Quarta-feira, 10 de Novembro de 2010
PS e PSD
Adão Cruz

Digo apenas que esta nossa democracia dá uma amarga vontade de rir. Ela só serve para fazer tudo o que é anti-democrático.

Ironia das ironias!

O povo em geral, ou uma boa parte do povo, e não só o nosso, não faz ideia do que é cidadania, não tem estrutura mental nem cultura político-social suficientemente sólida e transparente para saber o que quer ou o que lhe serve, do ponto de vista da organização social e política.

Este o grande aproveitamento e o grande trunfo dos que ganham. Desta forma, essa coisa de se dizer que “o povo é quem mais ordena”, há muito que desabitou a minha esperança, e não passa, a meu ver, de uma gasta falácia mais ou menos demagógica. O povo não manda em nada e nunca mais lá vai. Por este caminho nunca será senhor de si.

É notório que a sociedade está dividida, do ponto de vista da formação cultural e sócio-política em duas fatias principais: aqueles que sabem o que querem, que gostariam de uma democracia autêntica, aqueles que por ela lutam de forma consciente e conhecem as formas de lá chegar, e aqueles que não sabem nada, nem sequer sabem o que não sabem, mas pensam que sabem tudo. Infelizmente, estes últimos são maioria.

Uma maioria tão distraída que nem se dá conta de que os dois partidos acima mencionados são um e o mesmo. O “bi” de bi-polarização está a mais. Há três décadas no poder sempre fizeram o mesmo, isto é, pouco ou nada fizeram em favor do povo e muito fizeram para se governar, para encher os seus bolsos e os dos amigos.

De cima abaixo, o poder está infiltrado de broncos, medíocres e corruptos. Postos lá pelo povo, dizem. E o tal povo não vê, ouve dizer mas nem cheira. De quatro em quatro anos continua a pôr a sua cruzinha no mesmo local onde vai ajudar à eterna missa, ou seja, à prossecução da sua própria desgraça. E fá-lo com o mesmo desplante, a mesma irresponsabilidade e o mesmo critério de fé e de acaso que põe no boletim do totoloto. E vem de lá com o peito cheio de ar, ciente da sua crença e da “força” da sua alavanca para mudar o mundo!

A cabeça só serve para manter a dormir o que nasceu dentro dela. Pensar não faz parte dos nossos hábitos, nem da vontade desses senhores, para quem a estupidez é o seu sólido alicerce. Por isso, mesmo que ainda cheirem a merda, as políticas anteriores desses partidos (ou partido) não têm vergonha de encher a cidade de canforados cartazes dizendo, desde há trinta anos: “agora sim, agora é que vocês vão ver o que a gente vale”.

E do alto da sua cultura, comandada pela igreja e pelo futebol, o povo aguarda sorridente o fim da festa. Após a contagem dos votos, vai para a cama dormir tranquilamente mais um sono de quatro anos, embalado no cândido sonífero: ITE, MISSA EST.

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publicado por Carlos Loures às 21:00
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13 comentários:
De augusta.clara a 10 de Novembro de 2010 às 21:18
Eu começo a pensar muito seriamente na importância do valor da abstenção. Mudemos a mentalidade porque isso de dizer "se não vais lá votar fazes o jogo do outro" já deu o que tinha a dar. Qual outro? Há lá outro ou outros? Para mim, neste momento, não há nenhum em que votar a não ser em nós. E é a partir de nós todos que isto tem que recomeçar ou não vamos a lado nenhum. Como? Deixemos lá os partidos nas suas rotinairas e gastas vias e vamos pensar nisso a sério. Não vejo outro caminho. Eu estou pouco disposta a continuar a meter votos na urna, chamem-me o que quiserem.


De Pedro Godinho a 10 de Novembro de 2010 às 21:30
A abstenção não é afirmativa mas transparente e auto-derrotada. Mas há o voto em branco!


De Luis Moreira a 10 de Novembro de 2010 às 21:31
Eu enquanto tiver que votar em listas cozinhadas pelos chefões e não conhecer ninguem da lista, não voto.


De augusta.clara a 10 de Novembro de 2010 às 21:50
Isso era o que eu achava antes, Pedro: quem não ia lá era inconsciente e a abstenção não tinha expressão política. Pois eu acho que tem e cada vez mais. Auto-derrotada de quê? Deste tipo de poder? Tudo muda porque motivo é que a expressão do poder não pode mudar? Porque diabo é que eu para dizer que não concordo com este tipo de "democracia" tenho que lá ir meter um papel em branco? Já viste a importância que dão a esses votos nas contagens? Valia mais que se juntassem todos em abstenção e lhe dessem maior expressão e significado.


De Luis Moreira a 10 de Novembro de 2010 às 22:31
circulos uninominais,já ! E um círculo nacional.Abaixo a ditadura dos partidos!Abaixo a ditadura das direcções partidárias!Quero conhecer a pessoa em quem voto e a quem possa pedir justificações!Chega de partidarismo,amiguismo e carreirismo!Abaixo as Jotas partidárias verdadeiros "ovos da serpente", onde estão os filhos e sobrinhos dos que nos desgraçam todos os dias.Sim, a uma sociedade civil forte e participativa!


De Pedro Godinho a 11 de Novembro de 2010 às 00:37
Uma das razões porque a abstenção me desagrada é que a exigência de eleições faz parte da luta de todos os povos para quem aquelas não existem ou têm "chapeladas".
Outra é que a abstenção é também a escolha dos individualistas que desprezam qualquer intervenção política e de cidadania.
Acresce, e para não ser longo, que é o seu efeito é ainda menorizado por não se distinguir da chamada "abstenção técnica" (isto é, eleitores inexistentes, repetidos, falecidos, ausentes que não deveriam constar dos cadernos eleitorais)e, portanto, a sua real dimensão, para além do significado, ser facilmente contestada.

Ao contrário, os votos em branco são contados e relevam para o apuramento dos resultados e percentagens eleitorais; embora, é verdade, por abuso de posição dominante pelos partidos, não para a atribuição dos mandatos.
À abstenção, ou voto nulo (confundível com os 'analfabetos' que preenchem mal o voto), continuo a preferir o voto em branco.
Claro que preferiria que, e julgo que seria correcto que assim fosse, como defende o Leça da Veiga, entre várias outras medidas, os votos em branco tivessem correspondência em lugares vazios (em branco) de acordo com o seu número.
Tal como é igualmente abusivo o impedimento a candidaturas exclusivamente partidárias, e em lista fechada. E muito mais.
Os partidos tornaram-se, de facto, meras máquinas de clientelas para apropriação 'mafiosa' da riqueza e bem-comum.
Mas, como a Revolução não é amanhã, à abstenção prefiro a reivindicação da mudança do sistema eleitoral, no sentido de maior democracia, e o "branco" entretanto.


De plácidoagitador a 11 de Novembro de 2010 às 03:28
Adão,

Nada de novo à face da terra: os povos são ignorantes porque as classes dominantes tudo fazem para que assim aconteça. Mesmo quando fingem o contrário, através dos seus lacaios, que assumem, à vez, a gestão do Estado.
Marx dixit (não exactamente assim) e, século e meio depois, continua a ter razão.
Na manutenção do "status quo", têm a cumplicidade dos grandes meios de comunicação, particularmente a TV, mas também as rádios e os jornais, as revistas económicas ou cor-de-rosa...
Nem vale a pena repisar a evidência dos programas televisivos imbecis, incluindo as longas horas futeboleiras.
Os novos jornalistas saem, em esmagadora maioria, cada vez mais robotizados dos "cursos superiores" que lhes inventaram e onde só aprendem alguma coisa, a muito custo, os raríssimos que, efectivamente, querem exercer a profissão a sério. Se o canudo é certo mesmo para quem não sabe exprimir-se capazmente na língua pátria (alguns até terão como professor o "escritor" Rodrigues dos Santos...). O que não é nada certo é que esses raríssimos venham a ser "escolhidos" para desempenhar a profissão: direcções e chefias medíocres e disciplinadas sabem garantir o quanto baste de qualidade que lhes dê "estatuto", sem causar incómodos.
Alguns media arvoram uns (poucos!) colaboradores da esquerda a sério, para compor o ramalhete da "democracia". Mas há muitos modos de os esconder. P.e.: esse comuna do António Vilarigues vem desvelando, no "Público", umas verdades incómodas, como a previsão dos perigos da "bolha imobiliária" por economistas do PC, desde 1997! Seria de esperar que os Medinas Carreiras, Pachecos Pereiras e outros que tais contrariassem os seus argumentos, pois o rai' do comuna "não pode ter razão". Mas... reina o silêncio nas hostes carreiristas! Porquê? Porque responder-lhe, ou a outro análogo, seria chamar a atenção dos leitores para o que escreve(m)!
E isto multiplica-se, com inúmeras variações, face a qualquer intervenção que perturbe a superfície inerte e fétida do pântano.
Não chamaria ao resultado "estupidez": a inteligência desenvolve-se com o seu uso, com a aquisição de conhecimentos que ao povo são negados pela acção atenta e vigilante de sucessivos "ministros da educação", pela construção individual (impossível em tão precárias condições) de uma "grelha crítica" que possibilite a multiplicidade das ferramentas a utilizar na apreciação dos fenómenos políticos e sociais. E não há milagres: no pântano, as flores são raras...
Paulo Rato


De plácidoagitador a 11 de Novembro de 2010 às 06:30
Percebo a desilusão da Augusta Clara que, noutros moldes, também é a minha.
Mas, pelo menos nalgumas coisas, nalguns momentos importantes, não posso abdicar de ser cidadão. Não posso desistir de uma réstia de esperança no futuro da Humanidade. Por muito pequena que seja. Porque a última coisa que quero é deslizar para dentro do moinho de consciências cuidadosamente construído pelos senhores do dinheiro. Seria um bom motivo para fazer um Testamento Vital: "quando virem a minha consciência reduzida a pó, desliguem-me."
Concordo com o Pedro Godinho. E tenho boa companhia: em "Ensaio sobre a Lucidez", Saramago introduz a sua habitual "perturbação na normalidade" com, se bem me recordo, 70% de "votos em branco"; não com 70% de abstenções. Votar em branco é, inequivocamente, a expressão de uma posição. A abstenção e o voto nulo têm outros significados, que o Pedro já abordou muito bem.
Por outro lado, se há coisa que me encanzine é a expressão "os partidos", usada como se fosse tudo igual. Não é. Há é uma boa parte da realidade que se procura esconder dos cidadãos, por simples ocultação e pelo uso de diversos artifícios de diversão, um tipo de ilusionismo que vai funcionando com muita eficácia.
Para mim, é fácil. Continuo a votar no PCP (através da coligação CDU). Embora esteja já algo afastado, no plano teórico, de interpretações do marxismo - e também das razões que levaram ao desaparecimento dos chamados "países socialistas" - que prevalecem neste partido, continuo lá, a contribuir com as minhas quotas e algumas ideias sobre questões práticas, por uma razão simples: se as tais classes dominantes, através dos "media" que lhes pertencem (quer alguns queiram, quer não – ou finjam que não, mesmo perante si próprios) fazem um esforço tão claro para esconder o PCP e as suas posições, propostas, etc., a ponto de ficarem tão contentinhos com o aparecimento do BE, é porque têm medo dele e da sua acção.
Mesmo apesar das minhas reservas em relação ao BE, quer este partido quer o PCP (ou os Verdes) são, de facto, diferentes: o que não significa que também não tenham gente pouco recomendável: uma associação de anjos é impossível... Mas, mesmo só com seres humanos, não deixam de ser substancialmente diferentes. Há, portanto, alternativa. A atitude de alguns, que repetem, em cada eleição, que "não vale a pena votar neles, porque nunca ganham" tem sido uma das grandes vitórias da máquina de propaganda do centrão e direita, infelizmente também integrada, em parte, pela televisão de serviço público, em particular pelo programa "Prós e Contras", contra cujas enviesadas "escolhas" de protagonistas me insurgi várias vezes, no Conselho de Opinião da empresa.
Assim, e tal como querem os donos do rebanho, o povo vota, alternadamente, não num determinado partido, mas sempre "contra" o PS ou o PSD (com ou sem acompanhantes). Como, por outras palavras, refere o Adão Cruz.
Mas pode ser que, um dia, um número significativo de ovelhas escape do redil. Seria melhor do que, como vou temendo, acabar tudo à traulitada, por fome, exaustão e desespero, sem nexo nem objectivo. Aí é que o verdadeiro "Ovo da Serpente" (não as Jotas do Luís, mas o que Bergman descreve no filme com esse título) pode eclodir.
Paulo Rato


De adao cruz a 11 de Novembro de 2010 às 09:12
Caríssimo Paulo Rato, dois magníficos textos convergindo num diagnóstico que me parece profundamente sério e correcto. Diagnóstico em que me revejo, praticamente, em todos os aspectos. Um bom ensinamento e uma agradável sensação ao começer o dia, ao vermos que há muita gente,dentro da que merece ser lida e ouvida, com pensamento coincidente com o nosso.Um grande abraço e perabéns por tão pedagógica intervenção.O mesmo obrigado aos comentadores que o precederam.


De Luis Moreira a 11 de Novembro de 2010 às 10:21
Estes comentários do Paulo davam óptimos textos...


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