Sábado, 29 de Maio de 2010
Outra Constituição, outra Democracia, uma Terceira República – 12
Carlos Leça da Veiga

É uma realidade indesmentível, que desde a derrota ianque no Vietname, o poder económico daquele capitalismo comandado pelos chamados estados ocidentais, ao invés daquele outro dos emergentes, volteou num descendo irreversível razão bastante para nunca dever ter-se-lhes dado, no pós-25 de Abril, quaisquer ligações preferenciais.

Para Portugal havia uma alternativa política internacional reconhecidamente meritória, o Movimento dos Não-Alinhados, que foi recusada por interesses ideológicos e vantagens interesseiras dos possidentes. A população portuguesa, por força da subserviência aos ditames políticos do exterior, que as forças partidárias dominantes nunca deixaram de perfilhar, foi obrigada a ligar-se preferencialmente, numa subserviência exagerada, aos estados ocidentais quando, na verdade mais autentica, já estavam em franca decadência económica.

Por erro indesculpável, os dirigentes nacionais portugueses não optaram, como deviam, em estabelecer ligações preferenciais com aqueles estados em franca e declarada emergência económica que, também, muito positivo, tinham assento no Movimento dos Países Não-Alinhados. Os resultados, estão à vista!

Em 1974, entre vários dos Países que constituíam o Movimento dos Países Não-Alinhados, já era uma realidade irrecusável que as suas emergências económicas estavam em vias de fazer uma carreira muito promissora e francamente sustentada, razão suficiente para terem constituído a melhor opção política para Portugal e, acrescente-se, um opção que jamais limitaria os convívios estreitos com todos os Estados mundiais.


A crise chamada financeira mas que, na realidade, é económica não é nada mais que o acme duma evolução política e económica mundial que acabaria de atingir quem, no mais essencial, sempre viveu da exploração dos mercados colonizados e não levou em linha de conta que iria perdê-los uma vez que as Independências Nacionais começassem a assentar arraiais, criar raízes, ganhar fôlego e os novos estados iniciassem o seu desenvolvimento económico. No pós-25 de Abril essa situação já era, de todo, muito evidente; ignorá-la deliberadamente foi coisa imperdoável.

Com efeito, espalhado por todos os Continentes, séculos a fio, houve um mundo extremamente rico porém desprovido dos saberes e dos meios mais necessários, por exacto como o próprio imperialismo, para melhor explorá-lo, conseguiu manter e fazê-lo de tal modo que os oprimidos, em quaisquer circunstâncias, não e nunca conseguissem dar passos em frente, muito menos ganhassem aptidões técnico-cientificas para, por si próprias, terem acesso à exploração das suas riquezas territoriais.

O enriquecimento à custa das deficiências alheias, por muito que as repressões de feição colonialista trabalhassem no sentido de mantê-las, mais tarde ou mais cedo, haveria de começar a caminhar para o fim anunciado. Se o fim da aventura colonialista dos ocidentais começou a ruir com o nascer, no fim da Segunda Guerra Mundial, de múltiplas Independências africanas e asiáticas, a data mais significativa para o retrocesso crucial do imperialismo da chamada civilização ocidental teve o seu acme na derrota dos ianques no Vietname. De então para cá, só quem não quis é que não viu que os imensos milhões de Homens e Mulheres, dos quatro cantos do mundo, ao ganharem, reforçarem ou reformularem as suas Independências Nacionais – com maior ou menor sucesso, com maior ou menor lisura – fosse como fosse, começaram a deixar de ser, sucessivamente, não só compradores de tudo como, pelo inverso, passassem a ser eles exportadores privilegiados, com presença mundial, constante e altamente competitiva.

Os centro-europeus e os ianques passaram a ter de contar, e muito bem, com, pelo menos, a força das economias chamadas emergentes cujas, por direito próprio e justiça inteira, alcançaram um nível económico bastante para que as suas populações, um número imenso de Homens e de Mulheres, de importadores tradicionais de tudo quanto ao ocidente melhor aprouvesse e aproveitasse, ao invés, passassem não só a deixar de sê-lo, como até, embora com uma riqueza interna muito mal distribuída, passassem a beneficiar com o fruto do seu país abandonar a total dependência e a passar a ser um exportador com grande projecção.

Se Portugal perdeu os seus mercados coloniais muito compensadores e fáceis de desfrutar e se, com isso, sofreu um forte abalo económico, cultural e social, então, os demais estados deste mundo dito ocidental, salvaguardadas as proporções de grandeza, de poderio e dum neocolonialismo evidente que Portugal não teve, mais tarde ou mais cedo, não iriam passar por circunstâncias semelhantes? Se não passaram com a mesma celeridade de Portugal, isso ficou a dever-se ao facto das suas descolonizações, por terem sido feitas num tempo mais devido, terem, por isso mesmo, conseguido assegurar a manutenção indesejável dum certo, vantajoso e proveitoso grau de neocolonialismo que se, por vários anos salvaguardou muito do património dos colonizadores, acabou, por fim, por começar a claudicar.

Nessas circunstâncias a competitividade ocidental, uma vez perdida a sua fácil exploração colonial, passou a ver-se abraços com a queda avantajada das suas mais valias. Quem, agora, precisa de comprar à Europa? De facto, o que é que a Europa faz que tenha compradores?

A seu tempo, a escolha política mais acertada estava no Movimento dos Países Não-Alinhados.


publicado por Carlos Loures às 21:00
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1 comentário:
De Luis Moreira a 29 de Maio de 2010 às 23:01
O Vietnam foi, a todos os títulos, fundamental para a evolução do Mundo, mostrando aos americanos que é possível esmagar povos mas não é possível vencê-los.


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