixo custo e êxito certo; incitá-lo ao isolacionismo regional como preço a pagar pela aliança hegemónica. A guerra contra o terrorismo inclui acções de grande visibilidade e acções secretas. Entre estas estão os actos de espionagem e de desestabilização de que a Bolívia, a Venezuela e a tripla fronteira (Paraguai, Brasil e Argentina) são os alvos privilegiados. Na Bolívia, bolseiros norte-americanos da Fundação Fulbright são chamados à Embaixada dos EUA para dar informações sobre a presença de cubanos e venezuelanos e movimentos suspeitos dos indígenas enquanto os separatistas extremistas de Santa Cruz são treinados na selva colombiana por paramilitares. Facto novo: nas acções de desestabilização podem participar empresas militares e de segurança privadas, contratadas pelos EUA ao abrigo do Plan Colômbia, e dotadas de imunidade diplomática e, portanto, impunidade ante a justiça nacional.

Segunda ocultação: a verdadeira ameaça não são as FARC. São as forças progressistas e, em especial, os movimentos indígenas e camponeses. De facto, a permanência das FARC é fundamental para manter a justificação da guerra contra o terrorismo e criar o clima de medo e a lógica belicista que bloqueiam a ascensão das forças progressistas, nomeadamente do Pólo Democrático na Colombia. Pela mesma razão, a intervenção humanitária a favor dos reféns teve de ser dinamitada para que dela não tire dividendos políticos Hugo Chávez. As forças políticas progressistas ameaçam a dominação territorial dos EUA por via de medidas que procuram fortalecer a soberania dos países sobre os recursos naturais e alterar as regras de repartição dos benefícios da sua exploração. Mas a maior ameaça provém daqueles que invocam direitos ancestrais sobre os territórios onde estão esses recursos, ou seja, dos povos indígenas. É eloquente a este respeito o relatório Tendências Globais – 2020, produzido pelo Conselho Nacional de Informação dos EUA, sobre os cenários de ameaça à segurança nacional do país. Nele se afirma que as reivindicações territoriais dos movimentos indígenas "representam um risco para a segurança regional" e são um dos "factores principais que determinarão o futuro latino-americano". "No início do século XXI, há grupos indígenas radicais na maioria dos países latino-americanos que em 2020 poderão ter crescido exponencialmente e obtido a adesão da maioria dos povos indígenas... Estes grupos poderão estabelecer relações com grupos terroristas internacionais e grupos anti-globalização...que porão em causa as políticas económicas das lideranças latino-americanas de origem europeia". À luz disto, não surpreende que o presidente do Peru se pergunte "se não haverá uma internacional terrorista na América Latina". Tão pouco surpreende que já hoje centenas de líderes indígenas do Peru e do Chile estejam incriminados ao abrigo de leis anti-terroristas promulgadas nestes e noutros países (por pressão dos EUA) por defenderem os seus territórios. A estratégia está, pois, delineada: transformar os movimentos indígenas na próxima geração de terroristas e, para os enfrentar, seguir as receitas indicadas no relatório: tolerância zero; reforço das despesas militares; estreitamento das relações com os EUA. A responsabilidade das forças políticas progressistas é fazer com que esta estratégia falhe.


(Publicado na revista "Visão" em 13 de Março de 2008)




publicado por Carlos Loures às 21:00
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EDITORIAL
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António Marques

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