Terça-feira, 15 de Junho de 2010
Novas Viagens na Minha Terra

Manuela Degerine

Capítulo XX

Etapa 8: De Caxarias a Ansião (conclusão)

O trajecto passa por Rio de Couros, Lagoa do Grou, Perucha, Granja, Póvoa, Malaguarda, São Jorge, Arneiro, Almoster, Murtal, Martim Vaqueiro, Cavadas... (A poesia dos topónimos.) Caminho à beira de estradas, umas vezes muito sossegadas, outras com bastante tráfego, não passando nunca por situações assustadoras. As localidades sucedem-se, com demorada monotonia, têm casas de aspecto recente, novas ou renovadas de maneira incaracterística, as mais antigas com azulejos, as mais recentes com colunas, tanto são daqui como de Pêro Pinheiro, não vejo nada de assinalável, excepto os espigueiros de ripas perto de Caxarias ou a estratégia insólita, que observei em dois quintais, de guiarem as cabaças para cima de uma estrutura dando-lhes a aparência de um arbusto com abóboras suspensas. Um campo limpo com vinha, prados, pinheiros, oliveiras e alguns canaviais. Crescem plantas nos regatos e cheira a eucalipto, a pinheiro, às plantas queimadas nos borralhos. Quando passam menos carros, oiço o vento, oiço cortar madeira, oiço corvos a crocitar, uma cabra a chamar... À medida que me afasto de Caxarias a paisagem torna-se menos pedregosa. Há tojo florido, encostas roxas e, em diversos lugares, até macieiras em flor; o Outono tem sido tão quente, até as árvores se baralharam. Abundam as oliveiras ao longo de quase todo o percurso e anda muita gente a apanhar azeitona.

Alguns não respondem à minha saudação.

Antes de chegar a Lagoa do Grou, junto a uma serração de pedra, sou atacada por um rafeiro – não obstante eu lhe mostrar o bordão. Aquele ladra e morde. Não lhe quero bater mas dou mostras do contrário; porém ele não teme cacetadas, morrerá matando, se for caso para isso. Como dizia Fernão Mendes Pinto dos guerreiros que entravam nesta loucura: tornou-se amouco. E ter-me-ia raivosamente mordido se não passasse um carro cujo condutor, impressionado com tamanha ferocidade, pára no meio da estrada, interpondo o veículo entre o monstro e a vítima, para me proporcionar o tempo de fugir.


A abundância de cães agressivos nos lugares e aldeias ainda me surpreende e inquieta; felizmente a maioria está presa. O acolhimento hostil de quem passa diz muito sobre esta sociedade, revela a insegurança e a consequente desconfiança que embaraçam a vida dos portugueses. (Noto que o cão é, ao contrário do gato, do coelho ou da ovelha, um bicho pouco interessante: capaz de tudo, consoante o dono.)

Desloco-me com muito gosto ao longo dos primeiros quinze quilómetros, depois começo a sentir-me cansada porém, como os dias são muito curtos, não abrando o ritmo, pois quero chegar a Ansião antes das quatro horas para, caso não seja acolhida nos bombeiros voluntários, poder procurar outro albergue. Caminho durante mais de seis horas. Não paro durante todo o dia, excepto em Almoster, durante quinze minutos, para comer uma sanduíche. Os últimos dez quilómetros parecem-me cem. Chego exausta aos bombeiros voluntários de Ansião.

Sou recebida com extrema franqueza, confiança e generosidade. Instalam-me na camarata feminina e perguntam-me com inquietude: A viagem está a correr bem? (O protector solar causou-me uma alergia à volta dos olhos: parece que me bateram.). A viagem corre bem, felizmente; não respeitei contudo o preceito que um provérbio francês recomenda: Quem quer ir longe, poupa a cavalgadura. Eu não sei poupar a cavalgadura. E hoje, na verdade, partindo de Caxarias às nove e meia, não podia poupá-la, se queria chegar antes da noite.

Agora sinto-me demasiado cansada para sair em busca de jantar: como um resto de fruta, tomo um duche, dou uma massagem nos pés, escrevo duas páginas de diário, leio Bérénice de Racine – e deito-me. (Não adormeço logo: a peça de Racine, no contraste com o dia que acabo de viver, causa-me uma estranheza máxima. Medito pela noite dentro sobre a variação histórica da verosimilhança.)


publicado por Carlos Loures às 10:00
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1 comentário:
De estrolabio a 15 de Junho de 2010 às 14:50
Eu percebo muito bem essa paixão pelo caminhar e pelos lugares, fui criado assim, sair de casa de manhã e voltar à noite, levava dois gritos do meu pai, dormia para sair de manhã e só voltar para dormir, andava pelos campos, à procura de nascentes (água que corre não faz mal)pensava, quando morria de sede. Poços, ribeiras, caminhos, as casas de D. Carlos onde ía caçar, perdidas no nada,conhecia tudo, feliz, livre...
Até que um dia fomos 3 e voltamos 2, num "pêgo" de uma ribeira seca ficou lá um.A angústia num tempo em que carros só de 2 em 2 horas...


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