Terça-feira, 8 de Junho de 2010
1984, de Georges Orwell
Carlos Loures

Nineteen Eighty-Four, de George Orwell, teve a sua primeira edição em 8 de Junho de 1949, faz hoje 61 anos. Reproduz-se a capa dessa edição da Secker and Warburg, de Londres. O livro surgiu numa Inglaterra que sangrava ainda das feridas da Segunda Guerra. O romance marcou indelevelmente a literatura do século XX e descreve o quotidiano de um regime totalitário, mostrando como uma sociedade oligárquica e repressivamente colectivista pode destruir quem a ela se oponha. Orwell narra com brilhantismo  um futuro de pesadelo baseado nos absurdos do presente. Escrito em 1948, diz-se que por pressão dos editores, os dois últimos dígitos foram invertidos, dando lugar a 1984.


A história é contada por Winston Smith, um homem insignificante, funcionário do Ministério da Verdade, que executa a tarefa de refazer diariamente a história do regime através da falsificação de documentos públicos e da literatura a fim de que o Partido e o governo do «Grande Irmão» estejam sempre certos e tenham sempre razão. Os problemas de Winston começam quando começa a questionar a opressão que o Partido exerce  sobre os cidadãos. Pensar de modo diferente, era cometer crimideia (crime cometido em pensamento, segundo a novilíngua) e quem incorresse nesse crime era preso pela Polícia do Pensamento. Rapidamente, desaparecia, era vaporizado. como se nunca tivesse existido.

Obviamente inspirado na opressão dos regimes totalitários que, naquele final dos anos 40 ainda estava bem presente na memória de todos, o romance de Orwell critica o fascismo e o estalinismo, mas também todo e qualquer processo de controlo do indivíduo em nome dos supremos interesses da sociedade. Mas houve quem visse no romance o que queria ver, sendo considerado por muitos, quando da sua publicação, uma crítica ao socialismo e ao Partido Trabalhista. Numa carta escrita meses antes da morte, Orwell esclareceu que era um socialista convicto (combatera pela República, na Guerra Civil de Espanha, sendo ferido). Avisava que o totalitarismo, venha de onde vier, da direita ou da esquerda, «se não for combatido, pode triunfar em qualquer sitio». No ensaio Why I Write (Por que escrevo), auto-designou-se como «socialista-democrático».

Muitas das palavras inventadas por Orwell perduram ainda seis décadas depois - big brother, duplipensar, novilíngua, por exemplo, são expressões usadas por pessoas que nunca leram o romance. Orwelliano" é  um termo usado comummente para referir invasões da privacidade e de usurpação dos direitos dos cidadãos ocorridas na vida real ou na ficção.

1984 é, sem dúvida, uma das obras mais marcantes e impressivas do século XX.


publicado por Carlos Loures às 12:00
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3 comentários:
De Luis Moreira a 8 de Junho de 2010 às 12:10
Socialista democrático.felizmente, há muito que gente de grande valor percebeu que sem liberdade não vale a pena.


De carlos loures a 8 de Junho de 2010 às 12:21
Tens toda a razão Luís - sem liberdade, nada vale a pena. A única dúvida que subsiste sempre é numa definição consensual do que é a liberdade. Para mim, continua em vigor o que a tal respeito a Revolução de 1789 deixou escrito - «A liberdade de cada um acaba onde começa a liberdade do outro».


De João Machado a 11 de Junho de 2010 às 12:04
A igualdade e a fraternidade são condimentos imprescindíveis da liberdade. É preciso não o esquecer.

Está magnífico o texto, Carlos. Orwell (Eric Arthur Blair, de seu verdadeiro nome) deixou sem dúvida uma obra notável, que devia ser conhecida pela juventude de todo o mundo.

Um abraço

João


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