Sexta-feira, 24 de Setembro de 2010
Carta à mulher do Presidente
Adão Cruz


(já lá vão uns anos, mas o significado permanece)
Minha Senhora
estava eu a jantar quando vi no telejornal
as imagens do bombardeamento
sobre a aldeia de Korisa.
Imagens da vossa bravura
imagens da coragem
e determinação do seu marido.
Corpos carbonizados
dilacerados
fumegantes
esventrados
cabeças estouradas
pedaços de vida
feitos em pedaços de carne morta.
Cem pessoas abatidas
e muitas outras feridas
gravemente
enquanto o diabo esfregou um olho!
Cem inocentes que Deus sacrificou
às mãos de quem tanto reza!

Cem refugiados
a caminho da longínqua esperança
olhos postos no fictício horizonte
da solidariedade humana!
Cem pares de olhos
brutalmente arrancados à luz
entre eles olhitos de crianças
com corações pequeninos
a bater dentro do peito
iguais ao coraçãozito da sua filha
quando batia mais apressado
lembra-se?
Mal vi estas imagens
corri ao quarto dos meus filhos
e dei com eles todos esquartejados
cabeças para um lado
pernas e braços para outro.
O quarto era um mar de sangue!
Felizmente
o pesadelo durou apenas alguns segundos
mas fiquei com o cérebro esburacado
durante toda a noite.
Nunca tinha reparado bem
mas os meus filhos eram iguaizinhos
a todas aquelas crianças.
Não sei o que me deu
mas fiquei aterrorizado.
Tive tanto medo
minha Senhora!
É que a seguir a estas tenebrosas imagens
aparece de imediato
na TV
posando sorridentemente
para uma espécie de retrato de comunhão solene
uma catrefa de monstros
e eu pensei que estava no inferno
rodeado de demónios.
Aquele medonho friso de máscaras humanas
tendo como sombria antecâmara
a ignara maciez da face
de um tal porta-voz
isolado
a garantir a divulgação do resultado
de uma investigação em curso!
Deu-me a impressão
de que ele estava em minha casa
que tinha arrombado a minha porta
ali na minha frente
minha Senhora!
Mas o pior é que aparece
logo a seguir
o seu marido
com aquela cara de…
como lhe parece a cara do seu marido?
A mim
não é bem a cara que me mete medo
mas a prepotência
o descarado unilateralismo
e a já bem adulta supremacia militar permanente
que ele esconde por detrás daquele ar
um tanto despeitado
talvez
por não o terem deixado acabar as suas tarefas.
Mas não se preocupe demasiado
minha Senhora
ele está arrependido do seu miserável pecado
e faz por cumprir religiosamente a penitência
bombardeando de outro modo
e bombardeando bem.
Minha Senhora
num daqueles momentos mais íntimos
- esqueça lá o que se passou -
pergunte ao seu marido
quantas criancinhas é preciso matar
para atingir o desenvolvimento tecnológico
que permita assegurar
que as forças de amanhã continuarão a dominar
qualquer tipo de operações militares.
E se
com umas pitadinhas daquela coisa
que vocês inventaram
e transformaram num monumental barrete
para os desiludidos da disfunção eréctil
puder arrancar-lhe uns segredozitos
veja se sabe
quantas aldeias é preciso arrasar
para enfrentar
as ameaças contra a segurança da nação
quantos estropiados é preciso fabricar
para atingir os tais 331 mil milhões de dólares
necessários ao reforço da tendência
para a acção unilateral.
Quantas Sérvias é necessário sacrificar
para preservar a supremacia militar
face a todos os adversários
possíveis e imagináveis
e considerar
que as forças armadas estão prontas
para enfrentar os desafios do próximo século
continuando a ser
as mais bem sucedidas do mundo.
Quantas televisões é necessário silenciar
quantas megabombas
bombas inteligentes
bombas de fragmentação
e bombas de grafite
(o novo lápis da megacensura)
é preciso lançar sobre a Sérvia
sobre a Europa
sobre o Iraque e sobre o resto do mundo
para atingir a suprema censura planetária.
Ao lado dele
o inglês!
Brrr!!!
O canal da Mancha tão perto!
Como é que eu não haveria de correr
ao quarto dos meus filhos?
Eu não tenho medo dele
propriamente dito
nem das suas metralhadoras.
Até me parece uma daquelas pessoas
que ao descongelarem
isto é
ao perderem o poder
se desfazem em merdífera cobardia.
Eu tenho medo
é da monumental carapaça de ódio
cinismo
crueldade
arrogância e desumanidade
com que ele abastece os aviões
que lhe puseram nas mãos.
Minha Senhora
quando estiver com ele num daqueles chás
em que vocês falam dos 10,5 mil milhões de dólares
necessários à pesquisa
do sistema de defesa nacional antimíssil
entre 2000 e 2005
e passam a mão pelo lombo dos cãezinhos
numa manifestação de sensibilidade e ternura
lembre-lhe o pequenino dorso das criancinhas
que ele ajuda a queimar todos os dias
em bombardeamentos como os de Korisa.
E faça-o ver
ainda que ao de leve
a imagem virtual dos seus próprios filhos
- aqueles que lhe dão um beijinho todas as noites -
no meio dos ensanguentados destroços
da caravana de refugiados
- o diabo seja surdo cego e mudo -.
A vossa Secretária vem logo a seguir na foto.
É-me extremamente difícil
não ter medo desta mulher.
Não é fácil manter-me sereno
porque ela encarna perfeitamente
o papel que me parece ser o da mulher do diabo.
O diabo tem mulher
ou não seja ele o pecador major.
Não é como Deus!
Diga-me se eu tenho ou não tenho razão
mas sempre vi a mulher do diabo
com uns olhos e um sorriso assim!
Não sei o que ela tem dentro do peito
se é uma pedra
um escorpião
ou se não tem mesmo nada.
Mas é da sua eventual relação com o diabo
que eu tenho medo
da autoridade com que o diabo a possa ter investido
na planificação da fábrica de vítimas
da esterilização de sentimentos
a que ele a submeteu
e dos estratagemas
que na sua cartilha se destinam
a tornar adversários políticos e militares
do próximo século
todos os povos que não se submetam
nomeadamente a China.
Tudo isto porque
enquanto única nação
capaz de montar operações em grande escala
em teatros muito distantes das suas fronteiras
o Estado ocupa uma posição única!
Minha Senhora
dá-se bem
penso eu
com esta Secretária da desgraça
- ao lado dela o seu marido não corre perigo
descanse!-
Pergunte-lhe
em tom de curiosidade
quantos kosovares
quantos sérvios
palestinianos, iraquianos e afegãos
é preciso massacrar ainda
para atingir o tal patamar essencial
para assegurar
que as forças de amanhã continuarão a dominar
qualquer tipo de operações militares
unilateralmente.
O Secretário inglês
sempre sorridente para o parceiro do lado
numa obtusa postura de marioneta
aparente guardião das consciências podres
causa-me repugnância
pela chocante transparência da sua estrutura
que permite ver
- ainda que a gente não queira -
dentro da sua pessoa
aquilo que mais se assemelha
a uma total ausência de moral.
Reforçar a capacidade
para conduzir à escala mundial
com o seu patrão
operações militares de forte intensidade
no século XXI
deve ser o seu lema e o seu sonho.
Ca God o save!!!
O Secretário espanhol é terrível
porque não mete medo a ninguém.
Parece não ter cérebro.
É uma espécie de alínea de um artigo condenatório
de que o algoz deita mão
naquele fatídico momento em que dela se lembra.
Apenas vai alinhando os vivos
para que morram melhor.
Se o dono manda matar
ele ajeita a vítima e chega a arma.
Se não é para matar
ele recolhe a arma
e diz à vítima que aguarde um pouco mais.
Minha Senhora
eu tinha muito mais coisas a conversar consigo
até porque
- a despeito do seu papel e da sua posição
nesta guerra miserável e nauseabunda -
me custa
perante a sua simpática figura
aceitar que faz parte duma família de monstros.
Naquele momento do telejornal
pensei dirigir-me a si
pois convenci-me
de que eu e a Senhora
éramos ambos vítimas
ou melhor
pensei que os nossos filhos
se encontravam esfacelados
no meio dos destroços
causados pelas bombas dos vossos maridos
e daqueles hediondos amigos
que eles arranjam.
Já pensou
minha Senhora
o que era ver a sua filha esquartejada
cabeça para um lado
membros para outro
esventrada
exangue
sem qualquer brilho nos olhos
nem sopro de vida
com o tal coraçãozito palpitante
que tantas horas de felicidade lhe deu
golpeado irremediavelmente
parado para sempre
e sem nunca mais poder dizer:
“mãe, gosto tanto de ti!”.


publicado por Carlos Loures às 23:55
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2 comentários:
De Luis Moreira a 25 de Setembro de 2010 às 00:17
Saiu-te como a lava de um vulcão! Como é que estas pessoas depois dormem...no outro dia ouvi o Tony Blair, numa entrevista acerca do Iraque, julgava eu que o entrevistador o tinha encostado à parede. Qual quê? Há muito que está tudo decidido quanto ao Irão e o mais que nem sonhamos...envio-te um abraço amigo, tu não és indiferente à injustiça e à dor.


De augusta.clara a 25 de Setembro de 2010 às 03:20
Grande berro de revolta! Muito bom,Adão, muito bom!


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