Sábado, 31 de Julho de 2010
A liquidez do sistema financeiro internacional depende da droga
Carlos Loures

Há dias, falando com amigos, um deles disse uma coisa que me deixou a pensar - «Já repararam que quase não se fala de droga?» É verdade. A droga passou a ser falada apenas quando são apreendidas grandes quantidades. A droga que se consome deixou, aparentemente, de ser um problema – entrou na “normalidade”. Talvez este clima de normalidade em torno de algo de tão anormal, queira dizer mais do que parece. E não é preciso enveredar pela teoria da conspiração.

Há meses, em entrevista ao diário britânico «Observer», do italiano Antonio Maria Costa, máximo responsável na ONU pelo combate ao crime e ao tráfico de droga, garantiu que o sistema financeiro internacional se salvou do colapso total devido a dinheiro proveniente do tráfico de droga - «Os empréstimos interbancários foram financiados por dinheiro vindo do tráfico de droga e de outras actividades ilegais» (…)«Em muitos casos, o dinheiro da droga era a única liquidez disponível. Na segunda metade de 2008, a falta de liquidez era o maior problema do sistema bancário. Ter liquidez em capital, tornou-se num importantíssimo factor».

Segundo os cálculos deste alto responsável da ONU, o mundo do crime disponibilizou 240 mil milhões de euros para repor a liquidez do sistema financeiro internacional. «Há alguns sinais de que alguns bancos foram salvos desta maneira». Acrescentou que este dinheiro de proveniência criminosa faz agora parte do sistema, «pois já foi lavado». Os mercados do Reino Unido, Suíça, Itália e Estados Unidos, foram segundo o dirigente internacional da luta contra o tráfico, os mais utilizados na lavagem deste dinheiro proveniente do tráfico.

Em Outubro do ano passado Antonio Maria Costa alertara já para o efeito devastador do ópio afegão nas sociedades ocidentais. 92% da heroína traficada pelas máfias mundiais é produzida pela papoila daquele país. 100 mil pessoas (jovens na sua maioria), morrem por ano devido ao consumo dessa droga, mais do que qualquer outra, e muito mais do que as baixas sofridas na guerra. Este tráfico movimenta cerca de 45 mil milhões de euros por ano, sendo a maior fonte de financiamento do terrorismo internacional. «O catálogo dos horrores produzidos pelos narcóticos afegãos é grotesco», diz Costa, que afirmou que, só nos países membros da OTAN que intervêm no Afeganistão, morrem 10 mil pessoas por ano, cinco vezes mais do que a soma das baixas militares em oito anos de guerra.

O ópio afegão é utilizado como moeda de troca para obter armas que as milícias utilizam contra as tropas instaladas no país - «A implicação directa dos talibãs no tráfico de ópio, permite-lhes financiar uma máquina de guerra cada vez mais ampla e sofisticada», explicou este alto funcionário da ONU. Calcula-se que os talibãs obtenham com o ópio cerca de 106 milhões de euros.

A fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão é actualmente «a maior zona de comércio livre do mundo da droga, armas, dinheiro sujo e seres humanos», concluiu. A ONU afirma que só consegue interceptar 20% do ópio afegão, sendo a maior parte apreendida no Irão. Menos de 2% é confiscado antes de sair do país.

Um negócio e tanto.

Talvez à luz destas realidades, se compreenda mehor por que razão a droga quase deixou de ser notícia. É uma coisa tão normal, não acham?


publicado por Carlos Loures às 23:30
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República nos livros de ontem nos livros de hoje - 91 (José Brandão)
Joshua Benoliel

Repórter Parlamentar

Manuel Villaverde Cabral

Assembleia da República, 1989

A publicação do presente álbum justifica-se plenamente por duas razões principais. Primeiro, pela vivacidade das fotografias e pelo seu apontar para a emergência de uma modernidade à qual, efectivamente, Portugal tentou e, esporadicamente, chegou a aceder no primeiro quartel do nosso século. É importante que isto fique dito, já que a própria crise agónica do parlamentarismo é, porventura, o sinal mais evidente - se bem que problemático e, em derradeira instância, negativo - da pressão das forças sociais modernizadoras sobre o sistema político liberal.

Em segundo lugar, a iconografia contida neste álbum surge como um testemunho palpável das virtualidades que só parlamento possui para representar os valores vivos e os interesses legítimos de uma sociedade moderna.

(da introdução de Manuel Villaverde Cabral)



publicado por Carlos Loures às 18:00
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Jorge Amado fala sobre "Memorial do Paraíso", de Sílvio Castro
Este romance do nosso colaborador Sílvio Castro foi lançado em Itália antes de ter sido publicada a edição em português. Jorge Amado, o grande escritor brasileiro, publicou no Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, logo após o lançamento dessa edição em Itália, o artigo que temos o prazer de transcrever.



O memorial do paraíso

Jorge Amado

Li o romance de Sílvio Castro, Memoriale del Paradiso, na belíssima edição italiana do Centro Internazionale della Grafica de Venezia, com ilustrações preciosas de Luigi Rinciotti. As ilustrações completam o texto não menos precioso: a escrita do romance de Sílvio Castro tem um tratamento de iluminura, a graça e a fluidez.

Não é a primeira vez que leio romances de autor brasileiro em língua estrangeira antes que seja publicado em português. Durante a ditadura militar aconteceu-me idêntica experiência com livros cuja editoração no Brasil fizera-se impossível. Recordo ter lido, igualmente em língua italiana, romance de Ignácio de Loyola Brandão, inédito em língua portuguesa devido às circunstâncias de ordem política, a ordem política dos gorilas: creio que o excelente romancista que é Ignácio de Loyola se fez conhecido e admirado na Europa antes de se tornar um dos escritores preferidos do público nacional. Eu próprio, levado pelas contingências da vida pública, publiquei um livro, O Cavaleiro da Esperança, na Argentina, em 1942; somente em 1945 foi possível editá-lo em português.

Tendo lido Memoriale del Paradiso em italiano, desejo antes de mais referir-me à qualidade da tradução, muito boa, de Sandra Bagno e Laura Scalambrin, em língua(s) portuguesa(s), formadas ambas sob a direcção de Sílvio Castro, cujo extraordinário trabalho no estudo, na pesquisa e na divulgação da cultura brasileira no norte de Itália não cabe neste breve texto; o que ele tem realizado nesses trinta anos de cátedra em Veneza e em Pádua é matéria para muitas páginas. Mais vale lembrar que Sandra Bagno está debruçada sobre os materiais que deverão resultar no estudo definitivo que a figura tão importante que a figura tão importante e tão injustamente esquecida de Almachio Diniz está a reclamar.

Memorial do Paraíso é o primeiro volume de uma trilogia que, completada, será com certeza de notável importância como reconstrução histórica e literária: a este primeiro romance seguir-se-ão Os Senhores Singulares e Aventuras e desventuras do veneziano Piero Contarini entre os selvícolas brasileiros. Por fim teremos a recriação em termos de ficção dos dias iniciais da vida brasileira após a descoberta, um painel do Brasil em seus começos, quando ainda não existia nação, apenas as tribos e os recém-chegados europeus, os portugueses e os demais.

Este Memorial, primeiro volume da trilogia, nasce da carta de Pero Vaz de Caminha a dom Manuel, rei de Portugal (dela, por sinal, Sílvio Castro fizera publicar em 1984 uma primeira edição crítica em italiano), a acção narrativa se desenvolve através de uma série de cartas, espécie de diário, dirigidas pelo escriba português a Maria, “filha amada e infeliz”, nas quais pretende “tudo contar” e tem muito que contar. No bojo desse diário de epístolas se projeta um espetáculo teatral, a “Festa para o Príncipe Perfeito”, o texto ganha força de ação, enriquece-se com o diálogo, e complementa e amplia o que é revelado nas cartas a Maria.

Sílvio Castro conseguiu construir uma arquitectura original para o romance, nela os tempos e os espaços romanescos encontram a medida justa e certa da narrativa, a pluma de Pero Vaz de Caminha faz a unidade da peça e das missivas, mantendo sempre em alto nível a compreensão e a escrita. Tome-se de qualquer das páginas para que se comprove a maestria do autor: “Principe, lá sono i vostri nuovi sudditi”; releio o capítulo no gozo da leitura, no prazer da frase a revestir o assunto.

Pena citar em tradução italiana. Já que o faço, aproveito para recomendar aos editores brasileiros a publicação, o quanto antes, deste romance de Sílvio Castro. O ficcionista nada fica a dever ao mestre pesquisador, ao catedrático, ao ensaísta, ao historiador da literatura; além da erudição, o autor possui o dom da inventiva. E que à edição deste primeiro romance sigam-se as dos dois outros para que se complete a trilogia e nos seja dado saber como éramos e de que maneira tropeçamos os primeiros passos no caminho da nacionalidade brasileira.


publicado por Carlos Loures às 16:30
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Autores fundadores da antropologia (de Raúl Iturra)
Sir James George Frazer (1 de Janeiro de 1854, Glasgow, Escócia — 7 de Maio de 1941, Cambridge), foi um influente antropólogo deviam passar entre povos primitivos por comércio, vigilância, tomar conta da ordem; ou por exploradores, missionários e outros viajantes e não por antropólogos formados em essa ciência ou etnógrafos treinados nos primeiros estágios dos estudos modernos de mitologia e religião comparada. Foi a sua obra a que inspirou a Malinowski pela metodologia comparativa, não por causa de trabalho de campo in situ. De facto, o primeiro em usar a metodologia de observação participante, foi Malinowski...quem deparara com uma surpresa: tinha escrito o seu livro sobre a família aborígene, que a pensava como nuclear. No tempo em que foi preciso ir a Austrália, por ser cidadão de países inimigos na primeira grande guerra, deparou com a surpresa da família ser um conglomerado de indivíduos separados ou reunidos pela organização clãnica. A partir desse dia, não descansou em comparar os efeitos económicos e psicológicos diferentes que a também diferente organização de uniões matrimoniais, traziam. Muito escreveu sobre a não existência do Complexo de Édipo e os rituais económicos prévios a compra e venda de bens. Foi a sua grande descoberta e, a partir desse dia, não há antropólogo que não faça observação participantes para ou reconstruir a história do seu povo ou para entender as formas psicológicas, emotivas e de pensamento de outros povos. Malinowski marcou e definiu o começo de uma nova era para a Antropologia Social.


Entre as suas obras, podem ser referidas «The economic aspects of the Intichiuma ceremonies», ensaio escrito no Nº11 Fetshrifl Tillegnad Edwuard Westermarck, Helsingfors, 1923; The foundalions of failh and morais, The Riddel Memorial Lectures, Oxford University Press: Londres, 1936. B. Malinowski e Júlio de la Fuenle, Mali¬nowski in Mexico: the economics of a Mexican market system, Routledge and Kegan Paul: Londres, 1982. Textos todos que, antes de ser livros, foram os escritos da juventude de Malinowski, que podem ser lidos no livro editado por Robert Thorton e Peter Shalnik The Early writings of Bronislaw Malinowski, 1992;ou na compilação do seu discípulo Robert Redfield: Magic, Science and Religion and other esays, Beacon Press: Boston, Massachussets, 1948. Há versão portuguesa, Edições 70: Magia, Ciência e Religião, 1984.


publicado por Carlos Loures às 15:00
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Jorge Amado, hoje às 16:30, para falar de Memorial do Paraíso

Este romance do nosso colaborador Sílvio Castro foi lançado em Itália antes de ter sido publicada a edição em português. Jorge Amado, o grande escritor brasileiro, publicou no Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, logo após o lançamento dessa edição em Itália, o artigo que temos o prazer de transcrever.

Hoje, às 16:30 , não percam o artigo de Jorge Amado de análise ao romance de Sílvio Castro, um dos fundadores do Estrolabio:

Memorial do Paraíso
o romance do descobrimento do Brasil


publicado por Carlos Loures às 13:30
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O telelixo em Espanha (A televisão é para estúpidos?)


Carlos Loures

Em Espanha onde, pelos vistos, as coisas não vão melhor, circula um manifesto exigindo a aplicação de medidas contra a emissão de telelixo. Assumindo-se como uma «Plataforma para uma televisão de qualidade», é apoiada pela Associação de Utentes da Comunicação, pela União Geral de Trabalhadores, pelas «Comisiones Obreras», pela Confederação Espanhola de Mães e Pais de Alunos, pela União dos Consumidores de Espanha e pela Confederação das Associações de Moradores de Espanha.



Muito do que aqui digo a seguir, não sendo uma tradução literal, foi inspirado naquele manifesto. E não seria mau que fôssemos pensando numa iniciativa semelhante, concitando o apoio de associações de pais, organizações de defesa dos consumidores e dos ecologistas, porque o telelixo é extremamente poluente. Enfim, teria de ser uma amplo movimento de opinião dirigido, sobretudo, aos cidadãos em geral, porque, antes de mais, o telelixo e sua proliferação coloca um sério problema de cidadania, minando e pondo em perigo os próprios alicerces da Democracia.

O objectivo dos promotores do telelixo é encontrar um mínimo denominador comum que permita atrair um grande número de espectadores. Para tal, utilizam qualquer tema de interesse humano, seja um acontecimento político ou social, como mero pretexto para desencadear aquilo que consideram ser os elementos básicos para a atracção da audiência – sexo, violência, sentimentalismo, humor grosseiro, superstição, muitas vezes de forma sucessiva e recorrente dentro do mesmo programa.

Sob uma hipócrita aparência de preocupação e denúncia, os programas de telelixo deleitam-se com o sofrimento, com as demonstrações mais sórdidas da condição humana, com a exibição gratuita de sentimentos e de comportamentos íntimos. O telelixo, conta também, com uma série de ingredientes básicos que o transformam num factor de aculturação e de desinformação, bem como um obstáculo para o desenvolvimento de uma opinião pública livre e devidamente fundamentada. Segue-se uma lista desses ingredientes.

O reducionismo, com explicações simplistas dos assuntos mais complexos, facilmente compreensíveis, mas parciais ou contendo orientações determinadas. Uma variante deste reducionismo consiste no gosto das teorias da conspiração de não se sabe bem que poderes ocultos, que muitas vezes servem de álibis a determinadas personalidades e grupos de pressão no seu trabalho de intoxicação.

A demagogia, que consiste em apresentar todas as opiniões como equivalentes, independentemente dos conhecimentos ou dos fundamentos éticos sobre os quais se apoiam. Para tal, contribuem a realização de supostos debates, entrevistas e inquéritos, que mais não são do que simulacros de verdadeiros debates, entrevistas e inquéritos, e que longe de lançarem luz sobre os problemas apenas contribuem para consolidar a ideia do «vale tudo». A demagogia tem uma variante: o desenvolvimento de mensagens esotéricas, milagreiras e paranormais, apresentadas de forma acrítica e num mesmo plano de realidade que os argumentos científicos. O desprezo pelos direitos fundamentais, tais como a honra, a intimidade, o respeito, a veracidade ou a presunção de inocência, cuja infracção não pode em nenhum caso ser defendida sob a capa da «liberdade de expressão».

Este desprezo desemboca na realização de «juízos paralelos», no abuso do sensacionalismo e do escândalo; na apresentação de testemunhos supostamente verdadeiros, mas que na realidade provêm de «convidados profissionais».


E, claro, na apoteose de uma televisão de trivialidade, baseada no protagonismo das personagens do mundo cor-de-rosa, cujas insignificâncias e conflitos sentimentais, tratados descaradamente de forma sensacionalista, são outro dos ingredientes deste molho infecto. O problema é ainda mais pungente quando este tipo de conteúdos são difundidos através do canal de serviço público, cuja obrigação moral e legal é o de fornecer produtos, ética e culturalmente, solventes.

O telelixo nada inventou: a lisonja fácil ao espectador, o gosto pelo sensacionalismo, vêm muito de trás. Porém, na actualidade, a enorme influência social dos meios de comunicação de massas, aumenta de forma exponencial os efeitos negativos deste tipo de mensagens.

O telelixo encontra-se num momento ascendente do seu ciclo vital, como um cancro cujas metástases invadem todo o tecido social, impedindo que grelhas de outros modelos de informação mais respeitadores da verdade e do interesse colectivo surjam e se expandam.


Tudo o que no referido manifesto se alega para mobilizar esforços que combatam este tipo de negócio e todos os seus agentes é válido no nosso País.


publicado por Carlos Loures às 12:00
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Novas Viagens na Minha Terra

Manuela Degerine

Capítulo LXV

Décima sétima etapa: de Vilarinho a Barcelos (continuação)

Sigo pela N306, quilómetro 78 e seguintes. A beira da estrada é verde com algumas flores amarelas, há uma barreira íngreme, também verde, identifico feto, musgo, sedum e, lá em cima, de um e do outro lado, uma mata de eucaliptos. O temporal espalhou pernadas pelo meio da estrada; puxo as maiores para a valeta. Chego à ponte que atravessa o rio Ave. Não a ponte romana, de que o roteiro fala; esta é moderna. Paro para olhar: de um lado, eucaliptos, do outro, ao longe, terrenos cultivados, um pouco de vinha, talvez outras culturas, das quais só distingo os rectângulos e as diferentes tonalidades de verde.

Chego à Junqueira quando – de repente – reparo: não trouxe o bordão! As finlandesas camuflaram-no por debaixo de oito varas e suspenderam vinte impermeáveis por cima. Com tamanha barafunda naquela divisão e, para mais, não acendendo as luzes, para não as incomodar... Não admira que o não visse.

Que fazer? Caminhei cinco quilómetros. Voltar atrás? Juntar dez quilómetros de caminhada aos vinte e oito da etapa? Pedir boleia? Passam raros carros... As finlandesas terão saído, encontrarei o abrigo fechado, idem para a farmácia, por ser domingo, a farmacêutica estará ou não em casa... Prefiro não arriscar.

O bordão evitou-me decerto algumas quedas. Daqui em diante, quando tropeçar, como me equilibro?

Ocorre-me a história de Gandhi: tendo partido o espelho, barbeou-se sem ele, sentindo-se mais livre. É a versão indiana da peripécia grega... Diógenes, vendo uma criança beber nas mãos, também abandonou a supérflua tijela. Sou menos filósofa do que Gandhi e Diógenes: lamento a perda do bordão. Porém... O que não tem remédio, remediado está: comprarei outro, logo que possa. Como uma barra, para me consolar – e prossigo o caminho.

Quando atravesso Bagunte, chuvisca um pouco. Tiro o impermeável da mochila? Prevendo a chuva, arrumei-o no cimo. Entro no café para beber um copo de leite e adiar a operação, compro uma bola, demasiado branca – não há outra variedade. Apesar de se sentirem pouco confortáveis, talvez os meus pés não tenham bolhas; prefiro prosseguir sem mais pormenores.

Deixou entretanto de chuvinhar, embora pareça que, levantando os braços, me penduro na borracha cinzenta que tapa todo o céu. As quedas de água da madrugada não esvaziaram os aéreos depósitos...

Desço um trilho inclinado, pelo qual a chuva terá, durante a noite, corrido em enxurrada, transformando-o em ribeiro, atenta para não escorregar, entre pedras e lama, quando aparece o peregrino italiano.


publicado por Carlos Loures às 10:00
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Uma pergunta urgente: Para quando a devolução da nossa Olivença, ocupada por Espanha?
Ana Maria Aguiar Macedo*

Durante os meus já longos anos de vida, tenho aguardado ansiosamente (eu e quantos mais?), o fim da pérfida ocupação Oliventina pela nossa vizinha Espanha, que simula ter-se esquecido de sobre tal assunto ter aposto a sua assinatura no Tratado de Viena de 1815, que ela própria ratificou em 1817.

Os anos passam e Olivença continua ocupada pelos Espanhóis.

Amnésia geral ou deliberada violação do Código de Honra que, desde sempre, obriga ao cumprimento da palavra dada, a qual, para mais, consta de um documento de tão soberana importância como é um Tratado? Será que para os Códigos Espanhóis o roubo é meritório? Tal é impossível! O que também me espanta, é a aparente apatia dos nossos governantes perante este atentado à nossa soberania.

Será que já não se estuda História? É que, no meu tempo, quem pretendesse ingressar na Diplomacia, tinha de conhecer e de estudar as razões de desentendimento que porventura existissem entre países soberanos. Pelo menos quando eu me licenciei em Direito, este era um ónus obrigatório daquela carreira. Não acredito que tal prática tenha caído em desuso.

Mas se tal tiver sucedido, eu e centenas, milhares de portugueses, exigiremos o seu regresso.

*(Transcrito de Olivença é Portuguesa)


publicado por Carlos Loures às 09:00
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Germano Almeida vem até ao Terreiro da Lusofonia – os romancistas também são bem-vindos
Temos trazido a este Terreiro da Lusofonia poetas, pintores e músicos. Os ficcionistas começaram a agitar-se, queixando-se de discriminação, e criou-se uma vaga de fundo que nos obriga a trazer também alguns desses contadores de histórias. O primeiro que aqui chega a este espaço de palavras, sons e cores, é Germano Almeida, um grande escritor de Cabo Verde. Apresentemo-lo:

Germano Almeida nasceu na ilha da Boavista, Cabo Verde, em 1945. Licenciou-se em Direito em Lisboa e exerce actualmente advocacia na cidade do Mindelo. Estreou-se como contista no início da década de 80, colaborando na revista Ponto & Vírgula. A sua obra de ficção representa uma nova etapa na rica história literária de Cabo Verde. Está publicada em Portugal pela Caminho e começa a despertar interesse no estrangeiro, nomeadamente o romance O Testamento do Senhor Napumoceno da Silva Araújo, do qual vários países compraram os direitos, encontrando-se já publicado no Brasil, na Itália e França. O filme de baseado nesta obra (O Testamento do Senhor Napumoceno) foi galardoado com o 1º Prémio do Festival de Cinema Latino-Americano de Gramado, no Brasil; foi igualmente distinguido com os prémios para o melhor filme e melhor actor no 8º Festival Internacional Cinematográfico de Assunción, no Paraguai.

O dia das calças roladas (1982);O Meu Poeta (1989); O testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo (1991);A morte do meu poeta (1998);A Família Trago (1998);Estórias contadas (1998);Estórias de dentro de Casa; Dona Pura e os Camaradas de Abril (1999); As memórias de um espírito (2001);Cabo Verde - Viagem pela história das ilhas (2003) - Apresentação histórica das nove ilhas habitadas de Cabo Verde; O mar na Lajinha (2004); Eva (2006).

Podemos ver a apresentação de O Testamento do Senhor Napumoceno, baseado no romance homónimo de Germano Almeida, um filme realizado por Francisco Manso em 1997, co-produção portuguesa, brasileira e cabo-verdiana, com um elenco onde se destacam Nelson Xavier, Maria Ceiça, Milton Gonçalves e Cesária Évora.



publicado por Carlos Loures às 08:00
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Serões da província
Carlos Loures
Não vos vou falar do romance de Júlio Dinis. Os serões são outros.

Há quarenta anos estava-se no auge da luta antifascista. Salazar caíra da cadeira, Caetano prometer democratizar, mas tudo continuou na mesma – guerra colonial, polícia política, censura, partido único… ditadura, para tudo dizer numa palavra. Mudou os nomes às coisas, mas tudo ficou na mesma.

Uma boa parte da população conspirava, sobretudo nas camadas mais esclarecidas da pequena-burguesia – professores, profissionais liberais, oficiais do exército (geralmente de patente não superior a capitão), pequenos empresários, estudantes… E, sobretudo nas pequenas cidades, conspirava como?

Não falando dos militantes do Partido Comunista que estavam enquadrados por elementos ligados a estruturas regionais ou sectoriais, os chamados «controleiros» e que reuniam em obediência a regras estritas de segurança, próprias do funcionamento de um partido (casas clandestinas de apoio, pseudónimos, regras estritas do funcionamento das reuniões, etc.), a chamada gente da «oposição democrática», não observava essas regras de segurança. Uma reunião tinha, por vezes, sobretudo nas pequenas cidades, o ar de um serão cultural.

A Oposição Democrática só fazia reuniões formais em período de eleições. Passados esses períodos, grupos de amigos continuavam a reunir-se, muitas vezes sem que essas reuniões tivessem outro objectivo que não fosse o de manter acesa a chama da resistência. De uma forma geral, era gente que não estava organizada em partidos, embora por vezes aparecesse um ou outro «pescador» tentando cooptar elementos. O PC fazia isso, as outras organizações mais pequenas também. Os resultados não eram muito bons.

A «conspiração» desta gente resumia-se a fazer serões culturais. Um projector de 8mm, uma cópia do «Aniki Bobó» ou do «Couraçado Potenkin», discos com canções do Yves Montand, do Jean Ferrat, do Brel, do José Afonso, do Fanhais, do Luís Cília ou da María Casares; bobinas com as declarações de Havana, do Fidel Castro ou com canções da Guerra Civil espanhola… Coisas assim, acompanhadas por brande (o uísque não era tão barato como é hoje e quando aparecia era uma festa), uns bolos caseiros feitos pela anfitriã e assim se reuniam vinte trinta pessoas. Era, mais ou menos, uma vez por semana – a noite de sexta-feira era a preferida. Chamar a isto resistência parecerá excessivo se não tivermos em conta o contexto político. Caso estas reuniões fossem sempre na mesma casa, corria-se o risco de, sem ser convidada, a PIDE aparecer.

Esta era sobretudo uma maneira de resistir à ofensiva cultural do Estado Novo que, sentindo a morte aproximar-se, apertava as suas malhas. E a cultura não fugia a essa ofensiva. Na música era o «nacional-cançonetismo», expressão inventada, salvo erro, pelo Mário Castrim, com o Calvário, a Madalena Iglésias, o Artur Garcia, e a Simone ...

A televisão, com dois canais, a Emissora Nacional e outras estações de rádio controladas pelo regime, os jornais e as editoras, apertados pela censura e depois pelo exame prévio… Enfim, um aro de ferro apertado em torno das cabeças. Os serões da província eram uma forma de cultura alternativa. As pessoas abriam janelas para outros conteúdos culturais. Não terá sido por acaso que as mentalidades se abriram à Revolução de forma tão espontânea. Os serões tiveram o seu papel nessa abertura.

Ia-se mudando de casa, para não dar muito nas vistas. Mesmo assim, havia quem denunciasse, geralmente por carta anónima, que na casa de fulano havia reuniões estranhas. Lembro-me de uma reunião, essa mesmo conspirativa, numa cidade minhota onde no fim cantámos os «parabéns a você» para simular uma festa de aniversário. Era muita gente, vinda de vários pontos do país, muitos carros estacionados numa rua de pouco movimento. Enfim dava nas vistas e aquela foi a saída. Este cenário que estou a descrever era mais frequente nas pequenas cidades. Mas assisti a muitas reuniões deste tipo político – gastronómico – cultural, no Porto e em Lisboa. Prova, se fosse preciso, de que todo o País continuava (e continua) a ser provinciano.

Segue-se uma série de vídeos com algumas das audições recorrentes nas tais reuniões. Por exemplo, esta canção de Jean Ferrat (recentemente falecido) era muito escutada, «Nuit et brouillard», tradução de «Nacht und Nebel», noite e nevoeiro, nome dado pelos nazis à operação de deportação de prisioneiros para os campos de extermínio. Noite e nevoeiro, porque queriam que sobre o crime caísse uma noite que o tornasse invisível e um nevoeiro que o fizesse esquecer. Em 1956. Alain Resnais realizou um filme com este título. Ouçamos Ferrat:



Outra presença certa nos serões era «Ay Carmela», um canto da Guerra Civil de Espanha. Todos cantávamos em coro, com o anfitrião a pedir para não fazermos muito barulho por causa da vizinhança – El ejercito del Ebro, rumba, la rumba, la rumba la…




Yves Montand e o seu «Chant de la libération», mais conhecido por "Chant des Partisans",que se converteu durante a ocupação em hino da Resistência, nunca faltava às nossas reuniões:


E o Zeca, como podíamos nós passar sem o Zeca?



Cuba! Quantas vezes ouvimos Fidel e as suas emocionadas e emocionantes declarações de Havana. Para meados da década, começámos a perceber que Fidel se rendia a um pragmatismo que o obrigava a fugir do imperialismo americano, lançando-se nos braços do imperialismo soviético. Guevara era a voz pura da Revolução de 26 de Julho:



O «Couraçado Potenkin», cujas cópias conseguíamos comprar em Paris ou em Londres, animavam muitas das nossas reuniões. Realizado por Sergei Eisenstein em 1925, provinha de uma União Soviética ainda não totalmente estalinizada. Era peça de êxito assegurado, com palmas no final. Se não viram e dispõem de algum tempo, não percam este filme que constitui um elo imperdível da história da cinematografia mundial.



Quando as reuniões acabavam, os «conspiradores» iam saindo em pequenos grupos. As casas ficavam desarrumadas. O casal anfitrião, enquanto levava copos e pratos para a cozinha, repunha cadeiras no lugar, comentava entre si: «Não correu mal, pois não?»


publicado por Carlos Loures às 01:00
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Poema a quatro mãos


Ethel Feldman e Luis Moreira

Eu só dei o mote que são os três primeiros versos, a Ethel, pegou numa coisinha muito simples e desenvolveu, dando sentido a uma ideia que sempre andou a dançar no meu espírito.Por isso, são três partes da Ethel e uma parte minha.



"Como posso esquecer-te
se tentando esquecer-me
me lembro de ti."

danço sem musica
procuro teu passo
na pausa me encontro
enquanto te perco

Como posso esquecer--te
se demoras em mim
quando esqueço que existo

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publicado por Luis Moreira às 00:25
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Sexta-feira, 30 de Julho de 2010
Um poema de Josep A, Vidal
Capvespre

Has esperat, al caient de la tarda,
la simfonia d'un capvespre endolcit,
l'esclat de llum, la plenitud diàfana,
la serenor que precedeix la nit;
has resseguit l'espai amb la mirada,
se t'han perdut els ulls en l'infinit,
i has escoltat l'oreig entre les branques
com el fraseig d'un vers de metre antic...
No hi ha res mes. Aquí el camí s'acaba.
Detura el pas i encalma l'esperit.
Acluca els ulls. Guarda dins teu la tarda,
el cel, la llum, la resplendor subtil
d'aquest ponent que lentament avança
d'un esclat a un no-res. Principi i fi.

Josep A. Vidal


Octubre, 2008




Ocaso


Esperaste, ao cair da tarde,
a sinfonia de um doce crepúsculo,
a explosão de luz, a diáfana plenitude,
a serenidade que antecede a noite,
com o olhar seguiste o espaço,
perderam-se-te os olhos no infinito,
e escutaste a brisa deslizando entre os ramos
como o escandir de um verso de metro antigo,
Não há mais nada. Aqui acaba o caminho.
Detém o andar e acalma o teu espírito.
Semicerra os olhos. Guarda dentro de ti a tarde,
o céu, a luz, o subtil resplendor
deste poente que lentamente avança
de um esplendor para o nada. Princípio e fim.


(Versão em português de Carlos Loures)


publicado por Carlos Loures às 22:30
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Alguém quer abordar este assunto?
A Clara Castilho faz um desafio a colaboradores e leitores do Estrolabio.



publicado por Carlos Loures às 21:00
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Memorial do Paraíso, de Sílvio Castro
      O romance do Descobrimento do Brasil


A partir do dia 1 de Agosto, todas as tardes, à 16:30, publicaremos um trecho deste romance.


O nosso colaborador Sílvio Castro, um dos fundadores do nosso blogue, escreveu esta magnífica obra que mereceu de Jorge Amado palavras de grande elogio. Palavras de que daremos conhecimento aos nossos leitores, publicando na íntegra este texto do autor de Jubiabá, dia 31 de Julho, no mesmo horário - 16:30.


Sílvio Castro, o escritor brasileiro, catedrático de Língua e Literatura Portuguesa na Universidade de Pádua é o autor de um admirável estudo sobre a Carta de Pero Vaz de Caminha, carta que está na base da concepção desta ficção.


  A partir de 1de Agosto, às 16:30, publicaremos, todos os dias uma parte deste romance.
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publicado por Carlos Loures às 19:30
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República nos livros de ontem nos livros de hoje - 89 e 90 (José Brandão)


A Influência da Maçonaria em Portugal

Barbosa Sueiro

Perspectivas & Realidades, 1984

A chave das angústias de Barbosa Sueiro está na constatação de que uma Ordem que se distinguiu no combate ao obscurantismo acabou por perder o Norte em querelas que tinham mais a ver com a ocupação do aparelho do Estado republicano que com a procura de seguimento a uma obra insuficientemente registada nos manuais de História. «Eu compreendo que o bom Maçon de ontem tivesse sido monárquico constitucional, que o bom Maçon de hoje seja republicano radical, e que o bom Maçon de amanhã venha a ser socialista avançado», reconhece o autor, depois de lamentar que a mocidade das escolas seja monárquica e a das oficinas bolchevista.

Numa época de desencanto perante a comparação entre o prometido pela República e os resultados da acção do regime fundado em 5 de Outubro de 1910, Barbosa Sueiro condena a existência de «tantos agrupamentos maçónicos, quantos os agrupamentos políticos».

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Instauração da República

Imagens da Época

Vários

Aveiro, 1985


COMPILAÇÃO DE ELEMENTOS ICONOGRÁFICOS relacionados com a Instauração da Republica, seleccionados a partir do acervo da exposição realizada no SALÃO CULTURAL DO MUNICÍPIO DE AVEIRO, de 5 a 20 de Outubro de 1985, promovida pelos Serviços de Cultura da Câmara Municipal de Aveiro.


publicado por Carlos Loures às 18:00
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