Terça-feira, 22 de Junho de 2010
Tenho meu coração feito em pedaços
Ethel Feldman

Quando Heloísa chegou já passava da meia-noite. Sempre discreta e silenciosa. Chegava tarde todos os dias.

Não me podia queixar de falta de sorte. Heloísa nunca incomodava. Às vezes sinto saudades do barulho dos miúdos. Do bater de portas zangadas. De Augusto a gritar:

- Vou-me embora! Esta casa é um caos. Já viste a prenda que o Vodka largou na cozinha? Não tens dinheiro para pagar a luz e arranjas um cão à mistura!

Augusto preocupava-se tanto comigo! Tinha mesmo de levar as mãos ao céu e agradecer a minha sorte. Amor assim não se encontra na esquina. Nem está à venda no boticário.

Um dia partiram todos. Os miúdos cresceram e avisaram que iam viajar. Não me lembro para onde. Sei que até hoje ainda não voltaram. A verdade é que já nem lembro bem quando foi.

- Os caminhos são para aqueles que caminham…

Era assim que Augusto falava quando se deitava.

- Um dia meu caminho será fora desta estrada, e tu ficas por cá com esse passo pequeno que nunca se atreve a nada…

Acho que a casa tornou-se pequena. Um dia Augusto estava no outro lado da estrada e gritou-me:


- Maria mesmo que eu queira os meus pés já não chegam até casa. Meu corpo manda seguir outro caminho. Tenta ser feliz, Maria. Calça outros sapatos. Deixei-te os meus velhos no armário. Experimenta. Pode ser que entendas…

Sorri com o disparate. Augusto tinha um sentido de humor invejável. Já passavam das sete da noite, quase hora do jantar.

- Augusto olha que o jantar fica frio. Despacha-te…

Mas o corpo de Augusto seguiu outro caminho. Quando acreditei que era verdade, fui ao quarto e calcei os velhos sapatos do meu marido. Tão grandes! Ainda tentei caminhar pelo quarto, mas tropecei em todos os passos. Aqueles sapatos nunca me levariam a lugar nenhum.

Assim fui ficando, tomando conta dos filhos – todos homens. Um dia também eles partiram. Não sei se a vontade de ir é uma herança genética. Não sei se é de Augusto, ou se é uma coisa mesmo que só os homens gostam de fazer. Nenhum deles calçou os sapatos de Augusto e no entanto partiram.

Meus pais sempre me ensinaram a não reclamar da vida. Se era assim que acontecia é porque tinha de ser. A dor é só para aquelas pessoas que conheceram outra coisa que eu nem sei o que é. Assim fiquei eu e o Vodka.

A casa ficou grande. Dava mais trabalho limpar todos os quartos. E a cozinha então! Perdi a vontade de comer, afinal lavar a louça era mesmo penoso. Antes era tão fácil. Havia almoço e jantar. E quando os miúdos eram pequenos havia o lanche da tarde. Todos os dias um prato novo. Augusto não admitia comer a mesma coisa do dia anterior. Que tempos aqueles! Nunca me cansei. No entanto agora, tudo me custa. Se não fosse o Vodka acho que nem sapatos para ir a rua eu calçaria.

Heloísa é neta de Cesária, uma velha amiga de Augusto. Cesária telefonou-me a perguntar se não queria alugar um dos quartos, pois a neta vinha trabalhar para a capital. Fiquei tão feliz! Afinal depois de tantos anos sozinha, voltava a ter companhia.

Heloísa é tão jovem! Bem-educada, sempre atenciosa mas tão calada quanto o silêncio que reina nesta casa desde que todos se foram.

Cheguei à conclusão que assim como os homens partem as mulheres permanecem caladas.

Levanto-me e vejo Heloísa, como sempre calada. Nas suas mãos pedaços vermelhos de uma coisa que não reconheço.

- O que tens miúda? O que é isso na tua mão?

Lentamente levantou o olhar. Sem cor. Sem brilho. Heloísa respondeu-me:

- Trago meu coração aos pedaços.

- Como assim?

- Sentei-me sem vontade. Amei sem desejo… Tudo o que fiz, foi porque obrigaram-me. Hoje no espelho um pedaço do meu coração estalou! Fiquei assustada, mas sabe que foi um alívio? Menos uma dor. Depois outro pedaço e mais outro e outro e outro! Fiquei sem ar, Maria. Em menos de meia hora todo o meu coração aos pedaços nas palmas da minhas mãos. Não faço a menor ideia de como recompô-lo. Nem sei quem pode ajudar-me. Os médicos nem acreditam que isto é o meu coração em pedacinhos mil.

Enquanto acariciava cada pedacinho, Heloísa murmurava:

- Este foi quando…

A dor tão igual à minha ou à dele, o amor que partiu, a mãe que morreu, a fome, a criança sem escola , o holocausto, os filhos na guerra, a bomba assassina, a morte, os homens perdidos, um artista sem arte, a miséria, e esta e aquela, o Haiti em morte lenta na TV…

- Ai, que esta dor que também é minha Heloísa!

Meu coração estala feito o dela, meu corpo sente o que nunca sentiu. Esta dor que me adormeceu. Os sapatos que nunca ousei vestir…

Nas mãos de Heloísa reconheci quando Augusto partiu, e quando Francisco avisou-me que seguiria os irmãos.

De repente Heloísa sorri.

- Olha Maria, aqui foi quando eu fui feliz…

A mesma felicidade que a minha, ou que à tua, ou igualzinha à dele, um filho que nasceu, um beijo na boca, um abraço sem fim, um povo sem fome, um animal que acabou de ser salvo, uma vida assistida, o sopro da arte, a ilha dos amores…

- Em cada pedaço um abraço Heloísa. É assim que gentilmente refazes esse coração que não é só teu.

Amanhã vou comprar uns sapatos novos.


publicado por Carlos Loures às 23:55
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5 comentários:
De Luis Moreira a 23 de Junho de 2010 às 02:11
Todos fomos felizes algures e com alguem e a memória não perdoa...


De paladar da loucura a 23 de Junho de 2010 às 08:23
As vezes a memória atraiçoa :)


De Luis Moreira a 23 de Junho de 2010 às 12:35
A memória é o drama...


De clara castilho a 23 de Junho de 2010 às 22:56
Ethel:
Se no outro dia o texto "Miradouro" me incentivou, hoje sinto uma grande angústia. Porque esta é a vida de tantas mulheres, porque esta é uma forma tão nossa (será?) de reagir, fechadas para dentro, dentro de quatro muros, dentro do corpo isolado.
Temos que inventar uma forma de levar sapatos novos a casa destas mulheres...
Será que há incentivos financeiros para uma iniciativa destas? (ah! Ah! ah!) Ideias haverá muitas, não.
Continue.

Clara Castilho


De paladar da loucura a 11 de Julho de 2010 às 20:26
Clara:
Desculpe-me, só hoje li o seu comentário. É bom perceber que há sempre um novo sapato para calçar! Mas para perceber isso é preciso viver.
Muito obrigada pelo seu carinho.
Ethel Feldman


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