Quarta-feira, 30 de Junho de 2010
Carta a um escritor
António Gomes Marques

Há pessoas que escrevem livros, de imediato publicados, que não necessitam de publicidade e, logo à partida, têm a garantia de venda de milhares de exemplares. Há escritores, uns bons e outros excelentes, que se vêem e desejam para encontrar editor e cujas obras, quando editadas, se vão arrastando ao longo do tempo numa venda lenta e que, muito de vez em quando, lá esgotam a edição. O fenómeno não é apenas português. Claro que também acontece que estes escritores, se têm a sorte de as livrarias lhes darem visibilidade, conseguem passar a ser conhecidos e, naturalmente, a ser procurados; no entanto, com raríssimas excepções, o número de exemplares de cada edição dificilmente ultrapassa os 3000 exemplares. Mas são estes escritores que merecem que deles falemos, que gritemos ao Mundo: «Olhem para aquele livro, leiam-no, discutam-no, pensam-no!»

É dum desses escritores que vos quero falar. Não é conhecido do público, não atingiu ainda a excelência e poderá nunca a atingir se não o lermos e, assim, o levarmos a desistir.

Foi no dia 26 de Novembro de 2007 que o António Norberto Cunha me procurou trazendo um livro debaixo do braço, o que nada teria de extraordinário não fosse ele o autor. Tratava-se de «O Triângulo de Dezembro e outras ficções», livro de contos, livro que estendeu para mim, dizendo: «É para ti!» Com alguma emoção, abri de imediato para lhe pedir a dedicatória, da qual o Norberto não se tinha esquecido e que não resisto a transcrever:

A

António Gomes Marques

velho companheiro de per-

cursos e ideais e grande

amigo, com um frater-

nal abraço.

26/11/07

Norberto Cunha

Dois ou três dias depois iniciei a sua leitura, finda a qual me coloquei frente ao computador, não resistindo a escrever o texto que abaixo vos deixo (e que continuava inédito), texto esse que vos dirá a razão por que não podia deixar de o produzir, e a que chamei:

CARTA A UM ESCRITOR

Meu Caro Norberto


Já são passados mais de 2 anos sobre a resposta que me deste à inevitável pergunta que se faz a um amigo que não vemos há algum tempo: «Tenho desfrutado da companhia dos netos e do prazer da escrita». Perguntei-te de seguida o que tens escrito, pensando eu que me irias falar da «nossa» Filosofia que tanto tem ocupado as nossas vidas e tu, confesso, voltaste a surpreender-me: «Tenho escrito uns contos, pensando mesmo em publicar um livro».

Um livro, óptimo, e logo de contos, que eu sempre considerei o mais difícil na ficção. E foi este o tema que se seguiu na nossa conversa. Perguntaste-me então se eu estaria na disposição de ler alguns e, depois, dar a minha opinião. Claro que a resposta teria de ser sim.


Fui um leitor atento, mas demasiado exigente. Acredita que foi por amizade, dado temer que não passasses de mais um ficcionista no meio de muitos, o que para um amigo meu seria pouco. Tinhas escolhido a via mais difícil para fazer literatura – escrever contos. Mas, na verdade, pode ser-se muito bom contista sem atingir a mestria de um Anton Tchekhov, o melhor de todos na minha modesta opinião.


Vi, de imediato, que tinhas cuidado com a narração e que sabes perfeitamente que a literatura tem de ser construtiva e não demonstrativa, mas deixei para o futuro uma apreciação mais definitiva sobre a tua qualidade de contista. Foi, mais ou menos, o que te disse depois de lidos os 3 contos que me enviaste, havendo um deles que não me agradou, embora te tivesse dito que deverias pegar nas suas personagens, construir-lhes uma vida, sem preocupações do número de páginas para, assim, ganhares experiência para vires a ser o ficcionista que estavas a pretender ser.

Mais tarde, disseste-me que o livro estava pronto e que gostarias que eu fizesse, naturalmente com outros, a sua apresentação pública. Convite honroso que não pude aceitar por, nas datas prováveis, não estar no país. Foi pena não ter podido testemunhar este momento importante da tua vida, igualmente importante para os amigos!

Entretanto, chegou-me o livro, «O Triângulo de Dezembro e outras ficções», generosamente oferecido por ti, cuja leitura iniciei cheio de curiosidade uns dias mais tarde, logo que terminadas outras leituras (não consigo ler um só livro de cada vez).

Nos contos gosto, naturalmente, de histórias curtas que sejam capazes de sintetizar um romance em meia dúzia de páginas, ou menos, que me falem de pessoas vivas, verosímeis, que levam a nossa imaginação a procurar a solução do mistério que o autor tão bem nos sabe apresentar. Por isso, gosto dos contos de Manuel da Fonseca, do Carver, da Flannnery O’Connor, do Juan Rulfo, do Italo Calvino, como também de Ilya Ehrenburg (esqueçamos um pouco o seu estalinismo), do Guy de Maupassant, da «Servidão e Grandeza dos Franceses », de Aragon, do Miguel Torga e de muitos, muitos outros, sem esquecer o maior – Anton Tchekhov.

E gosto dos teus contos, perfeitamente enquadrados quase todos eles na minha concepção do que é um conto. Apareceram-me como narrados de dentro do universo que procuras retratar, sentindo-se muitas vezes a tua adesão ao mundo que mostras, numa linguagem simples para o leitor, bem mais difícil para o autor. Mostras dominar já bastante bem, para além da linguagem, a técnica do conto, a criação do mistério a partir de uma realidade que o leitor pode (deve) conhecer.

Por fim, não posso deixar de referir que continuaste a surpreender-me. Falo do conto «A Bandeira Moçárabe», que tomo como homenagem à terra que te viu nascer, Faro, conto esse prenhe de erudição.

Poderias ter escolhido a época pré-histórica ou a época romana, bem assinaladas por traços bem materiais; optaste pela época da ocupação islâmica, iniciada no séc. VIII, mostrando um conhecimento profundo do viver quotidiano da época que retratas e que resulta numa lição erudita que me encantou. Bem hajas!

E pronto, meu caro António Norberto, esta carta já vai longa e é tempo de a terminar.

Abraça-te com a amizade de sempre o

António


publicado por Carlos Loures às 23:55
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Outra Constituição, outra Democracia, uma Terceira República – 43
Carlos Leça da Veiga


Só Portugal é que não podia ter colónias?

Entre 1808 e 1850, Portugal foi vítima de transtornos políticos não só memoráveis como, também, dum vulto tal que arrasou, com um imenso significado e consequências irreversíveis, o património económico nacional. Continua a ser difícil compreender-se como conseguiu sobreviver ao cariz gravoso – imensamente gravoso – das circunstâncias subsequentes e, apesar de tudo, ter conseguido sair, com certo donaire, dos descalabros político, económico e social em que, sucessivamente, teve de viver.

A agressão militar da França napoleónica cujas acções de pilhagem deixaram marca indelével para todo o sempre têm de somar-se várias outras vicissitudes, todas muito perturbadoras, inclusive criminosas, como tenha sido a sujeição ao despotismo duma década de ocupação militar inglesa, como foi a imensa alteração económica causada pela inevitável independência do Brasil, como foi a traição da “Abrilada” e o seu repugnante miguelismo absolutista a exigir, como aconteceu, a consequente guerra civil entre 1832 e 1834 para, depois, até á regeneração em 1850, o país ter passado a ser vitimado por quanto ficou consagrado como “devorismo”, nele incluído os desmandos do “cabralismo” e os episódios fratricidas, imensamente debilitantes, da guerra da Maria da Fonte em 1846, como, depois, em 47, da guerra da Patuleia, qualquer das duas acabadas às mãos dos interesses do exterior, para tanto coligados.


A política nacional portuguesa – sempre vigiada de perto pelo imperialismo do “aliado” inglês – foi vitima de distorções ou de interpretações paroquiais com cujas, por necessário, falharam – teriam de falhar – as várias tentativas de intervir com autonomia política, bom grado, aceite-se, as suas boas intenções. As obras públicas do fontismo, por exemplo, se foram, de facto um beneficio inquestionável para o património nacional português, foram, em especial, um bom negócio para os estrangeiros que por cá vieram construí-las, instalá-las e explorá-las porém, bom grado tanta obra pública e tanta “modernização”, a emigração para o Brasil, bem vistas as coisas, tornou-se, na realidade, a única saída satisfatória para um contingente imenso da população que, jamais deverá esquecer-se, anos a fio, foi o produtor efectivo das remessas financeiras capazes de compensarem os gastos nacionais com as importações, uma compensação financeira de tal modo significativa, que permitiu um viver descuidado na inconsciência duma possível crise nacional de bancarrota. O historiador Oliveira Martins deixou escrito que na opinião dos capitalistas estrangeiros “Portugal pareceu por largos anos um bom país a explorar, e as bolsas estrangeiras, passando a esponja do esquecimento sobre as bancarrotas passadas, abriram os seus cofres”.

A economia do País – a que interessa, a da arraia-miúda – andou para trás e, anos após, ainda na Monarquia, quase paralisou para, depois, com a República, num novo assomo de “modernidade”, entender-se dever fazê-lo no convívio social com os vários dirigentes políticos do ocidente europeus enquanto cinquenta e cinco mil portugueses conheceram horrores inimagináveis ao obterem a sua “modernidade” na agrura das trincheiras da Primeira Grande Guerra com o que, resultado brilhante, exauridos os cofres do Estado, sem ganhos significativos no crédito político internacional, aos seus dezasseis anos de vida, a República haveria de ser liquidada pelas consequências nefastas do 28 de Maio de 1926 para, depois, durante os cinquenta anos de fascismo e da sua obra de “modernismo”, aqui e nas colónias, o País não só ficar amordaçado como, triste sina, a ser forçado a uma emigração desmesurada, a ter mortos e estropiados numa guerra injusta de treze anos para, no seu fim, aliás muito feliz, quando era esperado desistir-se da prática saloia de ter-se a todo o custo, uma “modernidade” ou um “modernismo”, copiados do que era feito lá fora, nada disso aconteceu e, ao seu invés, como está à vista, tudo tem sido gasto numa montagem da “modernização” – tão querida do montanheiro – cujos resultados consequentes, falaciosos no mais essencial, dão medida do recuo pronunciado do posicionamento do País conforme verificado em variados indicadores económicos e sociais.

Na realidade, a perspectiva daqueles racionalistas que, entre nós, reclamava a tão proclamada necessidade de “ser-se moderno” (uma cópia em pequenino do que era visto fazer-se nos estados centro-europeus em expansão) só teria tido razão de ser caso não fosse, como foi, alicerçada na transitoriedade inevitável dum positivismo exaltado, estéril e inconsequente mas sim escorada num pensamento dialéctico susceptível de levar em linha de conta – goste-se, ou não – a evolução histórica do país.

Já na época pombalina, quando eram agitadas as mais influentes recomendações para acorrer-se ao chamamento e á cópia das práticas políticas, cientificas, comerciais e industriais dalguns estados da Europa central que os intelectuais desse tempo, aqueles apontados como esclarecidos – se o eram – já tinham de ter a obrigação de saber que o passado histórico nacional – um passado imponente com um desmoronar brutal – tinha de ter reflexos inelutáveis e inexoráveis em quaisquer acontecimentos e comportamentos posteriores. Com efeito, tinham de aperceber-se da dificuldade – senão mesmo da incongruência – de ser impossível não levá-los em linha de conta quando propunham mudanças tão avançadas no remanso tradicionário da vida paroquial portuguesa.

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publicado por Carlos Loures às 21:00
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É preciso arrojo, eu sei!


Adão Cruz

É preciso arrojo, eu sei!

Nestes tempos futebolísticos, nomeadamente neste malogrado Portugal-Espanha, assunto de que não percebo nada, nem estou interessado em perceber, é preciso muita coragem e muito arrojo, para vos vir falar de Materialismo e Espiritualismo. Precavi-me no entanto, com a ingestão de uma boa dose de ameixas vermelhas, pequeninas, pouco maiores do que cerejas, deliciosas, do quintal de minha saudosa mãe, regadas com meia garrafa de Mouchão tinto. Dizem que tais frutos, com um bom tinto, produzem um belíssimo resultado em termos de equilíbrio metabolismo-catabolismo, e, por conseguinte, de homeostasia, termo que já aqui tenho utilizado várias vezes, e que significa uma total harmonia do todo do ser humano.

O indivíduo materialista, no sentido filosófico e científico do termo, é aquela pessoa que acredita no ser humano como um todo, um todo indivisível, indissociável, uma única substância como dizia Espinosa. Aquela pessoa para quem não há qualquer fronteira entre a pele e a carne, entre a carne e o sangue, entre o sangue e o cérebro, entre o cérebro e a mente, entre a mente e o pensamento, do qual decorre toda a vida dita psíquica do indivíduo.

Assim como o aparelho circulatório se encarrega de toda a distribuição de fluidos no organismo, assim como ao aparelho respiratório cabe toda a oxigenação dos tecidos, assim como ao sistema endócrino pertence todo o complexo mundo hormonal do organismo, assim ao sistema cerebral corresponde toda a vida “psíquica” do ser humano. O cérebro é o receptor e emissor de todos os estímulos, exógenos e endógenos do organismo. É ele que, através de tais estímulos cria imagens, das quais decorrem emoções que, por sua vez, geram sentimentos que levam à consciência, à reflexão, à vontade e à decisão. E o pensador materialista baseia os seus conceitos numa intuição natural, numa investigação científica permanente, progressiva, dia a dia mais convincente, e, a não muito longo prazo, pensa ele, acabando por atingir verdades irrefutáveis.

A realidade de uma vida psíquica em nada se encontra em contradição com o materialismo. A vida psíquica, entendida como a vida decorrente da actividade cerebral, e, logicamente, de toda a actividade pensante, não contradiz, de modo algum, o pensamento materialista. O termo “psíquico” está de tal modo enraizado na nossa linguagem e na nossa sociedade que não é possível eliminá-lo, nem interessa. Quando um materialista diz, por exemplo, em conversa ou num texto literário, “a alma do poeta ou do pintor”, quer dizer o íntimo, o mais nobre do poeta e do pintor, e não, como é óbvio, se refere à alma do poeta ou do pintor em sentido espiritualista. Quando um materialista diz “ele é um espírito vivo”, logicamente que quer dizer que ele tem uma actividade psíquica intensa, perspicaz e arguta, e, de modo algum, se refere ao imaterial espírito contido no conceito espiritualista.

Para o espiritualista existe um dualismo corpo-espírito. Há duas realidades distintas no todo do ser humano, o corpo e o espírito, ou alma, interligadas em vida mas separadas depois da morte. Logo que a alma se separa do corpo, este vê-se reduzido à sua condição de matéria, logo putrefáctil, sem vida, enquanto a alma segue por outros insondáveis caminhos. Enquanto o materialista baseia os seus conceitos nas poderosas investigações científicas, sobretudo na área da Evolução e das Ciências Neurobiológicas, o espiritualista, sem qualquer base racional científica e convincente, baseia os seus conceitos numa crença, apenas numa crença, legítima, mas uma crença. Mas é assim e quem sou eu para tentar convencer alguém da “minha” verdade?

Não queria terminar sem deixar aqui bem explícita, a finalidade deste artigo. E esta resume-se no seguinte: Perpassa por aí a ideia, e muitas vezes em mentes de aventadores bem formados, de que o materialismo, em termos de sentimentos, está a léguas do mundo sentimental do espiritualista. Disparate total! Disparate absoluto! Faz lembrar aquela pergunta de uma amável e intrigada senhora: como é que o senhor, sendo materialista, pinta, escreve, faz poesia e tem sentimentos tão bonitos?

A vida psíquica, isto é, a actividade cerebral e mental de qualquer ser humano , não pessoalizada, evidentemente, é idêntica, seja materialista ou seja espiritualista. Um e outro pensam, raciocinam, amam, choram, riem, fazem poesia, são capazes das mais profundas emoções e dos mais nobres sentimentos. Quantas vezes um materialista tem sentimentos e vivências “espirituais” muito mais profundas e mais nobres do que um espiritualista e vice-versa! A única diferença reside no conceito de “esfera psíquica”que cada um tem. No primeiro caso, materialista, esta faz parte integrante, material, do ser humano no seu todo biológico, conceito bem firmado na dificilmente negável investigação evolucionista e neurobiológica, e, no segundo caso, pertence a um ser humano feito de duas partes, uma terrena e outra sobrenatural, mera questão de crença, legítima, repito, mas sem qualquer base racional e científica.

Acabemos de vez com o sentido pejorativo atribuído, de ânimo leve, tantas vezes acintosamente e irracionalmente, ao materialismo científico. Tal atitude, sobretudo nos dias de hoje, não eleva nem dignifica ninguém.


publicado por Carlos Loures às 19:30
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República nos livros de ontem nos livros de hoje - 45 (José Brandão)

Ensaios de História da I República Portuguesa

A. H. de Oliveira Marques

Livros Horizonte, 1988

A. H. de Oliveira Marques nasceu no Estoril (1933), tendo-se licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas e doutorado em História na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi Assistente daquela Faculdade e Professor em diversas Universidades norte-americanas.

Reúne-se nesta colectânea um conjunto de artigos, conferências e prefácios a livros, escritos e proferidos entre 1966 e 1986. Todos eles conservam actualidade, embora os objectivos que nortearam alguns e, como consequência, a estrutura de base e o próprio estilo, se afastem um tanto do habitual escrito histórico.

Julgamos que o estudioso do período continuará a encontrar utilidade na leitura dos vários ensaios. Na maior pane dos casos, aliás, eles valem exactamente como ensaios e não como análises eruditas. Por isso foram reduzidas ao mínimo as notas e aligeirados, tanto quanto possível, os textos.


publicado por Carlos Loures às 18:00
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Bakunine por Bakunine - uma série apaixonante dirigida pelo Professor Raúl Iturra
Amanhã, dia 1 de Julho daremos início à publicação de uma série de textos do grande revolucionário russo, Michael Bakunine, o principal teórico do anarco-sindicalismo. Cartas de Bakunine, com comentários e notas do Professor Raúl Iturra.

«A minha maior surpresa, foram os escritos de um aristocrata russo, aparentado com a família Romanov, mas um aristocrata subversivo que entregou a sua vida à defesa do povo, especialmente servos da gleba, que na Rússia Czarista havia muitos, e, mais tarde, por ter que fugir da prisão, dedicara o seu talento a causa operária, apesar dos pedidos do Imperador Czar Alexandre II, um liberal.

Solicitou de Michael Bakunine, a pessoa da minha descoberta, um anarco-sindicalista, que, durante os seus anos de prisão, escrevesse as suas Confissões, seria assim perdoado e sairia em liberdade. É esta a história que investiguei e que entrego parcialmente ao público. O resto está no livro sobre Marx».


A partir de amanhã, todos os dias, às 15 horas.

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publicado por Carlos Loures às 15:05
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Ontem e hoje: o crescimento das crianças (6)
Raúl Iturra


Quando as crianças crescem, acaba por haver uma movimentação de seres que estavam habituados a viverem juntos. A pequenada começa a conhecer o mundo, ao pé dos seus progenitores e é a partir de aí, que entendem. Entendem a partir do apoio afectivo que os pequenos têm quando abrem os olhos ao mundo. Na medida que os ciclos referidos avançam, a linguagem afectiva passa a ser uma linguagem social. E palavras que nunca tinham entrado em casa, começam a aparecer. Algumas, corrigidas pelos seus adultos, outras, apreendidas pelos mesmos adultos.

O lar original começa a crescer como a lua da qual tenho falado, com um crescimento prolongado. O lar cresce cada vez que aparece um novo ser. Como foi o caso de Pilar, que aparece Carmen e não há lar. Logo, aparece José, e não há lar ainda, logo ameaça a aparição de Olga, e o lar é formado. Mas, para o formar, a mãe com os filhos deve ir morar a casa dos sogros, e o pai, ausentar-se esses cinco anos a Venezuela.

E é ao seu regresso, que a casa pequena é feita, alargada quando aparece Pilar como fruto do reencontro, e alargada ainda mais, com o nascimento do Miguel e o matrimónio de José e o nascimento do neto. Mal é possível angariar dinheiro dos trabalhos de todos, Hermínio divide a terra em quatro porções, para os filhos fazerem casa e viverem autónomos.

E os netos começam a nascer, Pilar a ausentar-se a casa do marido para aí viver, mas aparecer quando é preciso. E, um dia qualquer, este grupo de três gerações virá a ser um grupo de quatro. Pelos rebentos que os netos adultos estão já prontos a fazer. Expansão que se da com o aparecimento material, mas também com o crescimento em, conhecimento. Não é só Pilar e a música, ou Alfonso seu marido, com a electricidade. É José, ou Pepe e a sua mulher, com a mecânica e o comércio, Olga e Carmen com a sua emigração e aprender outras formas de falar, o neto mais velho, com o seu noivado com uma médica e a sua formação em enfermagem. O saber que tinha sido sempre de cavalos e batatas, passa a ser de assistência social, de medicina, do corpo com Miguel a tratar de corpos e doentes a morrer para a funerária para a qual trabalha. E com as novas formas de falar o galego, língua oficial com sintaxes e gramática, como é também o castelhano.

Tinha eu dito que há ciclos no crescimento, mas os ciclos são de influência mútua no entendimento do real. A cultura do saber, é guardada, mas o saber social, entra pelo treino que o grupo nacional e estatal, faz. Até da lei. O que introduz uma outra característica do crescimento, a heterogeneidade do entendimento e dos interesses que cada um tem. O que acaba por modificar também o tipo de pessoas que visitam a casa, a qual casas são eles convidados, das quatro que existem juntas. E quem é quem deve pagar a atenção. Acaba por ser um conjunto de factos os que organizam a estrutura doméstica da casa. Onde fica uma mãe que persiste no seu entendimento, e um pai na sua sabedoria. O que todo professor deve entender quando ensina uma pessoa: não é o filho de, bem como o membro do grupo de. Crescimento de crianças complexo em todos os três lugares estudados, como complexo sempre foi em contextos históricos diferentes.

Como um leque que abre até o crescimento dos mais novos e a partida dos mais velhos, para a Historia. Cumprido como fica o seu papel íntimo e social. Para um crescimento complexo, em interacção pessoal e de tempos históricos, de saberes diferente juntos, de cronologias á distancia, sob o mesmo teto. Um convivo de símbolos entendidos de forma heterogénea, no tempo. Que explicita como os mais velhos eram, a memória social do passado, quando a criançada de hoje não era, o que essa pequenada pode dizer quando definir o que eu sou.



publicado por Carlos Loures às 15:00
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Manuel Rodrigues Lapa e a Galiza (2)
Carlos Loures

Nos anos que se seguiram, prosseguiu infatigavelmente a sua tarefa de pedagogo, saindo textos seus na Seara Nova, na Revista Portuguesa de Filologia, de Coimbra, na revista Anhembi, de São Paulo, no Diário Carioca, do Rio de Janeiro, nos Cuadernos de Estudios Gallegos, de Santiago de Compostela, na revista Romania, de Paris. Em 8 de Agosto de 1954, foi a São Paulo onde participou no Congresso Internacional de Escritores, na companhia de Adolfo Casais Monteiro e de Miguel Torga. Deu lições na Universidade e conferências na Faculdade de Filosofia da Universidade de Minas Gerais. Regressou a Lisboa e prosseguiu a sua batalha, publicando a comunicação ao congresso de São Paulo – Das origens da poesia lírica medieval portuguesa. Na Anhembi publicou Galiza e Portugal; aspectos da cultura galega.


O ar de Portugal tornava-se irrespirável. A ditadura não lhe dava tréguas (e ele também ia dando bastante trabalho a censores e polícias…). Chegara o momento de partir. Em Maio de 1957 fixou residência no Brasil, em Belo Horizonte. Leccionou Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais e intensificou a colaboração em jornais e revistas do Brasil, sem deixar de colaborar na «sua» Seara. Em Portugal, Salazar decidiu afastar Craveiro Lopes e as suas veleidades «de esquerda» e promover Américo Tomás. Mas não contou com o furacão Delgado. Nas eleições presidenciais de Junho, Humberto Delgado ganhou nas urnas, mas Tomás foi eleito. O Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, escreveu uma carta aberta ao ditador, defendendo a abertura do regime. Salazar «abriu-lhe» a porta de saída, retirando-lhe a diocese e obrigando-o a exilar-se. Manuel continuou no Brasil, ensinando, publicando, lutando. Em 1960, na revista Grial, de Vigo, saiu uma recensão sua ao livro de Luciana Stegagno Picchio In margine all’edizione di antichi testi portoghesi.

Em Dezembro de 1962 resolveu vir a Lisboa. Preso pela PIDE à chegada, foi solto no mesmo dia. Decidiu ficar em Portugal, apesar de tudo. Em 1964 leccionou um curso na Universidade de Santiago de Compostela e a revista Grial, de Vigo, dedicou-lhe um dos seus números. Entre outras publicações deste destaca-se, no Jornal de Letras e Artes, de Lisboa, o artigo Castelão: um grande artista galego. Em 1965, ano em que voltará ao Brasil, publicou Cantigas d’escarnho e de mal dizer dos Cancioneiros medievais galego-portugueses. (Editorial Galáxia, Vigo). Com uma emocionada dedicatória: «À Galiza de sempre, raiz anterga da nosa cultura, adico afervoadamente iste libro». Em edição do Instituto Nacional do Livro, do Rio de Janeiro, saiu a sua primeira Miscelânea de língua e literatura portuguesa medieval. Em 1967 publicou na Seara um artigo de homenagem a Raul Brandão, no centenário do seu nascimento – O «Balanço à Vida» na obra de Raul Brandão.

Em 1968, a Seara Nova, nos seus números de Maio, Junho, Julho, Agosto e Setembro, homenageou Rodrigues Lapa, que completou 70 anos em Abril, com textos e depoimentos de, entre outros, Orlando Ribeiro, Vitorino Magalhães Godinho, Lindley Cintra, Sophia de Mello Breyner, Ruy Luís Gomes, Mário Sacramento… Em Agosto, Salazar caiu da cadeira sendo substituído por Marcello Caetano. A «primavera marcelista», a promessa de uma liberalização do regime, revelou-se uma falsa esperança – continuou a Guerra Colonial e a repressão política.. Em 1969, Manuel, a convite de Mário Sacramento (entretanto falecido em Março), participou no II Congresso Republicano de Aveiro, presidindo a algumas sessões de trabalho.

Em 1971 participou na organização de uma Semana Cultural Galego-Portuguesa, em Coimbra, proferindo a palestra A Galiza, o Galego e Portugal. Em Fevereiro de 1973, substituiu Augusto Abelaira na direcção da Seara Nova. Ainda em 73, publica A recuperação literária do galego, única colaboração que teria na revista Colóquio-Letras, com uma resposta-comentário do escritor catalão, e seu amigo, Fèlix Cucurull (1919-1996).
 


Em 18 de Abril de 1974 foi ao Brasil, pois ia ser condecorado pelo Governo de Brasília. Foi, pois, no Brasil que soube que no dia 25 o odioso regime, que tanto o perseguiu a ele e a todos os democratas, caíra finalmente. No dia 29, regressou a Portugal. Prosseguiu a sua actividade, publicando textos na Seara Nova e na Vértice, principalmente. Em 1976, no dia 5 de Outubro, foi condecorado pelo Governo português com a comenda de Grande Oficial da Ordem da Liberdade.

Em 22 de Abril de 1977 completou 80 anos. No mês seguinte, a classe de Letras da Academia das Ciências de Lisboa, sob a presidência do professor Jacinto do Prado Coelho, aprovou um voto de saudação pela passagem do seu octogésimo aniversário. O académico Norberto Lopes recordou a obra «de um dos mais fecundos e brilhantes escritores e investigadores linguísticos, figura cimeira do ensino universitário e combatente valoroso da luta pela liberdade que se travou neste País». Em 1979, publicou Estudos Galego Portugueses: por uma Galiza renovada. Quando a Associação Galega da Língua (AGAL) se constituiu, em 1981, Manuel Rodrigues Lapa foi membro de honra, e figura, com Ricardo Carvalho Calero, Jenaro Marinhas e Ernesto Guerra da Cal, como uma das suas mais ilustres figuras.



Em Junho de 1981, como já disse, foi a Santiago participar no lançamento de um livro de Carvalho Calero. No n.º1 da Revista da Biblioteca Nacional, saiu um texto autobiográfico – Um rapaz curioso na velha Biblioteca Nacional, no qual após tecer diversas considerações sobre as opções que fez na vida, concluiiu em jeito de balanço final: «escolhi sempre a via libertária. Apesar de alguns contratempos e desilusões, posso afirmar que ainda me não arrependi».

Em Julho de 1982, na Universidade de Aveiro, proferiu uma conferência – O problema linguístico da Galiza; sobre cultura e idioma na Galiza. Em 1983, mais homenagens – destacamos a que, realizada na Biblioteca Nacional, foi presidida por Tito de Morais, presidente da Assembleia da República, em nome do chefe de Estado, Ramalho Eanes. De realçar um impressivo discurso da professora Maria de Lurdes Belchior. Numa homenagem do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa, sairam dois volumes do Boletim de Filologia, com uma nota introdutória dos professores Lindley Cintra e Maria Elisa Macedo de Oliveira. O volume é composto por 55 textos de 58 autores de diversas nacionalidades. Nos anos seguintes, não pararam nem as homenagens nem a publicação de textos e a reedição de obras de Rodrigues Lapa. Em 27 de Março de 1989, a menos de um mês de completar 92 anos, o nosso Manuel morreu, às onze da noite, no Hospital José Luciano de Castro. Um acidente vascular cerebral foi a causa do óbito.

Termino com palavras do professor Vitorino Magalhães Godinho: «Portugal não quis, ou não soube aproveitar a pleno Rodrigues Lapa. A amargura oprime-nos, ao pensar nos irreparáveis desperdícios de valores autênticos, daqueles que, mais do que quaisquer outros, estavam preparados para trabalhar pela pátria, enriquecendo o seu património pela criação com categoria internacional».
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Nota: para realização deste texto, utilizei várias fontes. A principal foi o trabalho de José Ferraz Diogo Manuel Rodrigues Lapa Fotobiografia (1997)


publicado por Carlos Loures às 12:00
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Apresentando Rui de Oliveira
Retirámos do “Livro do Curso 1959-60” os seguintes elementos biográficos :

Rui de Oliveira nasceu em Lisboa, em 1935 e é licenciado pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

Foi assistente da cadeira de Higiene e Medicina Social (demitido em 1962 por motivos políticos); especialista em Patologia Clínica pela Ordem dos Médicos; presidente do Conselho Regional do Sul da Ordem dos Médicos (1972/74), mandato interrompido pelo Ministério das Corporações. Desde 1972 foi Sub - Chefe e Chefe de Serviço do Instituto Bacteriológico Câmara Pestana, para o qual foi eleito Sub – Director até 2005.

No seu percurso cívico e político foi membro fundador da Comissão Pró - Associação dos Estudantes de Medicina de Lisboa, Secretário-Geral das Reuniões Inter-Associações (1959-60), activista da Comissão Democrática Eleitoral (C.D.E.) em 1969 e 1973, delegado do interior às II e III Conferências da Frente Patriótica de Libertação Nacional (Praga, 1963 e Argel, 1964), membro da Direcção do P.R.P. (de 1974 a 78) e membro da Comissão Central da candidatura à Presidência de Otelo Saraiva de Carvalho (1976) e da candidatura de Maria de Lurdes Pintasilgo (1986).

Foi co-fundador da revista “Questões e Alternativas” (1984-1985) e em 2008, foi co-autor da obra “Luís da Câmara Pestana, uma vida curta, uma obra enorme”.


publicado por Carlos Loures às 11:00
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Novas Viagens na Minha Terra
Manuela Degerine

Capítulo XXXIV

Passeio pelos museus:

Museu Nacional de Arte Antiga e Museu Nacional de Arqueologia

No Museu de Arte Antiga demoro-me diante de uma vista de Goa no século XVII, de um mestre desconhecido, localizando a praia de Chapora, onde passei dois meses, o forte de Aguada, onde tanta vezes fui... Pintado em Goa no século XVI, o retrato de Afonso de Albuquerque continua a impressionar-me pela força e autoridade que dele emana – ao lado, D. Francisco de Mascarenhas é apenas uma imagem oficial.

Este museu é um festival da língua portuguesa: encho duas páginas com palavras. Selecciono agora o ceboleiro, recipiente onde germinam os bolbos (de jacinto, por exemplo), as doceiras e compoteiras, pelas delícias que evocam, o ventó, caixa-escrivaninha indo-portuguesa... Detenho-me a ver pratos de religiosas aristocratas com o nome e as armas da proprietária: SOROR BRITES THEREZA DEIEZUS. Isto é... Soror Brites Teresa de Jesus. Revejo as naturezas-mortas de Antonio Pereda y Salgado, há pouco expostas na fundação Calouste Gulbenkien, passo pela Salomé de Lucas Cranach, reparando na aparência daquela rapariga: nossa contemporânea no trajo e penteado, se apanhasse o Metro, chamava a atenção apenas por ser bela e elegante. Imobilizo-me em êxtase perante o retrato de um aristocrata pintado em 1700 por Nicolas de Largillière: o vermelho da capa, o ouro da casaca, o branco da cabeleira, o gesto e o olhar... tudo é superlativamente espectacular. Rococó, claro! E concluo a visita fotografando, é claro e evidente, duas esculturas que representam Santiago.

No domingo seguinte vou ao Museu de Arqueologia. Começo pela exposição sobre os vestígios, encontrados na Quinta do Rouxinol, perto de Corroios, de uma olaria romana com actividade ao longo de 250 anos, que produzia ânforas, telhas, loiça, lucernas... Trago para casa a palavra lucerna, de que muito gosto, tomo até a decisão de escrever um texto com palavras encontradas nos meus passeios de domingo, aponto uma citação de Duarte Nunes de Leão (Descrição do Reino de Portugal, 1600, capítulo XIII, folha 34 v°): Outra coisa tem o Tejo com que se avantaja de outro rios de Hespanha, que é da grossa pescaria que nele se faz de diversos géneros de pescado. As ânforas destinar-se-iam portanto ao transporte de pastas e molhos à base de peixe e marisco de que os romanos eram muito apreciadores.

Nas Antiguidades Egípcias miro os sarcófagos de Irtieru e Pabasa, oiço conversas de outros visitantes, tá bem pintado, não tá?, aponto uma passagem do Livro dos Mortos (do capítulo 125): Não blasfemei contra os deuses / Não roubei os bens do pobre / Não fiz sofrer / Não fiz passar fome / Não fiz chorar / Não matei / Nunca fiz mal a ninguém. Também está bem dito. (E bom era se, trinta e cinco séculos mais adiante, isto começasse a ser praticado.)

A secção Tesouros da Arqueologia Portuguesa expõe a técnica, estética e funções dos metais preciosos da pré-história à época romana. Miro a estátua de guerreiro usando um torque semelhante aos que, em ouro, aparecem expostos, divertem-me os comentários de alguns camponeses suíços... Expressão dubitativa e hesitante de quem não compreende por que carga de água dão, naquele museu, tanta importância a anéis, colares e pulseiras:

- Agora podia-se fazer isto tudo!

Concluo a visita na exposição Religiões da Lusitânia perante os quatro varrões ou berrões de Cabanas de Baixo. Imagens de fertilidade?... Regresso a casa. A Lusitânia permanece para mim obscura e esta exposição, pouco explicativa, não me ajuda a esclarecer nada.


publicado por Carlos Loures às 10:00
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Caetano José da Silva Souto-Maior, um alentejano na corte de D.João V e uma figura popular de Lisboa - 5
Carlos Luna

Segue-se um poema que não é de Caetano José da Silva Souto-Maior, mas sim de Francisco de Pina e Melo, elogiando o Escurial e o Panteão dos reis de Espanha. Tem interesse, porque Caetano José fará outro em relação com este.

Que intenta esta soberba arquitectura
com tão régio, marmóreo luzimento?
Se mostra aqui distinto o nascimento,
erra, que é tudo igual na sepultura.

Por mais que doure a face à morte escura
nunca há-de desmentir o monumento;
que vale o resplendor do fingimento
aonde existe a sombra da figura?


Quanto mais se mostrar engrandecido
maior espelho oferta à vaidade
vendo-se como é, não como ha(*) sido.


Pois de que serve a fúnebre deidade,
se ainda para objecto do sentido
primeiro está o horror que a majestade?
___________

(*) arcaísmo já pouco habitual no século XVIII.


Caetano José fez o seguinte poema como resposta:

Padrões dedica a infausta arquitectura
à majestade a cinzas reduzida,
que sempre da grandeza destruída
alguma parte nas relíquias dura.

Da régia dignidade a sombra escura
até no último horror "esclarescida",
se não chega a eximir do estrago a vida
pode honrar no diadema a sepultura.


Na urna o ceptro, melhorado o efeito,
faz com que triste advirta o peito humano
as cinzas, que se intimam no preceito.


Que importa pois que brilhe o jaspe ufano,
onde toda a vaidade é só respeito,
e é somente respeito o desengano?





Poema a uma dama que foi ingrata com o seu amante e que chorava muito
por o ver ofendido (nota: este poema não foi publicado no século XIX,
nem no XX, por ser considerado, sabe-se lá porquê hoje em dia, erótico!)

Tarde de ingratidão, Clori(*), despertas,
pois, trocando à piedade hoje o conceito,
se ofendeste com erros o meu peito,
sentindo os meus estragos, desacertas.

Vê que em mim podem ser penas mais certas
feridas d`alma, que, com nobre efeito,
o coração em lágrimas desfeito
pelos olhos te mostras sempre abertas.


Se entre chamas terríveis me arrebatam
de amor, e emulação ardentes lumes,
pouco, oh Clori(*), outras queixas me maltratam.


Erras, se morto acaso me presumes,
que imortal devo ser, poi não me matam
nem os teus olhos, nem os meus ciúmes.
________

(*) Clori: deusa grega das flores; significa "a mulher".

Soneto a uma dama "rigorosa", na qual se notam paixão e melamcolia.

Divina, Filis(*) bela, eu te agradeço
dos teus rigores a contínua instância,
que antes, meu bem, da minha tolerância
não merecia o mesmo, que mereço.

Se o meu pesar do teu desdém foi preço,
que adquiriu entre penas a constância,
não quero a dita, quero a só jactância
de que me deves tudo o que padeço.

Não tenho nem temor, nem resistência
aos males, a que o peito não repugna,
indistinta a paixão, e a paciência.


Hoje até a glória me será importuna,
e amor, que fez costume da violência
fará também desprexo da fortuna.
________

(*) Filis: mitologia grega, símbolo de amor com final  infeliz.


Soneto a uma dama que disparou um tiro (!!!!) contra uma imagem de
cupido, num acesso de despeito...amoroso, claro!

Do seio de Vulcano(*) um golpe ardente
dispara Filis(**) contra a seta(***) ervada,
de um Cupido, que deixa por cortada
alfaia inútil, se troféu pendente.


Mas não foi esta acção porque hoje intente
Filis(**) mostrar-se contra Amor irada,
foi saber se frustrara, estando armada,
golpe que o abismo teme, e que o céu sente.


Rendeu-se Amor ao tiro, e as armas logo
oferta a Filis(**) no mortal desmaio,
em que acha o rendimento desafogo.


Por que se veja no primeiro ensaio,
que se dos corações Amor é fogo,
das almas, e do Amor, Filis(**) é raio!
___________

(*) Vulcano: Deus do fogo entre os romanos
(**) Filis: mitologia grega, símbolo de amor com final infeliz.
(***)Atenção: em português, "seta" significa FLECHA !!!

Soneto dedicado a uma senhora que charava dias inteiros diante da
pintura da mãe, falecida há pouco.

Senhora, esse retrato, esse portento
tanta saudosa dor nunca alivia,
que a memória da amada companhia
não melhora, duplica o sentimento.


Lembrado, o bem perdido é mal violento,
e ofende essa pintura a fantasia;
Não pode ser remédio, é tirania
fazer parcial do dano o entendimento.


Fugi dessa belíssima aparência,
queo pranto justamente vos persuade
que as lágrimas faz crédito de ausência.


E o vosso amor, das cores na verdade,
há-de achar, para abono da impaciência,
a formusura unida com a saudade.

(Continua)


publicado por Carlos Loures às 09:00
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ter o curso de futebol não chega...
Luís Moreira




A selecção portuguesa quando teve que vencer uma equipa do melhor nível, perdeu! É só isto, o resto é a conversa de encher habitual, as desculpas mal amanhadas.

O defesa direito devia ter sido um dos dois defesas direitos que lá estavam, mas quem jogou foi um defesa central? O médio defensivo não jogava há seis meses e mesmo assim foi para o Mundial, sem ritmo e sem rotinas? O único médio que sabe colocar a bola jogável nos avançados zangou-se com o seleccionador e não jogou mais? O melhor jogador do mundo não jogou nada e está feito num menino mimado ? O avançado centro foi substituído por um jovem que corre muito mas não acerta na baliza?

Foi mesmo por isso tudo que perdemos!Agora há que arranjar uma equipa preferida e torcer para ver bons espectaculos.

Só para quem gosta!


publicado por Luis Moreira às 08:30
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Dulce Neves traz a Guiné-Bissau até ao Terreiro da Lusofonia
Dulce Neves artista guineense sobre a qual não obtivemos dados biográficos, traz-nos um som da Guiné-Bissau -  Dulce Neves - "Nha Esperança":



publicado por Carlos Loures às 08:00
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Terça-feira, 29 de Junho de 2010
Carro de Lixo
Ethel Feldman

Onze da noite, o carro do lixo não me deixa dormir. Vivesse eu no campo e ouviria o som que amedronta a cidade. O vento calmo nas folhas das árvores, o canto dos pássaros quando anoitece. E se a chuva ameaça, um gemido quase silencioso ocupa o espaço.

Caixote de lixo aberto é caixote liberto do entulho diário. O cheiro se espalha, corre em cada esquina pedindo juízo ao viajante distraído. Quem está na cama não abre a janela. Cerra as mãos no nariz e espera que o cheiro passe.

Conto até dez, inspiro, expiro e volto a contar. Revejo meu corpo da cabeça aos pés. Nessa viagem silenciosa por fim adormeço.

Amanhã é domingo. Descansa o lixo em cada casa.


publicado por Carlos Loures às 23:55
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Outra Constituição, outra Democracia, uma Terceira República – 42
Carlos Leça da Veiga

Haverá interessados numa Terceira República? (Continuação)

Há muito, nos tempos passados, essa racionalidade imperante chegou a ter alguns – não muitos – adversários à sua altura que, honra lhes seja feita, se foram figuras com marca indelével na História do pensamento nacional, apesar disso, para prejuízo da população portuguesa, nunca conseguiram vingar na assumpção dum poder cultural suficiente e, também, na duma grandeza política bastante para que, em conjugação sinérgica, tivessem tido o destaque e as possibilidades bastantes para conseguir saber-se se o seu rumo alternativo teria, ou não, trazido proventos interessantes para a população portuguesa e dado outro sentido ao percurso – um percurso democrático – da História nacional.


Hoje em dia, em contradita com a variante rasca mas avassaladora do racionalismo instalado no poleiro do poder haverá, mais uma vez, um lote reduzido de resistentes contudo, devida e convenientemente silenciados pela generalidade da comunicação social, uma área imensa, onde, bem sabido, florescem compromissos abundantes e coisas muito feias, porém, bem acobertadas pela falsa democracia colocada, como está, ao serviço dos possidentes, os de dentro e os de fora.


Desde 1820 até a esta primeira década do século XXI, com uma constância periódica e por motivações de conveniência vária, como tenham sido, e sejam, as consequentes às cíclicas ascensões sociais pós revolucionárias, tanto das sucessivas gerações dos ditos intelectuais defensores acérrimos da “modernidade” como, também, as daquelas dos seus acólitos endinheirados – ou a caminho do serem – que, uns e outros, revolução após revolução, numa parceria sempre a repetir-se, comparecem e iniciam-se – é um infausto nacional – nas lides sociais das direcções político-partidárias do País e, como assim, conseguem assegurar-se dos mecanismos económicos que bastam para sua satisfação mais privada. Como é bem patente, geração após geração, esses conluios político-sociais, sempre souberem colher bons frutos patrimoniais à custa das muitas e variadas influências que emanam das funções públicas alcançadas.

As formulações tácticas suscitadas pelas conveniências dos contínuos idealismos racionalistas têm sido colocadas – um oportunismo de bom tom – sob o manto diáfano duma democracia que, experiência infeliz, acaba subvertida, sempre e quando os próceres políticos tentam responder ao seu sonhado objectivo estratégico, por exacto, a essa ânsia manifesta de “modernização”, um fim que só tem tido cabimento na ausência verificada duma verdadeira Democracia. Esse onirismo político, tanto em curso, mostra a sua feição inadequada à evolução histórica do caso português pelo que os seus ideólogos de pacotilha nunca conseguiram, conseguem ou conseguirão fazer vingá-lo quanto baste. Em contrapartida, para desagrado nacional, e isso é uma verdade incontestável, essas experiências desapropriadas e, por igual, os políticos que as tentam implementar, mercê dos seus insucessos de ordem vária, acabam por gerar e deixar um descrédito comportamental muito acentuado e pleno de repercussões socio-políticas indesejáveis, contudo, valiosas para os perigosos reaccionarismos fascizantes, sempre à espera duma sua nova oportunidade.

Em desfavor dos “modernizadores” que querem impor-se ao país, muito felizmente, milita a presença duma estrutura nacional herdada do período transacto – de 25 de Abril de 1974 a 25 de Novembro de 1975 – que, na actualidade nacional, apesar de muito esfrangalhada pelos inconvenientes persecutórios da sequência política cavaco-socratina, permite a manutenção dum rasto e duma réstia do 25 de Abril que, contra tudo e apesar de tudo, tem permitido que a população resista e não seja sujeita, por completo, às ultrapassagens políticas que os “quislings” proclamam como mais necessárias.

Está na hora de procurar uma saída política construída na base duma Constituição Política para a República (a Terceira República) que seja capaz de assegurar o poder democrático da população. Juntem-se os interessados.


publicado por Carlos Loures às 21:00
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República nos livros de ontem nos livros de hoje - 44 (José Brandão)
Em Redor de um Grande Drama

Carlos Malheiro Dias

Vega, 1985

No breve espaço de tempo que decorreu entre a morte de D. Carlos e do príncipe herdeiro. D. Luís Filipe, Malheiro Dias redigiu febrilmente um belo livrinho intitulado Quem o Rei de Portugal que, embora dedicado «À Colónia Portuguesa do Brasil – Ao seu fervoroso Lealismo Monárquico», se destinava a revelar aos Portugueses a personalidade do jovem príncipe, D. Manuel que atonitamente se vira guindado às mais altas responsabilidades do exercício do poder. Mais uma vez Malheiro Dias ali se define como um espírito liberal, um homem cujo horizonte monárquico é o da causa do Liberalismo. Malheiro Dias reinvoca, a propósito das intenções dos políticos que queriam impor a D. Carlos, acabado de subir ao trono, um «programa imprudente», as cominatórias palavras dirigidas por Passos Manuel à jovem D. Maria II com que interdissera à soberana a «política perigosa do engrandecimento do poder real»…


publicado por Carlos Loures às 18:00
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EDITORIAL
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Adriano Pacheco

Alexandra Pinheiro

Andreia Dias

António Gomes Marques

António Marques

António Mão de Ferro

António Sales

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Carlos Leça da Veiga

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Ethel Feldman

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