Segunda-feira, 21 de Junho de 2010
Novas Viagens na Minha Terra
Manuela Degerine

Capítulo XXVI

Estado mínimo

No hospital de Amadora-Sintra concluíram, passada uma semana, que a minha mãe não morria; o médico quis logo dar-lhe alta. Ela não falava, não se virava na cama, precisava de assistência respiratória, fralda e algália, era alimentada com uma sonda... Quando expliquei que não tinha condições para cuidar dela, o médico ripostou com arrogância que era um problema da família e não do hospital.

Por não ser capaz de a virar na cama, eu passava, alguns dias, no hospital, horas à procura de quem me ajudasse. O problema era a falta de pessoal e não a má vontade dos auxiliares e enfermeiros, que andavam na outra ponta do corredor, visivelmente atarefados, agora não posso, quando lá chegar; chegavam duas ou três horas mais tarde. Entretanto a minha mãe gemia.

O hospital precisava com urgência daquela cama por isso, com o argumento de residirmos em Lisboa, transferiram a ocupante para Santo António dos Capuchos. Neste hospital, embora pobre, embora antigo, os doentes – e as famílias – são tratados como pessoas. A minha mãe ficou ali mais duas semanas, começou a mexer a mão esquerda, depois a mão direita, a engolir a comida à colher, a respirar quase normalmente, conseguiram sentá-la uma vez – e deram-lhe alta.


Saiu no dia 14 de Dezembro, já tinha jantado e feito a higiene. Adormeceu. Eu levantei-me quatro vezes durante a noite para a virar; notei que começava a mexer-se sozinha. No dia seguinte, às oito horas, entro no quarto para lhe dar o primeiro medicamento, olá, bom dia, dormiste bem, abro a cama, para espreitar a algália – e descubro que a minha mãe jaz numa poça de urina e fezes. Encontro o saco da urina no chão, entro em pânico, ligo para o 112. Clamo que ela chegou do hospital, tem uma algália e a algália saiu. Do outro lado, tentam perceber: Saiu o quê? A algália? Ou o saco? Não sei. Com toda a calma e paciência dizem-me para verificar, há ou não um tubo que sai da uretra, há, sim, então a algália não saiu, saiu o saco. Explicam-me como voltar a colocá-lo.

Resta tirar os cobertores, lençóis e resguardos, colocar outros, lavar a minha mãe, que tem as mãos castanhas, fezes e urina até à cabeça, mudar-lhe a camisa de noite, vestir-lhe outra, pôr-lhe uma fralda limpa... Não consigo virá-la. Por onde começar? Tirar os lençóis? E depois? Lavo-a e mudo-a nos lençóis limpos – terei que os mudar a seguir outra vez. E assim sucessivamente. A minha mãe pesa setenta quilos e eu quarenta e cinco... Telefono ao meu irmão, que sai para o emprego. E passamos hora e meia com esponjas e alguidares de água quente. Enchemos vários sacos de roupa suja. Alguma vai directamente para o lixo por, no estado em que se encontra, ser impossível lavá-la ou mandá-la limpar. O quarto, toda a casa, até o rés-do-chão do prédio, onde se encontra o contentor, tudo cheira a urina e excrementos. (Aliás, por mais que eu mude as fraldas, a roupa da cama, as camisas da minha mãe, esfregue o chão, abra as janelas – o quarto cheira dali em diante a excrementos.)

Isto é apenas um episódio entre muitos. Talvez mais marcante; por ser o primeiro. De então a esta parte sucederam-se as manhãs, as tardes e os serões de loucura. Por exemplo: os vómitos que se prolongam sete horas, durante as quais corro – sem pausas – do quarto para a casa de banho e para a cozinha. A minha mãe vomita. Eu limpo-a. Desinfecto a dentadura. Ela quer logo comer. Como é diabética, convém evitar uma hipoglicémia; vou buscar fruta, leite ou sopa. Dou-lhe a comida. Quando acaba de comer, ela vomita outra vez. Eu recomeço. Tenho dias em que não tomo pequeno-almoço, não almoço, não janto... E não durmo. A minha mãe acorda-me de hora a hora para comunicar:

- A Piedade quer que vás falar com a D. Tina.

A Piedade é uma irmã dela, a D. Tina uma amiga. Ambas mortas.

Ou:

- Temos que renovar o contrato de trabalho.

Ou:

- Eu sou profeta para acabar o meu vestido.

Ou:

- Para o almoço, faz a alegria do lar.

Ela sempre teve muita imaginação.

Ajudas? Nenhuma empregada aceita tais tarefas. Tratar de um idoso como a minha mãe é um esforço sem evolução animadora e põe-nos em confronto permanente com o nosso próprio fim. Quando me vê pela primeira vez, o assistente social expõe a situação: Nós aqui temos telefone, esferográfica e muito boa vontade. É verdade. Com essa boa vontade, orienta-me para a única entidade susceptível de apoiar as famílias: a Santa Casa. Passo a ter apoio domiciliário. Ao meio-dia vem uma senhora ajudar-me na higiene da minha mãe. Uma ajuda preciosa: ensina-me o que é uma fralda, como se escolhe, tira, põe e ajusta, ensina-me a virar a minha mãe, a lavá-la sem molhar os lençóis. Ajuda-me, uma semana mais tarde, a levantá-la para a sentar num cadeirão. Ajuda-me nos primeiros passos.

Vivemos numa república com um conceito mínimo do serviço público e dos direitos do cidadão. Resta a caridade cristã.


publicado por Carlos Loures às 10:00
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1 comentário:
De Luis Moreira a 21 de Junho de 2010 às 16:05
É verdade, os chamados cuidados continuados e na velhice são uma tragédia, para o próprio doente e para quem cuida deles. As camas dos hospitais são muito caras, a permanência de doentes, um custo e um peso, bom, bom, é operar e mandar para casa, dá dinheiro..


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