Sábado, 3 de Julho de 2010
Bakunine por Bakunine (Raúl Iturra)
As prisões



Carta a Mathilde Reichel

No que concerne à minha vida aqui, posso descrevê-la muito simplesmente e em poucas palavras. Tenho um quarto muito limpo, quente e confortável, muita luz e pela janela vejo um pedaço de céu. Levanto-me às sete horas da manhã e tomo café; em seguida sento-me à minha mesa e exercito a matemática até o meio-dia. Ao meio-dia trazem-me o almoço. Após o almoço, jogo-me sobre o leito e leio Shakespeare um passeio; então, colocam-me uma corrente, provavelmente a fim de que eu não fuja, o que seria impossível mesmo sem isso, pois eu passeio entre duas baionetas, e uma fuga da fortaleza de Königstein parece-me impossível. Talvez isto seja também um tipo de símbolo, para me fazer recordar, na minha solidão, os elos indivisíveis que unem cada indivíduo à humanidade inteira. De qualquer forma, enfeitado com esse artigo de luxo, caminho um pouco e admiro de longe as belezas da Suíça saxã. Meia hora depois eu retorno, retiro o meu enfeite e estudo inglês até às seis horas da tarde. Às seis horas, bebo chá e retomo a matemática até às nove e meia.

Ainda que eu não tenha relógio, estou bem informado quanto à hora, pois um sino da torre indica-a a cada quarto de hora e, às nove e meia, ressoa um clarim melancólico, cujo canto, semelhante à lamúria gemente de um amante infeliz, é um sinal de que é preciso apagar a luz e deitar. Eu não consigo, naturalmente, dormir logo em seguida e permaneço acordado habitualmente até à meia-noite. Utilizo esse tempo a pensar em todos os tipos de coisas e particularmente em algumas pessoas amadas, cuja amizade me é tão cara. Os pensamentos são livres de qualquer fronteira, eles não são limitados por nenhuma muralha de fortaleza e assim vagam meus pensamentos em torno do mundo inteiro, até que eu consiga dormir. Todos os dias se repete a mesma história. Como vê, cara amiga, a minha situação não é tão má, não me falta nada aqui, a não ser duas pequenas coisas que por si só são todo o valor da vida. A minha vida interior é agora um livro lacrado por sete selos; não posso e não quero falar dela. Como eu disse, estou calmo, completamente calmo, e pronto a qualquer eventualidade. Ainda não sei o que farão comigo; em breve, espero passar pelo primeiro julgamento. Estou pronto tanto para entrar de novo na vida quanto para deixá-la. Agora eu estou em ponto nulo, quer dizer, sou um ser unicamente pensante, ou seja, não vivente; pois entre pensar e ser, como a Alemanha aprendeu a sê-lo ultimamente, há, todavia, um imenso abismo.


Kõnigstein. 16 de Janeiro de 1850. Le Réveil, Genève, 3 de Julho de 1926.
_____________

Ilustração - Em cima, cela de Bakunine na prisão da Fortaleza Pedro e Paulo, em Sampetesburgo;


publicado por Carlos Loures às 15:00
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1 comentário:
De Luis Moreira a 3 de Julho de 2010 às 17:05
Um imenso abismo, é mesmo por isso que eu olho em volta e não vejo nada melhor que esta terra ,que todos procuram e, quem cá vive,tanto critica.


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