Sexta-feira, 23 de Julho de 2010
Regresso a Olivença - Mário Ventura Henriques- IV
 Roteiro da presença portuguesa (Continuação)

Os monumentos constituem um verdadeiro roteiro histórico para os seis séculos de presença portuguesa. Do século XVI, porventura o período em que mais se enriqueceu a arquitectura oliventina, recolhe-se a imagem de Santa Maria do Castelo, a matriz erguida sobre um primitivo templo construído pelos Templários, no tempo em que estes povoavam o território arrancado aos muçulmanos. É um templo de grandes proporções, com três naves suportadas por altas colunas cilíndricas.

Para os amadores de curiosidades históricas, refira-se que aí apadrinhou D. João V o filho de um fidalgo local, Bento de Matos Mexia, dando-lhe o nome de João. O rei subiu depois à Torre de Menagem, contemplou os vastos campos oliventinos e à noite regressou a Elvas. Da visita real lavrou-se um auto, de que ainda hoje existe cópia.

Na Igreja de Santa Maria Madalena tem o período manuelino um dos seus monumentos mais belos e representativos. Trata-se de uma obra magnífica que atesta amplamente os créditos de uma plêiade de artistas que deram à velha terra oliventina um cunho de acentuada originalidade no conjunto da nação em que se integra.

A contrastar com o seu aspecto sóbrio e pesado, o interior surpreende pelaextrema delicadeza, com duas filas de colunas que são triplos feixes torcidos até ao início da curva das abóbadas. No solo, magníficas lajes de mármore policromo, e a seguir ao arco do cruzeiro, do mais puro estilo manuelino, o altar-mor e as paredes laterais revestem-se de painéis de azulejos. Sarcófagos e pedras tumulares ostentam inscrições na nossa língua, constituindo o retrato de uma época. De Lisboa foram os arquitectos e canteiros que ergueram o templo, da nossa vila de Borba saíu todo o mármore generosamente empregue na construção. É das poucas obras que a história posterior a

1801 não abastardou, mantendo por isso intacta a fidelidade às razões históricas e culturais que lhe deram origem.

O mesmo não aconteceu, infelizmente, com certos monumentos fora do âmbito religioso, sujeitos a tropelias de toda a espécie. O que se passou com muitos dos brasões de armas que decoravam casas nobres é

significativo: não os destruíram, mas limparam-lhes as armas, como se quisessem assim apagar a história dos feitos que evocavam.

- Os brasões não foram destruídos - diz-me, com ironia, um dos meus acompanhantes em Olivença -, foram simplesmente "tratados".

Em Olivença não é fácil encontrar quem fale das razões que originaram à perda da nacionalidade, ou do conflito que esse acontecimento provocou entre Portugal e Espanha. Por um lado, isso deve-se ao desconhecimento quase absoluto, no país vizinho, dos factos que precederam a famosa questão oliventina. Por outro lado, explica-se pela sensação de incomodidade que provoca, nos próprios Oliventinos, o tom patrótico e nacionalista da maioria dos escritos portugueses sobre o tema.

Os Oliventinos não gostam de se sentir como praça conquistada ou a conquistar, ou menos ainda como objecto de discussão ou troca entre duas nações. Embora admitam a existência de um problema cuja solução é sempre adiada - haja em vista a definição dos próprios limites fronteiriços na zona de Olivença, que está por acordar -, mostram-se singularmente indiferentes ao que possa ocorrer a nível de Estados.

Não lhes ouvi uma palavra contra ou a favor de um ou outro país(9). Na realidade, continuam a sentir-se simplesmente Oliventinos, detentores de uma realidade cultural e social muito própria, interessando-se ardentemente pelas coisas portuguesas da sua história, à semelhança de qualquer povo que procure no conhecimento do passado a sua própria identidade.

- Os Portugueses - diz-me um dos meus interlocutores oliventinos - quase sempre escreveram sobre nós de uma forma patriótica, alheios ao que somos e sentimos hoje em dia. As questões históricas também nos interessam, e agora mais do que nunca, mas desde que sejam tratadas com frieza e lucidez.

A historiografia portuguesa sobre o problema oliventino raramente considerou esta sensibilidade, o que de certo modo se afigura compreensível se tivermos em conta as circunstâncias em que se verificou a perda de Olivença, assim como o eterno adiamento da solução jurídica para o problema, criado num contexto histórico de que a Espanha não se pode orgulhar. Porém, a comunidade oliventina, há quase dois séculos colocada numa situação de isolamento e defesa, repudia firmemente a posição de joguete em que a pode colocar a falta de entendimento entre os Estados. E quanto mais sentir que o desacordo ou o eventual diálogo se processam à revelia da sua vontade, mais impelida será a fechar-se em si própria, numa situação compreensível de independência moral.

E, no entanto, o problema existe - e persiste- E tenho a impressão segura - colhida nas várias conversas em Olivença - de que os Oliventinos se sentirão progressivamente arrastados para ele, por sua própria e exclusiva vontade, à medida que a identificação com a cultura e tradições portuguesas alargar o campo da sua curiosidade espiritual e afectiva.

Não é casual, aliás - antes corresponde a fortes imperativos da consciência portuguesa dos Oliventinos -, a publicação recente em Olivença, pela primeira vez em muitos anos, de um livro sobre a história do concelho, da autoria de um estudioso local, Alfonso Franco Silva, que desenvolveu a maior parte da sua investigação em Lisboa e Elvas, demonstrando um profundo conhecimento de toda a bibliografia portuguesa sobre a questão.

Embora denuncie o "sentimentalismo reivindicativo" dos respectivos autores, não é sem emoção que refere, entre outras, as obras de Matos Sequeira e Rocha Júnior, Hermano Neves, Estácio da Veiga e, em particular, os inúmeros trabalhos de um oliventino que forcejou - e logrou - por obter em Lisboa um Bilhete de Identidade com a seguinte

inscrição: "Português, natural de Olivença". Eis as palavras que lhe

dedica: "Não resisto a referir aqui a figura pessoal de Ventura Ledesma Abrantes, oliventino emigrado em Portugal, autodidacta, homem de grande cultura, íntimo das mais importantes personagens políticas portuguesas, que dedicou a Olivença o melhor da sua vida e uma boa parte do seu património pessoal. Ledesma escreveu muitos trabalhos sobre Olivença, fundou uma revista e uma livraria sobre temas oliventinos, criou uma associação em Lisboa (10)que agrupava as mais importantes personalidades portuguesas, com o objectivo de recuperar a cidade, e até ao fim dos seus dias mantev e acesa a chama da independência oliventina."

Eis o que, há muito pouco tempo, era impensável em Espanha: que um espanhol, e particularmente um oliventino, pudesse escrever uma obra isenta - embora apaixonada - sobre a questão de Olivença. Tão isenta, aliás, que a sua versão sobre o conflito que originou a perda da nacionalidade não difere, na fidelidade aos factos, da dos nossos próprios estudiosos. Vale a pena transcrever esse trecho:

"A chamada "guerra das laranjas" foi um conflito de pouca envergadura dirigido contra a nação lusitana por Espanha e França.

Napoleão precisava de afastar Portugal da amizade com a Inglaterra para fechar os portos lusitanos aos barcos ingleses. Para isso pressionou Godoy, que ambicinava um principado em Portugal, e obteve com muita facilidade a declaração de guerra ao país vizinho, em 2 de Março de 1801."

E mais adiante:

"Todo o Alentejo português havia caído em mãos luso-espanholas.

Havia que fazer a paz. A 28 de Maio reuniram-se em Badajoz os plenipotenciários para assinar a paz... Impuseram-se a Portugal duríssimas condições: tinha de entregar trita milhões de francos e ceder as praças de Elvas, Campo Maior,Olivença e a fortaleza de Sagres. Não houve acordo em princípio. Finalmente, a 6 de Junho, assinou-se o Tratado de Paz de Badajoz. No seu artigo terceiro, Godoy impôs a conquista de Olivença, apesar de não figurar nas intruções dadas por Carlos IV. O representante português, Luís Pinto de Sousa, para o evitar, chegou a oferecer a Espanha uma indemnização de vários milhões, mas não obteve resultado nenhum. A soberba do valido, que se encontrava no cume do seu poder, tornou impossível todo o diálogo sobre a restituição de Olivença a Portugal."

Não há que tirar nem pôr uma vírgula no relato do estudioso oliventino - embora se possa, sim, ampliar a história: para além das disputas entre nações, das guerras perdidas - agora de um lado, mais tarde de outro -, das tibiezas dos políticos portugueses na época, ou do papel mais que suspeito da Inglaterra em todo este caso, Portugal foi assim vítima da ambição de um primeiro-ministro, Godoy - ridícula ou ironicamente apelidado de "príncipe da paz" -, que gozava da confiança íntima da rainha e da complacência do rei. Nos termos em que se levam a cabo as negociações do Tratado de Badajoz, a conquista de Olivença tem apenas o valor de uma extorsão sob a ameaça das baionetas. O que foi, aliás, reconhecido pelas potências reunidas no Congresso de Viena, em 1815, ao decidirem a restituição a Portugal, nunca concretizada pela Espanha.

Da importância da publicação, no país vizinho, do livro de Alfonso Franco Silva, como início de uma tarefa de esclarecimento que nunca houve (11), fala bem este trecho de um livro de Queirós Veloso, o historiador que melhor estudou as questões jurídicas da perda de

Olivença:

"Em Portugal, todos sabem que, ao alvorecer do século XIX, nos foi arrancada Olivença; mas em geral ignora-se como a perdemos, o traiçoeiro papel do Governo Espanhol, que se apoderou dessa vila e do seu termo unicamente para satisfazer a ridícula vaidade dum valido, alçapremado e generalíssimo dos seus exércitos. Mas na própria Espanha se desconhece a iniquidade desse acto. Os compêndios adoptados no ensino primário e secundário não se referem a essa conquista; e o "Dicionário Enciclopédico Hispano-Americano", assim como a "Enciclopédia Espasa", resumem a História de Olivença de tal modo que o leitor pode ficar convencido de que a sua posse vinha sendo disputada entre os dois países a partir de 1640, entregando-a por fim Portugal à Espanha em 1801 (12)."

Estas palavras foram escritas em 1932. Hoje, o desconhecimento sobre a Questão de Olivença, tanto em Espanha como em Portugal, é ainda mais profundo nas camadas jovens, em parte devido a manifestações caricatas que, com finalidades talvez inconfessáveis, exploram uma questão assinalável da nossa História, somente prejudicando as hipóteses de um diálogo amigo e frutuoso com os Oliventinos.

Recorrendo às palavras de Queirós Veloso, devo dizer que não é meu intuito "fazer a história deste calamitoso período, em que fomos arruinados pela França, ludibriados pela Espanha, tratados pela Inglaterra como se fôssemos um domínio da Coroa Britânica". Contudo, o conhecimento desse período é importante, sobretudo à luz de uma perspectiva históricaa que, ainda há poucos anos, nos era vedado recorrer para tentar compreender a política desastrosa que originou a perda de Olivença. Para a Espanha, trata-se de um episódio quase anedótico, que caíu no ridículo logo após o conflito, quando o omnipotente valido, impante da coragem que lhe dava a esperança de vir a ser "Prìncipe dos Algarves", enviou à Rainha Maria Luísa dois ramos de laranjas acompanhados deste saboroso bilhete:"Las tropas, que atacarón al momento de oir mi voz, luego que llegué a la vanguardia, me han regalado de los jardins de Yelbes dos ramos de naranjas, que yo presento a la reina." A comunicação foi public ada na "Gaceta de Madrid", provocando o riso do povo, que de imediato baptizou a campanha com o nome de "guerra das laranjas". E assim entrou na História.

Para Portugal, porém, a pouco honrosa "guerra das laranjas" é a história das tibiezas e ingenuidades dos nossos políticos da época, em princípio aparentando crer que o conflito entre Espanha e Portugal não passava de um simulacro para enganar a França, e depois cedendo a todas as pressões e exigências da Inglaterra, que acabou por ter um

papel determinante na perda de Olivença. E em 1811, quando um

regimento anglo-luso, em guerra com as tropas do marechal Soult, reocupou Olivença, foi ainda a Inglaterra que obrigou as nossas forças a entregarem a praça aos Espanhóis.

Hoje, os oliventinos desconhecem na generalidade este período da sua história, o que é natural. Que ele seja, porém, ignorado ou mal conhecido em Portugal, eis o que parece um triste reflexo, no presente, da vergonhosa actuação que originou a perda de Olivença.

1990 - FIM DO TEXTO

NOTAS À MARGEM DO TEXTO (2006):

(1) este texto, escrito em 1990, não previu o que se passou a partir de 1994, quando se regressou à prática de ignorar o passado português.

(2) a partir de 1994, a atitude do alcaide mudou completamente.

Hoje revela-se bastante anti-português.

(3) principalmente a partir de 2003, tem-se vindo a acentuar a descaracterização da arquitectura portuguesa, mesmo nas ruas antigas e nas aldeias, principalmente na de Vila Real.

(4) as freiras da misericórdia foram afastadas de Olivemnça, de noite, em Junho de 2001.

(5) a pedra referida está hoje exposta no Museu Etnográfico.

(6) 1306 no calendário cristão. A data na pedra refere-se à Era de César.

(7) foi reconstruída, em 2006, a antiga Porta dionisina de São Sebastião.

(8) actualmente, é ultrapassada também pela Torre de Menagem de Estremoz. Todavia, originalmente, era quatro metros mais alta, pelo que terá sido mesmo a maior de todas.

(9) toda esta situação mudou quase radicalmente desde 1994. A população voltou a fechar-se, a falar insistentemente em castelhano quando em público, e a declarar-se espanhola como antes da democracia, salvo depois de se falar com as pessoas, se ganhar confiança... e se prometer que não se diz nada a ninguém. Há quem diga, em surdina: "O medo voltou a Olivença".

(10) entre outros, fundou o Grupo dos Amigos de Olivença.

(11) apesar destes elogios, o livro da Alfonso Franco Silva declara no preâmbulo que Olivença não tem razões para temer que os portugueses tenham razões para reivindicar Olivença, e só reproduz, do Tratado de Badajoz, o artigo 3º. Encontra-se esgatado desde 1991.

(12) hoje, em 2006, a situação piorou. Agora, diz-se que Olivença andou sempre entre os dois países desde o século XIII, e afirma-se que Portugal a ocupou em 1297, constituindo a sua ocupação pela Espanha em

1801 "o regresso à mãe-pátria"!!!

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publicado por Carlos Loures às 09:00
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2 comentários:
De Luis Moreira a 23 de Julho de 2010 às 12:44
Serviço Público.Óptimo texto!


De carlos loures a 23 de Julho de 2010 às 18:19
O Mário Ventura Henriques foi um grande escritor e um jornalista com, infelizmente, não existem muitos.


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