Quarta-feira, 22 de Setembro de 2010
Novas Viagens na Minha Terra
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Manuela Degerine

Capítulo CXV

Vigésima sexta etapa: em Santiago de Compostela

De Ponte de Lima até aqui, isto é, desde que há albergues, pouco nos inquietou a localização, entre sinais e indicações do roteiro, lá nos dirigimos sem hesitar. Por isso e – sem dúvida – por não querer pensar no fim da viagem: não preparei a chegada a Santiago de Compostela. Prepará-la seria informar-me, tanto nos albergues precedentes como entre os peregrinos, sobre as características e localizações dos diferentes albergues. Falaram-me de um situado por detrás da catedral, Sérgio dispõe de uma direcção que lhe corresponde; procuramos. Depois de várias idas e vindas, com as mochilas, claro, mais os vinte e dois quilómetros com elas percorridos, evidentemente, após ziguezagues, questionamento de habitantes e empregados de lojas, quando lá chegamos, declaram-nos que o pretendido se encontra fechado.

Encontramos as peregrinas espanhola e romena. Eufóricas: exibem a compostela.

- Não vão buscar a vossa?!

- Procuramos um albergue.

(A rapariga espanhola apanha, daqui a bocado, um autocarro para regressar a casa.)

Gérard Rousse recomenda o Seminário Menor de Belvis. Fica afastado do centro, cumpre descer uma encosta a pique, depois subir igualmente a pique, escalar altos degraus, o sol queima, a mochila pesa, as costas doem... (Talvez por me encontrar em fim de etapa, quando atinjo o cume, mais árduo – parece-me – do que os quinhentos metros, não reparo na vista nem nestes muros e paredes de pedra...)

Alcançado o píncaro do seminário, com numerosos edifícios, diversas ruas, nada nos orienta, abrimos várias portas, não é ainda ali, inquietos vagueamos, com as mochilas às costas, como se imagina, talvez nos enganássemos, talvez o albergue fechasse, não vemos ninguém, avistamos por fim, ao fundo da rua, lá em baixo, um casal, corro – de mochila ainda às costas – para inquirir, o rapaz estudou no seminário, conduz-nos à recepção.

Entramos. Largamos enfim as mochilas. Fazemos bicha. Chega a nossa vez. Acolhimento maquinal e em inglês, tudo tarifado, a cama, 10 euros, meia hora de Internet, 1,75... And so on. (Na cave há um supermercado, mesas e cadeiras, duas placas eléctricas – e nenhuma loiça.)

Centenas de camas distribuídas por três andares: buscamos as que nos foram atribuídas. Ao lado dormem os espanhóis do telemóvel e, logo a seguir, a rapariga romena. Percorro um quilómetro pelos dormitórios esperando ver Paul – terá ido para outro albergue. (Entretanto encontrei mais duas direcções nos documentos fornecidos em Ponte de Lima: Monte do Gozo e San Lázaro.)

Descemos à cidade. A multidão comprime-se nas ruas à volta da catedral. Já durante a busca do albergue sentimos o barulho, o movimento, os encontrões, a solicitação... As lojas de lembranças, vieiras, bordões, capas, chapéus, cabaças, postais, camisolas, porta-chaves, sobrepõem-se às arcadas e edifícios. Os empregados insistem para nos oferecer torrão de amêndoa, bolo de chocolate e outras iguarias. Convento de Dominicas. Pedras de Santiago. Mejillones en Escabeche. Neste momento as especialidades não me tentam. Fujo da quilométrica bicha para entrar na catedral, mais parece um dragão, valha-nos São Jorge... (Ninguém ignora a repartição de competências entre os santos: o combate com o monstro não é a especialidade de Santiago.)

Avisto o peregrino das publicidades e documentários. Recortei uma capa do Cartaz do Expresso (16 de Maio de 2009) com o título Fé itinerante, Os místicos Caminhos de Santiago apresentados numa série. Não vi a série mas conservo a capa com o cliché do peregrino medievo que, ao lado da catedral, exibe a farda e a fisionomia beata. Neste momento, quanto a estereótipos, também nada lhe falta, a capa, a cabaça, o chapéu com a vieira, o bordão com a vieira... Porém hoje usa óculos (considerados anacrónicos no documentário da National Geographic), traz um cigarro na mão e calça sapatos de dançarino de tango. O kitch turístico... Não é diferente de Bruges, de Veneza ou do Mont Saint-Michel mas, para mim, neste instante: devera sê-lo.

Todos os peregrinos experientes me preveniram, a chegada a Santiago de Compostela não é repousante, após tantos esforços, nem eufórica, após tal caminhada... Não dei ouvidos, certa de, chegada aqui, me adaptar sem transição. Vivo em Paris. Vivo em Lisboa. Sei o que posso e devo esperar numa cidade – seja ela incomparável. (E por isso turística.)

Por conseguinte: não percebo. Digo cá para mim... Isto vai passar. São os primeiros minutos. É a primeira hora.


publicado por Carlos Loures às 10:00
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