Quarta-feira, 19 de Maio de 2010
A saga de uma leitora que queria ser escritora

Ethel Feldman

Na escola era a melhor no ditado. Apesar de não saber gramática escrevia com predicado. Melhor aluna de português, sabia de cor os poetas - em português.
O destino (é uma coisa que dá sempre jeito) trocou-lhe o tempo do verbo. Seu bem amado fugiu e ela passou a viver no passado. Memória do dia em que ele a tinha beijado pela primeira vez. Da língua que se passeou no seu corpo. Daquela vontade quando a tomava em seus braços.

A saudade desse bem-querer fez dela escritora. Transformar o passado em presente é uma coisa que só a escrita consegue. O futuro correu em sentido contrário e se fez convidado confundindo o presente.

Pouco importa, ela agora era escritora. Verdade ou mentira, loucura ou sanidade são adjectivos que neste caso não encaixam.

- Espelho, espelho meu existe alguém que escreva melhor do que eu?
Do lado de lá o silêncio era a confirmação do novo talento nas artes escritas.
Os amigos apoiavam:

- Você devia publicar esses textos! São tão bons. Além disso há tanta porcaria que vai sendo publicada. De certeza que mal você se disponha, será um sucesso!
Negando a vida, seu ego brilhou. Não houve pastor que a contrariasse, a fé ressuscita os mortos. Dela vem a certeza da nossa existência. Neste caso, do seu sucesso no mercado editorial.

Antes de publicar, enviava seus textos a uma rede de amigos. Ansiosa esperava a resposta. Um elogio que confirmasse o que já sabia. Era uma escritora como nunca tinha havido na história.

Duvidava da capacidade de discernimento de um qualquer editor. Ainda para mais a lógica de mercado impunha os diários das garotas de programas. Ou os livros de auto-ajuda. Os de culinária também vendiam bem. Para não falar num corpo saudável de acordo com o tipo de sangue.

Poderia um editor de tanto entulho entender a sua literatura?
- Espelho, espelho meu haverá no mundo algum editor inteligente?
O silêncio desta vez não ajudava. O espelho parecia estar fora de prazo.
Um amigo do meio avisou:

- Nasceu uma editora que só aposta em novos talentos. Manda para lá os teus textos…
Desconfiada, encontrou o medo. E se afinal houvesse um engano. E se ela não era o que pensava ser?

A vida ensinara que a vaidade enganava. Lembrou-se da história " O rei vai nu". Seria a sua escrita afinal um streapteese de botequim?

Com tantos apelos, estava encurralada. Não tinha outra saída que não fosse enviar seus textos para a editora indicada.

A editora fez parceria com o espelho e remeteu-se ao silêncio. Estaria também fora de prazo?
Educadamente pediu confirmação da boa recepção da correspondência. Recebeu logo um sim. Assustada percebeu que seu nome era coisa desconhecida para quem respondia. Tratou-a como se fosse um homem. E informou-a:

"Caro,

Recebemos o seu e-mail, desculpe-me por não responder.
Ele foi passado para a produção editorial, se for aprovado entraremos em contato.

Atenciosamente
Editora"

Só teria direito a uma resposta se ela fosse um SIM?!

Um dia minha filha (uma menina de 4 anos) informou-me que no Centro de Saúde do nosso bairro, só aceitavam meninas que se chamassem Maria! Será que o editor passou sua infância no meu Centro de Saúde?

Era boa a resposta porque o silêncio, neste caso, se parecia com um NIN. Talvez eles não tivessem tido tempo de ler. Talvez os textos fossem tão bons que estavam a espera de uma hora mais acertada para o publicarem. Talvez a editora fosse composta de ignorantes que não distinguiam o feminino do masculino...

A dúvida crescia de dia para dia.
- Espelho, espelho meu que silêncio é o teu?

Com a fé abalada resolveu dar por terminada uma carreira que no passado se adivinhara tão promissora. Em tom de desfecho, escreveu para a editora:

Caro editor,

Já ensaiei a modéstia, depois timidamente cobrei a boa educação de uma resposta.
As notícias informam que este é o hábito dos tempos modernos. Epidémica é a distracção do gestor contemporâneo. Seja o negócio de parafusos, detergentes, medicamentos, sabonetes, livros e afins.

Hesitei entre enviar uma colecção de textos, aliás muito bem escritos, ou me masturbar com a prosa das Brumas de Avalon...
Mal por mal, venha o diabo e escolha!

Um abraço
E.


Não fosse a fuga do bem amado não teria ela sofrido com tanto predicado!


publicado por Carlos Loures às 23:55
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5 comentários:
De Luis Moreira a 20 de Maio de 2010 às 00:48
Belo texto!


De carlos loures a 20 de Maio de 2010 às 07:30
É, de facto, um bonito texto. E, Ethel, já tivemos antes esta conversa, os escritores devem perceber uma coisa. o livro é um produto, um produto nobre, mas um produto. Destina-se a ser vendido e, portanto, tem de haver quem o compre. Uma pequena editora não tem meios para promover o que edita e o escritor (e com ele o editor) fica entregue à sorte, quase sempre ao azar. Ver o editor como o mau da fita, é um erro que os escritores que não conseguem editar os seus livros cometem com frequência. O mau da fita é o sistema em que vivemos que transforma a escrita num produto, sujeito às leis do mercado, como os sabonetes. O Ministério da Cultura poderia apoiar de forma mais efectiva a edição e promover, com compras institucionais, a edição de autores com qualidade, mas menos comerciais. Em todo o caso, continuaria a não ser possível publicar tudo o que se produz.


De paladar da loucura a 20 de Maio de 2010 às 10:21
Carlos querido. O livro não é um sabonete, e quem vende livros sabe que não está a vender sabonetes. Entre a ficção e a realidade, quase tudo o que escrevi neste texto aconteceu. O mau da fita é o sistema, o editor precisa do lucro - tudo bem. Mas o editor não pode ver os novos escritores, ou os não consagrados como pedintes ou mendigos a quem estão fazer um favor.A indignação passa mais por aí do que pela lógica de mercado. A surpresa acontece quando assumimos como certa e correcta o que apelidei de distracção do gestor contemporâneo.
Obrigada pela oportunidade de colaborar neste espaço!


De carlos loures a 20 de Maio de 2010 às 16:00
O editor precisa de lucro, claro, como qualquer industrial ou comerciante. Se não tem lucro, o negócio é inviável. Não é aos editores que devem ser atribuídas as culpas do que se passa. Sem os pequenos editores, a maioria dos autores ficaria inédito, porque os grandes grupos editoriais só pegam em êxitos assegurados. Ou seja, os pequenos editores arriscam e, depois, quando algum dos seus autores triunfa, abandona-o e vai para uma multinacional. Esta é a história das pequenas editoras. A experiência que narras é atípica - porque quem trata os autores desconhecidos como lixo são os grandes, não os de «vão de escada». Mas há as excepções que confirmam esta regra.
A tua colaboração é sempre bem-vinda (apeteceu-me acrescentar, «meu caro»). Os teus textos aqui são bem acolhidos. Não pares de os enviar.
Não tens nada que agradecer; o Estrolábio é que agradece.


De Luis Rocha a 20 de Maio de 2010 às 21:17
A leitura do texto deixa uma grande curiosidade sobre o livro que pretendia publicar.

Tal com já disse o Carlos Loures, a edição é um negócio igual a todos os outros, mas tem aspectos particulares que lhe são muito desfavoráveis, com particular incidência na análise de risco.
Isto significa que, numa primeira fase, o Editor depois de ler o texto proposto e entender que o mesmo tem qualidade e interesse para publicar, tem de fazer contas para apurar a quantidade mímima de livros a vender, para cobrir os encargos fixos.
Conhecida a quantidade de exemplares(vendas minimas), tem de analisar, com a sua experiência e conhecimento do mercado,a viabilidade da edição. É preciso ter em conta que para se alcançar a quantidade apurada, é necessário fazer uma tiragem (produção de livros) que suporte o tal nº minimo de exemplares a vender.
Tudo isto e muito mais é o que leva os Editores a publicar, praticamente sem hesitações e sem analisar os textos, os livros propostos por figuras públicas ou conhecidas do público em geral, cujo nome e meio envolvente onde se insere, são a garantia principal da promocão e publicidade do livro,criando desde logo as expectativas de com faciliddae se atingir e ultrapassar a tal quantidade de exemplares minima a vender.
Claro que qualquer escritor tem sempre a possibiliddae de ser o seu próprio Editor. Mas atenção é preciso saber se depois algum distribuidor está interessado em fazer o serviço de colocar os livros nos postos de venda, dado os encargos fixos que, que também este tem de suportar, independetemente da quantiddae de livros que se vende.
Como colaborador do Blogue e alguma experiência nesta matéria das publicações, publicarei oportunamente artigo sobre o tema.
PS: Tudo é mais fácil quando se arranja um "SPONSOR" Público ou privado


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