Sexta-feira, 28 de Maio de 2010
Edoardo Sanguineti
Sílvio Castro

A morte de Sanguineti, ocorrida na passada terça-feira, 18 de maio de 2010, além de uma grande, marcante perda para a poesia italiana, também se fez um episódio de crônica judiciária Sofrendo há mais de um ano de problemas cardíacos, complicados nos últimos meses por uma queda de uma escada na qual subira para uma arrumação de livros da sua biblioteca, na véspera da morte se sentira muito mal. Levado para o pronto soccorro do hospital público de Génova, ali foi constatada uma lesão da aorta, entre o tórax e o abdome: um aneurisma pregresso. Do setor de pronto socorro passa para a sala operatória. Sanguineti morre logo após terminada a operação. A mulher do escritor, Luciana, contou como tudo aconteceu: “Esperamos no pronto socorro por duas horas, sabe-se como vão essas coisas. ... ... Eu dizia aos médicos de não apertar-lhe a barriga porque ele está com um aneurisma que se vê mesmo de fora. Mas aqueles não me davam atenção.“ (Como consequência da morte pós-operatória do escritor genovês, o Tribunal da cidade de Genoa abriu um fascículo indagativo no qual vem hipotizado homicídio culposo).

Eduardo Sanguineti estava por completar 80 anos aos 9 de dezembro próximo. Intelectual de grande empenho social e político, ele foi inicialmente membro-conselheiro da câmera municipal de Genoa e depois deputado, sempre como comunista independente. Professor universitário, titular de Literatura italiana na Faculdade de Letras da Universidade genovesa.

Além de poeta, Sanguinete foi um profunfo crítico e ensaísta, com uma vasta bibliografia específica, que vai desde seus estudos sobre Dante, até as análises sobre o período final da literatura oitocentista e aquela do Novecentos. Como bibliografia essencial do ensaista podemos colocar: Interpretazione di Malebolge, Florença, 1961; Tra liberty e Crepuscolarismo, Milão, 1961; La missione del critico, Génova, 1987; Ideologia e linguaggio (3ª. ed., ampliada), Milão, 2001.

A grande cultura literária do autor genovês, desenvolvida a partir de uma marcada relação entre os exemplos literários do passado e aqueles modernos, depois informará uma das características de sua produção de poesia, tudo a partir de sua “tese de láurea” sobre Dante.

Sanguineti cultivou igualmente o gênero teatral, o Romance, bem como se dedicou a elaborar textos para música, nesse sentido colaborando com compositores como Luciano Berio e Andrea Liberovici. Para Berio recordamos, particularmente, “L’espressività gestuale della voce tra suono e senso”; per Liberovici, “Rap”.


O poeta Sanguineti foi uma das grandes vozes da Geração de ‘61, depois expressa no “Gruppo 63”. Esta geração da neo-vanguarda poética italiana, além da pressante afirmação dos valores da melhor tradição da poesia nacional colocada ao lado da preocupação por uma revolução da linguagem poética, se caracteriza igualmente pela preocupação em unir as heranças da tradição lírica do hermetismo com a defesa da necessidade de absoluta clareza e revolução da escritura. Nesse ponto Sanguineti partia sempre da sua grande admiração pela poesia de Montale, daí trabalhando sempre para a melhor complementação de sua linguagem como poeta neovanguardista. Como participante do Grupo 63, ele se apresentava naturalmente como o máximo crítico e intérprete de sua geração. Isto ainda que o seu maior rival de Geração, Alfredo Giuliani, afirmasse sempre a impossibilidade programática da existência de um líder do Grupo: “La neoavanguardia non ha avuto nessun capo carismatico. Qualcuno, all’esterno, ha creduto di identificarlo in Sanguineti, quanto meno come ‘capofila’. In realtà Sanguineti non ‘capofilava’ un bel niente, anche se aveva il sul bravo prestigio. … C’era una specie di collettivo informale, tenuto insieme, più che altro, dalla reciproca convinzione che, a dispetto dei dissensi, si andava tutti contro la Letteratura Costituita.”

Para afirmar as características inovadoras e as marcantes qualidades criativas do poeta apenas falecido, trascrevemos traduzimos de Sanguineti um dos poemas da série “Corollario”, aquele de número 9.

“Corollario”

9
tutto sommato (scrisse), l’esistente, in generale (siamo nel ’26:


siamo nel mese di aprile), è una modesta imperfezione:


(modesta,


certo, a paragone dell’immenso non esistente, del puro e semplice


niente): è una irregolarità, una mostruosità:


la voce mia, così, la mia


scrittura, orribilmente deturpano, lo so (per poco ancora) la suprema


armonia dell’agrafia, dell’afasia:


(già rinuncio, dislessico, a rileggermi):


/ ottobre 1993 /

(Corollario – 9 // tradução de Sílvio Castro)

ao fim das contas, (escrevi), o existente, geralmente,


/ (estamos em 1926:


estamos no mês de abril), é uma modesta imperfeição:


(modesta,


certamente, comparada com o imenso inexistente,


/ com o puro e simples


nada): é um irregularidade, uma monstruosidade:


a minha voz, assim como a minha


escritura, deturpam horrivelmente, eu o sei (ainda por pouco)


/ a suprema


harmonia da agrafia, da afasia:


(desde já renuncio, disléxico, a me reler):


/ outubro de 1993 /


publicado por Carlos Loures às 13:30
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