Quarta-feira, 29 de Dezembro de 2010
A vida por um fio
Adão Cruz

                                       Opistótono,  (óleo sobre tela, de Charles Bell, 1809).

        
Eu acabara de comer a canja. Na minha juventude, os casamentos da minha aldeia tinham canja, frango estufado com ervilhas e vitela assada. Mas nem ao frango eu cheguei. Alguém me veio chamar para ir ver uma mulher que estava muito mal, lá para os confins da Serra da Gralheira.
Enfiei-me no meu velho Hillman Minx e fui até Junqueira, no alto da serra, onde um homem me esperava. Daí em diante o trajecto seria feito a pé por montes e vales. Quase uma hora depois chegámos a um casebre, em cima uma humilde habitação e em baixo o curral da vaca

.
Uma mulher ainda nova jazia numa enxerga, em posição de opistótono. Uma posição em que o corpo se encontra arqueado, em forma de gatilho de espingarda, apoiado apenas pela nuca e pelos calcanhares, em razão de uma forte contractura dos músculos da espinha. Logo deduzi tratar-se de uma meningite grave ou de um tétano em estado avançado. Após algumas perguntas a duas ou três pessoas que rodeavam a cama, cheguei á conclusão de que seria mesmo um tétano, cuja porta de entrada dos esporos e da toxina teria sido uma cova de um dente, escarafunchada com um pau do quinteiro da vaca.
Fiquei paralisado, e senti-me, eu próprio, por momentos, com todo o meu corpo em contractura. Outra coisa não era de esperar num jovem médico, receoso e perdido no fim do mundo, perante situação tão inesperada quanto complicada. Sentei-me num pequeno banco e pensei: se tentasse retirar dali a mulher, para onde a levaria? Os únicos hospitais que havia ficavam muito longe, em Águeda ou no Porto, o velho Santo António. A mulher teria de ser transportada em padiola até onde pudesse ser recolhida por uma ambulância, se existisse. Mas nestes estados, todos os movimentos e estímulos agressivos são perigosos. Aos trambolhões pelos caminhos da serra, seria profundamente penoso e poderiam facilmente ocorrer fracturas, nomeadamente da coluna. Além disso, como pressupunha que a doente, naquele estado, tinha lavrada a sua sentença de morte, achava tal decisão injusta, imprudente e mesmo atrevida para a época.
Decidi fazer ali mesmo tudo o que estivesse ao meu alcance. Felizmente, para sorte dela, os músculos respiratórios não tinham sido afectados, e, por outro lado, para minha sorte, havia entre as pessoas presentes, um rapaz que tinha sido enfermeiro na tropa.
Precisávamos de uma algália, de uma sonda nasogástrica para alimentar a doente, de soros, de antibióticos, de relaxantes musculares, de sedativos, de clisteres, de seringas e agulhas, de álcool e outros desinfectantes. Precisávamos, acima de tudo, de soro antitetânico, embora, numa fase tão avançada, a sua eficácia fosse mais do que duvidosa. E aqui é que residia o grande problema. Uma dose de 300.000 unidades não existia em lado nenhum. Só num hospital central. Nas farmácias das redondezas havia ampolas de 1500 unidades, utilizadas na profilaxia. Por mais ampolas que conseguíssemos, só por milagre juntaríamos tal dose.
Mãos à obra. O enfermeiro que tinha em Junqueira uma motorizada, correria todas as farmácias que houvesse no concelho de Arouca e Vale de Cambra. Pelo meu lado, iria a Sever do Vouga, S. João da Madeira e Oliveira de Azeméis.
Era já noite quando chegámos de novo à beira da doente. Trazíamos dois caixotes cheios, daqueles que, antigamente, constituíam as embalagens de sabão amarelo. Conseguimos tudo o que queríamos, menos a dose necessária de soro antitetânico que se ficou pela metade, não chegando a 100 ampolas.
Ao ver a doente algaliada, com a sonda nasogástrica no nariz, com uma garrafa de soro em cada braço, com tanta agulha espetada nas veias, nos músculos dos braços e na face lateral das coxas, um a encher seringas e outro a injectar, o enfermeiro, de olhos desmesuradamente abertos, disse-me ao ouvido: - Sr. Doutor, eu nunca vi fazer tal coisa - ! Ao que eu respondi: - Pois eu também nunca na vida fiz tal coisa -!
Lá para a meia-noite, com as mais pormenorizadas indicações e todas as recomendações possíveis ao valioso enfermeiro, caído do céu, abandonei o local, com todas as esperanças de rastos, mas com uma sensação de alívio que me havia de acompanhar durante muito tempo.
Um mês depois, a doente passou no meu consultório a caminho de Fátima, a pé, trazendo-me um queijo.


publicado por Carlos Loures às 22:00
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4 comentários:
De Luis Moreira a 29 de Dezembro de 2010 às 22:22
sabes, Adão, tu és médico porque tiveste e tens o que não se explica. E se toda essa gente que tu salvaste em situações tão dificeis, serias médico?Um cirurgião, meu amigo, um dia ainda jovem, estava a assistir um colega mais velho numa cirurgia que nunca tinha feito nem visto fazer. Deu o badagaio ao mestre, e não é que ele ajudado pela enfermeira que já tinho visto centenas de cirurgias iguais, operou e o doente safou-se? Se resultasse mal, seria cirurgião? o que tem que ser tem muita força.


De Luis Moreira a 29 de Dezembro de 2010 às 22:24
...salvaste...., morresse, serias médico?


De carla a 30 de Dezembro de 2010 às 14:56
Deixaste-me em ânsias até à última linha, que bem contado


De augusta.clara a 30 de Dezembro de 2010 às 16:32
Tens que publicar estes contos, Adão.


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