Quarta-feira, 15 de Junho de 2011
A Comunicação Social e a Democracia – II - Le Monde está à venda, por João Machado

 

 

 


 

 

No New York Times do dia 14 do corrente mês de Junho saiu uma notícia informando que Nicolas Sarkozy, Presidente da República Francesa, convocou para o Palácio do Eliseu Éric Fottorino, editor de Le Monde, para lhe exprimir a sua preocupação por um grupo de três personalidades próximas do Partido Socialista de França se proporem comprar o jornal. Noutra notícia, saída no Finantial Times de 11 de Junho, refere-se que Fottorino terá dito que Sarkozy ameaçou reter apoios estatais ao jornal se se consumasse aquela entrada no capital do jornal de três adversários políticos seus.

 

A precária situação financeira do prestigioso Le Monde obrigou os actuais  proprietários a procurar novos investidores, na medida em que já em Julho próximo terão dificuldade em fazer pagamentos. Para além do grupo das três personalidades de esquerda muito moderada (um apoiou a anterior candidata do partido Socialista às presidenciais Ségolène Royal, outro Dominique Strauss-Kahn, actual líder do FMI, e o terceiro navega nas mesmas águas), perfila-se a France Telecom em conjunto com o Nouvel Observateur como outro candidato. O grupo espanhol Prisa (que já detém acções de Le Monde) também parece ter manifestado interesse, assim como suíços e italianos. A intervenção de Sarkozy poderá ter tido um peso considerável na decisão final, que deverá estar pronta no próximo dia 28 de Junho.

 

Para Le Monde é hora de grande incerteza. Os seus mais de 200 jornalistas e a sociedade de leitores têm tido um grande peso na sua orientação e na defesa da sua independência editorial. Dominam parte significativa do capital e os jornalistas detêm poderes estatutários que lhes permitem influenciar a escolha das chefias. Obviamente que estes poderes vão estar em causa neste processo, apesar das promessas de várias quadrantes no sentido da manutenção da independência editorial, pedra angular do óptimo trabalho desenvolvido pelo jornal desde 1944, quando foi fundado por Hubert Beuve-Méry, a pedido do General De Gaulle.

 

Nicolas Sarkozy parece deter uma influência crescente na comunicação social francesa, contando com amigos seus à frente de vários jornais influentes, como o Figaro. O Finantial Times, na notícia acima citada, diz ter conseguido uma alteração legislativa que lhe permite nomear o director da televisão pública. A intervenção do poder na comunicação social em França não é propriamente um fenómeno novo, mas não será exagero interrogarmo-nos se, neste caso de Le Monde, não estaremos perante uma tentativa de aproveitar a sua precária situação financeira para domesticar um jornal incómodo, não só para Sarkozy, mas para os poderes em geral.

 

Não posso concluir sem fazer uma rápida conclusão com o caso TVI/PT em Portugal. É claro que é preciso desde logo fazer o reparo de que há uma grande diferença entre a qualidade jornalística de Le Monde e a da TVI. Contudo parece estabelecido que também neste caso ocorreu uma tentativa de calar uma voz contrária, apesar dos veementes desmentidos. Põe-se aqui uma grande questão: até quando os jornalistas e a comunicação social em geral conseguirão suportar estas investidas?  É um erro pensar que estas provêem apenas de alguns políticos mal formados ou pouco avisados. 

 

(Este texto já tinha saído no nosso blogue em Junho de 2010. Dado o assunto que aborda, VerbArte achou valer a pena publicá-lo novamente)



publicado por João Machado às 15:00
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