Sexta-feira, 22 de Outubro de 2010
Política económica - crescer
Rolf Damher

„Desenvolver uma nova ideia de crescimento seria a tarefa
mais importante da nossa política económica. Mas isto não se
discute. Em lugar disso as classes médias burguesas são acometidas
por um mal-estar perceptível. Será que se deve ficar satisfeito
quando o Ministro da Economia se compraz com a retoma após a crise
financeira? Hurra, podemos continuar a fazer, irreflectidamente, os
mesmos disparates que antes?...

Não devemos, com cada vez mais dívidas, fomentar o egoismo.
Devemos, sim, implementar um juízo de vistas largas na política e não
continuar a intermediar com um juízo de vistas curtas entre necessidades
sistémicas aparentes”

Richard David Precht, escritor e filósofo alemão em „Soziale Kriege“ – “Guerras Sociais”
DER SPIEGEL 39/2010

Olhando para a „casa sem pão” da Alemanha descobri um excelente ensaio do jovem escritor e filósofo Richard David Precht que corrobora as minhas teses e os meus vaticínios. Apenas traduzi o núcleo duro – acima referido – da afirmação central de Precht que, aliás, diz respeito a todas as “casas sem pão” da Europa e não só.

Ora vejamos: a grande crise de sentido, económica e financeira continua sem resolver; o velho e caduco paradigma cartesiano ainda não mudou. Por isso, o que hoje se passa na Alemanha, a aparente e alegadamente definitiva retoma, deve ser visto como uma “Flor de Pânico”, ou seja, sol de pouca dura. Já escrevi sobre este fenómeno. É disso que Precht se refere ao escrever: “Será que se deve ficar satisfeito quando o Ministro da Economia se compraz com a retoma após a crise financeira? Hurra, podemos continuar a fazer, irreflectidamente, os mesmos disparates que antes?” Claro que não deviamos continuar a fazer os mesmos disparates que antes. Deviamos, sim, „desenvolver uma nova ideia de crescimento”. Mas enquanto no sistema em declínio ainda aparecerem – junto do mais ricos – “balõezinhos de oxigénio”, os seus líderes continuarão linearmente e com cada vez mais esforço as coisas de ontem. De facto, quando no Titanic já condenado à morte, no bojo do navio já começam a afogar-se as pessoas da classe turística, na 1ª classe – ainda elegante e seca – as farras de sempre continuavam com cada vez mais frenesim. É o que se vive actualmente a todos os níveis.

Ainda vou falar de outro fenómeno que tendo a ver com os tempos de grande crise é observado – anos antes – por todos nós: alguns poucos ricos ficam cada vez mais ricos quanto o número de pobres cresce exponencialmente, encontrando-se a classe média em vias de destruição. A causa é – naturalmente – o comportamento linear. Este faz, através das crescentes resistências sociais que causa, com que uma sociedade primariamente sócio-cêntrica vire quase imperceptivelmente egocêntrica. Quando, assim, uma sociedade fica virada às avessas, todo o crescimento passa para pseudo-crescimento. Com outras palavras: todo o produto assim obtido, deixa de ser produto do fomento prestado entre uns e outros e passa a ser produto de saque tirado da substância – todos contra todos. E quando não há mais substância, aparecem os diversos PEC’s que tratam de tudo menos crescimento.

Resumindo: todos os membros da UE que ainda dispõem de “balõezinhos de oxigénio”, em vez de aproveitá-los para “desenvolverem novas ideias de crescimento”, como sugere Precht, aproveitam-nos para continuar a fazer os jogos de soma nula de antes. Meu Deus, que saudade. E o resto dos que já não têm os “balõezinhos” ao seu alcance, sonha com eles. E se porventura os apanhassem fariam exactamente o mesmo que os grandes exemplos fazem (que já há muito deixaram de ser exemplos): investir a energia ganha através de empréstimos cada vez mais mais caros, no egoísmo – o que acaba por atiçar e recrudescer a infernal luta de todos contra todos.

Para Portugal, já sem “balõezinhos” e no meio de estéreis discussões que apontam todas para a direcção errada, só existe uma saída válida: „Desenvolver uma nova ideia de crescimento” ... uma que nada tenha a ver com os jogos de soma nula e engenharias financeiras de costume. Não só os analistas das Rating Agencies notariam então a tentativa séria de uma mudança de estratégia posta em prática por HOMENS DE ESTADO com agrado. Nessas condições, a fatal atracção do inútil pelo desagradável acabaria por ceder o lugar à natural atracção do útil pelo agradável. Basta apenas recuperar o são juízo humano e sair do círculo vicioso.



publicado por Luis Moreira às 23:55
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